Dividindo o núcleo.

Aproveitando o ensejo da guerra na Ucrânia e as ameaças “veladas” de Putin, resolvemos discutir um dos elementos mais impactantes de disputas militares modernas: armas de destruição em massa. Sally e Somir discordam de quem pode ou não pode ter. Os impopulares se armam.

Tema de hoje: que nações podem ter armas de destruição em massa?

SOMIR

Aquelas que tem economia para bancá-las. Isso pode até parecer que seja uma defesa de todo mundo ter, mas não é. O tamanho necessário para um país ter armas nucleares é bem mais do que a maioria de vocês está imaginando. Não é só sobre ter dinheiro para produzir e fazer uma manutenção básica dos equipamentos, isso praticamente todos os países do mundo têm. É sobre ter peso no cenário mundial.

Nos tempos da Guerra Fria, Estados Unidos e União Soviética tinham esse peso. Por mais que o modelo soviético tenha falhado no final das contas, durante seu auge teve a capacidade de manter o mundo polarizado, sustentando até mesmo outros países alinhados politicamente. A situação naquela época permitia que ambos tivessem suas bombas atômicas e que tivessem muita cautela na sua utilização.

Com zonas de influência gigantescas, os pesos pesados da última metade do século passado tocavam o mundo e começavam o processo de globalização. Mesmo os russos e seus estados satélites plantaram sementes da imensa conexão econômica da qual o mundo tanto depende hoje em dia. Os recursos de vários países comunistas eram trocados ao redor do globo, e mesmo que não obedecessem às regras do capitalismo, ainda sim geravam essa rede de interdependência da qual estou falando aqui.

EUA e URSS tinham economias monstruosas que se espalhavam mundo afora, e meu argumento aqui é que isso foi essencial para que uma guerra nuclear fosse evitada. Quanto maior seu país, mais gente está envolvida em cada decisão, maior sua elite e maior a disputa pelo puder. Americanos e russos não se matavam porque sabiam que ambos os lados pagariam um preço imenso pelo conflito.

Era uma questão de tamanho e equilíbrio. Mesmo que aliados das duas superpotências do século passado tivessem também suas armas de destruição em massa, sofriam uma regulação firme dos líderes de cada bloco. Usar essas armas significaria quebrar o funcionamento da economia global, e nenhum dos lados estava disposto a perder a base do seu poder. A União Soviética não era respeitada só por ter armas e soldados, ela era a base do funcionamento econômico de boa parte do mundo.

Com grandes poderes, vem grandes responsabilidades. Um país que adquire um arsenal nuclear sem necessariamente ter poderio econômico e político para sustentá-las é um país que não pode ter uma bomba com esse potencial de destruição. Não se coloca um canhão na mão de uma criança. É complicado colocar regras muito específicas nisso, mas eu já acharia razoável que no máximo as duas ou três maiores economias do mundo pudessem ter armas de destruição em massa. São os países que mais poderiam cuidar delas e teriam a menor tendência de utilizá-las.

O mundo ideal seria ninguém ter, mas isso não se desfaz mais. Depois que a bomba atômica foi criada, alguém sempre vai ter um arsenal. Por isso, eu não acho errado quando tentam controlar países pequenos que querem produzir as suas. Quanto menor sua economia, menos conectado você está com o resto do mundo, menos influência você exerce… e por tabela, se torna um país muito menos confiável na posse de uma dessas armas.

A Rússia é uma economia muito menor do que foi a União Soviética, mal compete com a brasileira, para vocês terem noção. Por mais que tenham peso no cenário mundial por causa do tamanho do seu exército, não é como se fossem de valor incalculável para o resto do mundo. Tanto que estão recebendo sanções atrás de sanções por causa da invasão na Ucrânia. O mundo não fica feliz tendo que cortar a Rússia da globalização, mas com certeza pode se adaptar e ficar sem ela.

