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Enquanto isso…

Enquanto isso…

| Somir | | 3 comentários em Enquanto isso…

Enquanto isso, num estúdio improvisado, localidade desconhecida:

TERRORISTA 1: Vocês ofenderam nosso profeta pela última vez! Choverá fogo dos céus e suas famílias…
TERRORISTA 2: Sei não…
TERRORISTA 1: O que foi?
TERRORISTA 2: Quando se diz que choverá, não se presume que é do céu? Ficou redundante.
TERRORISTA 1: Ok… vamos de novo.
TERRORISTA 2: Gravando!
TERRORISTA 1: Vocês ofenderam nosso profeta pela última vez! Choverá fogo e suas famílias sofrerão pelas sua ações. Para provar como falamos sério, temos aqui um dos seus, capturado.
TERRORISTA 2: Corta! Redundante de novo… precisa dizer que ele foi capturado? Só olhar pra cena pra perceber…
REFÉM: É, parece bem óbvio que eu fui capturado!
TERRORISTA 1: CALE-SE!
TERRORISTA 2: Xiii… não aceita uma crítica construtiva, é?
TERRORISTA 1: Eu estava falando com o refém!
REFÉM: Desculpa.
TERRORISTA 2: Não se preocupa, ele é meio temperamental mesmo.
TERRORISTA 1: Você está do lado do infiel?
TERRORISTA 2: Viu? Já está fazendo de mim um inimigo. Precisa ser tão radical?
REFÉM: Mas não é justamente por isso que vocês são terroristas?
TERRORISTA 1: EU DISSE CALADO, SEU PORCO MALDITO!
TERRORISTA 2: Até que é um bom ponto. Tem que ser meio radical pra entrar nessa, né? Talvez eu esteja enxergando isso com o mindset errado. Desculpa.
TERRORISTA 1: Eu ainda não sei porque você insistiu tanto em entrar para a nossa organização.
TERRORISTA 2: Ei! Eu tenho tanto direito de me radicalizar como qualquer outra pessoa!
TERRORISTA 1: Tudo bem, mas às vezes parece que você não se doa de verdade para a nossa causa. Eu disse que seria um problema, eu disse!
REFÉM: Já eu acho que você está na medida ideal.
TERRORISTA 2: Obrigado! Significa muito para mim, o pessoal é muito crítico com o meu jeito, sabe?
TERRORISTA 1: É disso que eu estou falando! Você sequer sabe o que esse maldito infiel quer fazer com a gente?
REFÉM: Sair correndo e nunca mais ver vocês na vida?
TERRORISTA 2: Viu? Ele já tem medo da gente, não precisa ir mais longe do que isso.
REFÉM: Eu fui convencido no minuto que vocês apontaram a arma pra mim.
TERRORISTA 1: Não é assim que funciona! Temos que colocar o medo do coração de todos os nossos inimigos!
REFÉM: Vocês sabem que esses vídeos de execuções não fazem mais tanto sucesso como antes, né? Os seus amigos da ISIS estão fazendo coisas bem mais avançadas que vocês e nem eles mais chamam atenção como chamavam…
TERRORISTA 2: Sabe o que eu acho? Banalizou. É sempre alguém com jeitão de psicopata matando gente indefesa. Eu estava lendo sobre isso, sobre como o que mais aterroriza as pessoas é não saber o que vai acontecer…
TERRORISTA 1: Do que você está falando?
REFÉM: Eu acho que ele está entrando num caminho interessante…
TERRORISTA 1: Calado!
TERRORISTA 2: Quando a pessoa abre o vídeo e vê um homem mascarado do lado de um refém, já sabe o que vai acontecer. É batido.
REFÉM: Você viu aquele onde colocaram gente em jaulas e botaram fogo nelas? Se nem esse resolveu, não vai ser uma decapitação que vai.
TERRORISTA 2: Exato! Estamos ajudando nossa causa fazendo mais do mesmo?
TERRORISTA 1: Mas o profeta disse que temos que matar nossos inimigos!
