Somir Surtado: Compartilhando.
| Somir | Somir Surtado | 15 comentários em Somir Surtado: Compartilhando.

Você está sozinho, na sua frente uma escrivaninha. Amassa uma folha de papel numa bola, mira na lixeira mais próxima… arremessa! Sabe-se lá como a bolinha de papel rebate na parede, pega num vaso, cai rolando por sobre a borda da lixeira e entra! Precisa ser um robô para pelo menos não expressar um sorriso depois disso. Ah, como você queria que alguém tivesse presenciado isso…
Não importa a banalidade do acontecido, é natural para nós querer compartilhar com outras pessoas coisas que nos divertem e distraem. Seja como cúmplice ou como testemunha, o olhar do outro parece validar as nossas experiências. Curiosidades de um cérebro programado para a sociabilidade.
Com a internet e as redes sociais, essa característica muito humana ganhou uma vazão sem precedentes. Compartilhar virou quase que sinônimo de uso da rede mundial de computadores. Qualquer site com intenção de se popularizar oferece várias opções para que seu conteúdo acabe exposto nas telas dos amigos e conhecidos de seus visitantes. A produção de material exclusivo para web atual é extremamente dependente desse clique de compartilhamento.
Viver de popularidade é opção real para as pessoas desta era da comunicação; e como já mencionamos diversas vezes por aqui, com ou sem méritos pelo o que produzem. Conteúdo subordinado pela quantidade de pessoas que pode alcançar é motivo direto pela enxurrada de porcarias que entopem os “canos virtuais”. Surge mais coisa boa hoje em dia do que antigamente (pelo menos dos anos nos quais vivi), mas é mais questão de popularização dos meios de produção de sites, imagens, vídeos e jogos do que exatamente bom gosto.
Tem mais o que escolher, simples questão de universo de possibilidades maior. “Coisa boa” neste contexto depende da escolha da pessoa sobre o que cai nessa categoria. E como gosto é gosto, difícil criar padrões claros sobre o que uma pessoa vai achar digno de compartilhar ou não. Tem muita gente sem filtro algum, que só passa para a frente tudo o que recebe, tem gente focada num tipo específico de conteúdo. Tem até os consumidores silenciosos, que por desinteresse ou retraimento não partilham da febre.
Pois bem… compartilhar é preciso. Melhor ainda: necessário. A humanidade tem muito a ganhar com a informação correndo livre por aí. Nossos grandes momentos quase sempre passaram por pessoas inteligentes e antenadas mantendo contato próximos umas com as outras. Considere aí desde o “iluminismo iraquiano” até mesmo a constante correspondência entre físicos no começo do século passado… Costuma sair coisa boa quando a informação é compartilhada.
Aliás… costumava. Vocês realmente acharam que eu escreveria um texto para chover no molhado? Ok, escreveria. Mas não é o caso… Há algo de podre na cultura do compartilhamento. E é a bolinha de papel do começo deste texto. Talvez seja mais um dos males do crescimento da humanidade, mas a quantidade avassaladora de conteúdo sendo produzido e distribuído pela internet está silenciando a informação sob uma cacofonia de banalidades e “macaquices”, tudo em nome desse (nem tão) admirável mercado novo da popularidade.
Querer que alguém tivesse visto o destino surpreendente daquela bolinha de papel não significa exatamente que alguém tenha que ver. Sei que já entrei em assuntos próximos em diversas outras colunas, mas a “junk info” está soterrando alguns de nossos principais avanços na área da comunicação nas últimas décadas sob seu estrondoso peso. Não é à toa que tem mais gente se juntando ao coro de que as redes sociais estão às margens de uma mudança dramática. Sites como o Facebook são reflexo da era atual da internet: parecem presos numa “adolescência obesa”, crescendo para os lados ao invés de atingir a maturidade.
Culpa da turma das hashtags? Claro! Mas não só deles. Mesmo as pessoas mais limitadas que enchem as redes sociais não seriam capazes de implodir sua residência virtual dessa forma. Há algo de “orgânico” nisso. Ricos e pobres de intelecto dançando sob a mesma música: Saturação – autor desconhecido. Se ainda há muita capacidade de movimentar todo esse conteúdo de um lado para o outro do globo, o impacto dele esvai-se na capacidade da peça atrás do monitor lidar com ele.
Há de se considerar um limite onde os estímulos recebidos pelas informações na internet tornam-se ruído de fundo. Sabe-se disso na publicidade há tempos, por isso todas as campanhas tem data de expiração e controle na exposição. Pessoas são capazes de receber uma quantidade incrível de imagens, sons e ideias no seu dia-a-dia, mas a memória humana vem com proteção de fábrica para os excessos. Exagerou na exposição, virou música de elevador!