E isso é o grande perigo: se você não é grande o suficiente para todo mundo ter que prestar atenção em você, você não tem segurança suficiente para negociar de outras formas que não com ameaça de violência. A Coreia do Norte, por exemplo, só “existe” no mundo porque faz alarde sobre suas armas nucleares. Não fosse por isso, seria ignorada solenemente, seria uma Cuba asiática, que todo mundo esquece que existe de tempos em tempos.

A China com certeza tem bombas atômicas. Alguém aqui ouviu falar de qualquer ameaça nesse campo por parte deles? Eles não precisam, e mais importante, eles não querem ser lembrados por isso. A China tem economia e conexões globais o suficiente para negociar tudo o que quiser e precisar. Ela provavelmente está acumulando bombas para desmotivar quem quer que tente usar a força contra o país, mas enquanto for a segunda maior economia do mundo, o risco de ser quem começa uma guerra nuclear é quase nulo.

Assim como os EUA. Eles estão tão na frente do resto em quase tudo que ninguém imagina que os americanos vão lançar o primeiro míssil. Existe segurança em números econômicos. Segurança global. Eu sei que não parece justo que só alguns países tenham essas armas, mas esse mundo não é justo, vantagens tendem a se acumular. O perigo de um país com uma economia mediana como a russa ter tantas bombas é o perigo de dar uma arma na mão de quem não tem nada a perder e pouco com o que negociar.

Quem SÓ tem arsenal nuclear para negociar é um macaco com uma navalha. A condição mais lógica para ter arsenal de destruição em massa é ter capacidade de não precisar usar. China e EUA brigaram feio no campo econômico, vivem se acusando e discutindo, mas ninguém sonha em guerra nuclear entre eles. A China não ganharia por causa do volume de bombas que o outro lado tem, mas com certeza faria estragos permanentes nos americanos. Não é como se não pudessem usar essa ameaça, mas é muito mais inteligente e eficiente usar economia para disputar.

A Rússia não tem isso. A Rússia tem petróleo, gás, trigo e potássio para negociar. Coisas que até dão trabalho de substituir, mas não são impossíveis de achar em outro lugar. A economia russa é pequena demais para negociar nesses termos com o mundo. Ela só tem um exército grande, que honestamente, hoje em dia nem faz mais tanta diferença, e seu imenso arsenal nuclear.

É por isso que Putin precisa ficar ameaçando usar, não por vantagem estratégica, mas por estar encurralado. Se você não tem condição de se impor no mundo com seu poderio financeiro e diplomático, não poderia ter esse tipo de arma. Novamente, preferia que ninguém tivesse, mas é impossível que ninguém tenha. Então, que apenas países realmente grandes em todos os sentidos possam ter. Hoje em dia, eles são EUA e China. Neles eu confio para não usar. Os grandes da União Europeia entram na conta dos EUA. Talvez Índia com o passar do século. De resto, o melhor que fazemos é proibir.

Não se coloca uma arma na mão de uma pessoa assustada.

Para dizer que eu sou imperialista, para dizer que eu sou comunista, ou mesmo para dizer que o Brasil precisa ter uma para ser respeitado (nunca será): somir@desfavor.com

SALLY

Que nações podem ter armas nucleares ou armas de destruição em massa?

Nenhuma. Foda-se o regime político, o Chefe de Estado ou a ideologia do país, ninguém deveria ter. Ou, para aqueles que acham que deveria ser liberado, então que todos possam ter, assim todos tem condições de evitar a covardia que estão fazendo com a Ucrânia.

Como prometido no “Desfavor da Semana” do último sábado, esta semana teremos um compilado de tudo que você precisa saber para entender e discutir o conflito entre Rússia e Ucrânia. Este ano optamos por ignorar completamente carnaval e feriados do Desfavor e focar apenas no conflito.

A pergunta de hoje é simples: devemos estabelecer critérios para quem uma nação possa ter armas de destruição em massa? Minha resposta é: não. Critérios são inúteis. A nação que hoje é democrática amanhã pode ser uma ditadura ou pode ser comandada por um louco varrido. Não adianta nada colocar critérios subjetivos para situações voláteis, que mudam de uma hora para a outra.

