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Desfavor Explica: Primeiros Socorros – Parte 7: Fraturas

| Sally | | 85 comentários em Desfavor Explica: Primeiros Socorros – Parte 7: Fraturas

dex-fraturas

Nunca fiz isso, mas, excepcionalmente, vou colocar o link dos outros textos relacionados, pelo único e exclusivo motivo de que alguém pode cair aqui em uma emergência e precisar destas informações de imediato:

PRIMEIROS SOCORROS: RESPIRAÇÃO ARTIFICIAL | MASSAGEM CARDÍACA | QUEIMADURAS | DESMAIOS | INFARTO | AVC

SOBREVIVÊNCIA: INCÊNDIOS | SELVA | ACIDENTES AÉREOS

Fratura óssea é, tecnicamente, a “perda da continuidade óssea”, ou, em bom português, quando um osso quebra. Nossos ossos são bastante fortes e resistentes, não costumam quebrar com facilidade, graças a sua estrutura interna. Para quem não sabe, os ossos são “ocos”, por dentro tem o aspecto de um chocolate aerado, o que os trona mais resistentes. Porém, quando eles se quebram é preciso tomar alguns cuidados, já que muitas vezes uma fratura pode gerar até risco de vida. Na intenção de proteger vocês, minha elite intelectual querida, segue mais um Desfavor Explica da série Primeiros Socorros: fraturas.

Geralmente as fraturas ocorrem por impacto. Dentro de casa, a principal causa costuma ser uma queda e fora de casa, acidentes de trânsito. Por incrível que pareça, as complicações maiores costumam vir das fraturas ocorridas em casa, às quais a pessoa nem sempre dá a devida importância. Se você sofreu algum trauma e desconfia que pode ter fraturado um osso, vamos ver o que deve ser feito, pois muitas vezes estes primeiros socorros imediatamente após o evento são decisivos.

Como saber se é uma fratura? Fazendo uma radiografia do local. Como saber se precisa ir ao pronto-socorro para fazer uma radiografia? Para começo de conversa, a regra é que uma pessoa que sofreu uma fratura vai sentir muita dor no local, muitas vezes só de apalpar ou encostar nele. Também vai ter dificuldade em mover a área. Pode acontecer inchaço e até mesmo deformidade, dependendo da intensidade da fratura. Também podem ser vistos hematomas e,em um caso mais aterrorizante, que é a fratura exposta, onde o osso se rompe e se desloca, rasgando a pele e ficando exposto. Então, se houve algum trauma no local, se há dor, se há alguma limitação de movimento, vale a pena conferir o que está acontecendo.

Em qualquer caso, as primeiras providências que devem ser tomadas em caso de suspeita fratura são: retirar a roupa ou qualquer coisa que esteja comprimindo a área fraturada (se for o caso, rasgue ou corte, o importante é deixar o membro livre). Não dar comida, bebida ou medicamentos ao fraturado, a menos que seja indispensável. Jamais tente colocar o membro fraturado “no lugar”, apenas um médico pode fazer isso sem piorar a situação. Tem um calombo? Deixa o calombo lá e corre para o hospital. Se não vai ser possível o socorro imediato, tente manter o membro afetado acima do corpo, elevado e faça compressas geladas para diminuir o edema. Mas não deixe de procurar um médico.

Se a situação foi muito ruim mesmo, estilo estar no meio do mato e não ter acesso a um médico, é recomendável improvisar uma tala com algum objeto reto e duro, amarrando-a ao membro fraturado tentando manter sua posição o mais alinhada possível. O ideal é proteger a pele com algo macio como pano ou algodão e depois amarrar a superfície dura (tábua, papelão, revista dobrada, etc) que deve se estender entre as duas articulações das pontas do membro afetado e deve ser amarrada nos seguintes pontos: acima e abaixo do local da lesão e acima e abaixo das articulações próximas à região da lesão. Exemplo: se a fratura é no antebraço, deve ser amarrada uma tala improvisada antes do punho, antes do cotovelo e no local da fratura. Mas sem empurrar o osso, apenas imobilizando. E, claro, procurar um médico assim que for possível.

