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A goleada das goleadas.

A goleada das goleadas.

| Somir | | 136 comentários em A goleada das goleadas.

Após a blitzkrieg que deixou a pátria de chuteiras descalça e de pernas para o ar, muitos tentam fazer senso do que diabos aconteceu no Mineirão. Sete a um é um resultado que nem o mais otimista alemão (ou impopular) ou o mais pessimista torcedor brasileiro imaginava minutos antes da partida. Mas mesmo assim, são os números finais da partida. E quem explica o que aconteceu? Bom, assim como tantos, eu vou tentar…

Não partilho do mesmo senso conspiratório de Sally e de tantos de nossos leitores, portanto não esperem que eu me embrenhe por tais caminhos. A goleada germânica é resultado direto do que aconteceu dentro do campo. Um bando enfraquecido pela ausência de seus dois principais jogadores cometeu uma série de erros contra Die Mannschaft (O Time) e pagou caríssimo por eles. Mais até do que seria razoável.

Os jogadores brasileiros não são “sete a um” piores que os alemães. Nem mesmo a organização do futebol brasileiro deve tanto assim à deles. Eles tinham vantagens, mas não nesse grau de desequilíbrio. Conhecendo o público alvo comum do desfavor, acredito que não vá prender muita atenção falando de futebol, mas preciso entrar um pouco nesse assunto para fundamentar minhas conclusões.

Os comandados de Felipão já entraram em campo com problemas. Muito por culpa dele e de Parreira, acreditaram que não eram o time mais fraco. Arrogância paga com juros e correção. Bernard não é um jogador horrível (na prática nenhum deles é… Nem o Fred…), mas ele foi o símbolo de como nesse nível de profissionalismo erros bisonhos como sua escalação não são perdoados. Felipão já deveria saber que os alemães tinham um time muito forte no meio do campo. E mesmo assim deixou os alemães terem superioridade numérica desde o começo.

E os comandados de Löw sabiam que tinham ganhado na loteria, sozinhos. No começo do jogo, ficaram esperando para o Brasil dar o primeiro soco, confiantes de que não machucaria. Ele veio. O time tupiniquim deu alguns sinais de empolgação, os alemães ficaram tranquilos. Na primeira boa oportunidade deles, gol. Aqui entra o primeiro fator de sorte: por mais que o Brasil estivesse entrando na briga com um braço amarrado (e me refiro ao esquema tático, e não às ausências), sempre tinha a chance de enrolar e ter sorte de não tomar gol.

Mas tomou. Se jogadores e torcida estavam um pouco desanimados, ainda havia a possibilidade de arrumar a casa e continuar a briga. Só que os alemães sabiam o que estavam fazendo: era só deixar o time bagunçado acreditar que ainda estava no jogo. O Brasil foi pra frente, de novo. E num desses contra-ataques, o segundo gol. E esse foi o último elemento de sorte. O time brasileiro estava bagunçado e mal armado, mas não estava atordoado. Quase que o gol que destronou Ronaldo da artilharia das Copa não acontece…

Mas aconteceu. E daí pra frente a sorte não influenciou em mais nada. O Brasil era obviamente inferior, mas jamais aceitou a realidade. Times com menos tradição futebolística entrariam em modo de retranca absurda e imediata, para evitar que o jogo acabasse ali mesmo. As paparicadas estrelas da CBF não. Ao invés de admitir que era hora de tentar segurar o jogo, desabaram. O choque entre a ilusão de serem um time e a realidade de serem onze perdidos num gramado foi devastador.

Isso já tinha se demonstrado no jogo contra o Chile, só que dessa vez era um time REALMENTE forte do outro lado. Alguém que não se assusta com camisa nenhuma. A sequência de gols que estarreceu o mundo foi causada por circunstâncias comuns no futebol… Um time parou de jogar, o outro não. Quase sempre goleadas retumbantes entre times grandes acontecem por apagões emocionais.