Vai dizer que alguma vez na sua vida você cogitou ver um Presidente da República brasileiro que diga que não tem que tomar vacina? E que o Congresso tolere, não faça nada e o deixe continuar com isso, atrasando vacinação, matando até criança? Se perguntassem isso a alguém em 2015, a pessoa diria “Não é possível que isso aconteça, alguém vai fazer alguma coisa e impedir”. Taí Bolsonaro comandando experimentos em humanos com a Prevent Senior, atrasando compra de vacina e desencorajando o povo a tomar. A gente acha que não, mas absurdos acontecem.

A gente acha que nunca vai acontecer, que uma nação nunca vai retroceder, que “alguém vai fazer alguma coisa” para impedir, mas a verdade é que qualquer país pode acabar com um regime ditatorial ou então, mesmo mantendo a democracia, ter um maluco do caralho no poder que cometa diversos abusos. Vocês estariam tranquilos se Bolsonaro tivesse acesso a armas de destruição em massa?

Por isso eu defendo que não tem que aplicar critério subjetivo para permitir esse tipo de poder. Ser humano é uma merda, não importa a alegoria que vista aquele país: democrático, socialista, capitalista, comunista… Rotule como quiser, ser humano é uma merda e não deveria ter acesso a armas de destruição em massa.

Então, pouco importa o regime político: ou todo mundo pode, ou ninguém pode. Se você estabelece regrinhas para que apenas alguns possam, você está colocando muito poder nas mãos de poucos e dando a esses poucos a oportunidade de oprimir os demais. Quem tem armas de destruição em massa fatalmente vai “crescer para cima” de quem não tem. Gente, o ser humano é assim, não sejam inocentes. E, como bem vemos agora, não tem sanção que o impeça de fazer isso.

Imagina que um país X tem um líder justo, ponderado e centrado que conduz o país em um regime democrático. Ele ganha acesso a armas de destruição em massa. Os países à sua volta não. O Presidente desse país X é trocado, em seu lugar, sobre um desequilibrado, burro ou maluco, estilo Bolsonaro. Você faz o quê? Pede para por favor ele se desfazer das suas armas nucleares? Boa sorte tentando invadir as fronteiras dele para tomar suas armas.

Esse país X, que um dia foi justo, bondoso e democrático, agora vai virar outro país, disposto a oprimir todos os vizinhos, e terá os meios para isso, uma vez que possuí armas que os vizinhos não têm. E vai usá-las sem medo, pois sabe que os vizinhos não podem responder na mesma moeda. Mapear quem pode e quem não pode ter armas nucleares é mapear quem os países podem ou não podem atacar sem medo.

“Ain mas tem que punir quem tem regimes opressores”. Ao liberar armas de destruição em massa para alguns e negar para outros você não está punindo regimes, está punindo o povo desses países opressores – e talvez a população do mundo todo, dependendo do estrago. Você acha que um povo merece ser dizimado por ter um líder ruim? Se você acha isso, é a favor da sua própria morte, pois, no momento, seria profilático jogar uma bomba e destruir o Brasil.

Ou todo mundo pode, ou ninguém pode. “Mas Sally, se todo mundo puder, vai ter uma guerra nuclear”. Não. Muito pelo contrário. Como falamos no sábado, ter armas de destruição em massa serve como garantia de que ninguém vai usar nada parecido contra você, pois saberão que você vai responder na mesma moeda. Desde que mais de um país tem armas nucleares, nunca mais jogaram bomba atômica em ninguém, pois sabem que podem tomar de volta.

Então, perigo existe se você limitar quem pode e quem não pode ter por critérios que podem mudar do dia para a noite. Um país sabe que seu vizinho pode ter armas de destruição em massa (eu disse “pode”, nem precisa ter certeza), ele vai pensar duas vezes antes de atacar. Se ele tiver a certeza de que o vizinho não tem, pois não atende aos critérios de autorização, vai jogar bomba atômica nele sem medo.

