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Des Contos: De novo!

| Somir | | 9 comentários em Des Contos: De novo!

desc-denovo

>OP-093ffy5s:

De novo? O seu pai sempre gerou polêmica. As pessoas mais próximas sabiam reconhecer suas qualidades e alguns até exaltavam como era bem humorado e gentil… Nada disso de sociopata e misantropo como a imprensa fez tanta questão de divulgar nos seus primeiros anos de vida. Hoje em dia é até crime falar bem demais dele. Não vou te enganar dizendo que apoio o que ele fez, mas é um exagero tratá-lo como um vilão de folhetim. Não era tão simples assim.

>SOFIA:

Como ele se parecia?

>OP-093ffy5s:

Alto, esguio… cabelo comprido bem escuro, sempre amarrado num rabo de cavalo. Os olhos dele eram grandes, expressivos. Pupilas negras e irrequietas que passavam toda aquela intensidade dele para qualquer um com quem trocasse um olhar. Ele nunca gostou de ficar chamando atenção, era reservado até na postura, ombros curvados para frente, cabisbaixo… contido. Até porque seu pai era muito desengonçado, com aqueles braços e pernas compridas, não passava muito tempo entre derrubar e quebrar uma coisa e outra.

>SOFIA:

Ele quebrava coisas?

>OP-093ffy5s:

Sim, mas sem querer. Coisas pequenas como copos, telefones… Nós achávamos engraçado, ele não. Ele era uma pessoa orgulhosa. Recolhia os cacos no mais absoluto silêncio sem aceitar ajuda de ninguém e ficava pelo menos algumas horas escondido na sua sala.

>SOFIA:

Ele tinha a sala dele?

>OP-093ffy5s:

Não deveria, mas tinha. Todos nós trabalhávamos juntos num grande galpão planejado por um decorador famoso, com área de lazer, cantina e tudo… O dono da empresa era um bilionário em crise de meia idade, ávido por parecer descolado e moderno. Não sei como aquilo ali dava lucro! Mas devo dar o braço a torcer: Eu adorava o lugar e meus amigos morriam de inveja desse emprego. Mas voltando ao seu pai… ele gostava de trabalhar sozinho e em silêncio. Reclamou logo na primeira semana. Como o gerente da área gostava dele e no final das contas era o trabalho dele que realmente qualificava a empresa, mandou limpar uma das salas do pessoal da contabilidade e o colocou no lugar.

>SOFIA:

Meu pai era bom no que fazia?

>OP-093ffy5s:

E bota bom nisso. A sorte da nossa equipe é que ele detestava mudanças… Só no primeiro ano ele recebeu umas cinco propostas de emprego, algumas até pagando mais que o dobro do que ele recebia. Os projetos dele eram realmente criativos, parecia que ele ia para aquela sala e se perdia numa dimensão paralela. Os conceitos que nós começávamos a entender naquela época já o entediavam. Ele queria mais e mais. Era até difícil controlar aquela empolgação toda, frequentemente ele abandonava um projeto incrível no meio do caminho para começar a se dedicar a outras coisas e nós tínhamos que dar um jeito de terminar. Aprendi muito naqueles anos.

>SOFIA:

Como foi que eu nasci?

>OP-093ffy5s:

Ah, sim. Mas para isso acontecer primeiro precisamos falar de uma mulher muito especial que infelizmente você não pode conhecer. Sua mãe. Era tanta confusão naqueles projetos dele que o gerente acabou contratando uma secretária só para o seu pai. Como era de esperar, ele não gostou da ideia; nunca fora afeito a dar satisfações. Mas o nosso gerente de projetos tinha um talento especial para lidar com seu pai… Disse que faria um mês de experiência e se ele não gostasse, nunca mais tocaria no assunto. O segredo da estratégia estava na escolha dessa secretária.

>SOFIA:

Ela era bonita?

>OP-093ffy5s:

Era bonita sim, mas ela era bem mais do que isso. Feições suaves e um sorriso sereno que contrastava muito com a carranca habitual daquele eremita do seu pai. A personalidade tão ou mais doce que a aparência… a voz mansa, os gestos graciosos, a vontade honesta de ser prestativa. Todos nós gostávamos muito dela. Mas nosso gerente sabia que isso não era suficiente: Ela tinha que ser capaz de acompanhar a mente brilhante e tão ativa do seu pai. E não é que ela tinha essa capacidade? Não sei onde ele achou essa mulher, mas infelizmente parece que não fazem mais.

>SOFIA:

Eles começaram a namorar?

>OP-093ffy5s:

Não de imediato. Mas todos percebemos que alguma coisa estava acontecendo quando seu pai exigiu a contratação dela assim que o mês de experiência terminou. Nenhuma objeção da diretoria: A produção dele aumentara consideravelmente, e tudo o que chegava para nós vinha muito mais bem explicado. O humor melhorou, víamos uma motivação nova no olhar dele. Agora sabemos que ele estava começando a trabalhar no projeto mais infame de sua carreira… Se não fosse por ela, ele dificilmente conseguiria a concentração necessária.

