Consumo eficiente.

Muito se fala atualmente sobre consumir de forma consciente, dando preferência a alternativas mais sustentáveis, mas pouca gente fala de consumo eficiente: se você troca de celular a cada seis meses, grandes coisas que ele seja feito com materiais mais seguros para o meio-ambiente ou que utilizem mão-de-obra ética. Vamos ver então algumas dicas para aprender a comprar coisas de forma mais eficiente. A consciência é… consequência.

Em primeiro lugar, é importante ressaltar que meu ponto forte são eletrônicos, mídia e softwares em geral, talvez essas dicas sejam menos no alvo para quem consome moda e acessórios, por exemplo, mas tenho quase certeza que a lógica básica é consistente o suficiente para todo mundo tirar algum valor dessas ideias. Vamos lá?

1. Não seja o primeiro a comprar.

Os primeiros compradores de qualquer tecnologia são conhecidos como “early-adopters”. Normalmente, esse público tem um desejo quase que incontrolável de ser o primeiro do seu grupo de conhecidos a ter um produto ou serviço, e aceitam o que vem nesse pacote: preços mais altos e maior probabilidade de encontrarem defeitos.

Sagrado direito de cada um ficar muito empolgado com alguma coisa, a humanidade só funciona porque algumas pessoas pagam qualquer preço para seguir suas paixões e empurram a inovação com essa energia. A questão aqui é que você provavelmente não tem esse tipo de paixão por 99,99% das novidades que são lançadas no mercado. Pode parecer que eu estou dizendo algo óbvio, mas não é tanto assim quando você considera o papel da publicidade nessa história.

A maior parte das famosas filas nos dias de lançamento de iPhones são de pessoas que sequer entendem como um celular funciona, quanto mais entendem quais são as inovações daquela versão. Sim, tem gente que realmente está empolgada pelo produto, mas são minoria. O resto está lá por uma empolgação criada por campanhas publicitárias e poder de marca.

Na prática, ser um dos primeiros a comprar um produto ou serviço é uma péssima ideia: você não tem informações sobre o funcionamento deles, não sabe se vai ter um defeito que vai te dar dor de cabeça, e muitas vezes acaba pagando muito mais caro do que aquilo realmente deveria custar. Para o mercado de tecnologia, é saudável esperar pelo menos uns 3 meses após o lançamento para começar a considerar uma compra. Pré-venda é uma furada, por mais que você confie na marca. São inúmeros os casos de produtos que dão problemas até as primeiras revisões serem colocadas no mercado.

2. Não acredite no que a empresa diz.

Não é papo hippie de “capitalistas mentem”, porque normalmente existem consequências severas para empresas que mentem sobre as capacidades reais de seus produtos e serviços, especialmente nas que atuam em países mais sérios. É sobre o costumeiro hábito de empresas, especialmente as de tecnologia, de passar dados “tecnicamente corretos” sobre seus produtos. Informações tendenciosas misturadas com omissões pontuais.

Se a empresa diz que a bateria dura 80 horas, com certeza é num ambiente controlado utilizando as funções mais econômicas que nem sempre são as de uso real do produto no qual ela se encaixa. Quando a marca diz que sua tela tem cores mais vivas, normalmente está se baseando num elemento técnico que em tese pode ser tratado assim se forem pressionados num julgamento sobre propaganda enganosa.

Tirando golpistas óbvios, empresas não mentem descaradamente sobre o que vendem, apenas manipulam as informações da forma mais conveniente para elas. Por isso, não adianta fazer uma pesquisa rápida no Google para pegar mentiras sobre produtos de grandes empresas, porque “tecnicamente” elas não mentem. Agora, na prática, a bateria de 80 horas dura umas 40 se você não está repetindo exatamente as condições utilizadas no teste original do qual tiraram esse número. Quase toda frustração de usuário final vem da comparação dessas alegações publicitárias comparadas com a realidade.

O certo é sempre procurar por produtos que prometem um pouco mais do que você quer. Porque mesmo se eles não cumprirem essa promessa, você ainda tem o que queria comprar. Enquanto não existir um mecanismo mais severo de punição para alegações exageradas, mas tecnicamente verdadeiras, pode contar com a continuação desse hábito.

