Lição da pandemia.

A OMS declarou pandemia do coronavírus em 11 de março de 2020, e ainda não temos previsão clara de quando ela termina. Sally e Somir concordam que aprendemos muita coisa nesse meio tempo, mas tem uma discussão (não muito) saudável em relação ao principal aprendizado. Os impopulares fazem o diagnóstico.

Tema de hoje: até hoje, qual a principal lição que podemos tirar dessa pandemia?

SOMIR

Eu aprendi que a sociedade humana é colada com cuspe e muito mais precária do que eu julgava inicialmente. De uma certa forma, tudo o que temos disponível hoje em dia como padrão de vida humano moderno é mais resultado de sorte que juízo.

Porque toda a parte do ser humano ser um idiota que acredita em qualquer coisa e toma decisões terríveis por não ter conhecimento algum de ciência eu já sabia. É basicamente a realização que você chega assim que se livra do pensamento religioso. Se as pessoas engolem o furadíssimo papo das religiões institucionalizadas, é porque não tinham muita coisa na cabeça para começo de conversa.

Mas, eu sempre acreditei que uma minoria mais capacitada conseguia manter as coisas funcionando, servindo como uma rede de segurança para essa massa ignorante. Tipo filme americano de catástrofe: quando a coisa apertar mesmo, vão juntar os melhores cientistas do mundo numa base secreta e dar um jeito no problema. Quando eles souberem a resposta, todo mundo vai junto e seguimos em frente!

O aprendizado com a pandemia é que isso provavelmente foi uma ilusão formada na minha cabeça por excesso de exposição à ficção. Durante esses muitos meses de coronavírus, o que eu percebi mesmo foi que o cidadão médio vai acreditar no que for mais conveniente e atropelar qualquer conselho de especialistas se achar que está tirando um milímetro de vantagem.

E nem porque quer sacanear todo mundo, é porque esse é o modo habitual de funcionamento. Talvez seja a realização que tive com a volta da história da Terra plana em pleno século XXI, mas dessa vez mais abrangente: não só não tinha nada segurando o conhecimento humano vigente contra maluquices esotéricas como não precisa de muito para que as pessoas deixem de considerar o bem coletivo se isso causar algum incômodo.

Assim como a ideia de um planeta redondo nunca teve muito suporte dentro da cabeça do cidadão, a ideia de viver em sociedade e trabalhar em prol de objetivos comuns também não. Eu não estou enfurnado em casa só porque eu não quero pegar a doença, eu estou porque acho uma tremenda sacanagem egoísta aumentar o risco de que outras pessoas peguem a doença se eu não agir de forma racional aqui.

Eu não consigo me perdoar com a balela de “todas as medidas de segurança” se tiver pegado Covid num barzinho e passado para outras pessoas que não escolheram esse risco, por exemplo. Não necessariamente porque eu me acho eticamente superior, mas porque eu não consigo “desver” a relação entre causa e consequência. Eu tenho a informação e consegui compreendê-la de forma a internalizar a ideia e agir de acordo.

Eu honestamente acho que a absoluta maioria das pessoas que assumem riscos desnecessários nessa pandemia não estão ativamente interessadas em contaminar os outros para fazer mal, mas de alguma forma, os fatos não se conectam na cabeça dela. É tentador colocar tudo isso na conta da burrice pessoal, mas o buraco é muito mais embaixo.

Há pouco incentivo para o ser humano médio pensar e agir com a noção real do seu impacto no coletivo. Somos criados com algum grau de repressão de comportamentos nocivos ao grupo, mas nunca é bem explicado o porquê. Existe uma ameaça confusa baseada em punição pelas leis e represálias divinas das religiões, mas elas não são suficientes para as pessoas realmente entenderem por que fazem as coisas como fazem.

Meio como quando um religioso pergunta para o ateu o que o impede de ser uma pessoa horrível e o ateu se horroriza porque o religioso não sabe essa resposta: “então a única coisa te impedindo é uma ameaça vaga de um ser mágico que mora nos céus?”. É preocupante como muita gente não tem em si a ideia clara de que vivemos em sociedade e isso tudo só funciona se você agir de acordo. Ética básica não é uma qualidade tão grande assim se é a base que estrutura a vida humana em grupo. Agir de forma benevolente com outras pessoas não é algo bacana que você faz, é a última linha de defesa do funcionamento de tudo.

