Hipocrisia natalina.

O Natal se aproxima, para comemorarmos o nascimento do Papai Noel (ou algo assim) e a imensa hipocrisia de celebrar relações que não funcionam o resto do ano inteiro. Sally e Somir discordam sobre os impactos da pandemia nessa parte da data comemorativa. Os impopulares comemoram.

Tema de hoje: a pandemia está servindo para deixar as pessoas menos hipócritas no Natal?

SOMIR

Não. A verdadeira hipocrisia sempre esteve em nossos corações, o Natal é apenas um meio de expressar. Por mais que a pandemia tenha reduzido um pouco a escala de comemorações populares, a única coisa que muda na verdade é onde as pessoas exercem sua hipocrisia. Se estamos nos vendo menos, vamos ser hipócritas à distância.

E é aqui que eu vou exercer um pouco de compreensão: hipocrisia é inerente ao ser humano. Falar algo e fazer diferente é praticamente inevitável no passar da vida. Somos muito críticos aqui, mas nunca sob a expectativa inocente de que é possível eliminar o erro da vida. Quando eu falo sobre hipocrisia como algo negativo, não quer dizer que eu seja imune ao comportamento e por isso “tenho moral” para falar. Muito pelo contrário, só por ser falho e ter experiência com isso que eu acredito saber explorar o tema.

Eu me pego sendo hipócrita várias vezes, a questão é a forma como você encara o assunto: ao invés de entrar em negação, tentar lidar com a situação e corrigir o problema. E se não der para corrigir totalmente, já é um excelente passo corrigir parcialmente. É hipócrita viver às turras com sua família o ano todo e fingir paz e união por causa da data no calendário. Assim que percebi o erro desse comportamento, comecei a tomar atitudes mais condizentes com a verdadeira relação que tenho com as pessoas da minha vida.

Se eu quero a pessoa por perto no resto do ano, quero por perto no Natal. Se não quero, é porque não é uma boa relação. E essa análise não depende da data especial, é algo que você desenvolve no resto do tempo. Faça esforços para atrair quem te faz bem e corte ou reduza o acesso de gente que te faz mal. A situação hipócrita do Natal se constrói durante um ano de más escolhas.

E é por isso que eu defendo o ponto que defendo hoje: se as pessoas não estão trabalhando para corrigir as relações que tem durante o ano, não tem como a pandemia corrigir isso sozinha no Natal. Primeiro, temos que falar do Brasil em geral: nem quando estavam morrendo milhares de pessoas por dia esse povo sossegou a bunda em casa. Agora que as vacinas conseguiram evitar a maior parte das internações e óbitos, é muito difícil imaginar que o brasileiro médio vai se controlar de alguma forma.

Pra média do povão, a pandemia acabou e só se der outro desastre à lá Manaus que vão pensar em mudar de atitude. O que restam são apenas uma minoria de gente que sabe que hora de atenção e não alívio, e algumas regras do poder público (que varia de cidade a cidade) ficando cada vez mais e mais impopulares.

Nesse contexto, não acredito que tenhamos nenhum impacto na hipocrisia natalina. Vai ter muita gente forçando relações que não quer ou que não tem capacidade de corrigir, pela obrigação social de reunião natalina. E mesmo que as pessoas tenham ficado um pouco mais distantes durante o ano, não é como não tivessem munição para se detestar: a estúpida divisão política que virou o novo esporte nacional garante que tudo seja “assunto-bomba” nas reuniões de final de ano.

A pessoa passou o ano sendo exagerada na internet e possivelmente esqueceu como a vida real presume muito mais conversa para encontrar um lugar comum com o outro. Se estiver faltando convivência física para transformar em brigas e clima ruim no Natal, é só alguém falar Bolsonaro ou Lula para a tradição se reestabelecer.

E nesse ponto específico, eu nem culpo Lula ou Bolsonaro: as pessoas só precisavam de uma desculpa mesmo, calhou dessa ser popular. O ser humano não muda de um ano para o outro, vai ser a mesma tentativa fútil de projetar união e bons sentimentos sem vontade nenhuma de fazer isso de verdade. E como para boa parte da população a pandemia simplesmente não existe, não é como se tivesse o que fazer diferente.