O que nos leva de volta ao assunto central: ótimo que estejamos compartilhando tanto, mas péssimo o tanto que se compartilha. Da bolinha de papel às notícias mais impactantes, tudo acaba unido num grande turbilhão de informações fadado à irrelevância por pura incapacidade humana de absorver cada uma delas com sua devida importância. E não estou falando disso de cima de um pedestal: acontece comigo também. Às vezes dá preguiça de prestar atenção em algo que eu sei que é importante. Sinais de obesidade mental…
Compartilhar está virando uma praga. Já defendi um ponto de vista (mal recebido) sobre o excesso de fotos e vídeos que as pessoas capturam no dia a dia e como isso não só esvazia o momento como ainda entulha o mundo com conteúdo inútil (Spoiler: nem você vai ver de novo). Não bastasse o excesso de conteúdo, ainda estamos lidando com excesso de exposição. Não só no sentido de evasão de publicidade, mas na imposição desse material para cima dos outros.
Mesmo que você goste das bobagens que vê por aí. Eu mesmo adoro ver um vídeo inútil de alguém fazendo algo curioso, mas é “fast food” para a cabeça. Ensinam as pessoas a evitar comer porcaria demais, mas incentiva-se essas mesmas pessoas a consumir informação porcaria. Como se não fosse algo perigoso na dose errada! Quem absorve essa quantidade absurda de “junk info” passa por antenado. Uma dessas pessoas vai acabar pegando a vaga que você queria… graças aos departamentos de RH deslumbrados com essa “coisa nova” de internet. Grandes merdas comer a cada três horas se for no McDonald’s! (Temo que só a Sally e alguns vão entender essa analogia completamente)
Compartilhar e consumir informação deve ser incentivado, mas com ressalvas sobre a qualidade do que se consome. Não seja um obeso mental!
As redes sociais são a pá de cal no que restava de inteligência da plebe ignara.
É por essas e outras que a cada dia que passa eu fico menos tempo no facebook ainda uso pq meus amigos preciso me comunicar mas nem me interesso em saber o que estão compartilhando hoje em dia eu seleciono muito mais o que eu leio ou assisto na internet
Analogias por analogias, o prato feito de hoje estava ótimo.
É Somir, concordo contigo! Realmente é “fasfood” para a cabeça, e penso que deve haver certo equilíbrio entre isso e conteúdo de fato importante. O que me leva a pensar em alguma estratégia[?] de controle sobre as postagens e compartilhamentos. Mas daí o texto é bom para se debater: há caminhos outros para se controlar a qualidade das informações compartilhadas ao invés da quantidade? Isso imerso nesse gigante mundinho de coisas irrelevantes e selfies postadas por pessoas que não tem pensamento crítico pra discriminar o que é realmente importante de fato?
Eu estou treinando esse arremesso. Quando ficar craque posto no meu vlog lá no YouTube.
Na verdade é tudo muito claro. A contra-informação sempre foi uma tática usada em guerras; o ruído nada mais é do que uma tática para camuflar a informação essencial/vital no meio de um oceano de ruído. Quando você não consegue obter um controle total de um meio de comunicação, que também opera informações vitais e codificadas, qual a melhor maneira de se manter a informação escondida do que soterrar ela de informações inúteis e ‘false flags’ ?
Desde que comecei a notar, no final dos anos 90, que a internet tinha um potencial enorme de liberação de informações críticas, com BBS’s objetivos, sobre coisas que realmente eram válidas, vi uma entrada pesada de informações inúteis, comerciais e etc, de maneira lenta e gradual… de repente, não havia mais a busca de informações site a site – começou a era das ‘engines de busca’, e toda a pesquisa ficou restrita à ‘excessiva exposição’ como classificação de interesse, ou até de pertinência.
Desde então o principal que a ‘infernet’ oferece são respostas em, no máximo, parágrafos para questões completamente inúteis ou pontuais.
Quando tem que se pesquisar algo a fundo, a minha dica é começar por ‘fora’ ao invés de search engine. Sai muito mais informação coerente/relevante do que o Google oferece.
Texto rico em detalhes. Gostei bastante! Principalmente a analogia com a música de elevador. Parabéns, Somir!
Cara, as horas que a pessoa perde comendo fast food no face ou twitter, teriam um resultado tão produtivo se fosse utilizado para ler um bom livro ou mesmo os excelentes post desfavor…É mesmo uma pena!
Depois reclamam que não sabem falar inglês, que não são promovidos, que não sabem isso ou aquilo. Tá tudo disponível online, é só sentar e estudar em vez de jogar tempo da sua vida fora.
Canso de dizer exatamente isso pra um monte de gente, dentro e fora do mundo virtual, mas, infelizmente, na maior parte do tempo tenho a sensação de estar apenas falando com as paredes.
Eu aprendi a falar inglês assistindo o Red Tube!
Só pode ser piada no maximo VC deve ter aprendido uns palavões e sacanagens
Quem acompanha o site percebe que certas idéias são rediscutidas de tempos em tempos.. é essa é uma daquelas que, na minha opinião, fazem parte de um dos princípios do site e da própria forma como ele é conduzido: coerência entre discurso e atitude, de forma rara nos dias de hj. Parabéns.
Muito bom! Nunca tinha pensado na obesidade mental!
Também adorei o texto. Já vinha matutando comigo mesmo sobre esse assunto, mas não fazendo as analogias que o Somir tão bem fez. Adorei o termo “obesidade mental”…