Amigo doente.

Imagine uma pessoa muito próxima a você, com a qual você tem uma relação de confiança. Agora imagine essa pessoa não fazendo isolamento mesmo sabendo que está contaminada pelo Covid. Não estamos falando de uma urgência, estamos falando de algo desnecessário mesmo. Sally e Somir discordam sobre o que fazer, os impopulares se entregam.

Tema de hoje: você denunciaria uma pessoa próxima que arriscou espalhar Covid?

SOMIR

Não. Quer dizer, não de primeira. Eu acredito na possibilidade de conversar com uma pessoa muito próxima e de confiança. Mas eu não vou ficar fingindo que “tecnicamente” eu denuncio. Na prática, ao dar uma oportunidade que seja, eu estou me colocando no time das pessoas que não denunciariam. Por isso o tema de hoje existe.

A diferença entre sistemas teocráticos malucos e sistemas democráticos modernos é basicamente a percepção de contexto. O Talibã corta sua mão se você roubar. Um Estado democrático não toma uma decisão do tipo, às vezes até perdoa a pessoa. A diferença não é que um é ruim e outro é bonzinho, a diferença é que um sistema acredita que pessoas podem errar pontualmente e serem corrigidas, e o outro que o erro é permanente e define o ser humano.

O ladrão sem as mãos não pode mais usá-las para roubar, porque segundo o Talibã, o ladrão vai morrer ladrão e não pode mais ter as “ferramentas” para cometer o crime. No sistema democrático moderno, as pessoas têm a presunção de evolução: sim, o erro ainda existe e deve ser punido, mas o objetivo final é que a pessoa não tenha mais vontade de cometer o erro, não a impedir de cometer outros por forças externas.

Eu vou morrer acreditando que o ser humano tem jeito. Salvo sérios problemas mentais que exijam isolamento até o fim da vida, eu acho que todas as pessoas “normais” têm jeito. Vejam bem, não estou dizendo que todas as pessoas vão ter jeito, estou dizendo que em tese é possível. Não há energia e tempo disponíveis na humanidade para dar atenção e cuidado para todo mundo que precisa, mas isso não muda o fato que o potencial está lá. O potencial de entender a besteira que fez e conseguir se controlar no futuro. Sem isso, eu também estaria defendendo cortar as mãos dos ladrões.

E é claro, há um grau de tolerância maior com pessoas queridas. É inevitável, somos humanos. Pode até fazer como a Sally e fazer o que acha certo mesmo sabendo que vai sofrer muito, mas que existe uma diferença essencial entre o que você julga aceitável para uma pessoa querida e um estranho, existe. Todo mundo sabe disso. Até as leis: ninguém é obrigado a prestar testemunho que incrimine um parente muito próximo ou mesmo o cônjuge. Existe contexto. Sabemos que a linha entre certo e errado borra para a maioria de nós quando há um sentimento forte envolvido. Até por isso existe a previsão de atenuantes na penalização de pessoas sob forte carga emocional.

Eu sei que eu estou arriscando mais do que deveria em relação ao bem comum ao dizer que tentaria conversar com um amigo ou parente próximo que espalhou Covid antes de denunciá-lo para as autoridades, mas eu me considero dentro da exceção que até mesmo as leis dizem que existe. Se há sentimento envolvido, a pessoa tende a tomar decisões que diferem da letra fria da lei. E eu tomaria essa decisão, com uma crise de consciência, mas colocando a relação que eu tenho com uma pessoa na frente.

Digo faz tempo: Estado é Estado, indivíduo é indivíduo. Eu posso ser contra a pena de morte e mesmo assim querer matar uma pessoa que fez mal para alguém que eu gosto. Eu não tenho obrigação como indivíduo de deixar os sentimentos de lado. O Estado tem. Um agente público não pode deixar pra lá uma infração óbvia da lei, mas eu não estou nessa posição. É presumido que eu vá oferecer alguma vantagem para pessoas do meu círculo mais próximo de relações.

Eu não estou dizendo que deixaria de denunciar qualquer pessoa, estou dizendo que dentro de um grupo muito limitado de parentes e amigos, pessoas que eu conheço faz tempo e tenho muita confiança, eu tentaria a via da conversa primeiro, e só se a conversa não funcionasse acionaria o Estado. Tenho certeza que a minha conversa funcionaria? Não. Mas eu tenho uma expectativa razoável de conseguir articular bem o ponto e usar os laços emocionais que tenho com a pessoa para fortalecer bem o argumento.