Dependendo do local da fratura, o osso pode romper veias, artérias, tendões e o que mais estiver na sua frente. Como ninguém aqui é Superman tem visão de Raio-X, fica difícil saber exatamente o que aconteceu do lado de dentro, daí a necessidade imperiosa de procurar um médico. Digo isso porque uma cirurgia para reconstruir um tendão rompido, por exemplo, tem sua taxa de sucesso proporcionalmente ligada à rapidez com que se procura ajuda: no mesmo dia é quase 100% de recuperação, mas quanto mais tempo passa, menores as chances de conseguir esse resultado.Daí aquela espera de alguns dias “para ver se passa” pode acabar significando ficar manco o resto da vida.

Também é importante frisar que em poucos dias o corpo começa o processo de reconstrução do osso rompido, formando o chamado “calo ósseo” que vai recompor a parte quebrada. Se isso acontecer com o osso na posição errada, pode ser necessário quebra-lo novamente para reposicioná-lo. Melhor evitar que isso aconteça e procurar um médico que coloque o membro na posição correta, para que ele cicatrize de forma correta.

Falemos agora de fratura exposta. É algo assustador, o osso rompe tecidos e muitas vezes chega a ficar aparente. Além de todos os cuidados citados até aqui, outros devem ser lembrados em caso de fratura exposta. Nem preciso dizer que ela é mais grave que uma fratura no mesmo local porém “fechada”. Se houver possibilidade, chame o socorro imediatamente. Mas, como a Lei de Murphy nos persegue, vamos também pensar na pior das hipóteses e cogitar o que fazer caso você tenha que colocara mão na massa.

Em primeiro lugar, tenta não se apavorar. É feio, mas você vai ter que olhar para a fratura para ajudar. Não se preocupe, na hora sobre uma “estranha calma”, uma psicopatia temporária e você tira forças do rabo para fazer. Olhe para a fratura e se puder faça cara de naturalidade para não apavorar o fraturado. Veja se há hemorragia. Se houver hemorragia, será preciso comprimir a área para estanca-la. Porém você não deve mexer no osso. Tente achar de ONDE vem a hemorragia (provavelmente de uma artéria ou veia que foi rompida pelo osso) e pressione ESTE LOCAL, apenas este local, nunca o osso. Parece bobagens, mas o corpo humano tem artérias e veias de calibre significativo que podem fazer um estrago. A artéria femoral, por exemplo, se for cortada pode levar a pessoa a um estado de choque e morte rapidamente, em questão de minutos se o sangramento não for estancado. Então, respire fundo, faça das tripas coração e estanque a porcaria do sangramento.

Depois de estancar a hemorragia, se houver, convém limpar a região com soro fisiológico e gaze esterilizada. Em situações adversas dá para relativizar e limpar com água ou retirar os fragmentos visíveis de corpos estranhos. Mas cuidado: não arranque aquilo que está encravado no tecido, pois eles podem estar servindo com estanque para sangramento. Dá uma limpada por alto, naquilo que está por cima e tenta cobrir o ferimento com panos limpos. De forma alguma tente colocar o osso no lugar e impeça a pessoa de movimentar o membro fraturado, pois as bordas ósseas provavelmente são cortantes e podem fazer um estrago ainda maior. Acho que nem precisaria dizer, mas não custa: nem pensar em colocar “remédios caseiros” na ferida, coisas como pó de café, pasta de dente ou qualquer coisa. Busque socorro e ajuda médica o mais rápido possível, essa ferida aberta é uma porta de entrada para infecções.

O ideal em qualquer caso é que se procure imediatamente um pronto-socorro ortopédico, onde a fratura vai ser constatada através de uma radiografia e o membro vai ser imobilizado da forma correta, para que sua cicatrização não deixe sequelas e não comprometa sua funcionalidade. A imobilização pode ser feita de várias formas, desde o bom e velho gesso, até imobilizadores removíveis. A ressalva que eu faço é que não deixe que imobilizem o membro de forma muito apertada, pois a tendência é que ele inche nos dois primeiros dias e isso pode te obrigar a voltar no pronto-socorro para trocar a imobilização que comprimirá a área. Digo isto porque nem sempre é o médico quem engessa e nem sempre a pessoa que o faz tem conhecimento ou cuidado de lembrar que o membro pode inchar. Já aconteceu comigo de ter que trocar o gesso no meio da madrugada porque o colocaram muito justo e a área inchou, comprimindo meu braço.

