Guerra nas estrelas.

Você provavelmente já viu algum filme ou série sobre batalhas no espaço, com lutas entre naves, lasers e caças atirando freneticamente uns contra os outros. Embora crie conteúdo divertido de se ver, a imaginação da maioria dos autores de ficção científica passa longe de levar em consideração como civilizações capazes de viagens interplanetárias ou interestelares realmente lutariam. Ou, como título alternativo para este texto: não faça inimigos em outros planetas.

Quase todo nosso conjunto de ideias sobre guerras espaciais é baseado em batalhas navais. Faz sentido escrever ficção assim: é algo que a maioria das pessoas entende, de alguma forma. Os nomes mais comuns para naves espaciais (fragatas, destroieres, naves de batalha) são simplesmente nomes de categorias de navios militares. Pegamos as lutas no mar e colocamos em órbita.

Isso ajuda a dar um senso de escala para as lutas, com naves maiores e menores tendo funções específicas, e é claro, exacerbando o papel humano nos rumos de uma guerra: as tripulações e os pilotos têm destaque maior se as coisas forem contadas dessa forma. Mas, na prática, não passa de uma ferramenta para roteiristas trazerem mais emoção para as histórias que contam.

A capacidade de construir naves capazes de viajar de um planeta ao outro presume um alto desenvolvimento tecnológico, se a nave conseguir ir para outra estrela então… estamos falando de seres capazes de feitos de engenharia espetaculares. Se alienígenas vierem de outra estrela até a Terra, só podemos torcer para eles estarem bem-intencionados, porque não é nem o equivalente aos europeus encontrando os nativos americanos, a comparação mais realista seria o exército americano moderno invadindo uma tribo da idade da pedra.

Você não precisa sair na mão com o adversário, basta jogar uma bomba e vencer a batalha em segundos. Ou, se não quiser estragar os recursos naturais da região, só atirar de longe antes que os selvagens tenham qualquer chance de perceber o que está acontecendo. Batalhas como as descritas em virtualmente todas as obras de ficção espacial presumem que o soldado moderno correria em direção ao homem das cavernas de peito aberto e tentaria dar coronhadas nele até vencer.

O que é ridículo. Estamos vendo há milênios a humanidade evoluir nas suas táticas militares, e todos os avanços são no sentido de reduzir o risco dos seus soldados e decidir batalhas o mais rápido possível. Não há motivo algum para acreditar que os humanos do futuro (ou outras espécies alienígenas) não seguiriam pelo mesmo caminho.

O espaço é grande, inconcebivelmente grande. E muito escuro. A maioria dos objetos soltos por essa imensidão toda não emitem luz ou radiação suficiente para serem detectados. Mesmo com toda a tecnologia que já temos, só conseguimos ver mesmo objetos absurdamente grandes ou que reflitam bem a luz solar. Só começamos a perceber alguns planetas em outras estrelas bem recentemente. E mesmo assim, só através de perturbações na luz que as estrelas mandam em nossa direção. Não existe foto de nada menor que uma estrela fora do nosso sistema solar. Precisamos mandar uma sonda que viajou por anos para finalmente tirar uma foto decente de Plutão, e ela só foi feita poucos anos atrás.

Falo sobre isso porque o campo de batalha espacial é tão imenso e escuro que não faz sentido fazer qualquer outra coisa senão atirar de longe. Sua nave ou míssil vão demorar basicamente o mesmo tempo para chegar no alvo. Mandar sua nave pode entregar sua posição, mandar um tiro muito menos. Vamos presumir que o planeta A quer atacar o planeta B: o A dispara um míssil que vai demorar 20 anos para chegar no B. O míssil é pequeno em comparação com uma nave, é feito para não refletir luz e ficar desligado a maior parte do tempo para não ser diferenciável de uma rocha qualquer.