Se ela não fizer mais, vitória. Se ela fizer de novo, sou obrigado a denunciar. Sim, é complicadíssimo convencer uma pessoa, mas eu acredito que se ela foi capaz de se manter no meu convívio próximo e conquistar minha confiança por tanto tempo, foi apenas uma “falha na Matrix” aquele comportamento. Acredito que o básico para entender que não pode arriscar sair de casa com Covid está lá, mas por algum motivo bizarro, não foi levado em consideração.

Talvez esteja muito perto, só precisa de alguém para ajudar a colocar luz na questão. Eu gosto de acreditar que sei escolher bem as pessoas com as quais convivo, e que se elas errarem, foi apenas um erro pontual. Erros pontuais podem ser resolvidos. A merda está feita, a pessoa já fez uma vez e não tem como desfazer. Então, temos dois caminhos: punição estatal ou conversa de amigo. Ambas têm o mesmo objetivo, impedir que a pessoa repita o erro. Se o meu jeito funcionar, o problema está resolvido.

Se não funcionar, aí o Estado entra. Eu gostaria de ser avisado caso cometesse algum erro sério sem ter a noção real da gravidade. Infelizmente, quem fala sério sobre a pandemia no Brasil é tratado como alarmista, e muita gente pode cair na armadilha de achar que a doença não é tão séria assim. Eu acredito que pessoas podem estar sem noção real do que estamos vivendo, e entre não ter muitas consequências com o Estado brasileiro (notório vagabundo) e sofrer o risco de uma punição real (perder um amigo), eu acredito que a segunda tenha até mais força. Eu valho mais que uma cesta básica… espero.

Provavelmente vai estar escrito “otimista que se fodeu” na minha lápide, mas eu prefiro correr esse risco do que deixar de acreditar que as coisas podem ser arrumadas nesse mundo.

Para me chamar de falso honesto, para dizer que esse é o Brasil que dá certo, ou mesmo para me chamar para conversar com todos seus amigos: somir@desfavor.com

SALLY

Vamos supor que existisse um mecanismo eficiente de denúncia contra pessoas que, sabendo estarem contaminadas por covid-19, ainda assim decidem sair na rua por um motivo fútil. Vamos supor que existisse um mecanismo eficiente de punição para quem fizesse isso. Não riam, apenas tentem imaginar.

O tema é: se uma pessoa próxima a você (não um familiar, mas sim um amigo), sabendo estar contagiada com covid-19, resolve sair de casa por um motivo fútil (não é ir ao hospital por estar com falta de ar, é ir ao salão fazer as unhas) e você fica sabendo, você a denuncia no momento em que fica sabendo?

Esse deve ser um dos poucos Ele Disse, Ela Disse da história em que Somir e eu discutimos o tema em detalhes antes. O tema nem ia entrar, acabou entrando pela força com a qual discordamos um do outro. Somir diz que não denuncia, que primeiro tenta conversar com a pessoa para apontar o erro, para tentar convencê-la de que não deve fazer isso, para mudar sua cabeça e, só depois, se a pessoa insistir no erro e sair novamente, ele denunciaria.

Eu denuncio de primeira, não tem conversa, não tem porra nenhuma. A lei tem que valer para todos, inclusive para meus amigos, o que, diga-se de passagem, nem seria o caso, pois uma pessoa que faz uma coisa dessas perder a minha amizade na hora. Zero interesse em ter amizade com quem coloca em risco a vida alheia por um motivo fútil.

Primeiro ponto: se alguém é egoísta o bastante para sair com covid para fazer qualquer futilidade (ir à praia, fazer unha, tomar um chopp), não vai ser uma conversa minha que vai resolver esse enorme problema de caráter (ou de cognição, vai saber). Eu não me tenho em tão alta conta de achar que com uma conversa eu mudo a cabeça de alguém que fez algo tão grave.

Segundo ponto: ações tem consequências. Isso se chama “vida adulta”. Mesmo que a pessoa não saia novamente, ele provavelmente vai ter contaminado alguém daquela vez que saiu e eu acho muito cretino que ela fique impune. A partir do momento em que eu contribuo para que a lei não se aplique a quem cometeu um crime, estou me corrompendo e corrompendo o bom funcionamento da sociedade e de seu sistema legal.

E mesmo que a gente chegue a falar sobre ter alguma tolerância antes de aplicar a lei, eu posso cogitar isso em situações brandas, mas onde se coloca a vida de outro pessoa em risco por uma futilidade? Não dá. Aí não dá para mim não. É grave demais para bate-papo.

Eu sei que isso soa alienígena para vocês, que, segundo ouço, estão levando vida normal. Mas, para mim, que não estou no Brasil, soa alienígena o contrário: alguém bundeando na rua sabendo que está contaminado e saindo impune em nome de amizade. É “jeitinho brasileiro” seu amigo cometer um crime e você querer burlar o sistema e resolver num bate-papo. Vai bater um papo com filho que perdeu um pai ou uma mãe por sua amiga ter ido no salão fazer a unha, vai.