3. Cuidado com “reviews”.

Hoje em dia temos uma arma poderosa contra mentiras de empresas em seus produtos e serviços: a internet. Na palma da sua mão, a oportunidade de verificar qual a experiência de outras pessoas com aquilo que você quer comprar 24 horas por dia. Isso dá muito poder ao comprador, mas você não esperava que as empresas, especialmente as mais inescrupulosas, não percebessem isso, né?

Não é difícil notar quando a pessoa analisando o produto está sendo patrocinada, se ela ganhou o produto de graça ou recebeu dinheiro para produzir o material, obviamente ela perde quase toda a credibilidade. Por incrível que pareça, ainda funciona. Tem gente que vai ver seu influenciador preferido falando bem de uma marca que sabe estar pagando pelos elogios e ainda sim acreditar que aquilo é uma análise real. Espero que você não seja uma dessas pessoas. Não existe objetividade num review pago.

Mas, atenção: é cada vez mais comum que empresas contratem produtoras para montar reviews dos seus produtos e colocar na internet como se fossem clientes normais. Some isso a mais um elemento óbvio que muita gente parece esquecer: comprar algo não te faz especialista naquilo. Uma pessoa aleatória pode não entender bulhufas sobre o que está analisando e reclamar de coisas que não fazem sentido, ou talvez pior, elogiar elementos que não são positivos.

O review bom é feito por quem não ganhou o produto de graça, não recebeu para fazer a análise, fala de coisas extremamente técnicas que você provavelmente não entende, e é muito raro que termine dizendo que o produto é uma completa porcaria ou perfeito. Se terminar dizendo “não compre de jeito nenhum” ou “pode comprar sem medo” e você não entendeu claramente o motivo, vá procurar outra análise na hora, porque essa não serve para você.

4. Saltos tecnológicos são raros.

Você provavelmente não precisa trocar as coisas que tem por versões mais novas. Novamente: direito querer, mas é muito raro que seja realmente uma necessidade. E quando falamos de tecnologia em 2020, isso é mais relevante do que nunca.

A indústria não está parada, mas nossa tecnologia em computadores (desktop, notebooks e celulares) está numa fase de incrementos das mesmas tecnologias há mais de uma década. O computador de alto nível de 2020 é muito melhor que o de alto nível de 2010, mas não é melhor o suficiente para parecer que veio de outro planeta, como vimos no salto dos anos 90 para a primeira década do milênio, por exemplo.

Eu dependo de computadores de alto desempenho para trabalhar, e não tenho um videogame desde o PlayStation 2, o que me faz o público alvo perfeito para as peças mais avançadas da indústria, e mesmo assim, meu computador foi montado em 2014 e eu não troquei nada além da placa de vídeo desde então (porque a original queimou). Tudo o que eu quero rodar no computador funciona, e relativamente bem. Claro, em 2014 era uma máquina top de linha, mas da forma como a tecnologia avançou, eu consegui sobreviver praticamente sem custos extras até aqui.

Não houve um salto considerável nesse meio tempo. E pelo o que eu estou vendo do mercado, não vai ter por algum tempo ainda. Os produtos de tecnologia duram muito mais que qualquer campanha publicitária das fabricantes te diz, considerando também os reviewers pagos por elas para empurrar a mesma baboseira. Seu celular ou notebook novos não vão ser tão melhores assim que o atual, quase sempre lentidão é questão de não fazer manutenção e apagar arquivos e programas desnecessários.

Compre direito uma vez e vai durar. Compre por impulso e seja obrigado a continuar comprando mesmo sem precisar por anos e anos. Se tiver algum salto considerável na tecnologia que muda tudo, você vai ficar sabendo, porque ninguém vai parar de falar disso. Não existe tecnologia secreta que só os hackers usam, é tudo muito bem divulgado e você não corre risco algum de ser o último a saber.

A resposta para a pergunta “eu preciso atualizar meus computadores?” é quase sempre não.