Mesmo que o planeta B detecte o míssil quando estiver se aproximando e consiga presumir a trajetória dele, não vai saber quando essa trajetória começou, e se por um milagre conseguir essa informação, quem atirou teve 20 anos para se movimentar desde o disparo. Impossível retaliar quem te atacou. Na melhor das hipóteses você presume quem tentou o ataque e ataca de volta na direção de algo com a posição definida, como um planeta.

Agora, não é razoável presumir que numa guerra se atire apenas um míssil, ainda mais se você tem estrutura para travar uma guerra espacial. A coisa mais lógica é espalhar suas naves e atirar tudo o que puder contra o adversário, de milhares (ou milhões) de pontos diferentes, de forma a complicar demais a detecção de todos ao mesmo tempo. Se uma civilização alienígena quiser acabar com um planeta, provavelmente o alvo não tem chance alguma de escapar. Estar num planeta é uma desvantagem imensa nesse sentido. Você é um alvo eterno.

Se hoje em dia os soldados são treinados para não ficar parados esperando tomar um tiro, é de se presumir que qualquer força invasora não vai fazer que nem em filme de invasão alienígena e estacionar à plena vista do adversário, não? Como eu disse antes, o espaço é muito grande. Mesmo uma força invasora com milhões de naves pode se espalhar de forma a tornar virtualmente impossível sua detecção. As formações de batalha que vemos em filmes, séries e livros são completamente insanas do ponto de vista militar. Se o seu adversário está te vendo, você está fazendo tudo errado.

E nem precisa montar uma estrutura muito avançada para causar problemas para o inimigo: no espaço, não existe atrito com o ar para te atrapalhar, não só você pode fazer uma nave que é 90% armadura, como pode usar pedaços de metal ou rocha como armas. O efeito de qualquer aceleração num objeto resistente por milhões de quilômetros é sempre devastador. Você pode usar um foguete para acelerar uma barra de metal (tungstênio, por exemplo) a uma fração da velocidade da luz, separar o foguete no meio do caminho, ainda fora de qualquer chance de detecção do inimigo, e deixar ele continuar até bater no alvo.

Salvo uma tecnologia mágica ainda não descoberta, é impossível detectar algo pequeno que não emite luz, radiação ou calor. Sem atrito, a barra nem vai esquentar enquanto voa a uma velocidade absurda. E quando ela finalmente chegar perto o suficiente para ser detectada, provavelmente não vai dar tempo de impedi-la. O impacto de qualquer objeto acelerado a velocidades imensas é gigantesco. Uma barra de tungstênio de algumas toneladas pode vaporizar uma cidade inteira se chegar no planeta a 20% da velocidade da luz, por exemplo. Energia é igual massa vezes velocidade da luz ao quadrado, já dizia Einstein.

Não precisa de lasers e “raios da morte”, embora com certeza seja uma tecnologia dominada por quem está lutando uma guerra espacial, lasers não são tão invencíveis assim: precisa de uma quantidade de energia imensa para mantê-lo focado o suficiente para atravessar grandes distâncias. Ou você faz algo realmente insano como concentrar a energia de uma estrela num raio para atravessar anos-luz, ou chega perto o suficiente para o laser não ficar difuso demais na hora do impacto. E chegar perto o suficiente provavelmente vai ser a última coisa que qualquer civilização do futuro vai querer fazer numa batalha. Se o seu laser é eficiente contra eles, o laser deles vai ser eficiente contra você. E eles tem um planeta inteiro para gerar energia para o deles… não é uma briga que você quer comprar.

De uma forma curiosa, batalhas do futuro provavelmente vão ser travadas entre dois lados arremessando objetos um contra o outro e se escondendo depois. Qualquer outra tática e você vai ser esmagado feito um inseto. Quer dizer, praticamente qualquer outra tática: como vemos na tecnologia de guerra humana atual, drones são ferramentas muito interessantes. Se você não vai perder uma vida no ataque, a sua margem de manobra é muito maior.

