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Des Contos: Cicatriz.

| Somir | | 18 comentários em Des Contos: Cicatriz.

Na sala de estar de uma modesta casa suburbana brasileira, Genise prende a respiração enquanto espera a reação do pai. O suspiro que precede a lenta elevação do rosto do homem começa a derrubar quaisquer dúvidas sobre o resultado de seu pedido:

PAI: Cinco? Cinco mil? Cinco mil por uma porcaria de uma cicatriz?
GENISE: Eu pesquisei, pai… é o melhor da região!
PAI: Podia ser o melhor do sistema! Eu não vou pagar cinco mil para que um zanóide qualquer corte a sua cara!
GENISE: Mas paaaaaai…
PAI: Não tem mais ou menos pai. Quando você tiver o seu dinheiro, você paga por essa tolice! É cada uma… Pode, Neli? Pode?
GENISE: Isso é tão injusto! Só eu não tenho na minha turma! Mãããe…
NELI: É muito dinheiro, meu amor.
GENISE: UUUURRGH! Eu odeio vocês!

A adolescente sai correndo, atravessa a porta da frente, batendo-a violentamente ao deixar a casa.

PAI: O que me mais me deixa com raiva é que nós gastamos quase todas nossas economias para dar uma matriz perfeita para ela! E como ela agradece? Querendo enfiar uma cicatriz enorme no meio da cara!
NELI: É só uma fase, ela quer fazer isso porque as amigas estão fazendo também, Darlan.
DARLAN: Estragar rostos perfeitos? Se as amigas dela pularem de uma ponte, ela pula também?
NELI: Nossa, de onde você tirou essa? Pontes?
DARLAN: Hmpf… Tá parecendo a Genise… “Isso é tão século passaaaado…” *fazendo voz afetada*
NELI: Hehehe… Deixa os ânimos esfriarem. Depois eu converso com ela. Faz o seguinte, vai tomar um banho, relaxar. Hoje a noite é nossa e a gente vai aproveitar, tá bom?
DARLAN: Tá… Precisa ser mesmo naquele restaurante?
NELI: Darlan! Eu já fiz as reservas.
DARLAN: Mas é no Japão!
NELI: Meia hora de viagem não vai te matar!

Algumas horas mais tarde, Darlan e Neli estão se preparando para sair. Darlan se dirige até a sala, conferindo o trânsito no corredor Pacífico 3 em seu visor. Pelo canto da vista, percebe a porta de casa se abrir. É Genise, que aparentemente surpresa, joga o cabelo por cima do rosto, abaixa a cabeça e acelera o passo.

DARLAN: Genise!
GENISE: Oi pai! Estoumeiocansadavoudormirbomjantar…
DARLAN: Parada!
GENISE: *estática*
DARLAN: Tira o cabelo da frente da cara.
GENISE: Por quê?
DARLAN: TIRA O CABELO DA FRENTE DA CARA!
NELI: O que está acontecendo?
GENISE: Eu estou indo para o meu quarto…
DARLAN: Não dê um passo! Mostra o rosto!
NELI: O que você… ai! Minha filha!
DARLAN: Vem cá!

Darlan agarra Genise pelo braço, e com um movimento abruto, retira o cabelo da frente de uma enorme e irregular cicatriz que faz caminho ao redor do olho direito da garota. Percebe-se um claro inchaço nas imediações da marca.

DARLAN: Sua ingrata! Maluca! Inconsequente! Zenóide! Você merece uma surra!
GENISE: Não! Roxos já saíram de moda faz tempo… Melhor me matar do que me fazer passar essa vergonha!
DARLAN: Neli… Me segura! Me segura senão eu não sei o que eu vou fazer!
NELI: Calma, calma todo mundo! Agora já está feito… Uma cicatriz não é nada demais com o nosso plano estético, lembra? E você, mocinha… Você não podia ter feito isso sem consultar a gente!
GENISE: Mas mãããe… eu pedi!
NELI: E nós não deixamos!
GENISE: Vocês disseram que não iam pagar, mas não que eu não podia fazer…
DARLAN: Daonde você tirou o dinheiro?
GENISE: Eu não paguei. Uma amiga me ajudou…
DARLAN: QUEM FOI? Foi a Zauri? Foi aquela sem um olho?
GENISE: Não vou dizer…
NELI: Não vai dizer porque você vai para uma clínica de reconstrução AGORA!
GENISE: Não! Eu não quero tirar a cicatriz! Todo mundo disse que eu estou muito mais bonita!
DARLAN: Já para o carro!
GENISE: Mas paaaai…
DARLAN: JÁ PARA O CARRO!

Darlan vai praticamente arrastando Genise para o veículo estacionado na plataforma superior. Neli resolve ficar para contatar as mães das amigas de Genise para identificar a suposta cúmplice.

Meia hora depois, num engarrafamento do corredor Euro 9:

DARLAN: Eu poderia estar jantando com sua mãe agora, mas estou aqui mofando no carro só para desfazer a besteira que você fez.
GENISE:
DARLAN: Ah, agora não está falando mais comigo?
GENISE: *bufando*
DARLAN: É até bom porque você escuta… Você sabe quantas meninas dariam um dedo da mão para se parecer com você quando eu era jovem?
GENISE: Eu não pedi para ser assim.
DARLAN: Eu vendi um apartamento para pagar pela sua matriz. E você ficou perfeita! Eu achei que isso te ajudaria justamente nessa fase da vida, mas aparentemente adolescente consegue estragar qualquer coisa.
GENISE:

Já é tarde da noite quando Darlan consegue estacionar seu veículo na plataforma central do Centro de Reconstrução Estética de Genebra. O suntuoso prédio ocupa toda a área superior de uma montanha, com suas torres de fibra nano-tungstênica atravessando as nuvens.

