A história e o sexo.
| Sally | Não Fode! | 24 comentários em A história e o sexo.
Não tem como falar de sexo sem contextualizar o momento histórico. A liberdade sexual e reprodutiva esteve, durante toda a história, atrelada à conveniência social daquele momento, seja de forma imposta, seja de forma instintiva. Até que ponto o sexo influencia a história ou a história influencia o sexo? Não sei responder. Mas isso não nos impede de fazer um passeio pelo sexo ao longo dos séculos, para que vocês mesmos tirem suas conclusões.
Na pré-história, por tudo que se sabe, basicamente não havia regras, salvo a lei do mais forte. Quando um homem queria fazer sexo com uma fêmea, ele fazia na base da força. E ainda estava no lucro se fosse com uma de sua espécie, pois a zoofilia era relativamente comum. Diversas pinturas mostram homens fazendo sexo com animais de forma recorrente e natural. Pinturas rupestres encontradas na região da Itália mostram homens copulando com asnos. Outras encontradas na região da Sibéria mostram homens copulando com alces.
Durante muito tempo não havia qualquer indício de monogamia no ser humano. Mas, aos primeiros sinais de agricultura, que permitiu que nossos ancestrais fixem moradia em um único lugar e aprimorem a ideia de propriedade privada, a noção de monogamia surgiu.
Com esse conceito de posse, te ter aquilo que você ocupa, começou a ser interessante fortalecer os laços de família, quanto mais aliados pelo sangue, mais gente para proteger e cuidar das terras, comida e bens adquiridos. E ninguém estava disposto a ralar para alimentar a prole alheia, então, era bom que a mulher fosse monogâmica, para assegurar que os filhos fossem daquele macho provedor.
Como mulheres costumavam ter muitos filhos (em alguns períodos históricos se estimou que mulheres passavam 50% da sua vida grávidas), isso as “enfraqueceu” socialmente, já que não estavam aptas para guerra, caça ou qualquer atividade que demandasse força e preparo físico.
Nos estágios avançados da gestação, eram praticamente dependentes dos homens em função de sua limitação de saúde e motora. Ser grávida hoje com vitaminas e suplementos é fácil, antigamente uma gestação consumia muito do organismo de uma mulher. Assim, nessa cultura patriarcal, ela começaram a ficar em desvantagem.
As relações humanas evoluíram e veio o conceito propriedade: ter algo mesmo que você não esteja de posse daquele algo, mesmo que não o esteja usando. Com isso, veio o acúmulo de riquezas, e aí já não era tão bacana para os homens terem filhos de forma desenfreada. Não por consideração à mulher ou por monogamia, e sim porque seriam mais bocas para sustentar, para dividir seus pertences. Nesse contexto (e em momentos históricos diferentes temporalmente falando) começam a surgir as primeiras camisinhas.
Pois é, a camisinha não é uma invenção moderna. Em quase todas as culturas se encontram indícios deste método contraceptivo em algum momento, ainda que rudimentar. Uma pintura de 12 mil anos encontrada na caverna de Combarelles, na França, mostra um homem fazendo sexo com o pênis recoberto por algo não identificado. Escritos antigos também fazem menção a faraós usando intestino de animais para cobrir o pênis ou papiros embebidos em óleos. Chineses usavam papel de seda untado de substâncias lubrificantes.
Prevenir filhos não é um desejo moderno. Existem documentos datados de 3.000 AC que já dão instruções sobre como não procriar. Ok, os ensinamentos não eram dos melhores, mas já havia o desejo de evitar crianças. Coisas como untar os membros do homem e da mulher com mel (que reduziriam a mobilidade dos espermatozoides) ou despejar leite azedo (que alteraria o PH da vagina tornando-a um ambiente inóspito). Na época, é claro, não se tinha consciência da relação causa-efeito, era na base da tentativa e erro. Os métodos que melhor funcionavam prosperavam.
Para quem não queria bocas para sustentar, existiam as prostitutas. Em tempos onde ainda não havia exame de DNA, filho de prostituta não tinha pai, podia ser de qualquer um. Na Roma e Grécia antiga a prostituição era tão comum que era tratada como um trabalho regulamentado como outro qualquer, desempenhado por homens e mulheres, mas sempre voltado para clientes homens.
Foram encontradas moedas de bronze que de um lado tinham um numero e do outro uma cena de sexo explícito. Acredita-se que eram usadas como um “vale”, ao entregar a moeda para o bordel ou para a prostituta se contratava implicitamente o serviço que estava estampado na moeda. Sim, senhores, a coisa era tão recorrente que tinha uma moeda própria.
