Desculpa.

Um dos elementos mais curiosos da Física é o conceito de reversibilidade: embora o tempo pareça seguir sempre numa mesma direção, não é como se existisse alguma regra fundamental obrigando as coisas a funcionarem dessa forma. Se você fizer qualquer cálculo ao contrário, “voltando no tempo”, as regras conhecidas continuam funcionando. Não existe uma quebra de realidade no tempo correndo para o passado ao invés do futuro.

Mas, até onde conseguimos enxergar, o tempo só segue em frente. Um chip de computador não se desfaz sozinho e volta a ser areia. Um objeto arremessado nunca faz o caminho de volta por conta própria. A seta do tempo não negocia com ninguém, mesmo quando exposta a velocidades relativísticas. Sim, uma nave viajando próxima da velocidade da luz vai expor seus tripulantes a uma passagem de tempo mais lenta do que a percebida por aqueles fora dela, mesmo assim, a direção do tempo é sempre a mesma.

O que nós percebemos é que isso é tudo uma grande ilusão. Veja bem: não existe nada que obrigue o tempo a seguir só numa direção. A matéria e a energia estão confortáveis em fazer o caminho oposto. Então, por que o tempo nunca volta? Oras, a resposta era simples… o tempo volta, o tempo todo. Não é a seta do tempo que segue sempre na mesma direção, é a seta da consciência.

Você consegue se lembrar de coisas que aconteceram antes deste momento, certo? Você consegue se lembrar de coisas que ainda vão acontecer? Não. Se ainda não aconteceu, os dados não podem ser armazenados na sua mente. Você se lembra da bola caindo porque nessa direção do tempo seu cérebro é capaz de organizar sinapses e reações químicas que guardem essa informação. Você precisa realizar diversas ações dentro do cérebro para guardar uma informação.

Mas, se a bola estivesse voltando para sua mão ao invés de cair, a informação estaria sendo apagada da sua mente ao mesmo tempo. O mesmo processo que faz a bola do exemplo voltar no tempo e inverter a gravidade é o processo que apaga a informação dela se movimentando do seu cérebro.

Outro exemplo: uma câmera consegue filmar a construção de um aparelho guardando várias fotos do processo em sequência. A luz que reflete nas coisas se move até a lente e é capturada. O caminho inverso no tempo seria fazer a luz sair da lente e voltar até o objeto, certo? Se a luz está saindo da lente e voltando para sua fonte inicial, é impossível fazer uma captura de imagem. Voltar no tempo é desfazer qualquer captação de informação.

Pois então: o tempo não é definitivo na sua direção. A chance de se passar um segundo para o futuro e um segundo para o passado é a mesma. A diferença entre as duas coisas é que quando você segue para o futuro, a informação fica armazenada na sua mente, mas quando vai para o passado, ela é apagada. Cada minúsculo passo do tempo pode acontecer para o que consideramos frente e para o que consideramos trás.

Se por um acaso resolvêssemos contar cada ano como positivo, independentemente de percebermos como passado ou futuro, a idade do universo pode ser incontáveis trilhões de vezes maior do que o que acreditávamos. Um piscar de olhos não dura frações de segundos, na verdade, pode durar milhões de anos… você provavelmente já viveu mais tempo que qualquer previsão de longevidade do universo.

Eu posso ter demorado um bilhão de anos para escrever essa mensagem, você pode ter demorado dez para chegar até este parágrafo. Só temos a impressão de ser menos tempo do que isso porque as únicas memórias que podemos criar são baseadas na chance minúscula do tempo escolher ir para frente seguidas vezes. A tendência é que cada ação no universo vá e volte inúmeras vezes.

Mas nós só lembramos de sequências específicas: as que seguem a seta do tempo que somos capazes de perceber. O tempo não criou a consciência, a consciência criou o tempo. Ninguém estava preocupado com tempo até… até alguém estar. A nossa consciência é a flecha do tempo.

Nos restava definir se o universo tinha coerência absoluta em relação a essa percepção. Será que todas as partículas do universo obedecem a mesma lógica temporal, ao mesmo tempo? E se o fazem, como conseguem agir em conjunto em distâncias tão grandes? Bom, agora sabemos que não. O universo que percebemos não é unido por gravidade, matéria escura ou seja lá o que os físicos do passado tentaram usar de explicação.

O universo vai até onde a coerência do tempo consciente consegue enxergar. Só percebemos aquilo que está avançando ou voltando no tempo ao mesmo tempo que nós. Se uma partícula ao seu lado está em outra frequência de tempo, ela volta no tempo quando você está indo pra frente ou avança durante um retorno. Não tem como nenhuma matéria ou energia no nosso fluxo temporal detectar sua presença. Não com o grau de precisão que temos: precisamos de bem mais que a menor medida de tempo possível (se é que ela existe) para detectar alguma coisa.

Se precisamos que um fóton bata em alguma coisa e volte para uma lente para ver uma imagem, só os fótons que estão indo e voltando no tempo exatamente ao mesmo tempo que os átomos da lente podem fazer esse caminho. Qualquer outro fluxo temporal e o fóton nunca vai fazer o caminho necessário para ser captado e “lembrado” pelo nosso fluxo do tempo.

Percebe? Há sim muito mais entre o céu e a terra que julga nossa vã consciência. Não é outra dimensão, é outro fluxo temporal. E o mais espetacular disso tudo? Por pura aleatoriedade, partículas podem entrar no nosso fluxo temporal, agindo na exata sequência de indas e vindas no tempo que nós vemos. Nem a nossa história, as nossas memórias… nem elas estão livres disso: quem garante que as coisas aconteceram só de uma forma no passado? Talvez numa das voltas, um grupo de átomos tenha entrado em ressonância com nossa realidade e modificado o passado. E não temos como saber o que foi modificado! A realidade costuma ser incoerente entre pessoas, mesmo quando várias testemunhas enxergam supostamente a mesma coisa.

O tempo não segue só para frente, o tempo é a nossa percepção das informações acumuladas, e nem ela é segura: memórias podem ser influenciadas por uma variação aleatória no fluxo temporal. Talvez tenhamos voltado à era dos dinossauros há um segundo atrás e voltado até o presente. Claro que não vamos nos lembrar do caminho inverso, e pior, não temos como saber se alguma coisa mudou nesse tempo. Na realidade de milésimos de segundos atrás, talvez tenha sido meu carro que você viu no motel ontem de noite, mas na realidade que eu vivo agora, tenho certeza que estava fazendo hora extra como disse que estava.

Você tem certeza que estamos na mesma realidade temporal? Seria muita arrogância da sua parte dizer que sim. A gente conversa quando eu chegar em casa, ok? Beijos!

Para dizer que seu cérebro está doendo, para dizer que me perdoa, ou mesmo para dizer que não sabe mais o que é real: somir@desfavor.com

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Comments (6)

  • Não é uma desculpa dele, ele se empolgou com outro vídeo do YouTube. “Why Time Actually Flows Both Ways”.

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    • Na verdade, a inspiração veio de um vídeo do PBS Space Time: “What If Charge is NOT Fundamental?”, mas eu gostei da indicação, já me inscrevi no canal!

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      • Já notei assuntos parecido em outros textos (coisas que assisti e te li discorrer), mas só comentei neste e no dos chipanzés.

        Culpe a preguiça, minha melhor amiga.

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  • Tanta “explicação científica” sobre o ir e vir do tempo e relatividade só pra tentar acobertar um chifre?

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