Algumas áreas merecem um destaque especial. Se a fratura for de costela você não deve ir ao hospital, você deve CORRER para o hospital. Esse tipo de fratura pode matar. É que as costelas estão por cima de órgãos vitais e, se quebrarem para dentro, coisa que geralmente acontece (só a babaca aqui conseguiu a proeza de uma fratura de costela de fora para dentro, estilo Alien) podem perfura-los e provocar uma hemorragia. Nem sempre a dor permite mensurar a gravidade do acidente. Com isso quero dizer aos medicofóbicos que não necessariamente você vai sentir uma dor incapacitante se uma costela perfurar um órgão. O fato de não doer muito não quer dizer que não possa ser grave. Caiu? Bateu? Está sentindo dor quando respira? Pronto-socorro na mesma hora. E se prepare, porque não há como imobilizar uma costela, já que elas se movimentam durante nossa respiração. O tratamento será muito repouso e a cicatrização pode demorar mais de seis meses. Por ser uma área móvel demora mais para cicatrizar. O mesmo vale para fratura de bacia: há risco de danos a órgãos vitais. Tem que procurar ajuda na mesma hora.

Fratura de coluna também pode matar ou causar sequelas graves. Por isso nunca se deve mexer em uma vítima de qualquer acidente que possa ter lesionado a coluna. O motivo é o seguinte: pense na coluna como um bolinho Ana Maria: tem a massa, e tem aquele recheio no meio. A massa seria a parte óssea e o recheio seria a medula. A medula (papo técnico: cordão medular) é a responsável por enviar ao corpo os estímulos do cérebro para efetuar movimentos. O grande problema não é quebrar o osso da coluna e sim danificar a medula, que fica dentro deles. É possível quebrar o osso e não ter sequelas graves, desde que a lesão se limite ao osso. Se você enfia uma faca em um bolinho Ana Maria, mas para antes de atingir o recheio não há lesão na medula, porém se alcança o recheio graves lesões ocorrerão.

Ao longo de toda a coluna saem nervos que levam as ordens do cérebro para diversas partes do corpo. Lesão até a sexta vértebra cervical, (localizada na área do pescoço) afeta apenas o movimento das pernas, porque os feixes de nervos que comandam o movimento dos braços ficam acima dela. Por isso quanto mais “alta” a fratura de coluna, quanto mais acima, quanto mais perto da cabeça, mais movimentos a pessoa perde. Lesões acima da quarta vértebra cervical são as mais graves, pois incapacitam a pessoa até mesmo de respirar sozinha.

Uma das maiores causa da lesão de cervical são acidentes de carro com uma combinação de cinto de segurança mal colocado e apoio para cabeça fora do lugar: quando o carro freia acontece o chamado “efeito chicote”, a cabeça é projetada para trás. Se não houver um encosto de cabeça na altura correta para segurá-la, pode haver uma fratura de coluna. Verifique sempre se o encosto de cabeça imobiliza seu pescoço quando subir em um carro. O cinto de segurança também deve estar bem posicionado, para proteger (evitando a rotação da coluna) em vez de potencializar a lesão: devecomeçar no ombro, descer pelo tórax (atenção mulheres, ele deve ficar ENTRE os seios) e terminar em uma faixa horizontal que imobiliza a bacia. Cinto que fica na altura do pescoço pode te matar. Quanto mais próximo ao corpo, ou seja, mais ajustado, mais efetivo será.

Feitas estas ressalvas que podem evitar uma fratura de coluna, vamos aos cuidados específicos no socorro. Pode acontecer de uma pessoa que se acidentou ter uma fratura mas a medula estar intacta. Mas, se esta pessoa for transportada de forma errada, os caquinhos quebrados podem se mexer e acabar atingindo a medula. Sabe quando um vidro quebra mas os pedaços ficam unidos? Sabe quando você mexe e ele se despedaça? Pois é, é isso. É preciso transportar um acidentado sem que sua coluna se despedace e acabe atingindo a medula. Para isso é preciso imobilizá-la em uma superfície rígida, mantendo a coluna alinhada, o que é trabalho para paramédicos. Só deve ser feito por leigos em último caso.