Por motivos óbvios, foram eles os primeiros a catalogar e nomear algumas doenças sexualmente transmissíveis, como por exemplo a Gonorreia, termo de autoria de Galeano, no século II. Cada vez mais se faz a distinção da “mulher para fazer sexo” e da “mulher para casar”, inclusive com reforços na aparência, para não haver enganos. Em Roma as prostitutas deveriam obedecer a uma série de regras de vestimentas, por exemplo, não poderiam vestir a cor violeta e seus cabelos deveriam ser, obrigatoriamente, amarelos ou vermelhos.
Se era importante perpetrar sua prole e não era interessante alimentar e compartilhar bens com filho dos outros, não espanta que lei tenha evoluído no sentido de coibir adulério. A mera acusação de infidelidade sujeitava uma mulher à morte em algumas culturas, pois ela era punida de qualquer jeito: só se presumia que se fosse inocente se escapasse de testes como ser amarrada dentro de um saco cheio de pedras e jogada em um rio. No Egito, era mais democrático: sobrava para todo mundo, homem ou mulher. Por exemplo, em caso de adultério, os homens eram castrados e as mulheres perdiam o nariz.
Na Idade Média, a ideia de monogamia ganha ainda mais força, pois o grande status de riqueza eram as terras. Quem tinha terras, tinha poder. E para cuidar das terras era necessário filhos, muitos filhos. Para obrigar uma união familiar, começaram as regrinhas religiosas cheias de ameaças e proibições.
Passou a ser imposto que para fazer sexo tinha que casar (e casar pressupunha uma junção patrimonial muito conveniente entre as duas famílias). Em uma época onde mulher virou moeda de troca, natural que se foque no embelezamento da mulher a qualquer preço, ainda que seja deformar as costelas com um espartilho apertado. Mulher era prêmio. Mulher era caderneta de poupança.
Em uma época de muitas mortes por guerras e doenças, era necessário povoar, colocar filhos para cuidar das suas terras, por isso o mainstream da época convergia sempre para a natalidade: não deveriam ser usados métodos anticoncepcionais, homossexualidade virou crime passível de pena de morte, aborto passou a ser violentamente repudiado. Tudo isso foi revestido de camadas morais e religiosas, mas o objetivo era um só: riqueza.
Era preciso ter muitos filhos para conseguir cuidar, manter e produzir na maior parte de terras possíveis. A coisa era tão acentuada que a esposa que era incapaz de dar um filho ao marido no casamento era considerada inútil, deficiente e muitas vezes até descartada. E, por incrível que pareça, sobrou um resquício disso até hoje na cabeça de muita mulher, que repete um discurso difundido na época: uma mulher só é completa, só sabe o que é amor, só está totalmente realizada quando tem um filho.
Nessa época paranoia com adultério aumenta, afinal, já existia um conceito rudimentar de herança. Mas nem sempre adultério era punido com mutilação. Existia também a pena por humilhação. Em algumas cidades quando a mulher traía o marido eles eram obrigados a desfilar em cima de um asno, o marido usando um chapéu com chifres e a esposa com o corpo coberto de penas.
Óbvio que o adultério masculino era tolerado, afinal, se um homem fazia um filho fora do casamento, isso não gerava nenhum ônus financeiro. O problema maior era a mulher ter um filho de outro homem, pois esse filho teria que ser bancado pelo corno. Dinheiro, sempre o dinheiro.
O tempo passou, guerras vieram. Morreu homem pra cacete, deixando mulheres e filhos sem amparo. As mulheres começaram a arregaçar as mangas e foram obrigadas a se inserir no mercado de trabalho. Não que elas não quisessem antes, os homens é que não deixavam. Se viram obrigados a aceitar quando faltou mão de obra masculina.
Mulher ganhando dinheiro gerou mais mulher ganhando dinheiro, pois agora as mães podiam dar uma educação melhor às suas filhas e também tinham o seu dinheiro para decidir como gastar. Resultado: mais independência feminina. Resultado sexual: agora que mulheres tem poder de consumo, serão criados produtos atendendo ao interesse delas. Surgiu um grande mercado para produtos de beleza, eletrodomésticos que facilitem a vida em casa mas principalmente para anticoncepcionais, que possibilitaram uma nova forma de sexo sem fins reprodutivos. Queima sutiã, toma pílula, faz sexo com quem quer.
Mas, sabemos que a história acontece em movimentos pendulares: quando o pêndulo vai muito para um lado, algo surge e o joga para o outro. Doenças Sexualmente Transmissíveis (algumas letais) e o crescimento ainda maior da mulher no mercado de trabalho fizeram com que moradores dos grandes centros urbanos comecem a pensar melhor nas suas escolhas.
A mulher já era proclamada sexualmente livre (apesar de ainda não sê-lo até hoje), não precisava mais se provar para ninguém, então, volta a ideia de constituir família, pois agora seria bom para ambos os lados: fica mais fácil criar filhos entre dois, fica mais fácil pagar as contas entre dois.
