O fim está próximo?

Segundo as últimas pesquisas, embora Lula esteja perdendo sua margem de segurança, as eleições para presidente ainda podem ser decididas em primeiro turno. Odiando ambos os candidatos, Sally e Somir discordam sobre a vantagem dessa disputa acabar logo. Os impopulares não anulam suas opiniões.

Tema de hoje: o que é menos pior, a eleição para presidente ser decidida no primeiro turno ou no segundo?

SOMIR

Como notório ansioso, eu costumo preferir resolver logo. O brasileiro médio já decidiu que a eleição está fechada entre seus dois corruptos de estimação, só nos resta saber qual deles vai nos irritar daqui para a frente. Por mim, que a coisa já se resolva no primeiro turno e tentemos seguir nossa vida.

Porque francamente, eu não vejo muita diferença entre o que vai acontecer se for decidido no primeiro turno ou não. Os bolsonaristas VÃO dizer que a eleição foi roubada se perderem, se a diferença for de 1% ou 50% entre ele e Lula. O que eu talvez discuta é se Bolsonaro vai falar que roubaram a eleição dele com todas as letras, ele é maluco, mas é um sobrevivente: eu acho que vai rolar um acordo de “anistia” para ele e seus filhos se o Lula ganhar, só para evitar que ele coloque mais lenha na fogueira e dê um pouco de tranquilidade pro PT montar seus próprios esquemas.

Tudo agora é questão de que lado do Bolsonaro vai tomar a dianteira assim que perder a eleição (não é nem certeza que vai perder, mas é a probabilidade mais alta agora). Se o lado sobrevivente tomar conta, ele faz o acordo e vai ser oposição de mentirinha junto com a “direita” brasileira. Se o lado maluco der as cartas, ele vai dar um chilique parecido com o do Trump e vai ficar teimando até o último minuto que fraudaram as urnas eletrônicas.

Pra mim, é meio como jogar uma moeda pra cima. Só saberemos que lado ela caiu quando chegar a hora dos resultados da eleição. Por isso, eu prefiro que a moeda caia logo. Tem uma frase famosa que eu não tenho certeza da autoria, mas é mais ou menos assim: “o Brasil cresce de noite, enquanto os políticos dormem.” Quanto mais rápido eles pararem de fazer confusão, mais rápido a gente tem chance de tocar a vida.

Se o primeiro turno terminar com Lula na frente, mas com um segundo turno à vista, podemos ter certeza que o brasileiro médio vai ser bombardeado por mais desse chorume ideológico que virou o processo eleitoral. Mais semanas de discussão sobre quem está com Deus ou com o Diabo (acho justo capitalizar o Capeta também). Mais boatos sem sentido sobre a iminência do comunismo ou do fascismo, mais discussão sobre personalidades e o mesmo vazio sobre propostas que já vemos agora.

Precisa de mais disso? Eles vão falar as mesmas coisas que já estão falando, mas suas bases de fanáticos vão estar dez vezes mais raivosas. Quem está minimamente bem-informado já sabe exatamente tudo o que Lula e Bolsonaro vão dizer desde que Lula indicou que ia concorrer. É mais do mesmo, só que com mais potencial inflamatório. Pensando na probabilidade maior de uma vitória petista, eu até prefiro que os bolsonaristas fiquem meio desmoralizados com uma derrota no primeiro turno e percam o ânimo de encher o saco do país todo com seus berros de fraude e conspiração. Vai ter gente fazendo bobagem? Vai ter. Mas se for logo no primeiro turno, eu acredito que o volume diminua.

Se você usa a lógica que a vitória do Lula no segundo turno seja mais fácil de engolir para os bolsonaristas, não está se colocando no lugar deles. Eles já decidiram que foi roubado. Eles não vão achar mais ou menos provável uma derrota se for no primeiro turno ou no segundo. Só tem duas alternativas para eles: ou o Bolsonaro ganha ou foi roubado. Só isso. Os americanos fizeram a mesma coisa, Trump falou que iam roubar a eleição dele e o gado trumpista simplesmente acreditou. Bolsonaro viu, Bolsonaro imitou. O gado nacional está fazendo exatamente as mesmas coisas.