REFÉM: Às vezes é questão de interpretação. Matar a pessoa ou matar seu modo de vida?
TERRORISTA 1: Como assim?
REFÉM: Não é melhor pra vocês se todos se converterem pra sua religião?
TERRORISTA 1: Sim. Essa é a vontade de Deus!
REFÉM: Então, quando vocês matam pessoas como eu, é um a menos pra acreditar na verdade do profeta!
TERRORISTA 2: E todo mundo acaba achando que a nossa religião vai ser só isso, matar pessoas.
REFÉM: O que explica o tanto de assassinos que se juntam a ela depois desses vídeos…
TERRORISTA 1: Não somos assassinos!
REFÉM: Então vocês não vão me matar?
TERRORISTA 1: Vamos, mas é diferente…
REFÉM: Diferente como em eu vou ficar vivo depois de você cortar minha cabeça?
TERRORISTA 1: Não… claro que não.
REFÉM: Então…
TERRORISTA 2: O que será que a gente pode fazer de diferente? Será que… será que se você fizer um discurso mais moderado antes de matar o refém já não dá uma pegada diferente pra coisa?
REFÉM: Difícil se passar como moderado depois de cortar a cabeça de alguém, né?
TERRORISTA 2: A gente pode parecer bem chateado por ter que fazer isso. Você pode dizer que detesta ter que matar uma pessoa, mas foi obrigado.
TERRORISTA 1: Isso vai me fazer parecer fraco!
REFÉM: Diante de Deus todos são fracos, não?
TERRORISTA 2: Gostei! Acho que dá pra colocar essa frase no discurso.
REFÉM: Obrigado! Mas eu ainda acho que não vai combinar a fala com a ação.
TERRORISTA 1: Você é um infiel! Não pode ser perdoado por atacar nossas terras e nosso modo de vida.
REFÉM: Eu estou aqui a trabalho, nem soldado sou. Por mim vocês vivem como quiserem. Eu nem votei no cara que começou essa guerra.
TERRORISTA 2: Lembra o que eu te disse aquele dia e você ficou bravo comigo? Nem todos eles estão contra a gente.
TERRORISTA 1: Você complica tanto as coisas… a gente só tinha que falar algumas palavras de ordem e matar esse infiel! Só isso! É pedir muito?
TERRORISTA 2: Esse é o problema dessa organização, se você quer saber! Querer simplificar demais as coisas e não se atentar aos detalhes.
REFÉM: A vida é bem mais do que tiros e explosões.
TERRORISTA 2: Isso! Por que a gente nunca tenta conversar, por exemplo?
TERRORISTA 1: Isso não está acontecendo…
REFÉM: E se ao invés de uma execução, fizéssemos uma entrevista? Eu dizendo como entendo o lado de vocês e dizendo para os poderes ocidentais pararem de oprimir seu povo? Alguém que não vai ser visto como radical falando bem de vocês!
TERRORISTA 2: Sim! E além disso eu não vão ter que limpar o chão depois, porque sempre sobra pra mim.
TERRORISTA 1: Eu vou ser motivo de piada pra sempre!
TERRORISTA 2: Custa fazer algo diferente? Faz por mim! Eu quero tentar.
REFÉM: Você nunca vai saber se não tentar.
TERRORISTA 1: Eu não acredito…
TERRORISTA 2: Eu te compenso mais tarde. *piscando*
REFÉM: Viu? Fazer o bem deixa todo mundo feliz.
TERRORISTA 1: Vamos fazer essa maldita entrevista então. Eu ainda acho uma ideia idiota. Eu sabia que não devia trazer minha mulher pra me ajudar com isso…

Para dizer que o texto foi sutilmente machista e feminista ao mesmo tempo, para dizer que não teve graça, ou mesmo para dizer que eu perdi uma ótima oportunidade de fazer uma piada arriscada: somir@desfavor.com

Comentários (3)

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