Percebam que dependendo da localidade do planeta onde se vá, existem hoje seres humanos que se determinam sexualmente como na pré-história, como na idade média e como em qualquer outro período que, para nós, já passou. Geralmente movidos pelo contexto que os cercam, acreditam experimentar uma escolha na sexualidade. Mas… será? Talvez seja apenas o contexto que determine a sexualidade vigente.
Existe inclusive uma teoria muito interessante sobre o que o nosso atual contexto está fazendo e vai fazer com a nossa vida sexual. Essa uma teoria que diz que não temos essa liberdade sexual que pensamos, que na verdade sentimos aquilo que convém à espécie, ainda que acreditemos ser um sentimento totalmente desvinculado do lado social. Não é, é uma jogada evolutiva buscando a sobrevivência da espécie, camuflada de escolha pessoal. E as previsões são bizarras.
Tudo começou com um experimento realizado com ratos. Ele foi a base para uma teoria novíssima sobre o atual e futuro estado da sexualidade humana. Alguns ratos foram colocados em um ambiente controlado, em condições ideais: fartura de comida e ausência de predadores. Como era de se esperar, reproduziram bastante, até que o ambiente começou a ficar lotado.
Quanto mais lotado ficava, mais agressivos e descompensados os ratos ficavam, desenvolvendo uma espécie de psicopatia progressiva, agindo de modo a aniquilar uns aos outros sem motivo aparente. Spoiler: o experimento acaba com todos os ratos mortos.
Há quem diga que o ser humano está chegando ao limite populacional suportável e, de alguma forma, instintivamente, sente isso. O reflexo pode ser visto em comportamentos cada vez mais agressivos, destrutivos e na falta de empatia. Mas gente tem uma mente mais elaborada do que a do rato (ao menos alguns de nós), então, estaríamos desenvolvendo mecanismos para lidar com isso, inclusive criando diferentes formas de procriar menos de forma inconsciente.
Assim se explicaria a homossexualidade (que é real e nasce com a pessoa, que fique claro, seria apenas predeterminada pelo ambiente), uma grande quantidade de assexuais e um aumento inexplicável por relações platônicas, à distância ou virtuais, pessoas que não querem ter filhos e até pessoas que se comportam de forma infantil para não serem consideradas aptas a ter filhos.
Se esta tendência se confirmar, o interesse do ser humano por sexo vai cair vertiginosamente nas próximas décadas, até virar algo secundário e eventual. O interesse maior vai migrar para o virtual, para a distância, para o platônico. É a natureza encontrando seu jeito de manter sua colônia de humanos viva.
Segundo essa teoria, o contexto social agora é que procriemos menos, levando para avanços nos métodos de controle de natalidade, permissão para realizar aborto e, ao que tudo indica, desinteresse progressivo por sexo.
E aí, quem determina suas preferências sexuais, a genética, você ou o contexto social?
Para dizer que prometer texto sobre sexo e entregar texto histórico é pecado, para dizer que faltou avisar aos pobre com 9 filhos sobre o desinteresse por sexo ou ainda para dizer que é bom que eu escreva algo engraçado na quinta porque este texto foi chato: sally@desfavor.com
“…desinteresse progressivo por sexo…” Será mesmo? Neste mundo louco por sexo?!
Esclaredor seu texto. Eu não sabia que a camisinha era tao velhinha…
Eu sempre revirava os olhos quando via alguém falando que hoje em dia estamos mais desunidos, não há mais tanto amor. Achava que era só uma overdose nostálgica de gente velha (“no meu tempo era tudo melhor”), mas lendo o texto e procurando sobre o experimento, até que faz bastante sentido. Ainda mais numa sociedade individualista o suficiente para que carinho virasse um negócio.
Sally, e é interessante notar que apesar de tudo isso aí que você escreveu sobre o sexo na história, sempre existiu traição (tanto do homem quanto da mulher), mesmo homens acabavam tolerando esposas adúlteras por medo de escândalos (imagem era tudo, inclusive para status, como se pode ver em diversos contos de 200, 300, 500 anos atrás de diversos autores), existiu a famosa “roda dos enjeitados” para que as mulheres e famílias se livrassem dos “frutos do pecado” (ou seja, filhos fora do casamento, ou de filha solteira ou de mulher e homem casados que “pulavam a cerca” – e repare como todo este moralismo natalista (e por conseguinte, o anti-aborto) coloca a “vida” em último lugar, o principal objetivo sempre foi e é (tentar) controlar a vida sexual da mulher, tentar colocá-la escrava da própria natureza, porque aí o que importa é mais filhos de um só casal, e em nome disto, as pessoas faziam de tudo a qualquer custo (até mesmo aborto e abandono de crianças).