“Mas a pessoa pode não saber que o que ela fez é grave”. Olha, se é minha amiga, sabe sim, pois eu não me relaciono como idiotas. Todo mundo sabe que pessoas doentes podem contaminar os outros, todo mundo sabe que morreu mais de meio milhão de pessoas no Brasil. Uma pessoa que sai contaminada ou é muito egoísta ou é muito burra de não entender o risco no qual ela coloca os outros. Nenhuma das duas me interessa manter como amiga.

Deixa eu dar um exemplo que, eu sei, não tem correlação nem de longe, mas que serve para que vocês entendam o grau de reprovação que eu sinto e que muitas pessoas que vivem em países onde a doença é levada a sério sentem: se o seu amigo estupra um menino de 5 anos, você conversa com ele e pede para ele não fazer mais e só denuncia se ele fizer pela segunda vez?

Eu sei que não é a mesma coisa, eu sei que estupro nem se compara com sair contaminado. EU SEI. É um exemplo para fazer com que vocês sintam o que eu sinto, pois no meu contexto social, sair contaminado é gravíssimo e gera esse grau de repulsa. Quem saiu contaminado uma vez é um estuprador, não tem conversa, mesmo que nunca mais estupre ninguém, vai morrer estuprador, o dano está feito. Repito: é um exemplo didático, eu sei que não é a mesma coisa.

Vocês estão cegos, estão normalizando coisas graves e, acima de tudo, estão com um conceito muito elástico do que é ser um corrompido. Permitir que o amigo possa colocar a vida de outras pessoas em risco por uma futilidade e se apoderar da função do Judiciário você, para resolver no bate-papo, é sim ser um corrupto, favorecer seu amigo.

Pode ser uma escolha. Você pode dizer “em nome das minhas amizades, eu burlo a lei e sim, sou corrupto”; Ok. Desde que você saiba que é um corrupto e se porte de acordo (não sendo hipócrita de reclamar de outros corruptos). Mas achar que seu amigo pode colocar a vida dos outros em risco para ir a um bar tomar um chopinho e tá tudo bem resolver do seu jeito e que corrupto é o filho do Bolsonaro? Aí não, meu colega. Corrupto se é ou não se é. Não existe “mais ou menos corrupto”. Não existe “só um pouquinho corrupto”. Não existe “só dessa vez não configura corrupção”.

Eu tenho mais empatia pela pessoa que perde alguém que ama do que pela amiga que precisava fazer as unhas. E não, não é certo acobertar quem faz uma porra dessas, sob nenhum pretexto. NENHUM PRETEXTO. Com sorte, ainda existem alguns de vocês que não foram brutalizados o suficiente para perder essa consciência. É realmente tão difícil de entender que ao fazer isso criamos uma sociedade ainda pior?

Um país tomado pela Delta. Mil vezes mais carga viral que o covidão raiz. Quase 100% de chances de contágio de alguém se um filho da puta ficar bundeando na rua contaminado. Sério que vocês acham que é caso de bater um papo? E, sério que vocês acham que uma pessoa nesse grau de egoísmo ou inconsciência vai estar ao alcance de um bate-papo?

Mas, para mim, o pior ponto da outra escolha do tema de hoje é: se não agir de primeira, não vai mais poder agir: uma pessoa capaz de fazer isso periga de, nesse bate-papo, dizer que sim, que não vai mais sair (para não te contraria e não ser denunciado) e depois continuar saindo. Como você controla uma pessoa assim? Vai morar com o doente? Acho que não. Vai colocar uma tornozeleira eletrônica para saber onde a pessoa está? Não vai.

Simplesmente a pessoa vai continuar saindo, não vai te contar (por saber que você desaprova e que pode denunciá-la) e mais e mais pessoas serão contagiadas – algo que você poderia ter evitado, mas resolveu colocar em risco a saúde público por um bate-papo.

Você tinha uma oportunidade de tirar essa pessoa de circulação e não o fez, daí pra frente, ela vai sair escondida e você perdeu sua chance de salvar vidas ou de fazer valer as regras. Se vocês dormem com a consciência tranquila diante de quadro desses, parabéns, eu não sou capaz.

Pra mim não dá, não tenho condições de ser conivente com isso. Minha realidade não é essa. Minha realidade é a de ser um absurdo intolerável uma pessoa contaminada sair de casa para fazer a unha e mais impensável ainda alguém acobertar esse ato achando que é capaz de mudar tamanho grau de torpeza com um bate-papo.