E tem mais: ainda estamos com lulistas mansinhos. O “já ganhou” está mantendo o gado do outro lado da cerca mais sossegado. Vitória no primeiro turno mantém essa gente mais tranquila, certos de que não precisam forçar a barra para ter o poder. Agora, se Bolsonaro conseguir arrancar um segundo turno, não só vamos ver os bolsonaristas atacados com a esperança de uma virada (embora tenham certeza de que se perderem foi fraude) e por tabela, vamos ver os lulistas subirem o tom.

Artista lacrador gritando “Lula” em show é a parte tranquila da coisa. Eventos, cartas e todo tipo de ação masturbatória da esquerda intelectual são coisas com as quais podemos conviver apenas revirando os olhos. Mas, se o lulismo for pressionado a brigar por uma vitória nas urnas, prepare o seu saco, porque ele vai passar e muito da lotação máxima.

É a certeza da vitória que está mantendo o Brasil relativamente calmo. Se ela se confirma no primeiro turno, os petistas vão estar muito arrogantes e os bolsonaristas muito tontos para causar um estrago. Agora, se dermos essas semanas extras para os dois lados radicalizarem ainda mais, um alimenta o outro e vamos ter ainda mais confusão no final do segundo turno. Imagine só se o Bolsonaro vira no segundo turno? Aí os petistas que vão dizer que aconteceu fraude e vão ficar insuportáveis, talvez até violentos.

Eu não queria que o Lula ganhasse, eu nem queria que o Lula tivesse saído da cadeia, mas já que é pra não decidir nada de real de novo numa eleição, que essa palhaçada acabe logo e a gente tenha um pouco de paz desses malucos por alguns anos.

Para dizer que o aceleracionismo não deu certo, para dizer que queria democracia lotérica como sistema, ou mesmo para dizer que vai digitar 29 em tudo e foda-se (estamos juntos, camarada!): somir@desfavor.com

SALLY

O que é “menos pior” para o brasileiro, que a eleição vá para o segundo turno ou que ela se decida no primeiro turno?

Não importa o resultado, acho mais saudável que vá para o segundo turno, assim, quem quer que ganhe, saberá que não é tão hegemônico quanto achava, que vai ter alguém no seu calcanhar nos próximos quatro anos enchendo o saco e que não pode se acomodar e fazer a bosta que for, pois não tem nada garantido.

Não que eu ache que alguém vá fazer um bom governo por causa disso… não existe a menor esperança de o Brasil melhorar remotamente com Lula ou Bolsonaro. No final das contas, quem perder vai pegar sua fatia de bolo e compor com quem ganhar, como sempre.

Mas, me parece didático que o vencedor saiba que não venceu fácil. Esses dois merdas já fazem bosta ao natural, imagina com excesso de confiança o que não vai sair? Se a disputa for apertada, a fatia de bolo que o vencedor vai ter que dar ao outro terá que ser maior. E, quanto mais divididos eles estiverem, melhor. Não querem o povo dividido e brigando? Pois bem, eu quero político dividido e brigando.

“Mas Sally, é chato ter segundo turno”. Chato pra quem? Você não é obrigado a ir votar, você certamente não assiste horário eleitoral e as pessoas continuarão batendo boca por política mesmo após as eleições. Não muda nada, se você souber se preservar. Basta seguir aquele combo que a gente sempre sugere: não se deixar afetar por imbecilidade.

Se você der um passo atrás e assistir a esse rebosteio todo como um espectador (e não como uma pessoa inserida no meio do rebosteio), seria um mês a mais de diversão, observando otário brigar, observando otários se matarem para conseguir eleger o inepto de estimação, observando o mundo dando importância a o que há de mais desimportante. Acredite, é um belo aprendizado do que não fazer.

