Irmandade.

Sugestão da Jasmin, mais do que tema, a série! Fiquei curioso depois do comentário e fui ver… Irmandade é uma série nacional que acaba de sair na Netflix, produzida pela O2 filmes e encabeçada pelo Seu Jorge como ator principal. São 8 episódios de uns 50 minutos cada, contando a história de uma mulher que se vê arrastada para dentro da política de facções criminosas nos anos 90. Mas será que vale a pena as quase 8 horas de história?

Vale, e muito. Irmandade é um tapa na cara de gente que tem preconceito contra produções nacionais. E eu sempre fui uma dessas pessoas, e posso dizer que está no mesmo nível das melhores séries de ação/suspense do mundo. É excelente assim. Bom, pelo menos a primeira temporada… oremos para ser lucrativa e ganhar uma renovação com o mesmo nível de orçamento. Mas isso é problema para o futuro, no presente, já considero a melhor série brasileira que já vi. Tudo bem que a concorrência não era lá essas coisas.

A forma mais simples de explicar o que é a Irmandade é dizer que é uma mistura de Breaking Bad com Tropa de Elite. A história gira ao redor de Cristina, uma advogada que trabalha para o Ministério Público e descobre que seu irmão, do qual foi afastada na infância, não só está preso há 20 anos, como ainda é fundador de uma facção criminosa nos moldes do PCC. Digo que é Breaking Bad porque esse fato desenrola uma série de acontecimentos terríveis em sua vida, e digo que é Tropa de Elite porque tem a mesma visão brutal e seca da realidade brasileira.

Irmandade não tem tempo para alívios cômicos ou tramas paralelas, é você no banco do carona da vida de Cristina, acelerando a cem por hora rumo ao abismo. O roteiro da série não te dá tempo de respirar, a tensão vai crescendo episódio a episódio, com uma história muito bem amarrada e com um senso preciso de consequências. Decisões tem peso. Eu vou ficar puxando o saco do roteiro porque cada dia que passa é mais difícil achar quem se preocupa com esses detalhes básicos de amarração da história, rejeitando a tentação de apelar para todo mundo com uma complicação desnecessária. Os melhores roteiros sabem o que querem e te levam pra lá.

Vou tentar não passar spoilers nesta análise, mas a partir daqui eu vou passar um pouco do que diz a sinopse. Se quiser experimentar tudo sozinho(a) primeiro, vá assistir na Netflix ou piratear, se quiser saber um pouco mais antes de se comprometer com todas essas horas, não vai ler nada que vai estragar sua experiência. Fica ao seu critério.

Vamos aos elefantes na sala: é uma série sobre crime, e o ponto de vista é o do criminoso. Especialmente os presos no eterno ciclo de encarceramento criado pelo inepto Estado brasileiro. Tem críticas sérias sobre a forma como tratamos os marginalizados, tem discursos inflamados sobre a injustiça do sistema, tem até uma forma romantizada de enxergar a situação na personagem de Seu Jorge, o Edson. Tem policial torturador, tem políticos escrotos que só ligam pra dinheiro e imagem, tem todo aquele pacote clássico de violência contra pobres que tanto fala sobre nossa realidade. E sim, a série apresenta a indignação dessa gente. A série clama por direitos humanos e nos faz olhar para a realidade nua e crua da nossa desigualdade.

Porém, ao mesmo tempo, eu posso jurar para vocês que não há apologia ao crime ou coitadismo pelo coitadismo. Ninguém é santo. Bandido é bandido, faz coisas horríveis e tornam muito difícil gerar simpatia. Não são heróis trágicos, são pessoas que faziam merda antes de ir pra cadeia e acabam ainda piores dentro dela. No final das contas, Irmandade joga um holofote sobre uma das questões mais terríveis da sociedade brasileira: tem gente que está tão afundada nesse lamaçal de ir para a cadeia e sair cada vez pior que não podem ficar soltos e não podem ficar presos. Tudo piora a situação deles. Parece que só a morte consegue livrá-los disso… a série te dá várias oportunidades para simpatizar com essas personagens, mas não te deixa ficar muito tempo sem perceber o porquê delas serem perigosas.

Tropa de Elite tinha muitos desses pontos na história, mas como pegava o ângulo do unicórnio policial incorruptível, o desenrolar da história te dava uma falsa sensação de resolução: o sistema é foda, mas estamos vendo tudo pelos olhos de quem consegue quebrar o ciclo. Em Irmandade, o ponto de vista muda e as coisas ficam bem mais nebulosas: estamos vendo o mundo atrás das grades e sem banho de sol. Existe um tema recorrente na série de uma realidade que te arrasta pra baixo o tempo todo, especialmente se você já faz parte do grupo de risco para esse mundo terrível.

O que nos leva a outro ponto: as duas personagens principais são negras, a excelente Naruna Costa, que faz o papel de Cristina, e o já mencionado Seu Jorge como Edson. E a cor deles é “irrelevante” naquele já conhecido esquema brasileiro: ninguém é racista de forma explícita ou fica chamando atenção para esse aspecto, como seria mais comum numa série americana, por exemplo. É o perfeito exemplo da questão racial brasileira: ninguém fala nada, mas no final do dia, todo mundo em posição de poder oficial na série é consideravelmente mais branco que o pessoal da facção criminosa. O contraste existe, mas o roteiro nunca vai esfregar o seu nariz nele. Esse tema só existe na análise da série.

