Branco no preto.

Segunda-feira passada aconteceu mais um protesto violento nos EUA. Mais uma vez, um caso de um jovem negro morto pela polícia. Não sei se vocês andam acompanhando, mas isso vem acontecendo com preocupante frequência por lá. E o preocupante eu uso em relação aos protestos e a motivação deles. Conhecendo mais ou menos como aos americanos militarizaram sua polícia nos últimos tempos, tem algo além da questão racial ali, mas mesmo assim, tem a questão racial…

E a questão racial me parece cada vez mais confusa, no mundo como um todo. Evidente que os americanos tem em sua história agravantes que tornam ainda mais acentuada a divisão entre brancos e negros, mas o que acontece por lá não deixa de ser um balão de ensaio sobre o que pode acontecer quando o jogo de poder entre as raças ameaçar apontar equilíbrio. Tem algo nessa relação histórica que ainda não foi digerido, e não estou falando exatamente sobre a busca de direitos iguais.

Nos Estados Unidos, temos um exemplo bem único da integração dos negros numa sociedade. Apesar de ser uma sociedade mais racista que a brasileira (não pulem da cadeira ainda, eu já explico isso melhor), é um dos poucos lugares do mundo onde a grandiosidade é uma opção viável (mesmo que dificílima) para quem é negro. A maioria das grandes figuras de pele negra da história recente são nascidas ou ‘desenvolvidas’ nos EUA. E isso tem suas repercussões: é raro ver uma população negra de um país tão orgulhosa da própria existência como a americana.

O que não impede que o racismo seja um problema, mas é como se eles lá tivessem um problema a menos: o da negação à aspiração da grandiosidade. E não me refiro apenas aos típicos redutos onde lhes é “permitido” se destacar ao redor do mundo. Ao contrário do menino negro brasileiro que basicamente só tem jogador de futebol para se espelhar (a mídia basicamente só mostra essas personalidades), o americano pode até pensar em ser astrofísico e ter alguém de renome para se enxergar no futuro. Tem mais espaço para cultivar orgulho próprio.

Mas não que isso resolva muita coisa. Vi uma entrevista do comediante Chris Rock falando algo que eu sempre imaginei correto, mas nunca vi muito suporte: o problema não é a inclusão de gênios negros na sociedade, é a dos medianos e ruins. Os medianos são a maioria, e sempre perdem quando disputam com medianos de pele branca. Precisa ser a porra do Michael Jordan para ter sua chance? Igualdade é quando aquele cara mais ou menos que faz seu trabalho nas coxas possa ser negro com a mesma facilidade que possa ser branco.

Estou indo e voltando no tema porque vou fazer uma afirmação que ficaria estranha sem suporte: a tensão racial nos EUA já está um ou dois graus de evolução acima de outros países no mundo. Mesmo acima de países onde a sociedade é mais igualitária, como os nórdicos, por exemplo. A questão é que lá nos EUA os negros ganharam seus direitos ‘na raça’ e não engolem tão facilmente a repressão como em outras partes do mundo. Pra mim isso está mais perto de integração do que o caminho do politicamente correto. Não é sobre se desculpar eternamente por um crime cometido pelos seus antepassados, é sobre colocar dentro da sua sociedade TODAS as vozes e lidar com elas. É sobre aceitar estupidez e agressividade do mesmo jeito que aceitaria dos brancos… é sobre os medianos! O mundo não é feito só de “por favor” e “obrigado” para quem nasce com a pele branca, porque a integração do negro tem que ter um padrão tão elevado de cordialidade (e dependência do poder público) se nenhuma outra raça teve que fazer esse caminho tortuoso?

Os EUA são mais racistas que o Brasil, por exemplo. Em terras tupiniquins, a maior parte do povo tem que usar a imaginação para descrever a própria cor de pele. Aqui misturou mais. O que não quer dizer que é melhor ser negro no Brasil… como o país é uma bandalheira, tudo fica pior. O país menos racista é mais tóxico para todas as raças e a enorme desigualdade amplifica o padrão de tons mais escuros entre as camadas mais pobres da população. O problema social é tão grande que passa por cima de tudo. Enquanto não tivermos uma classe média grande (de verdade), o racismo vira agravante para a péssima qualidade de vida da população, mas o povo não se organiza de acordo com sua cor de pele. Nos EUA tem dois lados. Um sofrendo mais, mas são dois lados. No Brasil mal tem a voz oposta! E não, mimimi de ativista de rede social que vê crime em tudo ainda não vale como voz oposta. É mimimi. Quando começar a quebrar cidades eu começo a considerar…

E se não ficou claro, estou considerando mais racista o país que se permite uma luta, ao invés de um atropelamento. Esse negócio de racismo ser negar uma pessoa um direito por sua cor de pele é uma definição do crime no Brasil, mas não da palavra per se. Racismo, segundo a Wikipedia: Racismo consiste no preconceito e na discriminação com base em percepções sociais baseadas em diferenças biológicas entre os povos. Não estou falando do ato, e sim da mentalidade.