5. Estudo rápido.

Não vou te dizer para virar especialista em tecnologia ou consumir conteúdo técnico sem parar, mas vou te dizer uma coisa: enquanto você não entender um mínimo, vai continuar comprando produtos de tecnologia que vão te frustrar e precisarem ser trocados constantemente. O segredo aqui é saber o que te importa no produto ou serviço e estudar basicamente só aquilo.

Precisa de um notebook com bateria muito boa? Aprenda como funciona uma bateria, aprenda quem são as fabricantes, leia e veja alguns materiais técnicos sobre elas… coisa de 10 minutos no Google. Não precisa aprender sobre processadores ou memória, só precisa aprender sobre bateria. Estudou 10 minutos? Vai ver alguns reviews. Rapidamente você vai descobrir quem entende ou não do assunto por usar ou não os termos técnicos que você acabou de aprender. Achou alguém que entende? Veja o que essa pessoa recomenda, de quem ela fala bem, e use isso para fazer sua próxima pesquisa sobre notebooks.

Quase certeza que você vai acabar comprando algo que faz o que você quer, e mesmo que não seja maravilhoso, vai cumprir mais ou menos suas expectativas, que dessa vez são realistas.

Quer um celular com câmera maravilhosa? Mesma coisa. Como funciona, quem faz, material técnico rápido, review… pesquisa. Você pode pular totalmente as falas das empresas e comprar aquilo que estudou. É muito difícil fazer uma compra ruim com esse esquema de pesquisar por 10 minutos sobre a parte técnica do que te interessa num produto.

E depois disso, pode deixar o conteúdo ir embora da sua cabeça. Você não vai precisar dele tão cedo, e ele vai estar disponível na internet quando você precisar. Um investimento rápido que faz seu dinheiro valer muito mais.

6. Você recebe o que paga.

É bom demais para ser verdade? É BOM DEMAIS PARA SER VERDADE!

Se você percebeu que está barato demais em comparação com o resto, está barato demais por algum motivo que você provavelmente não vai gostar. Produto que entra em promoção é produto encalhado, produto que é muito mais barato quebra mais rápido ou não faz o que promete, te forçando a comprar outro muito mais cedo que deveria. Custa caro comprar só coisa muito barata.

Para me chamar de comunista consumista, para dizer que só compra o mais barato, ou mesmo para dizer que publicidade só mente para quem quer ouvir mentiras: somir@desfavor.com

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Comments (10)

  • Bom artigo. Prudência sempre. Passo meses pesquisando qualidade e preços de hardware. Troca de vários ou mesmo de todos os componentes em intervalos de no mínimo cinco anos é suficiente até para “gamers”, mesmo que a publicidade sempre pretenda provar o contrário.
    Mas há um aprimoramento que merece ser mencionado cuja popularização foi relativamente recente: o SSD. Mesmo para quem se limita a “atividades básicas” no computador, o incremento de desempenho é significativo.
    Finalizando: do ponto de vista ambiental, a troca desnecessária de equipamentos é um problema e tanto em um país no qual a logística reversa até hoje não foi devidamente implementada.

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  • Somir, vou comentar sobre tópicos enumerados pra facilitar.

    Sobre o item 3, é bem isso, o que tem de review “comprado” no youtube, que fala mal de uma determinada marca e elogia outras só porque tá gahando por trás, não tá escrito. Difícil é filtrar um review bom.

    Sobre o item 4, realmente, se pensarmos em computadores, por exemplo, vemos que não mudou muita coisa da década passada pra cá, tirando alguns núcleos a mais e o número que vem depois do i nos intels hehe

    Eu lembro de um mac pro com processador quad core que tinha que olha… Durou bastante, considerando que ter um quad lá nos idos de 2005 era artigo de luxo. Mas aí também, nisso tudo, entra aquela questão da obsolescência programada, né? Parece que fazem de propósito pra que dure pouco e que o sujeito compre sempre algo mais novo.

    Sobre o item 5, realmente, o povo simplesmente tem preguiça de pesquisar um mínimo as coisas, daí compra e se arrepende. Vejo muito disso com celulares e essa velharada aí que não sabe fazer manutenção no próprio celular.