Na hora da pandemia, podemos ver esse tipo de falha intrínseca de caráter do ser humano médio. Muita gente faz tudo errado com orgulho porque provavelmente não conecta os pontos: precisa-se cuidar do outro porque senão a coisa fica feia pra você também. Acha que a sociedade humana é uma entidade à parte da qual ela não faz parte. Podemos até argumentar que um mundo com tanta desigualdade econômica incentiva esse tipo de pensamento, afinal, pro cidadão médio não costuma parecer que tem muita gente trabalhando em prol de um objetivo comum que o beneficie.

Eu até compreendo como essa mentalidade egoísta de fazer e pensar o que é mais confortável mesmo que cause mal para os outros se desenvolve, mas isso não muda o fato de que é difícil encontrar o que está segurando esse mundo junto até hoje. Sabe quando você pensa “e se todas as pessoas pobres do mundo se juntassem para pegar as coisas da minoria rica”? O que está impedindo isso? Eu achava que era um senso de coletividade estabelecido no fundo do inconsciente coletivo humano.

Mas talvez não seja o caso. Não era nem uma doença especialmente mortal. O lockdown não seria eterno, precisávamos trabalhar em conjunto por algum tempo até as vacinas nos darem alguma estabilidade para retomar as atividades normais. Mas nem isso funcionou. Nem mesmo o pedido de “sacrifica um pouco da sua conveniência durante a crise” parece ter convencido o cidadão médio. De uma certa forma, me parece que o mundo só continua funcionando minimamente porque é fácil o suficiente para o cidadão médio. Não precisa de muito para desfiar esse tecido social, a nossa sorte é que o coronavírus não é tão destruidor assim.

Mas isso não significa que os próximos desafios da espécie serão assim. Uma hora a coisa pode ficar feia mesmo, e aí, se desinformação continuar sendo mais agradável e esforços pessoais continuarem sendo sacrifício demais, talvez não tenhamos nada entre o mundo como é hoje e o completo caos.

No final das contas, me faz valorizar mais as pessoas que parecem estar acordadas para a realidade e lembrar de ficar por perto delas, porque se um dia a coisa ficar mais complicada do que isso, não tem muita gente pra confiar na hora do aperto…

Pra dizer que estamos muito pessimistas, para dizer que sempre soube disso, ou mesmo para dizer que a lição é que o dinheiro manda em tudo: somir@desfavor.com

SALLY

Até a presente data, qual a principal lição que se tira dessa pandemia?

A quantidade de idiotas que tem no mundo. Eu sempre soube que eram muitos, mas não sabia que eram tantos. É isso que temos que resolver se quisermos sair dessa e nunca mais passar por algo parecido.

Quando eu falo em “idiotas”, eu me refiro a todo aquele que contribuí para o não-controle da pandemia. Há muitos tipos abarcados nessa classificação, desde os que decidem deliberadamente sair de forma desnecessária, ainda que cientes de estar assumindo um risco, pois não tem o senso de sacrifício de ficar com o cu em casa até aqueles que não acreditam na existência do vírus, apesar dos números altos de mortes e contágios no mundo todo.

E ficar reclamando de idiotas não reflete um mero descontentamento meu. É reclamar de que, ao que tudo indica, o mundo não vai conseguir controlar essa pandemia tão cedo, que todos nós teremos entes queridos constantemente ameaçados ou até vítimas da doença, teremos nossos trabalhos prejudicados (quando não perdidos) e teremos que enfrentar uma infinidade de restrições por muito tempo, pelo simples fato de existirem tantos idiotas no mundo que não conseguem colaborar.

Me admira que o ser humano não esteja extinto. Quando tantos membros de uma espécie jogam contra, fatalmente o desfecho é a extinção. Pelo mundo todo, com os mais diversos pretextos, imbecis insistem em não usar máscara, em usar máscara da forma incorreta, em não fazer o isolamento social necessário ou qualquer outra atitude que jogue a favor do vírus.