Para você mudar uma forma de pensar, você precisa pensar antes. Essa hipocrisia natalina nunca foi compreendida o suficiente pelas pessoas, então nem tem o que mudar. Voltando ao argumento de que somos todos hipócritas, eu só consegui ser menos nessa categoria porque eu reconheci o problema e adaptei minha vida para não fazer mais desse jeito. Não tem fenômeno externo que mude algo que a pessoa nem sabe que está fazendo.

E se acontecer um desastre e aparecer uma variação que nos faça andar de traje para radiação na rua, as pessoas vão ser hipócritas no Natal pela câmera do celular. A pandemia só mudou as moscas.

Para dizer que é raro eu ser o pessimista, para dizer que nunca é hipócrita e nunca mente, ou mesmo para dizer que agradeceu pela Ômicron por ter desculpa para fugir de reuniões: somir@desfavor.com

SALLY

A covid está servindo para deixar as pessoas menos hipócritas no Natal?

Sim. Mas não por questões de caráter e sim por falta de energia mesmo.

Em um mundo ideal, as pessoas refletiriam sobre suas prioridades, sua vida e sobre a forma como tratam o planeta quando expostas a uma pandemia. No mundo real, parece que ninguém aprendeu nada e quem podia ficar ainda mais filho da puta/burro, ficou. Porém, acredito que as pessoas estão menos hipócritas sim, por não terem mais energia para manter os velhos rituais de falsidade.

Mesmo quem não leva a pandemia a sério está de saco cheio e com menos paciência, pois a pandemia, muito além de mortes e contágios, gerou outros efeitos que impactaram a vida de quase todos: problemas econômicos, demissões, convivência maior com filhos, parentes ou cônjuges, gastos extraordinários e novos hábitos de vida.

Tudo isso demanda tempo e energia para processar e incorporar à sua rotina. Mesmo quem não fez quarentena, mesmo quem continuou trabalhando, teve que fazer alguma mudança em sua vida: que seja comprar uma máscara ou fazer um PCR. Poucos são os que não estão sentindo os efeitos do aumento de preços ou o medo de uma demissão. Por mais arrombada que a pessoa seja, tudo isso impacta, cansa, exaure – e sobra menos energia para tudo, inclusive para ser hipócrita.

Se não acredita em mim, contabilize: veja quantas pessoas este ano vão te dar uma “lembrancinha” de presente só por obrigação ou vão te mandar aquela mensagem pronta de Natal que mandam para todos os contatos. As pessoas estão putas, estão cansadas, estão até meio malucas, fora de si. Não sobrou nem tempo nem disponibilidade emocional para teatrinho social.

A pandemia abalou a saúde mental de todo mundo. Para quem já estava meio abalado antes, quem tinha alguma questão grande para resolver, quem tinha muita sujeira debaixo do tapete, a pandemia acabou funcionando como a gota que transborda o copo d’água e joga a pessoa na paciência/vontade zero de socializar ou no remédio tarja preta ou no manicômio, dependendo da intensidade do que acumulou.

E, como vocês já devem ter percebido, são poucos os brasileiros com a saúde mental em dia, zero bala, que podem colocar por cima uma pandemia, medo, crise e estresse e, ainda assim, continuarem como antes. A maioria tá no modo zero paciência ou tarja preta (e alguns no manicômio). E não acho demérito, o brasileiro não tem um minuto de paz, não tinha espaço para cair uma pandemia por cima do que as pessoas já enfrentavam.

Vocês hão de convir que uma pessoa com a saúde mental baqueada tem como prioridade cuidar de si. Também é fato que passar por esse tipo de problema drena energia. Então, combine esses fatores e observe que não sobra muito recurso para fazer a parte de perfumaria, a parte de hipocrisia social, se forçar a falar com quem não quer, a estar onde não quer, a fazer o que não quer fazer.