Se até psicólogos, que são profissionais (concorde você ou não, psicologia é uma ciência) demoram meses e às vezes anos para fazer as pessoas perceberam esse tipo de coisa, não vai ser uma conversinha com Sally Alecrim Dourado que vai fazer alguém nesse grau de danação mental mudar.

Compartimentação tem limites: sim, pessoas podem cometer erros e serem boas amigas, mas tem um grau em que não dá. Você seria amigo de um estuprador super gente boa que só estuprou uma pessoa, uma vez e que depois de um bate-papo prometeu parar? Não. Por qual motivo? Por reprovar demais o crime de estupro. Pois bem, é com essa mesma força que eu reprovo quem sai de casa contaminado com covid para fazer algo fútil. E se você perdeu alguém para a covid, provavelmente vai pensar como eu.

Eu sei que a realidade do Brasil não é essa, que isso é amplamente aceito, mas, de coração, poucas vezes falei tão sério aqui no Desfavor: espero que a realidade de vocês não seja essa. Espero que a realidade de vocês considere isso uma coisa inaceitável, inconversável e, acima de tudo, que não estejam dispostos a correr o risco de deixar um arrombado desses solto para fazer isso novamente.

Para dizer que está com medo de responder sinceramente e perder a minha amizade, para dizer que quem é amigo do Alicate tem que pensar como o Somir caso contrário não manteria uma amizade com o Alicate ou ainda para me perguntar se eu cortaria minha amizade se o Somir saísse contaminado para fazer as unhas: sally@desfavor.com

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Comments (10)

  • Denunciar pra quem? Pra polícia? Em país de 1 mundo ok, na Banânia hahahahaha Aconteceu coisa parecida esses dias, mas a pessoa não era minha amiga, só colega e ela não tinha certeza. Tava rolando um papo ela falou que já pegou covid umas 3X e o sintoma foi só diarreia e dor de garganta, ela falou que tava com isso e mes.o assim foi trabalhar no local fechado, no shopping.

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    • Dica: quando um texto começar com “vamos supor que”, o autor está te convidando para um exercício de imaginação. Você deve se colocar mentalmente nessa situação e tentar prever como agiria se a realidade suposta se apresentasse.

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  • “Compartimentação tem limites: sim, pessoas podem cometer erros e serem boas amigas, mas tem um grau em que não dá”.

    Pois é, aqui a situação aconteceu de verdade, e envolveu parentes (um casal de médicos, infelizmente) que moram no mesmo prédio.

    De início, informaram que estavam com Covid e que iriam fazer a quarentena em casa, devidamente licenciados do(s) hospital(is) público(s) em que trabalham. Ambos ficaram sintomáticos, com perda de paladar e dores pelo corpo, assim como os filhos adolescentes padeceram de febres e dores pelo corpo.

    Mesmo assim, a quarentena foi até a esquina. Mesmo tendo o zelador e eu mesma nos oferecido para fazer tudo que fosse necessário para que eles se mantivessem em casa, nem uma semana depois da licença flagro um dos parentes chegando no prédio carregando dois fardos pesados de água (sendo que eu havia acabado de voltar do mercado, de carro, tendo oferecido para comprar água antes para eles), chegando do mesmo mercado logo após de mim. Esbaforido pelo esforço inútil, mas achando que estava seguro por ter colocado duas máscaras de papel.

    Daí, diante da minha incredulidade, da primeira mensagem honesta (“Ah, eu precisava espairecer”) passou rapidamente à racionalização (“Todo mundo vai precisar pegar essa doença mesmo”) e depois à arrogância (“Melhor você ir subindo porque eu não quero passar covid pra você”). Fiquei em choque com as afirmações do parente (afinal trabalhava em um hospital público na linha de frente da pandemia), mas relevei, na crença de que talvez tenha saído por nervosismo, pelo constrangimento de ter sido pego em flagrante por alguém conhecido e, apenas, disse: “não faça mais isso, você tem o zelador e a mim para pedir qualquer coisa, você é médico, tenha consciência, pelo amor de Deus”.