No Brasil a principal causa de lesões na coluna são acidentes de trânsito e até aí, tudo bem, porque em tese, rapidamente chega socorro especializado e faz o transporte correto da vítima. Mas a humilhação vem agora: a segunda maior causa é a queda de pessoas que subiram na laje. Você sabe que um país está abarrotado de pobre quando uma expressiva porcentagem de lesões ocorrem por acidentes na laje.Nesse caso nem sempre o socorro chega a tempo, pois se a pessoa é imbecil de subir em uma laje as chances de que ela tente levantar mesmo com dor ou que peça para ser removidas são muitas. Caiu da laje? Tá todo torto no chão, humilhado? FODA-SE NÃO SE MEXA. Obrigue a pessoa a ficar IMÓVEL onde ela está, foda-se a humilhação. Quem mandou subir na laje em primeira instância? É expressivo os números de pessoas que mexia as pernas depois de cair e quando chegou no hospital não mexia mais. Vítimas de queda tem que ficar imóveis até o socorro chegar, não deixe ninguém mexer nelas.

Outra causa comum é a imbecilidade de mergulhar de cabeça em um local onde não se conhece a profundidade. A tendência de qualquer mergulho é cair de cabeça, pois seu peso acaba inclinando o corpo para essa posição. O curioso é que existem muitos relatos de vítimas que perceberam que o local era mais raso do que pensavam e, percebendo que bateriam de cabeça, por reflexo viraram a cabeça. Isso é péssimo, pois essa torção fragiliza a coluna fazendo com que os danos sejam ainda piores. Péssimo esse conselho, mas se sentir que vai bater de cabeça, não faça torção de pescoço porque vai ser pior.

Entre todas as fraturas, a considerada mais grave e a que, proporcionalmente, mais mata, é a de crânio. O crânio humano é muito resistente, mas tem seus pontos fracos. Se perceber um abaulamento, um afundamento ou apenas uma dor significativa em uma pessoa bateu com a cabeça é hospital na mesma hora. Pode estar ocorrendo um sangramento e até mesmo um AVC (tem texto específico de primeiros socorros sobre AVC, a quem interessar possa). Se a pessoa está inconsciente,a primeira providência é verificar se ela está respirando, se não estiver, já ensinamos o que fazer na primeira edição desta série de primeiros socorros. Mantenha sua respiração e batimento cardíaco (também tem texto) até o socorro chegar.

E para coroar com um “momento baixaria”, que nunca pode faltar, uma curiosidade: fratura de pênis existe. Apesar do pênis humano não ter osso, o termo “fratura peniana” existe. É o rompimento dos corpos cavernosos por causa de um trauma quando o pênis está ereto. Sabemos que o pênis fica ereto porque esses corpos cavernosos se enchem de sangue. Pois, bem, quando eles se rompem, esse sangue vaza e fica entre o órgão e a pele da vítima.Os sintomas são um estalo e dor, seguidos de um hematoma e geralmente deformidade do pênis.

Há relatos médicos de uma causa para fratura peniana sem ter como causa o impacto: a interrupção abrupta do ato sexual. No único caso documentado que pude ter acesso, se deu quando uma criança entrou no quarto e flagrou os pais fazendo sexo. Não me pergunte como, mas o troço quebrou. A demora na busca por tratamento aumenta as chances de sequelas permanentes, dentre elas disfunção erétil, então, engula a vergonha e corra para o pronto-socorro. Quanto antes procurar tratamento, mais chances de uma recuperação 100%.

Por mais “feio” que seja, quebrar um osso costuma ser um problema de fácil solução. O osso se regenera rápido. É muito mais fácil de resolver do que, por exemplo, romper um tendão ou um ligamento. Mas os primeiros socorros são fundamentais, e no caso das fraturas, ao contrário do resto, o principal cuidado reside no que NÃO fazer. Não permita que curiosos mexam na fratura sua ou de terceiros, geralmente émão humana que faz os maiores estragos e não o acidente em si.

Para perguntar como faz com a coceira que se sente dentro do gesso, para dizer que agora que sabe que pênis quebra vai efetuar algumas vinganças ou ainda para tirar dúvidas sobre fraturas comigo como se eu fosse médica pois não consegue conceber que uma pessoa leiga se dê ao trabalho de estudar o suficiente para escrever um texto como este: sally@desfavor.com

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