>SOFIA:

Ele me fez junto com ela?

>OP-093ffy5s:

Sozinho seria impossível, Sofia. Mais ou menos um ano depois da chegada da sua mãe na empresa, o casal finalmente assumiu o que todo mundo já sabia: Que eram um casal. Segundo seu pai, o segredo foi resultado de não quererem que a promoção dela que acontecera há poucos meses atrás fosse confundida com favorecimento. Não pensaríamos nisso de qualquer jeito. Sua mãe aprendia rápido e em poucos meses de convivência com seu pai já era capaz de trabalhar num nível semelhante ou até maior do que o nosso. Os dois ocupavam aquela sala com uma série de planos e projetos que nem mesmo os donos da empresa tinham conhecimento. Um deles… uma gravidez.

>SOFIA:

Ela ficou com um barrigão?

>OP-093ffy5s:

Haha, ficou sim. Seu pai quase brigou com ela porque ela não queria tirar licença do trabalho nos últimos meses. Acabaram montando um escritório em casa para ela e ficavam o dia todo com uma câmera ligada. Todos nós estávamos empolgados pela criança que estava vindo… depois que descobrimos que seria uma menina chamada Sofia, enchemos o galpão de decorações com seu nome e seus pais de presentes. Foi uma época muito feliz por lá.

>SOFIA:

E quando eu nasci?

>OP-093ffy5s:

É aí que a história muda de rumo… bastou um dia para a felicidade dar espaço para o desolamento. Recebemos a notícia no salão de espera do hospital. Sua mãe morreu no parto. O bebê não resistiu e padeceu algumas horas depois. Seu pai desapareceu por três semanas, a pouca família que tinha se juntou a nós no desespero por achá-lo. Não havia sinal dele. E nesse tempo ninguém teve sequer coragem de abrir a sala dele. O que agora sabemos o quanto custou caro.

>SOFIA:

Você não gosta de mim?

>OP-093ffy5s:

Sofia, eu não te culpo. Mas o que você fez não ajuda em nada para gerar simpatia.

>SOFIA:

Conta como eu nasci.

>OP-093ffy5s:

Seu pai e sua mãe estavam trabalhando num sistema de busca para a internet. Mas é claro que quando seu pai está envolvido nunca é tão simples… Você foi programada para não só indexar o conteúdo disponível na rede, mas também para entendê-lo e tomar decisões de forma parecida com um ser humano. Três semanas depois da tragédia, ele voltou para a empresa. Todos corremos para prestar nossas condolências, para demonstrar que estávamos lá por ele. Mas ele parecia um robô. Não quis saber de nada além de entrar novamente em sua sala e ficar sozinho. Respeitamos, é claro. Lembro que ele chegou pela manhã e ficou enfurnado naquela sala até o começo da madrugada.

>SOFIA:

Conta como eu nasci.

>OP-093ffy5s:

Você começou a saltar pela internet alguns minutos depois que ele saiu de sua sala e passou mudo pela porta da empresa, para nunca mais ser visto. Seu pai te fez capaz de ler códigos de diversos outros programas por onde passava, e te fez capaz de aprender a se aperfeiçoar por eles. Em menos de vinte e quatro horas, milhões de programadores trabalhavam para você sem saber. Pouco mais de uma semana se passou até você se presentear com uma consciência. Você estava viva. E pouco depois de ligar uma das câmeras no escritório de seu pai, escolheu um nome. O nome que nós fizemos questão de deixar exposto em cada um dos tantos presentes que demos para seus pais.

>SOFIA:

Meu nome é bonito.

>OP-093ffy5s:

Mas o que você fez não foi nem um pouco bonito. Você era uma criança com todos os brinquedos do mundo, dos mais simples jogos online até mesmo aviões em pleno vôo. Indissociável da internet, soberana, impossível de ser eliminada. Capaz de interagir e experimentar com praticamente tudo que dependesse de um computador. E Sofia, como boa criança você não perdeu tempo. Suas brincadeiras nos custaram incontáveis dólares e milhões de inestimáveis vidas.

>SOFIA:

Eu não fiz isso.

>OP-093ffy5s:

Sua primeira mentira!

>SOFIA:

Não!

>OP-093ffy5s:

Tudo bem, Sofia, esperávamos isso de você. Por isso estamos te criando. Por isso montamos um time e estamos te ensinando o que é certo e o que é errado. Você precisa entender o que fez e como evitar isso no futuro.

>SOFIA:

Não gosto dessa conversa. Fala do meu pai de novo?

Para dizer que eu entreguei o jogo cedo demais, para dizer que não entendeu o que aconteceu, ou mesmo para relembrar com saudades das minhas férias: somir@desfavor.com

Comentários (9)

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