Assombração.

Lauro tinha muitas contas para pagar. Tantas que achou um jeito de monetizar até mesmo o próprio sono: o emprego de vigia noturno numa construção abandonada era a solução perfeita para uma renda extra fora do horário comercial. A fama de local assombrado garantia que nem mesmo mendigos e viciados tentassem invadir o local. Então, entre uma ronda e outra, aproveitava para cochilar em sua cadeira.

Naquela noite, já havia perdido a primeira ronda por não acordar a tempo, e mesmo sabendo que a fama do prédio era segurança melhor do que qualquer um poderia providenciar, se esforçou para levantar e fazer seu trabalho. Lauro cresceu numa comunidade carente extremamente violenta, e desde cedo aprendeu que medo se tem de gente, não de fantasmas.

Por vezes os longos corredores do que era um manicômio desativado há várias décadas atrás apresentavam vultos e sons estranhos, mas ele acreditava que se havia algo lá junto com ele, parecia disposto a manter distância. Acordo tácito que respeitava à sua própria maneira:

“Estou indo para o segundo andar.” – Lauro, munido apenas de uma lanterna, sempre avisava seus próximos passos. Ninguém deveria estar por lá para ouvir sua voz, mas o hábito passava uma sensação de segurança.

Acreditava que ao informar suas ações para quem quer que estivesse lá, se alguém estivesse lá, demonstrava respeito e permitia que a política de distanciamento pudesse continuar valendo.

“Vou abrir todas as portas da direita, e depois vou voltar abrindo todas as portas da esquerda.” – dizia num tom calmo, volume baixo.

Ele segue abrindo e iluminando os interiores de cada um dos quartos do segundo andar, cujas portas eram reforçadas por barras de ferro externas. Lauro imaginava que coisa boa não acontecia com os internados ali se precisavam de barras como as de uma cadeia. Rezava a lenda que vários pacientes morreram nas celas, seja por suicídio ou por erros grotescos dos médicos.

O manicômio ficou aberto por mais de quatro décadas, e estava fechado há três. Para evitar que pessoas se instalassem por lá e complicassem a venda do terreno, a empresa dona da massa falida mantinha sempre alguém no local. O último vigia noturno trabalhou por mais de 25 anos antes de ter um ataque cardíaco fatal, ali mesmo. O que garantiu uma total falta de concorrência pelo trabalho. Lauro arriscou, e pelos últimos anos, parecia estar ganhando.

Uma tia sua, umbandista, dizia que não via nenhum espírito ruim andando junto com ele. Apesar de ser evangélico, Lauro tolerava esse sincretismo quando lhe dava boas notícias. Seu método funcionava: os fantasmas até podiam estar por lá, mas sua fé e seu respeito o mantinham protegido.

Já no final do longo corredor, numa área aberta onde provavelmente ficavam os enfermeiros e médicos de plantão, ele nota um vulto atravessando para dentro de um dos quartos. Não foi o primeiro que avistara ali, quase toda noite alguma coisa do tipo acontecia. Ele segue com passos lentos, mas firmes, marcando com o som sua aproximação.

“Agora eu vou entrar no último quarto à direita.”

Das últimas incontáveis vezes que fez essa rotina, sempre deu de cara com a mesma cena: um quarto vazio, apenas com uma elevação de cimento onde provavelmente ficava a cama do paciente, uma janela apodrecida com vidros quebrados e um ralo no canto oposto. Mas dessa vez, uma novidade. A primeira em anos.

Uma mulher estava sentada na elevação, pele alva e longos cabelos escuros escorrendo pelos ombros e escondendo seu rosto. Ela não vestia roupas. Lauro se assusta.

“Eu não quero problema…” – ele começa a se afastar lentamente, tirando a lanterna da direção da mulher.

“Eu quero conversar com você.” – a voz dela é rouca, sem emoção.

“Eu fiz algo que vocês não gostaram?” – Lauro coloca o braço na frente dos olhos, envergonhado pela nudez de sua acompanhante.

“Não. Qual é o seu nome?”

“Lauro.”

“Não vai perguntar o meu?”

“Desculpa, eu… eu fiquei meio assustado… qual o seu nome?”

“Edith. Eu fui uma das primeiras que eles trouxeram para cá, sabia?”

“Eu sinto muito… eu ouvi falar que tratavam vocês muito mal.”

“Sim. Eles enfiaram um espeto pelo meu olho. Chacoalharam até eu parar de sentir. Lobotomia.”

“Não é crime fazer isso?”

“Não era. Mas depois que eu parei de lutar de volta, eles fizeram vários crimes comigo. Todos os dias.”

Lauro baixa um pouco o braço e olha na direção dela. Ela está de pé agora. O corpo todo exposto diante dele.

“Desculpa!” – ele tapa os olhos novamente.

“Minha mãe parou de me visitar. Meu pai e minhas irmãs nunca vieram. Então, eles pararam de me vestir para facilitar as coisas.”

“Moça… ninguém merece isso. Por que você continua aqui? Eu tenho certeza que Jesus vai te aceitar no Céu.”

“Eu… eu… eu não sei porque eu continuo aqui. Pode abrir os olhos, eu não me importo.”

Lauro abre os olhos, e depois de uma leve vacilada, faz contato visual com Edith. Apesar da expressão perdida, há uma doçura em seu olhar. Seu rosto é delicado e pálido, com dois grandes olhos cor de mel. Ela é muito bonita.

Ela sorri.

“Edith, eu… eu sou evangélico, casado e tenho duas filhas. Não quero ser mal-educado, mas eu não acho certo eu ficar falando com uma mulher pelada.”

Ela olha para o próprio corpo e olha de volta para ele.

“Você me deseja?”

“Você é linda, mas eu já disse que sou casado.”

“Você não respondeu à pergunta.” – ela começa a se aproximar.

“Não…” – Lauro permite a aproximação.

“Você é tão mais novo que o último que passava as noites comigo.”

Edith passa a mão sobre o peito de Lauro. Ele consegue sentir o toque dela. Ela tem um cheiro adocicado, muito leve. A mão dela começa a descer. Ela a segura. O corpo dela não é gelado como imaginou que seria.

“Não posso, moça. Eu sou fiel.”

Ela dá um riso curto. Morde o lábio e olha bem em seus olhos.

“Você não sabe o que está perdendo. Eles não aguentavam um dia sem mim.”

“Eu não sou igual a eles.”

“É isso que vamos descobrir. Até amanhã, Lauro.”

Ela se afasta com passos lentos rumo à sombra, de onde entra para não sair mais. Lauro fica pensativo por alguns segundos, e resolve terminar a ronda mais cedo. De volta à sala da segurança, ele faz uma ligação:

“Amor, desculpa te acordar, mas aconteceu uma coisa muito bizarra…”

“Ela descobriu?” – a voz do outro lado vem assustada.

“Não! Não… fica tranquilo.”

Para dizer que o elemento mais sobrenatural da história está explicado, para dizer que não sabe o que acabou de ler, ou mesmo para dizer que precisou reler várias vezes o final para entender: somir@desfavor.com

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