Não muda nada, a não ser ter um mês a mais de Anula Eu. Candidato que não vai aceitar derrota vai encher o saco, seja ela no primeiro ou no segundo turno. Se for no segundo turno vai causar mais problema? Negativo. Vamos lembrar que Bolsonaro acusou de fraude uma eleição na qual ele saiu vencedor, portanto, é mais uma compulsão do que uma suspeita. Bolsonaro vai tentar tumultuar, não importa o que aconteça – e não vai conseguir.

Eleitor que briga para defender seu político de estimação não vai parar por terem acabado as eleições. Vão continuar enchendo o saco. Talvez fiquem ainda mais hostis, pois em período eleitoral vem a galera oferecer bolinho para tentar converter voto. A verdade é que, de uns anos para cá, o Brasil se comporta como um país em eterno período eleitoral e isso não deve mudar tão cedo. Então, eleição definida no primeiro turno não significa que a encheção de saco vai parar.

Apesar de tudo, quanto mais apetada for a votação, menor a moral de quem vai sentar nessa cadeira. Não que isso vá impedir o futuro Presidente de desonestidades, não vai, mas vai custar mais caro fazê-lo e, não importa quem seja, nós queremos mais é que sua vida seja o mais difícil possível. Apoio popular dá crédito a um Presidente: com o Congresso, com o STF, com a oposição. Quanto menos crédito Lula ou Bolsonaro tiverem, melhor.

Sem contar que manda uma mensagem: tanto faz. O povo está pouco se fodendo e não vai fazer grandes loucuras para salvar a cabeça de ninguém caso a coisa fique feia. Acho muito saudável que político saiba que não é tão importante assim para seu povo.

Lula, quando estava prestes a ser preso, de gabava em reuniões VIP do PT que se ele fosse preso o povo faria uma revoltar e o libertaria. Fez porra nenhuma, o máximo que aconteceu foram meia dúzia de gatos pingados gritar “boa noite Presidente” na janela da cela. É muito bom que político tenha esse choque de realidade.

É de mais recados como este que precisamos: tanto faz. O brasileiro pode ser passional na discussão de rede social, mas na hora de entrar em ação sempre foi omisso. Pois bem, peguemos esse defeito e tentemos fazer uma limonada com ele. Que o candidato que venceu pense “Nossa, eu parecia uma hegemonia mas, na realidade, metade do país está com a oposição”.

Se você não se deixa abalar por esse tipo de pessoa miolo-mole fã de político, não vai fazer diferença mais um mês. Muito pelo contrário, você pode assistir de camarote, comendo pipoca, esses otários brigando em redes sociais. Rinha de eleitor é muito divertida e rende momentos impagáveis, que revela de forma nua, crua e sangrando, qual é a essência do brasileiro. É sempre importante relembrar a essência do brasileiro. A essência do brasileiro não é você, não é a sua bolha. É o “Ei, Você”.

Deixa esses merdas continuarem batendo-boca, deixa os bostas dos políticos tendo que continuar rodando pelos lugares mais feios do Brasil, comendo os pastéis mais nojentos, abraçando criança catarrenta desconhecida. Campanha é sofrimento para político, eles odeiam. Deixa que sofram mais um pouquinho. Com sorte, alguém contrai uma doença ou algum acidente de percurso nos livra de ambos. Por gentileza, vamos dar oportunidade para a sorte!

Encarem isso como uma luta que vai durar um round a mais. Se duas pessoas que você desgosta estivessem brigando, você gostaria que a briga acabe rápido? Se sim, talvez você seja melhor pessoa do que eu… eu gostaria de ver esses dois sofrendo até o último minuto, rodando em uma van no interior de Mossoró do Cu do Mundo, tendo que comer pastel de pombo e cagando em banheiro químico por mais um mês.

Outro fator interessante é pensar no efeito pedagógico que prolongar esse estresse poderia gerar no fã-clube de político. Na vida existem duas formas de cair na real: no amor e na dor. No amor já se percebeu que nada vai acontecer, terão que acordar na dor. E para acordar pela dor, é preciso que ela se torne insuportável, a ponto de fazer a pessoa se mover de onde ela está.