“Somir, para de pisar em ovos!” – Tem um certo grupo de pessoas que gosta de rondar o desfavor, e esse grupo de pessoas pula em qualquer oportunidade para cuspir pseudo-ciência nos comentários. Não quero dar essa chance. E, porra, eu sou branco: não tenho a prática de viver o racismo para falar do assunto, só a teoria, então que pelo menos ela soe bem fundamentada. O certo é saber olhar de fora, mas a gente nunca está suficientemente de fora…

Meu ponto aqui é que quando chegamos no estágio de realmente ter uma confrontação, tem algo muito mal resolvido: a culpa. Ao mesmo tempo que vemos uma população majoritariamente negra sair quebrando as ruas da cidade por acreditar que um cidadão foi morto por causa de sua cor de pele, temos as pessoas (majoritariamente brancas) que não querem uma turba enfurecida nas ruas. E embora ambos os grupos tenham sua razão, é muito complicado sequer tocar no assunto. Os brancos se sentem culpados ou injustiçados por receberem essa culpa, os negros culpam quem realmente os oprimiu. Muito embora essas pessoas não tenham agido diretamente para criar essa situação histórica, ainda sofrem com as repercussões.

E essa culpa toda não tem para onde ir. O politicamente correto faz pouco pela causa… até porque nunca passou de perfumaria. O cerne da questão ainda existe: a exploração de um grupo de pessoas gerou uma diferenciação considerável de renda, posses e oportunidades entre eles e seus opressores. E essa cagada monstruosa deve demorar séculos para começar a feder menos. Agir de acordo com a culpa de um lado leva a absurdos, do outro também. Ou querem criar uma sociedade irreal onde um “desculpa aí” resolve o problema, ou querem queimar a que já temos se nenhuma promessa de resolução de problemas.

É a culpa mal resolvida. É a noção inocente que ela pode ser tratada e curada. A culpa vai nos acompanhar para sempre, se formos inteligentes o suficiente para aprender com o passado. Deixa ela onde está, conviva com ela e se torne mais forte com a lição. A única solução é fazer menos besteiras agora.

Como normalmente é em todas as situações.

Para dizer que acha que não entendeu, para dizer que acha que entendeu, ou mesmo para dizer que eu deveria ser criticado por algo só por falar do assunto: somir@desfavor.com

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Comments (13)

  • Os americanos são racistas e ponto.
    Agora é referente ao negro… mas poderia ser latino, chines, pobre, feio, nerd, tímido, gordo… Eles são racistas.

    Dentro de sua comunidade “branca” são sexistas, preconceituosos, frios, extremamente competitivos, não fazem nada sem ganhar algo em troca, dissimulados e falsos bajuladores de quem lhes pode trazer algum benefício a curto, médio e longo prazo.

    Tenho algum amigo americano… mas em geral, não faço questão.

    Tem um programa de comédia muito bom no youtube… um standup com a Wanda Sykes que ela toca no tema do racismo com muito bom humor, mas ela vai bem no ponto sobre o racismo pra quem sabe captar a mensagem.

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  • O drama foi pq mataram um preto ou pq mataram um bandido e ele era preto daí os racistas se doeram? Pq bandido bom é bandido mortos, seja de que cor for! Nos EUA a polícia trabalha, mata e funciona. Aqui na Bananolandia os bandidos pintam e bordam e ainda tentam desarmar a população. Viva Bolsonaro pra presidente. Fuck PT e PSDB!

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    • Bandido bom é bandido morto? Sério, por qual razão essas pessoas continuam caindo aqui e despejando esse aterro sanitário ideológico na gente? Juro, não sei mais como peneirar…

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      • Continua treinando, Sally. Uma hora você consegue postar algo que atraia mais BMs do que o Lado Afro-Descendente da Gravidez.

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    • “Viva Bolsonaro”

      É esse tipo de coisa que me deixa ansioso por uma abdução.

      ABDUZ EU!

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      • Cá estava eu torcendo pra que esse “Viva Bolsonaro” tivesse sido irônico. Pelo jeito não foi…

        Eu não me preocupo mais com o fim do mundo. Eu TORÇO por ele

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  • O interessante é que em casos de mortes de suspeitos negros os policiais não estão sequer sendo indiciados. É como se pessoas desta cor valessem menos. Quando as forças policiais vão para as ruas com armas e equipamentos de guerra (são sobras de campanhas americanas no oriente) a violência explode de maneira absurda. A indignação não pode ser calada com balas ou porradas.

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  • “A culpa vai nos acompanhar para sempre, se formos inteligentes o suficiente para aprender com o passado. Deixa ela onde está, conviva com ela e se torne mais forte com a lição. A única solução é fazer menos besteiras agora.”

    Concordo! A culpa paralisa. Censura. Reprime a criatividade para encontrarmos soluções para todo esse problema que parece que nunca vai ter fim. Tira do foco o fato de que a polícia é despreparada para solucionar os problemas sem violência em qualquer lugar do mundo. O foco dos brancos passa a ser “como não parecer racista”. E o de muitos negros passa pelo vitimismo extremo, sim. Mas quase nunca é proposital.

    O racismo existe e, por medo de sofrê-lo, muitos o veem em todos os lugares e em todas as situações. Acredito que seja uma resposta à ansiedade de, a qualquer momento, poderem se deparar com o monstro real e não terem como reagir e acabarem feridos ou mortos. O medo exige respostas rápidas e abala a capacidade de separar o que é racismo e o que não é.

    Não há soluções simples. Mas ignorar o monstro não impede que ele cresça.

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  • “Tem um certo grupo de pessoas que gosta de rondar o desfavor, e esse grupo de pessoas pula em qualquer oportunidade para cuspir pseudo-ciência nos comentários.”

    Nossa! Fiquei com medo agora! Neonazistas?

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    • Provavelmente, por uma resposta “ácida / seca” do Somir – praticamente com uma imagem – a um “esquisito” / suspeito em outro post…

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