Eu sempre soube que existiam muitos idiotas, que as pessoas eram egoístas (ser egoísta é uma modalidade de ser idiota, pois cedo ou tarde o egoísta se ferra), mas tinha a esperança de que, se um dia, como humanidade, fossemos confrontados com um inimigo em comum, isso faria com que as pessoas se unam, que façam um esforço conjunto. Eu achava que afloraria uma vozinha lá no fundo da cabeça, de cunho biológico, que falaria mais alto e guiaria a pessoa pelo caminho da sobrevivência. Pois é, pausa para rir.

Provavelmente vocês já perceberam que não é isso que está acontecendo. Seja por seus Chefes de Estado, seja pelo povo, a maior parte dos países não está se comportando de forma suficiente para conter a pandemia. E não me venham com essa conversa de que é tudo sobre a vacina. Vacina não basta no ponto aonde chegamos e nós estamos repetindo isso aqui faz tempo. Vacina requer uma logística muito complicada e demorada.

Se continuarem se portando como símios retardados, perigam colocar em risco até as vacinas já aplicadas, criando novas variantes que escapam às vacinas, carinhosamente chamadas por nós de “Cepa Fode-Vacina”. Até que tenhamos o mundo todo vacinado, é preciso se comportar como se não houvesse vacina. Mas, vai botar isso na cabeça de um idiota… como é difícil!

Talvez seja isso o que me dá mais raiva. Quando a doença surgiu, ninguém nem sabia se seria possível desenvolver uma vacina (HIV existe faz tempo e até agora nada). Porém, a humanidade conseguiu: criaram diferentes vacinas. Logo agora, que a gente poderia estar vendo a luz no fim do túnel, logo agora, que sabemos que as restrições teriam um prazo para acabar, as pessoas resolvem mostrar seu pior comportamento.

É como se você estivesse correndo uma maratona e, quando faltam poucos metros para completar, decidisse parar para tomar uma cerveja. Há um surto coletivo de falta de senso de prioridade e sacrifício que eu interpreto como sendo sinal de um mundo composto, em sua maioria, por idiotas.

O que nos leva a outra conclusão: nós, que fazemos tudo certo, também somos idiotas por te deixado tanta gente excluída do conhecimento científico. Agora precisamos estar todos alinhados, precisamos que todos se comportem bem, compreendam o funcionamento do vírus, de método científico, de vacinas… e existe uma grande massa de pessoas que não acompanha.

Monopolizar o conhecimento científico foi uma coisa idiota a se fazer. É aquela frase que eu venho repetindo desde o começo do Desfavor: ou estamos todos bem, ou ninguém estará bem. Só que agora, didaticamente demonstrada pelo universo. Não dá mais para uma pessoa estar bem e ignorar o entorno, ou todos estamos bem, ou ninguém está bem.

Não deixa de ser bom jogar uma luz no problema: o mundo está repleto de idiotas. É desesperador, mas ao menos sabemos que temos que começar a resolver isso. Eu me enquadro nos idiotas que não fizeram tudo que podiam para incluir e levar conhecimento a quem precisa, pois sempre que alguém quis ser/fazer/dizer algo imbecil, eu cruzei os braços e pensei “quer ser imbecil? Problema dele”. Não é. É nosso.

É preciso começar a conversar sobre isso: a quantidade de idiotas que existe no mundo e como levar algum conhecimento, informação ou interesse a essas pessoas. Enquanto não começarmos a olhar para isso, a efetivamente fazer algo para nivelar a humanidade por cima, vamos continuar todos na merda.

Não adianta resolver nenhum outro problema se continuarmos vivendo em um mundo de idiotas: a qualquer momento explode outra crise, onde os idiotas vão arrastar para o fundo do poço quem está tentando solucionar a questão. Os idiotas são a chave para o tipo de futuro que a humanidade terá. A escolha dos idiotas, que pensávamos ser irrelevante, nos afetará de forma contundente.

Olhem bem para esta lição. Sei que nenhum de nós tem poder para nivelar a humanidade, mas, se cada um fizer um pouquinho, por mais que não se solucione rapidamente, são menos idiotas no mundo. E se esses menos idiotas converterem outros idiotas em pessoas que pensam, pode ser criado um círculo virtuoso e teremos cada vez menos idiotas no mundo.