Por mais falsa e arrombada que a pessoa seja (isso não muda), acho que agora todos estão escolhendo melhor as suas batalhas. Se tiverem que adular alguém vai ser o chefão e não todos os colegas de trabalho. Se tiverem que ligar para alguém vai ser para a mãe e não para você. Se tiverem um tempo livre vão descansar e não fazer cartãozinho de Natal.

“Mas Sally, aqui tá todo mundo se comportando como se não houvesse pandemia”. Sim, mas a pandemia é real, portanto, é sentida, acreditando ou não nela.

Basta ver o aumento no número de consultas psiquiátricas, na prescrição de remédios, nos colapsos nervosos que vão parar no hospital, no número de divórcios, brigas, nas ocorrências policiais envolvendo parentes e vizinhos. Por mais que alguns discursem que não acreditam na pandemia, ela os impacta também. E um dos resultados desse impacto é não ter força/tempo/energia para fazer o cortejo social com pessoas das quais não se gosta.

Mesmo quem está com o “foda-se” ligado, saindo mais do que antes, bebendo mais do que antes, fazendo mais merda do que antes, também está com o “foda-se” ligado para rituais sociais. Pelo pouco que vejo à distância, parece estar todo mundo de saco cheio de tudo e todos e com o pavio muito mais curto. Gente nesse estado não tem qualquer condição de ficar sorrindo, conversando e presenteando pessoas que não suporta.

E acredito que até mesmo do outro lado, do adulado, da pessoa que recebe o afago falso, também pese a falta de paciência. Se em uma época eguinhos inchados adoravam receber hipocrisia social, agora acho que isso passou a ser muito secundário. O mundo desceu um degrau na pirâmide de Maslow, no momento, a preocupação da maioria é básica: comer, pagar as contas, ter um trabalho, não morrer. Não dá tempo para os adereços, isso é coisa de sociedade que está com o resto resolvido.

Quem continua fazendo esse tipo de ritual social: quem faz de coração, sem falsidade (e, nesse caso, não há hipocrisia) e quem depende dele para sobreviver. O resto? Eu duvido muito. E vocês já devem ter percebido isso, ou vão perceber, ao longo das datas comemorativas.

Não há tempo, não há dinheiro e não há paciência para encenar rituais sociais hipócritas. Óbvio que com as pessoas que a gente gosta sempre haverá carinho, mas aí não é hipocrisia, certo? É genuíno. Hipocrisia é ficar elogiando, socializando, presenteando pessoas que você detesta, não suporta, despreza. E isso eu acho que o brasileiro está fazendo menos. Zerou? Parou de fazer? Claro que não. Mas está fazendo menos, em intensidade e/ou em quantidade.

Para dizer que não só não fazem rituais sociais como estão se mandando à merda com muita facilidade, para dizer que foda-se o Natal ou ainda para dizer que vai esconder as facas na ceia para não ocorrer um crime na sua família: sally@desfavor.com

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Comments (8)

  • Mulher joga spray de pimenta em crianças por causa de spoiler do filme do Homem Aranh, homem dá um soco no atendente de não sei o que porque ele pediu comprovante de vacinação. País emocionalmente instável. É maluco pra tudo quanto é lado.

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  • Aí está uma coisa que eu não entendo. Os fulaninhos reclamavam todo ano das festinhas sacais e faziam futrica pelas costas uns dos outros mas agora que tem uma boa desculpa pra não ter que olhar na cara de ninguém, ficam querendo se reunir. O covid mandou lembranças, tá? Hipócritas merecem ir pro inferno e passar a eternidade com a sensação de estarem cagando um abacaxi de lado.

    Pelo que tenho visto com pessoas próximas, eu concordo com a Sally. Na minha família pelo menos, mesmo antes da pandemia ninguém mais tinha saco pra dizer hipocritamente “Boas Festas” pra parentes com quem mal convivem e só veem poucas vezes no ano. Agora, então, é cada um na sua casa, com suas respectivas esposas e filhos e dando no máximo um telefonema aqui e ali só pra data não passar em branco.

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    • Ao mesmo tempo que as pessoas estão bem loucas e trocam sopapos por qualquer divergência, também perderam a paciência para fazer social

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