Dependendo do grau de tecnologia das civilizações envolvidas, é bem provável que pelo menos os primeiros ataques mais próximos do adversário sejam feitos por inteligências artificiais. Dificilmente com naves guiadas por controle remoto, afinal, mesmo com comunicação na velocidade da luz, pode demorar demais para chegar o sinal na máquina que você está controlando. Exércitos inteligentes vão manter seres vivos a anos-luz de distância do campo de batalha. Por isso, é bom que exista alguma forma de digitalização de consciência ou capacidade do robô pensar sozinho.

Você trava a parte mais perigosa da guerra com máquinas, especialmente se você tiver capacidade de replicação automatizada das suas ferramentas e armas (o que provavelmente você vai ter se está lutando uma guerra espacial). Você pode ocupar um asteroide ou lua do sistema estelar do adversário e produzir seus equipamentos lá mesmo, para ganhar a guerra na logística. Se o seu adversário não for uma potência de utilização dos recursos do sistema estelar dele, não vai ser uma batalha muito parelha.

E nem estamos falando de guerra biológica, química ou mesmo de nanorobôs: coisas que podem ser enviadas com antecedência para causar o caos no planeta inimigo antes mesmo de você dar um tiro. Você pode criar milhões de vírus diferentes e mandar todos ao mesmo tempo, se uma fração der certo, já não vai mais ter muita resistência quando você mandar seus robôs fazerem o primeiro ataque. Seres vivos podem só chegar décadas, séculos ou milênios depois.

Porque tem isso: se você está viajando entre as estrelas e tem capacidade de lutar guerras contra planetas inteiros, alguma tecnologia de extensão de vida você já desenvolveu. Algo que sempre é esquecido em obras de ficção científica. Seres que vivem vários séculos, milênios, ou mesmo são imortais depois de digitalizar suas consciências vão ter prazos de atuação muito diferentes do que temos aqui na Terra hoje em dia.

Se você vive mil anos, um plano de duzentos anos para controlar um planeta adversário não é tão absurdo. Talvez demore um século só para ter a informação se o seu tiro pegou no adversário. A gente não consegue pensar nessas escalas, mas quem tem vidas muito mais longas consegue até mesmo desenvolver uma estratégia de desmoralização do inimigo por várias gerações até eles aceitarem sua invasão de braços abertos.

Jogar pedras e barras de metal é eficiente, mas se você não estiver com pressa alguma ou se quiser usar o planeta (e sua população) depois, não é tão necessário assim. O principal erro da ficção ao falar desse tipo de batalha é achar que as coisas precisam acontecer em uma cena ou uma página. Se aqui no planeta Terra guerras duram anos e muitas vezes nada de importante acontece por meses e meses, imagine só se seres imortais quiserem lutar a anos-luz de distância?

As guerras do futuro, mesmo que a humanidade esteja sozinha no universo mesmo, serão travadas entre inteligências que não estão ligando para diversão, e sim para resultados. Eu poderia apostar que nunca vai existir uma batalha espacial como as imaginamos atualmente: elas não fazem sentido, e francamente, só atrapalham os dois lados.

Para dizer que estava com saudade de nerdice por nerdice, para dizer que já estamos sendo atacados, ou mesmo para dizer que sua imaginação acaba de ser estragada: somir@desfavor.com

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Comments (4)

  • No filme Tropas Estelares de 1997, insetos gigantes de um planeta a milhares de anos luz da Terra, destruíram Buenos Aires simplesmente apontando suas bundas para o céu e atirando um “meteoro” de plasma. Não só, tinham a “cagada” mais poderosa do universo, como um poder de mira incrível. E isso tudo sem ao menos sair do planeta!!!

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  • Quando minha filha tinha uns 10 anos, e ficou curiosa sobre a Voyager, e expliquei sobre a “mensagem”, dando o caminho para nos encontrar, ela disse:
    – “Mas… e se alguém realmente encontrar? Quem fez isso não pensou que podem não ser boas pessoas?”
    – “Pois é, filha, você tem mais bom senso que os nerds que pensaram nessa nerdice.”
    – “…”.

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