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Briga banal.

Briga banal.

| Somir | | 21 comentários em Briga banal.

No programa do Pânico na Jovem Pan, com transmissão em vídeo pela internet, os jornalistas Glenn Greenwald e Augusto Nunes brigaram ao vivo. A repercussão foi enorme, afinal, ambos representam os lados opostos na grande briga política que acomete o Brasil. Milhares de notícias, artigos e postagens analisaram a situação, a maioria tomando algum dos lados. Mas, será que foi motivo para tanta animosidade assim?

Aprendemos desde cedo que o ideal é reagir a uma situação proporcionalmente à sua gravidade. O bebê chora como se fosse morrer quando está sentindo um pouco de cólica, a criança berra desesperada quando é contrariada, o pré-adolescente acha que o mundo vai acabar quando toma um fora… mas, o tempo vai nos ensinando: boa parte das coisas que pareciam terríveis nos nossos primeiros anos de vida tornam-se mais toleráveis. Seja por evolução pessoal de aprender que tudo passa, seja por pressão externa dos adultos, de alguma forma aprendemos a controlar esses impulsos.

Se você parar para pensar mesmo, a maioria dos nossos problemas cotidianos não é tão intolerável assim. Ainda mais depois de passar por um perrengue dos grandes na vida. O que é aperto financeiro perto de uma doença grave? Não quer dizer que não tenhamos o direito de ficarmos tristes ou irritados quando algo dá errado, mas que com raras exceções, temos a capacidade de sairmos melhores daquela situação. Não exagere no otimismo ou no pessimismo, apenas olhe para a vida como ela é e entenda que as coisas estão em constante mudança. Ou, como a Sally gosta de dizer: “isso também passará”.

Mas, estamos vivendo um momento político e social que parece ir contra esse tipo de amadurecimento pessoal. Nossos ânimos estão exaltados, reagimos na velocidade da luz de forma agressiva e absolutista. Temos aliados infalíveis e inimigos indesculpáveis na era da polarização. Todo ato parece ter consequências duradouras e reforçar essa visão de mundo, isso é, até a próxima polêmica, porque o ciclo de notícias não tem tempo para muito mais do que isso.

Então, vou oferecer uma visão que você provavelmente não viu sobre a briga de Glenn e Augusto: grandes coisas… são dois adultos que sabem o que fazem e tinham totais condições de evitar a situação se quisessem. Nenhum dos dois parece ser capaz de vencer sequer um boneco de posto numa briga de verdade, então zero repercussões no campo da violência física. Glenn se colocou numa posição que costuma levar a um confrontamento físico, Augusto mordeu a isca. Isso tudo não significa mais do que duas pessoas brigando porque no fundo, queriam fazer isso.

Atitude reprovável? Com certeza. Augusto um pouco mais errado por ter começado o embate físico, mas não vamos diminuir a capacidade de ambos de analisar aquela situação e saber que aquilo claramente se transformaria numa briga. Se você chega nessa idade sem conseguir “ler o ambiente” dessa forma básica, deve devolver o título de adulto… então, faz mais sentido analisar o caso como duas pessoas que sabiam o que estavam fazendo, e honestamente, tinham o direito de escolher esse rumo de ação.

Tanto que escolheram: Glenn e Augusto passaram o dia recebendo apoio pelas redes sociais. Todo mundo validando seus comportamentos. No final das contas, ambos avançaram suas agendas de alguma forma. Talvez Augusto tenha mais problemas pela situação ter acontecido no seu local de trabalho e ter ficado registrado como o primeiro agressor, mas no final das contas, a briga só reforçou as imagens que ambos queriam passar para a sociedade, se posicionando ainda mais ferrenhamente do lado que defendem.

E aí, entra a escolha de quem está vendo isso de fora: validar o comportamento ou tratar as coisas como elas são. O festival de mensagens de apoio, repúdio e os artigos analisando minuciosamente quem estava errado ou usando o fato para caracterizar algum dos lados da disputa política nos mostra qual a escolha foi feita. Não temos que pensar na forma como nos tornamos agressivos por causa desse showzinho de dois manipuladores, temos que buscar a razoabilidade como meta de vida. Violência não é coisa da direita ou da esquerda, violência é coisa de quem é violento.

Vamos criando esses circos ao redor de situações banais… no mesmo dia, milhares de brigas piores entre dois homens aconteceram no Brasil. A maioria por falta de maturidade dos envolvidos. E, normalmente não damos a mínima para isso: problema deles. Mas, quando ambos se posicionam de forma tão explicitamente política, e dada a visibilidade do fato, esquecemos dos seres humanos ali e olhamos apenas para as bandeiras que levantam. Eu não vi nenhum avanço na conversa sobre esquerda ou direita naquela situação, só vi dois favelados brigando porque não conseguiam conversar. Não me representam, de forma alguma.

Mas, representam o grosso da internet e da mídia brasileira, sedentos por mais um palanque na interminável guerra pela verdade absoluta. No meu mundo ideal, o máximo que mereceriam era um meme da Sandra Annenberg dizendo “que deselegante”. Sério, não tem nada para ver aqui. Não é a esquerda, não é a direita, não é o Lula ou o Bolsonaro, são dois homens que estavam doidos para criar uma confusão e conseguiram. A politização era um plano de fundo para um comportamento humano genérico.

Vivemos criticando politização de tudo aqui no Desfavor, e não vai ser diferente agora: os dois calharam de representar movimentos políticos populares no Brasil, só isso. Gente escrota vai usar isso para validar suas fantasias de violência contra o outro lado, ou mesmo para se vitimizar (vítima é o novo agressor). Mas no final das contas, foi só uma briga de bar durante um programa de rádio.

E briga bem merda… esse povo nem para enfiar a porrada direito…

Para dizer que isso tem cara de Desfavor da Semana (sempre tem coisa pior), para dizer que eu só estou capitalizando no tema para mostrar mais propagandas, ou mesmo para dizer que o errado na briga é quem você menos gosta: somir@desfavor.com


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