Dentro do prédio, Darlan recebe a confirmação de serviço em seu visor secundário, e segue até uma sala de espera apinhada de outras adolescentes acompanhadas por pais e mães, que assim como ele, pareciam já ter visto dias melhores em suas vidas.

NO VISOR: Tempo de espera: 02:35:01

DARLAN: Neli? Sim, tudo bem… mas vai demorar. Sim… Não. Sim, prometo. Beijos!
GENISE: Eu também quero falar com a mãe…
DARLAN: Não. E não ouse se conectar! Você está de castigo até segunda ordem!
GENISE: *bufando*

Uma mulher sentada ao lado, do alto dos seus quarenta anos de idade, fixa a vista no rosto de Genise.

MULHER: O que a sua fez?
DARLAN: Hã? Ah, ela fez uma cicatriz horrível no rosto.
MULHER: A minha cortou fora a orelha… *apontando para a filha, sentada ao lado com um curativo ensanguentado circundando o rosto*
DARLAN: Não dá para entender… Tantas meninas bonitas. Todas querendo se estragar… Fico me perguntando onde foi que eu errei com a minha.
MULHER: Somos dois… Eu comprei uma matriz premium para a Nezza. Simetria perfeita, olhos grandes e azulados, lábios carnudos, nariz fino e arrebitado… E mais algumas coisas que é melhor não mencionar. Passei um mês escolhendo, sabe?
DARLAN: Eu deixei tudo para a minha esposa escolher. Achei meio estranho o pai decidir tamanho de peito e coisas do tipo…
MULHER: E como elas nos pagam?
DARLAN: Estragando tudo!
MULHER: Estava lendo que alguns pais estão se juntando para processar as produtoras de matrizes. Parece que esse tipo de comportamento é falha na manipulação do DNA.
DARLAN: Só pode ser! TODAS essas meninas aqui são lindas. Não tem como explicar essa insegurança toda…

Antes mesmo da mulher começar a responder, uma gritaria distrai todos os presentes na sala de espera. Na direção do som, Darlan e todos os presentes enxergam uma pessoa em disparada por um corredor adjacente, gritando. Mas o que definitivamente mais chama a atenção é que essa pessoa está pegando fogo.

Após alguns passos dentro da sala, a pessoa em chamas, agora reconhecível como uma garota não muito mais velha que seus treze ou quatorze anos, desaba no centro do recinto. Pulando de sua cadeira, Darlan tira a camisa e começa bater por cima do corpo nu e chamuscado da pobre menina. Dois enfermeiros alcançam a ação e se utilizam de extintores de incêndio para dar cabo do fogo.

O débil som dos gemidos da garota é coberto por uma série de sons característico de capturas visuais dos visores das outras adolescentes ao redor. Darlan mal tem tempo de começar a reclamar:

DARLAN: Não tirem fotos dela! NÃO! Nã…

As garotas presentes não estavam tirando fotos da jovem queimada. Estavam fotografando Darlan. Ainda surpreso, ele é interpelado por uma menina não muito mais velha que sua filha, pedindo para ele se virar na direção dela.

DARLAN: O que está acontecendo? Vocês não estão tirando fotos dela?
GAROTA: Pfft. Queimaduras são tão 2398… Mas isso no seu peito. Ai meu Buda! *abanando-se*

Darlan se lembra que está sem camisa. E seu terceiro mamilo, segredo guardado debaixo de camadas de tecido por décadas, agora é foco dos visores de dezenas de adolescentes curiosas. Com um rápido movimento, cobre a área com a mão.

GAROTAS EM CORO: Nãããããoooo! Mostra! Mostra! Mostra!
GENISE: Vocês são nojentas… eca!
GAROTA AO LADO: Não quer trocar de pai não? Queria que ele me colocasse na cama toda noite… ai…
GENISE: Eca! Eca! Eca! *tapando os ouvidos e fechando os olhos*

Mais tarde, de volta em casa:

DARLAN: Voltamos.
NELI: Já estava preocupada. E você, deixa eu ver como ficou…
GENISE: Igual a todas as outras meninas da escola, de novo. FELIZ?
NELI: Sim! Eu fiquei sabendo da garota queimada! Ela ficou bem?
DARLAN: Sim, mas me disseram que trocar toda a pele custou mais de trinta mil…
NELI: Tadinhos dos pais. Essas meninas são tão egoístas. E… você não estava com essa camisa quando saiu de casa…
DARLAN: Pois é…
GENISE: Eu também podia ter um a mais, e você estragou tudo! *bufando e saindo em disparada para o seu quarto*
NELI: O que foi isso?
DARLAN: Adolescentes… *disfarçando* Depois disso tudo eu acho que vou pagar pela cicatriz da Genise. Uma bem feita, sabe?
NELI: Mas você não estava economizando para fazer aquela cirurgia? *apontando para o peito*
DARLAN: Aprendi uma lição hoje. A gente tem que se aceitar, sabe? Já faz parte de mim.
NELI: Bom, por mim o importante é você ficar feliz!
DARLAN: Até porque diferentemente das crianças de matriz, se eu tiro não tem volta… Vai que eu me arrependo no dia seguinte?
NELI: Verdade.
DARLAN: Ou daqui a uns cinco anos…
NELI: Hã?
DARLAN: Nada. *disfarçando* Vamos pedir algo para comer?

FIM *bufando*

Para dizer sua matriz deve ter sido manipulada num hospital carioca, para dizer que eu só queria escrever um texto onde os carros voavam, ou mesmo para analisar as complexas questões éticas da manipulação genética (sei…): somir@desfavor.com

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