E, nessa linha de raciocínio, quanto mais essas pessoas forem expostas às consequências de suas escolhas, mais rápido acordarão. Todo mundo tem um ponto de “basta”, aonde a pessoa chega no limite e cai na real. Que o destas pessoas chegue o mais rápido possível.

Por fim, para o Desfavor é muito divertido ver essa palhaçada prolongada: chuva de “Ei, Você”, de “Anula Eu” e de outras colunas rindo da imbecilidade dos políticos e de seus eleitores. Eu quero rir por mais um mês do sofrimento desses bostas, e você?

Para dizer que te ganhei quando falei em candidato cagando em banheiro químico, para dizer que é mesário por isso quer que tudo acabe logo ou ainda para dizer que trabalha aos domingos por isso quer que tenha segundo turno: sally@desfavor.com

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Comments (14)

  • Estou decidida a ignorar as eleições socialmente, e estou conseguindo. Ver malucos se batendo pra decidir qual bosta cheira menos mal fica muito engraçado quando a gente para de se desesperar com o grau de burrice do brasileiro médio.

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  • Somir, acho que o Bolso vai virar. Não sou torcida, eu voto nulo. Mas perceba como o Lula perde ponto cada vez que abre a boca, como se os antipetistas se lembrassem do porquê ele foi tão odiado. Eu acho que Bolso vira. Imagina o caos divertido que vai ser os petistas não poderem reclamar de fraude?

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  • A Sally deu uma surra no Somir na argumentação, mas eu fico com o Somir. Pela economia de tempo mesmo, quantk antes virar essa página melhor.

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  • Como sou incendiário e faço questão de ver o circo pegar fogo, vou com a Sally.
    No que diz respeito ao primeiro turno #ElesNão.
    Se tiver segundo turno, a gente segue com esse bumba meu boi entre o Boi Garantido e o Boi Caprichoso.
    No fim, TUDO GADO!

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    • Gostei dessas citações ao Boi Garantido e ao Boi Caprichoso, Anõnimo. E, realmente, no fim, TUDO GADO!

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  • Wellington Alves

    Percebo que vocês estão desconectados da realidade. Primeiro que não se pode fazer essa equivalência entre Lula e Bolsonaro; e, em segundo, o único com chances de vencer no primeiro turno é o próprio Bolsonaro.
    Olhem os números da nossa economia e comparem com o resto do mundo. E nem precisa ir longe.

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  • A única chance de eu votar num desses dois, seria num segundo turno entre os dois. No primeiro turno ou em qualquer outra configuração do segundo, mesmo menos provável, voto na outra alternativa. No mais, é hora de fazer pipoca e assistir rinha mesmo, porquê um voto não garante nem eleição em condomínio, quanto mais num país.

    Que comecem os jogos!

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  • Por que vcs não fazem um pronunciaralho com as entrevistas do Bozo, do Luladrão e do cangaCiro do JN? Eu fiquei decepcionado com a do Bozo, gerql tava aguardando um barraco, no entanto foi tão normalzinha…

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  • Eu não queria que o Lula ganhasse, eu nem queria que o Lula tivesse saído da cadeia, mas já que é pra não decidir nada de real de novo numa eleição, que essa palhaçada acabe logo e a gente tenha um pouco de paz desses malucos por alguns anos. [2]

    Eu sinceramente nem acredito que o Bozo será preso (por mais que eu queira muito), mas, por ora, me conformo com o prazer da humilhação. Vai ser lindo o dia em que a bolha estourar e ele perceber que o Brasil não se resume a um punhado de motoqueiro vagabundo berrando “mitoooww”.

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  • Sinceramente, não sei. E eu já nem importo mais e também não creio que faça qualquer diferença. Tô tão sem esperança que liguei o meu botão de “foda-se” há muito tempo. Seja Lula ou Bolsonaro, seja em primeiro ou em segundo turno, no fim da contas a merda vai continuar a mesma e talvez nem as moscas mudem.

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