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    • Por isso que eu sugiro pesquisar rapidamente sobre a parte técnica antes de ver o review, você consegue ver rapidamente quem só está abrindo uma caixa e falando se achou bonito e quem fala sobre a parte técnica real do produto. As empresas falam um monte de bobagem no material oficial, quem repete isso não merece confiança.

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  • “A resposta para a pergunta “eu preciso atualizar meus computadores?” é quase sempre não.” O Windows não dá escolha, quando aparece a notificação de “atualização necessária”, o sistema começa a ficar meio lerdo e travando (ou pode ser impressão minha, sei lá). Depois, o sistema só dá as opções “atualizar e desligar” e “atualizar e reiniciar”.
    Mesmo assim, tudo continua funcionando bem. Tenho meu celular há 5 anos e meu computador há 4 e não penso em trocá-los :)

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    • O Windows vai acumulando porcarias com o tempo. Dizem que não impacta a performance, mas impacta sim. Experimenta uma instalação do zero, o computador ficar rápido mesmo com a última versão.

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  • Seu celular ou notebook novos não vão ser tão melhores assim que o atual, quase sempre lentidão é questão de não fazer manutenção e apagar arquivos e programas desnecessários.

    Compartilhe seus conhecimentos, senpai.

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    • Acho que manutenção é aquela coisa: apague de tempos em tempos o cachê do navegador, histórico de navegação, arquivos temporários e tal. Apague programas desnecessários tipo esses blotwares que não servem pra nada que já vem instalados de fábrica. No celular, apague aquele app inútil que só serve pra sei lá, mostrar um relógio diferente, e apague de tempos em tempos as pastas do whatts que tem milhares de arquivos de audio, vídeo, figurinhas, imagens etc etc e só vão pesando cada vez mais na memória interna.

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      • Eu acho que entram mais duas coisas aí que influenciam também:

        1) Trocar o HD por um ssd aumenta bastante a velocidade do negócio! Pro usuário comum não faz muita diferença, pra quem trabalha com renderização de grandes arquivos, um ssd nvme faz uma puta diferença! Mas ainda assim, tem que manter, limpar de tempos e tempos e tal. Só o hardware em si não faz milagre.

        2) Acho que a pessoa tem que ter certa consciência também do que realmente precisa pra ser instalado no pc. Tirando o pacote office, pdf e tal que todo mundo precisa, talvez tu não precise daquele photoshop instalado que pesa 5gb. Eu tenho o lightroom instalado e um programa de audio que pesa 20gb, mas eu realmente uso ele e com frequência, então… Programas pesados que tu não utiliza, ou mesmo jogos que tu não joga, devem ser desinstalados pra não gerar lentidão.

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    • O que o Ge disse mais uma coisa: de tempos em tempos, resete a porra toda. Tem uma função no celular para zerar tudo para configuração de fábrica (os seus contatos estão salvos no google ou na apple mesmo). Para computadores, a ideia é formatar de tempos em tempos e instalar tudo do zero. Não tenha dó, você provavelmente usa 5% do que está instalado.

      Pra celular não vale tanto, mas pra computador vale: limpar ventoinha do processador faz muito sistema voltar a funcionar direito… veja se o computador está rodando com algo muito quente. Esse programa é grátis e limpo para VER os dados de temperatura do computador: https://www.hwinfo.com/

      Eu quase troquei de computador ano passado por não ter me tocado que o processador estava torrando com um cooler morrendo. Comprei uma porcaria de ventoinha de 30 reais no lugar e está rodando lindamente até hoje.

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      • Sofisticando um pouco mais, pode-se pensar na análise do fluxo do ar que circula pelo gabinete, a instalação de fans ou até soluções de resfriamento líquido. Neste último caso, usuários com maior demanda com desempenho combinada com a impossibilidade (seja lá por qual motivo for) de controlar a temperatura ambiente.
        Ao que consta, outra solução é usar algum equipamento para soprar ar frio e remover eventuais camadas de poeira. Há gabinetes que são vendidos com filtros para diminuir um pouco a quantidade que entra.

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