Tudo isto faz lembrar o quanto que aquele passado idealizado (especialmente por conservadores religiosos) não passa de uma solene mentira: Eles criticam o quanto o nosso mundo de hoje, mais livre, com mais oportunidade para todo tipo de pessoa, está mais “decadente”, “imoral” do que no passado (especialmente porque estes são saudosos dos tempos nos quais a igreja mandava e desmandava e convenientemente escamoteiam e varrem os abusos e mazelas pra debaixo do tapete).
Enfim, desde que mundo é mundo, coisas mais torpes são feitas em nome de objetivos como dinheiro, poder e controle – e na história do sexo não poderia ser diferente.
É que monogamia não é natural e sim uma construção social. Isso só mostra quem vence quando tentamos agir contra a natureza humana…
Bem, o que vejo na verdade é que cada ser humano tem sua própria natureza: Enquanto uns são monogâmicos (meu caso), outros encarariam relacionamentos abertos (ou relacionamentos sem compromisso) numa boa. A chave para a coisa não desandar é aquele “bom e velho” respeito, é cada um procurar sua própria turma, sem mentir pra ninguém, sem enganar. Se o trato é só ter sexo entre os dois, que se cumpra, se é permitido ter “segundas” ou “terceiras” pessoas numa relação, então que seja assim, e por aí vai. Não tendo ninguém lesionado emocionalmente nem enganado, então tá ok.
Ah, mas as pessoas querem tudo. Querem ter exclusividade do parceiro sem precisar dar exclusividade em troca. Todo mundo se achav esperto!
Pois é, questão de escolha e da coerência / ética !
Já tinha ouvido falar algo a respeito daquelas “camisinhas” desenvolvidas no Egito Antigo. A princípio, eu li que acreditava-se que sua utilidade era proteger o pênis de ataques de insetos. Mas a finalidade contraceptiva dessa técnica, pra mim, vem a ser novidade
Realmente não parecem muito eficientes…
Adorei o texto, Sally. De verdade. Especialmente a “rebobinada na fita da História” que você deu. Posso ter me enganado, mas achei curioso notar que, às vezes, certas coisas que alguns consideram como sendo algo inato do ser humano e outros têm como algo surgido junto com a própria civilização têm, na verdade, origens simplesmente muito mais prosaicas. E pra mim, este foi o melhor texto da nova seção “Não Fode!” até agora.
É que nós gostamos de pensar que tudo está sob nosso controle e que a realidade de hoje é “a verdade” absoluta. Somos pecinhas de xadrez nas mãos da mãe natureza…
Esse texto me fez refletir sobre como o Brasil é um misto de pré-história com idade média. Adorei.
Sally, você poderia me passar a fonte dessa experiência com os ratinhos? Fiquei curiosa e queria ler a matéria completa.
Existem vários experimentos nesse sentido, o mais famoso ficou conhecido como Universo 25 e foi realizado por John Calhoun em 1972. Tem vários documentários interessantes sobre o assunto!
Sally, sempre que eu vejo aquelas notícias bizarras do Japão sobre gente que prefere se isolar do mundo e se relacionar somente com personagens virtuais eu me lembro desses ratos mentalmente bugados da experiência do Universe 25. É assustador como as coisas se parecem!
Espero que ao menos o ser humano consiga reverter o problema populacional com tecnologia que emule sexo e com essa geração desinteressada por ele, caso contrário vamos colapsar também.
Sexo vai perder a importância? Só se for com outro sser humano. Acho que vão ser substituídos por robôs realísticos. Tem tanto brinquedo maneiro no sex shop, que só não compro todos por falta de grana!
Sexo já está perdendo importância. Veja pesquisas de vários países de perfil completamente diferente sobre o que as pessoas preferem: sexo ou seu smartphone.
“Muito interessante o experimento com ratos.”
“humanos tem cérebros mais complexos que os ratos”
Jura??
É o que dizem, certeza eu não tenho.
Sensacional!
Muito interessante o experimento com os ratos, não tinha visto isso ainda.
Pra mim esse texto podia ter mais 4 páginas! Muito bom!
Obrigada, Nanda!
Concordo completamente !
Não sabia – ou não tinha certeza – de já haver um experimento assim…
Concordo, o texto acabou muito rápido!
Que texto excelente, Sally, fico imaginando você procurando fontes em artigos estrangeiros, enquanto os BM copiam tudo da Wikipédia brasileira.
Um bom texto dá trabalho, são semanas de pesquisa. Mas sabe quem mais ganha com isso? Eu. Quanto mais informações, fontes e referências diversificadas uma pessoa tem, maior sua capacidade de fazer links e combinar ideias,aumentando seu poder criativo. Vivemos na era do excesso de informação, informação todo mundo tem. O grande patrimônio hoje é saber conectar ideias.