Até porque para amarrar esse bloco de análise, eu quero concluir com uma afirmação: Irmandade não é uma peça política disfarçada de série, é uma série e só. O roteiro, a direção e até mesmo os atores não te dão nada de mão beijada, não te dizem para ser de esquerda ou direita, só te dão uma história e você que se vire com o que vai pensar disso. Porque na vida real, esse é o problema: estamos vendo todo esse horror do sistema prisional e facções criminosas e não sabemos o que diabos fazer. Não dá para “levar pra casa” esses bandidos, e é risível a ideia de que autoritarismo e mais violência resolvem essa merda toda.

Policial brasileiro já atira pra matar. O que era o ponto do Tropa de Elite que parece que a maioria das pessoas não entendeu: tudo o que você acha que quer de violência contra o crime já acontece, policial bonzinho só serve para deixar pensão pra viúva. O desesperador é que não funciona. A mão de obra das facções criminosas brota da desigualdade num ritmo maior do que se produz balas, se essa for sua inclinação para o combate ao crime. Numa guerra de atrição, eles vencem, como aliás… estão vencendo.

E considerando quem já são essas pessoas no poder das facções, não tem dessa de resolver as coisas só na base dos direitos humanos. As cicatrizes são fundas. Irmandade mostra uma história parecida com o do começo do PCC, mas ainda num período de tempo onde não eram tão assustadores, apenas uma tendência que o Estado achava que podia esmagar quando quisesse. Se você parar para pensar na história de Irmandade, é o exato momento onde um pouco mais de decência das autoridades poderia ter evitado um desastre no futuro. Mas, isso aqui é Brasil: se deu errado nos anos 90, vamos continuar fazendo pelas próximas 3 décadas e torcer para dar certo…

E agora, você vai pensar: “eu não quero pensar nisso tudo vendo a série”. E não vai. Você vai ser tragado para uma trama de suspense que parece ter saído da sala de roteiros do Breaking Bad. Sem tempo pra politizar, irmão. Esse papo todo só vem depois, se você escolher pensar sobre isso. Vai dar até para torcer por mocinhos e querer ver vilões se ferrando. Mesmo que a bússola moral da série gire descontrolada por quase toda sua duração.

Mais uma coisa importante: se você, assim como eu, ficou meio traumatizado com 3%, pode relaxar, a série é feita pela O2, a produtora mais foda do país, de longe. Os atores são excelentes, os cenários e a produção são basicamente perfeitos na sua representação de São Paulo dos anos 90, existe um cuidado enorme com detalhes (eu só tenho quase certeza que ainda tinham muitos carros ainda de placa amarela em 1994, e não todas brancas como a série mostra, mas duvido que foi por preguiça). Tenho um conhecimento reduzido de gírias de bandidos dos anos 90, mas até onde sei, falam exatamente como eles falavam. As expressões e as referências são bem certeiras. Se Tropa de Elite é uma aula sobre a bandidagem carioca, Irmandade é uma sobre a paulista.

A escolha das cores e dos filtros é acertada para passar o clima acinzentado paulistano, a edição não desperdiça um segundo, mantendo um ritmo excelente do primeiro ao último episódio. A trilha sonora não tem erro: Racionais MCs, simplesmente não tinha pra onde correr quando se quer falar de periferia paulista dos anos 90. A qualidade técnica é suficiente para você nunca prestar atenção em nada além da história. Esqueça as produções toscas de novela da Globo, é outro nível mesmo. Um filme de 8 horas.

E por que eu não vou falar da história? Porque você vai ter que ver. Quando a coisa é bem feita de verdade, a gente faz propaganda de verdade também. Vai ver a porra da série, que quando brasileiro faz coisa boa, a gente tem que aproveitar.

Para dizer que deve ser chato (se você achou Breaking Bad e Tropa de Elite chatos…), para dizer que eu estou sendo pago pela Netflix (mesmo tendo sugerido Amazon Prime pouco tempo atrás), ou mesmo para dizer que eu tenho o proceder: somir@desfavor.com

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Comments (10)

  • Uma boa perca de tempo série irmandade fraca d+ advogada devagar leva e trás e ninguém descobre quem ela é

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    • Exatamente. Aliás, voltei a usar Netflix por essa dica.

      E mais: não conseguiram encontrar minha conta, então consegui outro período gratuito com o mesmo e-mail…Melhor ainda!

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  • o brasil é um grande spawn de bandidos, não importa quanto a polícia mate
    mas é menos pior do que deixar esses psicopatas à solta, por que alguém que viola os direitos dos outros (propriedade, segurança e até a vida em casos mais graves) merece ter algum direito?

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    • Ou seja, se o Estado é tão ou mais criminoso que os criminosos, é porque estes últimos não devem ter direitos.
      Não é a toa que um apologista da tortura se tornou presidente da República.

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      • Ah claro. É melhor seu filho ser esfaqueado em assalto por causa de celular e sua filha ser estuprada até rasgar, pra no fim você ver o bandido ganhar “prisão humanitária”, com caminha e comidinha, melhor do que as casas de muitos pobres honestos por aí.

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        • Sim, porque a única resposta válida à desumanização e crueldade da conduta alheia é retribuí-la no mesmo nível e, por conseguinte, nivelar-se ao criminoso. Continue com essa postura de violência e de estupidez, afinal no Brasil apologistas da tortura e do estupro são premiados com altos cargos. Você consegue!

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          • Lógica da mulherzinha progressista
            Matou e estuprou: tem que reabilitar, punição não leva a nada
            Fez piada de gorda na internet: tem que linchar, stalkear e demitir

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