Tirar um idiota do seu estado de idiotez não é só jogar informação nele e repetir até que ele absorva. Muitas vezes a pessoa não consegue. O processo é muito mais complexo. É preciso despertar interesse, ser didático, ensinar, ser receptivo, ser compassivo. E isso é muito difícil, pois idiotas são irritantes. Mas infelizmente, estamos todos atrelados: enquanto todos não estivermos bem, nenhum de nós está bem.
Não é para amarrar pessoa na cadeira e obrigar a escutar informações sobre processo científico. É para disponibilizar o conteúdo que você tiver de forma interessante e construtiva. Muitos não vão querer saber de imediato, mas, não é no primeiro soco que o oponente de um boxeador cai. É uma luta, e como qualquer luta, leva tempo e estratégia para atingir o objetivo.

Essa é a lição que fica para mim: não adianta ser aquele que corre na frente da manada (e que sempre nos foi ensinado como sinônimo de sucesso). O objetivo tem que ser contribuir para que a manada porra correr toda junta, isso sim é sucesso.

Para dizer que continua nem aí para o resto, para dizer que já aceitou que não vamos voltar a sair ou ainda para dizer que agora nem a opção de sair do país te salva: sally@desfavor.com

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Comments (10)

  • Outras lições,

    O mito da Suécia como um bálsamo de civilização superior está enterrado.

    A maioria dos negadores malucos são homens brancos.

    China é uma grande merda.

    Os progressistas não estão errados sobre tudo, aliás, isso é complexo.

    O ”livre mercado” não funciona em uma situação extraordinária. Na verdade, acho que simplesmente não funciona, no sentido mais ético.

    Dos idiotas, os mais perigosos são os de alto QI.
    São eles que inventam sofisticam mentiras perigosas e as espalham para o ”gado”.

    • HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA

      Sim, com certeza são de altíssimo QI os que inventam as sofisticadas e perigosas mentiras como: Tedros de shortinho tomando Itaipava no bar, imã cola em você depois da vacina e o chip que o Bill Gates quer implantar no seu corpo.

      Meu cachorro faria melhor.

  • Singapura e uma beleza, as ruas sao limpissimas, no passado davam chibatadas em quem jogasse chiclete nas ruas.

  • Fico com a Sally nessa, no seguinte ponto: eu também não imaginava que houvesse tantos burros e idiotas no mundo! Ou talvez eu vivesse mesmo, até então, numa bolha, e o despertar pra realidade foi dado de modo tão cruel, quer dizer… Sabe como é, sempre estudando em bons colégios, tive uma educação erudita, e no ensino superior sempre envolvido no meio acadêmico… uma bolha mesmo! E, realmente, um mínimo de instrução pra geral faz a diferença no mundo!

  • Somir sempre otimista, mas aos poucos tá caindo a ficha observando a pandemia. O ser humano é egoísta por natureza, basta vc ver a desigualdade social e a concentração das riquezas na mão da minoria. Acho engraçado os teóricos da conspiração falando em governo único. Não se entendem nem em reunião de condomínio, imagina governo global! Nem se fosse do anti Cristo como eles dizem. Se dúvidar detonam até o próprio Satanás!

  • Eu aprendi que antigamente as nojeiras da China ficavam por lá, mas agora com a globalização viram pandemia e então a pessoa tem que ter sempre uma reserva de emergência pra uns 3 anos pras próximas e também ter habilidade de exercer um serviço dito essencial na hora que os governantes se acharem meus donos e quiserem travar o meu trabalho.

  • Até em país nórdico (Dinamarca e Suécia, salvo engano) houve algumas manifestações anti-lockdown e anti-vacina, ou seja, mesmo que haja boas condições, boas escolas e o caralho a 4, tem gente que simplesmente quer ser idiota. É isso.

    E concordo com o Somir, esse sistema de uma minoria salvar a humanidade da ignorância da maioria, essa torre de marfim está se mostrando insustentável, ainda mais agora com automação não vai ter mais desculpa pra deixar uma maioria da população pobre, alienada e sendo burro de carga. Não estou dizendo todo pobre é ignorante, mas não dá pra negar que a pobreza sempre foi um fator crucial na disseminação de doenças. Vai lá falar em lavar as mãos frequentemente pra pessoa que só tem acesso a água por caminhão-pipa, por exemplo.

    • Sim, gente idiota tem no mundo todo. A questão é: como o país trata esses idiotas. Na Alemanha prenderam negacionista, no Brasil elegeram um.

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