    Ingenuidade minha. Algumas horas depois, o mesmo parente liga aqui em casa dizendo que haviam pedido comida no aplicativo duas vezes e que a encomenda extra viria daqui a alguns minutos. E que se eu não quisesse a encomenda, eles desceriam de novo para pegar a segunda encomenda e passariam aqui em casa para cuspir covid na minha cara para eu deixar de ser fresca…

    Aí o sangue ferveu, já que quase perdi parentes e amigos para a Covid. Ainda assim, pelo bem da família, tentei fazer a estratégia descrita pelo Somir e, daqui, passou da racionalização (“E daí? Todo mundo corre o risco de pegar”, ao que respondi “uma coisa é risco, outra é certeza de ter tido contato com alguém contaminado”), justificação (“faço tudo que for necessário pela minha família” – ao que respondi: tal como espairecer e comprar comida pelo Rappi?”) e por fim, quando disse que aquilo era tão sério que era crime, respondeu “então, vai lá e me denuncia”, cortei toda a relação e disse que não deixaria ninguém mais de casa entrar em contato com eles.

    Já era a segunda vez que eles haviam se contaminado (na primeira, estava em trabalho remoto no interior). Lamentei não ter meios para denunciá-los ou mesmo para matá-los naquela hora (se o controle de doenças fosse permitido dessa forma por lei).

    Depois gelei ao pensar no que poderia ter acontecido se não o tivesse flagrado entrando e saindo do prédio duas vezes, compartilhando os elevadores com alguém com covid. Estava fraquejando, tentada a passar na casa dos meus pais naquele dia só para deixar um presentinho de dia dos Pais (meu pai de quase 90 anos com enfisema e minha mãe em remissão). E, algumas semanas depois, o Tarcísio Meira morria de Covid, tendo enfisema. O zelador ficou ainda mais puto, pois usa os elevadores toda hora para fazer uma obra aqui e ali no prédio e dentro dos apartamentos, mediante um caixinha. Fizemos o PCR em casa e foi negativo para todos. Ainda assim, nos resguardamos.

    Enfim, um casal de parentes médicos, servidores públicos, recebendo para ficar em casa e, ainda assim, zanzando por aí podendo fatalmente ter contaminado centenas de pessoas no mercado do nosso bairro ao carregar fardos pesados de água a pé de volta para casa (mercado sem janelas e apinhado de pessoas naquele horário).

    O resto da família se indignou e alguns vieram perguntar: mas, Suellen, se você baniu os parentes do seu convívio, como é que fica o Natal e o Ano Novo agora? Você não pensou nos seus sogros?”

    Como disse, se houvesse um meio legal de realizar eu mesma o controle de doenças, eu nem me daria ao trabalho de denunciar.

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    • Já vi e ouvi vários relatos desse mesmo nível. E a maior parte das pessoas relativiza, “dá um desconto”, aceita.

      Como o leitor me disse mais cedo, no Brasil somos pessoas que descartam uma amizade “por um vacilo”

      UM VACILO. Matar a mãe de alguém é UM VACILO.

      Cada dia mais feliz por ter saído do Brasil.

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  • Sally, uma pergunta sem intenção de ofender, de ser hater, ou de contrariar, apenas uma curiosidade mesmo: você tem algum amigo? Parece que você exclui pessoas da sua vida por vários motivos que em geral a gente tende a perdoar, relevar, entender que o outro é diferente da gente, não só covid. Se a pessoa vacila, você já corta sem nem conversar antes, como argumentou o Somir. Sobra alguém na sua vida?

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    • Tenho amigos sim, eu diria que até bastante para a média. Mas, brasileiros, são de fato poucos.

      Não é “se a pessoa vacila você corta sem conversar”. Isso é uma generalização que induz a erro.
      O que eu corto sem conversar não é um “vacilo”, é uma pessoa colocando em risco a vida da outra por um motivo fútil, o que eu considero algo muito grave, e não “um vacilo”. No dia que você perder uma pessoa amada para um ato irresponsável de um terceiro, talvez você compreenda meu ponto.

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  • Engraçado que li esse texto fazendo as minhas próprias unhas, na frente do meu PC. Não é difícil, só exige manejo de ambas mãos (controlar o pincel do esmalte com a mão que você não domina escrita é uma desgraça no começo).

    Eu cortei amizade com maioria dos amigos que furava isolamento social, e nem foi necessariamente pelo fator pandemia. O buraco é mais embaixo. E sim, tentei conversar, tentei mostrar porquê ficar saindo com “todos os protocolos de segurança” não funcionava. Enxerguei coisas ainda mais assombrosas nessas pessoas quando parei para prestar atenção: egoísmo, dissimulação, egolatria, carência, instabilidade emocional, etc.

    Aliás, muita gente é bom amigo e confiança até brigar com ela. Aí que você conhecerá a pessoa de verdade.

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    • Justamente, não é pelo ato em si e sim por aquilo que ele diz sobre a pessoa.
      Pessoas assim não estão alinhadas comigo e não me interessam.

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  • Denuncio mesmo. Gente que sai na rua sem motivo pra contaminar os outros numa pandemia não merece minha amizade.

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