Guerra à vista?

A Rússia está com mais de 100.000 soldados nas fronteiras com a Ucrânia, e os últimos encontros entre diplomatas foram considerados um fracasso. Sob o risco de ser desmentido nos próximos dias, eu desconfio que tudo isso não vá passar de tensão. Porque no final das contas, é a tensão que realmente funciona no mundo moderno.

Sim, o ser humano se amarra numa guerra, nunca passamos muito tempo da nossa história sem uma delas. Mas desde as duas grandes guerras do começo do século passado, descobrimos que ficamos bons demais nisso. Apesar do que você vê em séries e filmes históricos, as batalhas do passado não eram tão sangrentas assim.

Claro, as pessoas lutavam com pedaços de metal afiados frente a frente, mas apesar da brutalidade do combate direto, no final das contas o grande objetivo não era matar o exército inimigo, e sim fazê-lo fugir. Demora muito para matar milhares de pessoas com espadas e lanças, e não se faz isso sem perder muitos soldados do seu exército. O padrão era ter um embate violento das linhas de frente até um dos lados perder a coragem e sair correndo.

Não estou ignorando as atrocidades do passado, estou apenas dizendo que não era realista matar todos os adversários. O ser humano ainda era ser humano: quase ninguém está disposto a lutar até a morte. E digo mais, quase ninguém está disposto a matar outras pessoas. As batalhas do passado se resolviam muito mais com fugas do que com massacres. O que é totalmente compreensível.

O tempo avança e a tecnologia também. As guerras começam a ficar mais e mais mortais, alcançando o ápice do terror nas primeiras décadas do século XX. Todo mundo com armas de fogo, tanques, aviões e bombas? Não só fica mais fácil matar o outro pela mecânica da coisa, como psicologicamente também: soltar uma bomba em cima de milhares de pessoas é mais fácil de aceitar na mente do que atirar na cabeça de um inimigo na sua frente. Impessoalidade mata muito mais fácil.

Não à toa, o principal conflito pós-guerras mundiais ficou conhecido como Guerra Fria. Ainda com muitas mortes, mas com ninguém disposto a ir para a guerra de peito aberto. As bombas atômicas foram parte importante desse novo autocontrole humano. Complicado atacar quem pode vaporizar suas maiores cidades em minutos.

Com a queda (basicamente econômica) da União Soviética, o mundo entrou numa fase de relativa tranquilidade, pelo menos no quadro geral. Ainda tivemos algumas guerras nesse meio tempo, mas as maiores foram basicamente os EUA pisando na cabeça de países sem capacidade de revidar. Muita gente morreu, mas nem perto do banho de sangue da primeira e segunda grandes guerras poucas décadas antes.

Mas, por que todo esse papo?

Simples, hoje em dia a única coisa que faz sentido é entrar em guerras rápidas. A própria Rússia fez isso ao anexar a Crimeia, que era território ucraniano. Se eles não acreditassem que conseguiriam tomar a região em questão de horas, jamais teriam se enfiado nessa situação. Com a tecnologia atual, é muito fácil transformar qualquer resistência num desastre sem fim, vide EUA no Afeganistão.

Ou você age rápido, da forma mais limpa possível, ou você não age. Isso é a guerra do século XXI. Dois minutos depois do seu exército atravessar uma fronteira, o mundo todo sabe o que está acontecendo. O povo que está sendo invadido consegue se organizar rapidamente. Ou você tem certeza que vai tomar todo o território que quer antes de conseguirem montar uma defesa, ou você fica na sua.

O ser humano ficou bom demais em guerra. Sabemos o que fazer em virtualmente qualquer situação, considerando, é claro, que o adversário obedeça a algumas regras básicas como não partir para a destruição total. Os EUA têm capacidade de transformar a maioria dos países do mundo em pedacinhos com seu arsenal normal e nuclear, mas o mundo moderno não permite mais esse tipo de mentalidade. Estamos conectados demais.

A guerra do século XXI é diferente. Se você ficar preso numa invasão, dá tempo das coisas ficarem terríveis para você. O mundo reage de diversas formas, e qualquer atraso ou excesso de violência no processo te coloca numa situação perigosa. A Rússia tem mais de 100.000 soldados nas fronteiras com a Ucrânia, mas sabe muito bem que seria uma guerra horrível e longa para tomar o país. Especialistas estimam que eles precisariam dobrar o número de soldados para sequer começar o processo de invasão.