Ainda tem o incentivo a quem não pode ter arma de destruição em massa em atacar e conquistar país que já tem arma de destruição em massa, para tomá-las para si. “Mas Sally, se eles atacarem um país que tem armas nucleares, vão se ferrar, pois o país vai se defender usando essas armas”, Sim, mas queremos isso? Queremos incentivar o ataque a esses países e o consequente uso desse tipo de arma que afeta o planeta todo?

“Mas Sally, não é um perigo permitir armas nucleares a um ditador, um tirano maluco e sanguinário?”. A história diz que não. Como eu disse, desde que mais de um país tem acesso a armas nucleares, nunca mais ninguém usou. Ditadores, tiranos e megalomaníacos no geral tem uma coisa em comum: um ego gigante. Eles não querem morrer agonizando, portanto, não vão jogar bomba em quem pode jogar outra de volta neles.

“Mas Sally, se permitir a todo mundo, como vamos ter controle e saber quem faz e quem não faz?”. Você acha que temos controle hoje? Você sabe que tipo de arma a Rússia tem? E a China? E os EUA? E a Coreia do Norte? Armas nucleares a gente até pode estimar, afinal, não se faz com sal e açúcar, é preciso urânio, que é algo que não se pode conseguir discretamente. Mas, não duvido que em breve criem substitutos sintéticos ou até novas armas de destruição em massa que nem sequer imaginamos, que nem precisem de energia nuclear.

Desculpa, mas esse trem já partiu. Não temos controle hoje de quem tem o quê e, em parte, isso nos protege, pois a mera cogitação de que um país ou seus aliados possam ter algum tipo de arma de destruição em massa já deve ter feito muita gente pensar duas vezes antes de atacar.

O problema não é a forma de governo, a economia, a ideologia ou a religião. O problema é o ser humano. Onde houver ser humano, tem que ter limitações que o impeçam de destruir aos outros e ao planeta. Ou todo mundo tem, ou ninguém tem, ambos como estratégia para desencorajar o uso de armas de destruição em massa. O ideal é que ninguém tenha, mas, se isso não for possível, que todo mundo possa ter, assim maluco tem algum receio de tacar bomba em outro país e tomar de volta algo igual, dele ou de seus aliados.

Para dizer que preferia quando se falava sobre carnaval, para dizer que tem que tomar arma nuclear do país X, como se fosse um pirulito que você pode tirar de uma criança ou ainda para dizer que está percebendo que pode ter postagem temática muito mais triste e assustadora do que FAQ Coronavírus: sally@desfavor.com

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Comments (8)

  • “Vocês estariam tranquilos se Bolsonaro tivesse acesso a armas de destruição em massa?” Eu não ficaria tranquilo em relação ao Bolsonaro nem se ele só tivesse acesso a um estilingue…

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    • Bolsonaro tem acesso àqueles blindados fumacentos que desfilaram no último sete de setembro. Não é um estilingue, mas dá quase no mesmo e, portanto, acho que não devemos nos preocupar…

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  • Tanto faz ter ou não, porque é só pra ter, ninguém vai usar, se usar acaba o mundo com eles dentro e isso ninguém quer. Toda guerra por menor que seja já fode a economia que é globalizada, imagina destruição geral. O Putin é um perfeito imbecil e vai se foder muito por isso!

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    • Puttin pode ser tudo, menos um imbecil. Ele vem gaestando essa invasão à Ucrânia há muito tempo. E, antes de se foder como gostaríamos todos que acontecesse, ele vai é foder com a vida de muita gente.

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      • Infelizmente eu concordo. Ele é bom de estratégia, ele não entraria sem considerar todos os cenários e conseguir bancar todos eles.

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        • Eu também concordo. Ninguém chega aonde ele chegou, acumulando tanto poder – e que está demonstrando agora – , nem tampouco se mantém no comando de um país por tanto tempo sendo só um idiota.

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  • “Para dizer que preferia quando se falava sobre carnaval”
    Falando nisso, a playboyzada do “fique em casa”, que passou os últimos anos demonizando o cidadão comum que precisa sair pra trabalhar, fez bloco de carnaval na rua ontem. Não é mais sobre saúde.

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