Depois do cinco a zero deixou de ser um jogo, virou uma obrigação ingrata para ambos os lados. Os dois gols que o Brasil tomou e o que fez são típicos de jogos já MUITO decididos. A Alemanha foi irretocável em seu respeito pelos jogadores brasileiros e a torcida no estádio: jogou sério, não fez firula, fingiu perder gols para não deixar tudo ainda pior. Podemos até argumentar que o respeito não está sendo honrado pelos brasileiros médios, mas nesse ponto tocamos no Desfavor da Semana.

Falei do jogo para isolar um momento: o entre o segundo e o quinto gol. Fora desse espaço de tempo, foi apenas a superioridade de um time de futebol sobre o outro. Dentro dele, foi demonstração inegável de despreparo psicológico. Por erros da comissão técnica e pela mentalidade do brasileiro em geral.

Acharam que motivação e esforço resolviam alguma coisa por si só. Felipão deve ter motivado seus jogadores, aposto que nenhum deles fez corpo mole (consciente) na hora de correr pelo time, mas… gente motivada correndo pelo campo até o Tahiti tinha. Como bons brasileiros, acharam que era só ter vontade e que seu deus cuidaria do resto. Organização? Preparo? Estudo? “Não, isso é frescura. Vamos só correr feito baratas tontas até a sorte sorrir para a gente.”

Uma hora a Dona Sorte fecha a cara. E aí precisa saber o que fazer. Naquele momento da chuva de gols, estávamos claramente diante de onze Zé Ruelas (extremamente bem pagos) que não sabiam se organizar durante uma crise. Planejamento e estrutura são mal vistos pelo brasileiro… coisa de gente chata e sem o “dom”. Quem tem o “dom” faz na hora, improvisa e consegue o que quer. Quem não tem que precisa se portar de forma responsável e adulta…

Pois bem, os alemães sabiam o que fazer. Sabiam dos pontos fracos do brasileiros, sabiam que só precisava fazer um gol primeiro… e sabiam que tinham que matar o jogo segundos depois dos brasileiros desanimarem. Plano realizado com perfeição. Não precisamos sair do campo para ver o que aconteceu com os jogadores brasileiros. Tem muita coisa errada em todo o entorno do futebol nacional (e mundial), mas arranjar qualquer desculpa que não um time mal organizado e sem alternativas para qualquer dificuldade é se desviar do acontecido.

Esforço e motivação são complementos muito bem vindos, mas são complementos. Até o fuckin’ Dunga deu mais organização para sua geração de crentes metrossexuais. O Brasil produz tantos jogadores de grande nível e tem tanto peso na camisa que praticamente qualquer maluco consegue levá-los adiante numa Copa.

O que me enche o saco de ver é o povo reclamando que os jogadores eram terríveis, perpetuando esse maldito culto ao “dom”, como se esses caras que estavam em campo contra a Alemanha não fossem comparativamente melhores que 99% dos outros jogadores do mundo. E melhores até mesmo que quase todos os outros jogadores de outras seleções.

O dia que o Fred for ruim, o Messi é razoável. Sei que muita gente está puta de vida com o resultado, mas falar que esses caras não tem capacidade de ganhar títulos de alto nível é tapar o sol com a peneira. Quase todos eles já são vencedores em suas carreiras. O Brasil não perdeu por falta de jogadores, perdeu por ser um bando em campo com a ideia ridícula que bastaria querer muito para ganhar. E quando a Alemanha mostrou o quão errados eles estavam, foram incapazes de lidar com a realidade.

Falar que eles são horríveis é arranjar desculpa esfarrapada para a derrota. Os jogadores são bons, mas todos costumam vir com um “defeito de fábrica” da mentalidade brasileira, elevada ao cubo por comissão técnica ultrapassada e a expectativa de um povo todo em suas costas. Sei que eles ganham milhões e não estou nem um pouco preocupado com o sofrimento deles… Mas se formos de novo nessa linha de “falta de dom”, perpetuamos esse erro.

Não faltou talento. Não faltou nem raça… eles correram. Faltou organização, faltou preparo. Faltou… o jeitinho alemão.

Para dizer que veio aqui justamente para não ler sobre o jogo, para dizer que por incrível que pareça a última eliminação foi mais engraçada que essa, ou mesmo para dizer que agora se sente mal pelo Neymar ter saído (seria hilário ver ele nesse jogo): somir@desfavor.com

Comentários (136)

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