Mas eu aposto que não vão fazer isso. A Ucrânia é um país enorme e suficientemente modernizado. Os russos estão preocupados com o avanço dos EUA sobre as antigas constituintes da União Soviética, e está tentando manter algum controle sobre a região. Não querem a Europa e os EUA colados em suas fronteiras. A cortina de ferro foi criada justamente para ter um espaço entre a União Soviética e a zona de influência ianque. Com o passar das décadas, essa área foi ficando cada vez menor.

É por isso que Putin exige que a Ucrânia nunca seja integrada à OTAN, porque não quer um país protegido pelos EUA na sua fronteira. E mais, não querem uma democracia funcional colada na sua borda. O que a Rússia quer é ditadores malucos ao seu redor, que possa influenciar para não dar respiro para seus rebeldes. Nada pior para o poder russo do que ter territórios “seguros” para seus dissidentes colados na sua borda.

Por isso, os russos estão criando tensão. Guerra de verdade seria um desastre para eles, seria um desastre para o mundo todo, para falar a verdade. Não acredito que viraria um embate nuclear, até porque nem na fase mais fanática do poder comunista soviético lançaram os mísseis.

Mas até mesmo uma guerra tradicional seria terrível para os russos: podem até ganhar as primeiras batalhas, mas assim que o mundo ocidental começar a financiar e apoiar os países invadidos, a Rússia estaria com uma guerra sem fim nas mãos. Não pode vencer a guerra na “ignorância” atirando para matar todos os adversários, afinal, abriria precedente para ser atacada pelo resto do mundo; e não pode vencer a guerra de atrição, porque se uma grande economia se colocar ao lado dos ucranianos, já é o suficiente para dar energia de sobra para a resistência e fazer a guerra se arrastar por vários meses, quem sabe anos.

E os russos sabem muito bem como ter parceiros logísticos muda toda a lógica da guerra: venceram os alemães com o apoio financeiro dos aliados. Era para serem massacrados por Hitler, mas com tantos recursos vindos dos EUA e da Inglaterra, viraram o jogo. A história de perder para o inverno é mais mito do que verdade, os nazistas perderam a guerra dos recursos. Os soviéticos fizeram o grosso da batalha, mas só funcionou porque os EUA fizeram o grosso da logística e produção por trás dos panos.

A verdade é que a Rússia quer tudo menos ter que invadir a Ucrânia. E o resto do mundo sabe disso. Assim que os russos apontarem seus recursos para essa guerra, a OTAN começa a financiar os ucranianos. E aí, boa sorte vencendo a guerra de recursos. Se conseguirem segurar a Rússia lutando uma guerra de invasão por alguns meses, Putin já deve perder a capacidade de controlar seu país.

A conversa dos diplomatas não avança porque a tensão é o que a Rússia quer de verdade. Só quer segurar o governo ucraniano para não aceitar entrar na OTAN. Os EUA e a União Europeia sabem que podem pagar pra ver o que a Rússia vai fazer, porque no final das contas, salvo uma insanidade russa sem volta de usar armas nucleares, essa guerra está no bolso. Literalmente. Os russos não podem pagar por uma guerra longa.

Mas ao mesmo tempo, EUA e União Europeia tem que manter a imagem de quem não quer uma guerra. Seria algo extremamente impopular em democracias modernas. Não pega bem aceitar que os ucranianos sofram uma invasão por saberem que ganham no final das contas. A situação fica travada nesse ponto porque ainda está confortável para os russos.

Eles querem “recriar” a União Soviética, mas sem aquela pressão de controlar os países ao seu redor. Um bando de governantes fantoches ao seu redor é suficiente para manter o país com o poder que desejam. Putin sabe que o passar dos anos nunca é positivo para sistemas autocráticos. É esperado que com o passar dos anos os russos comecem a se rebelar mais e mais contra seu controle. A ilusão de democracia não dura pra sempre, especialmente se a economia começar a vacilar. A pandemia não ajudou ninguém nesse campo, e o governo russo sabe que a coisa começa a ficar mais e mais complicada.

O pedido dos russos é absurdo e nunca vai ser aceito pela OTAN, prometer que nunca aceitarão a Ucrânia é impossível: viola a soberania ucraniana. Tudo o que a OTAN não quer é dizer para seus membros que eles não têm poder de escolha e que no final das contas só fazem o que os EUA quiserem. Mesmo que todo mundo saiba que isso é verdade. É o jogo de aparências que segura tudo funcionando.

Seja como for, não deixa de ser fascinante como a tecnologia mexeu com toda a lógica das guerras na humanidade. A ameaça de guerra é suficiente para resolver vários problemas, e mesmo todo mundo sabendo que uma guerra seria um desastre para a Rússia, todo mundo tem que fingir que a ameaça é real, senão passam mensagens erradas para quem estão controlando. Desde o final da União Soviética a Rússia é mestre em ficar criando confusão para manipular a opinião pública internacional. Só assim eles conseguem manter sua esfera de poder.

Os EUA sabem que a Rússia não quer começar essa guerra, mas tem que fingir que acreditam. A Rússia sabe que os EUA não vão colocar a OTAN nas bordas deles, mas fingem que acreditam nessa possibilidade. É o suficiente para manter a tensão e continuar exercendo o poder que tem. Ninguém quer que um dos dois países resolva ir para a briga, então vão engolindo os pedidos que fazem. A guerra do século XXI é realizada em computadores e opinião pública.

Tiros e bombas são coisas de povos atrasados. Tensão é a guerra do futuro. Eu aposto que não vai sair nada dessa história, nada que não sejam acordos que deem vantagens para EUA e Rússia em troca de concessões de países pegos no meio dessa disputa. A Guerra Fria evoluiu.

Para dizer que queria ver guerra, para dizer que nem sabia que isso estava acontecendo, ou mesmo para dizer que esse texto vai ficar engraçado quando a Rússia invadir a Ucrânia: somir@desfavor.com

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Comments (12)

  • Os fãs de geopolítica e os jornalistas sempre se empolgam com essas tensões, mas todo mundo sabe que não vai dar em nada. Em 2020 foram as tensões EUA-Irã, em 2017 foram as tensões EUA/Japão-Coreia do Norte e seus mísseis, em 2015-2016 foram as tensões dos refugiados na Europa e assim vai.

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  • Política internacional e diplomacia tem uma boa dose de teatro.
    Agora, superestimar o Lend Lease é sinal de ignorância: algum T34 foi produzido nos Estados Unidos? Que aviões a União Soviética recebeu além do P-39? A colaboração no fornecimento de suprimentos foi notável, mas quantos SOLDADOS os aliados forneceram? Sem o vigor soviético (com sua lamentável indiferença pela vida dos soldados), provavelmente nenhuma supremacia técnica seria suficiente para vencer a Alemanha, exceto várias bombas nucleares, que seguramente não seriam produzidas em série rapidamente.

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  • Então no fim das contas ninguém vai partir de verdade para as “vias de fato” porque o preço a se pagar por isso ficou caro demais. E em – muito – mais de um sentido. Realmente, o ser humano gosta de complicar as coisas. Até as guerras…

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  • Percebam que todo janeiro tem uma “ameaça” de guerra e nunca dá nada.

    Se o Putin não quer que o leste europeu caia na tentação da liberdade, do dinheiro e do desenvolvimento prometidos pela União Europeia, esse modo de agir parece um tiro no pé. Seria mais eficiente levar pra esses países tudo o que a União Europeia promete antes dela, a meu ver. Só que sem permitir o sexo anal, já que no fundo é isso que importa.

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    • Será? Espero que tudo fique mesmo só na ameaça, mas a Rússia, até onde eu sei, não costuma brincar com essas coisas.

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      • O que a Rússia mais faz é brincar com essas coisas, assim como todos os países minimamente desenvolvidos. O mundo não comporta mais guerras de tiro, porrada e bomba como antes, ainda mais depoos do prejuízo que a pandemia tem causado.
        E pela situação do Putin dentro de casa, ouso dizer que ele está tentando cultivar a imagem de macho man e recuperar um pouco da popularidade, que costuma dar uma subida quando ele faz essas palhaçadas pra demonstrar poder. Tem um tempinho que não me atualizo sobre política interna russa, mas isso é típico dele.

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