Palavras ao vento.

Há muito tempo eu percebo uma espécie de achatamento do vocabulário humano. Não necessariamente uma diminuição de número de palavras conhecidas pelo cidadão médio, porque historicamente sempre foram poucas mesmo, mas no número de significados delas. Parece que até mesmo as palavras se tornaram extremistas…

Eu entendo que toda língua muda com o passar do tempo. O ser humano está otimizando sua comunicação há milênios e não há lógica nenhuma em querer impedir esse progresso. Simplificamos palavras que usamos muito, adotamos novas ou ressignificamos antigas de acordo com intercâmbio cultural e novas tecnologias, e até mesmo inventamos algumas do nada para expressar situações e sentimentos ainda não cobertos pela língua que usamos.

Língua parada no tempo é língua morta. Hoje eu não estou aqui para reclamar de abreviações, gírias e emojis, estou mais preocupado mesmo é com a forma exagerada como muita gente vai empilhando palavras nos extremos de cada sentimento. Em tempos de pouca nuance nas posições políticas do cidadão médio, esse radicalismo no vocabulário só aumenta as tensões.

A minha teoria é que a tecnologia é mais culpada por isso do que gostaríamos de acreditar. Com a internet, muita gente teve suas primeiras experiências em se expressar através de texto. Sem a ajuda do olho no olho ou do tom da voz, muita coisa que expressávamos com naturalidade ficaram estranhas na escrita. Há mais de 20 anos as pessoas brincam (sério) que a internet deveria ter algum símbolo para expressar sarcasmo. Passar tudo o que sente numa sequência de palavras escritas é tarefa complexa, um misto de arte e ciência que poucas pessoas dominam.

Para a maioria de nós, é questão de soltar a informação na grande rede e torcer pelo melhor. E até por isso, é razoável exagerar um pouco. Escrever que está furioso quando está mais ou menos incomodado, dizer que está rolando de rir no chão quando só sorriu um pouco, dizer que ama algo pelo qual tem algum apreço… aprendemos a nos fazer entender nesse meio através da hipérbole. E com o tempo, isso vai virando uma guerra. Quando todo mundo grita, você se sente obrigado a gritar também.

E pelo visto, a primeira geração a formar seu caráter com a presença constante da internet, os millenials, é justamente uma das gerações mais radicais que já vimos. Não importa o lado do espectro político que se encontrem, não há muito espaço para moderação. Os sentimentos flutuando entre os limites de cada ideia sem nuance nenhuma. E o impacto disso não acaba nesse geração: os mais velhos vão reagindo de forma cada vez mais ávida se perdendo em conspirações (algo mais relacionado com uma visão de mundo antiga de pouca gente controlando a informação) e especialmente as novas gerações, que já chegam nesse mundo debaixo de um tiroteio e acabam se dessensibilizando com tanta loucura.

Mas vamos ser mais práticos. Hoje em dia não custa muito para ser chamado de coisas que seriam acusações gravíssimas algumas décadas atrás. Não sei como isso vai se adaptar à parda realidade brasileira, mas nos EUA todo mundo que você não gosta é supremacista branco. Não há mais nenhuma preocupação em acusar alguém disso. E francamente, cada vez menos repercussão.

Deveria ser algo muito sério: para receber essa pecha antigamente, precisava ter visões de mundo bem violentas, acreditando na superioridade racial dos brancos como justificativa para erradicar ou escravizar outros povos. Um supremacista branco deveria ser alguém de quem temos medo e precisamos eliminar das sociedades modernas antes que fatalmente cometam atos terríveis de violência. Hoje em dia, supremacista branco é um youtuber que disse uma palavra racista num vídeo uma vez há dez anos atrás.

Caps Lock não é mais a forma de gritar na internet, o importante é exagerar absurdamente no peso da palavra usada para descrever. Ultimamente vimos diversos casos de homens mais velhos dando em cima de garotas de 15 ou 16 anos e sendo chamados de pedófilos. Sério? É um comportamento louvável? Não. É a definição de pedofilia? Também não. Um Zé Ruela em crise de meia idade correndo atrás de uma jovem que nem prestou vestibular é meio patético, mas não muito mais do que isso. Natural querer coibir o comportamento, mas não jogando no lixo uma palavra séria como pedófilo.

Se vai marcar alguém com essa palavra, que seja para proteger crianças, não para envergonhar alguém que você acha meio babaca. Mas a sanha de gritar na internet é tão grande que não importam as consequências. Não importam as palavras que perdem o peso quando não descrevem mais o que deveriam descrever.

Acha que é sacanagem colocar uma transexual com o dobro da massa muscular da mulher média para disputar um esporte de contato na modalidade feminina? Você vira transfóbico. Ou seja: você tem fobia, medo irracional de transexuais se acha que algo que está vendo com os próprios olhos está errado. Não se sente sexualmente atraído por transexuais? Medo irracional também. O sufixo fobia é um dos mais afetados por essa corrida rumo ao volume mais alto na internet. Fobia agora é discordar.

E parece que eu só vou bater no lado esquerdo das coisas, mas a direita abraçou a mudança numa boa: quer explicar para crianças como funciona o sistema reprodutor delas para evitar problemas futuros? Pedófilo! É a favor do direito ao aborto? Assassino! Acha que o governo precisa melhorar seus programas sociais? Comunista! Quer dar menos importância para as insanidades escritas em seus livros sagrados? Cristofóbico!

Eu não sei quanto tempo vamos resistir a essa escalada de gravidade nas palavras usadas. Nem tanto pelo ângulo de gerar uma guerra mundial, mas mais pela fadiga que isso tende a causar. Misógino, racista, homofóbico, fascista, comunista… já são palavras que não tem o mesmo peso de antes. Quando você percebe que a maioria das pessoas ao seu redor já foram chamadas disso, a tendência é relativizar. Ainda cola em redes sociais, mas na vida real virou piada. Eu gostaria de saber se algum amigo meu fosse misógino, porque eu provavelmente deixaria de ser amigo dele e tomaria muito cuidado de deixar mulheres por perto dessa pessoa. Mas, se ele é misógino porque acha que pensão alimentícia é algo errado… bom, você pode até discordar dele, mas não é algo que realmente coloque em risco as mulheres ao seu redor.

O perigo é que percamos a noção dessas palavras. Misógino pode ser alguém que deseja matar mulheres com toda a fúria de seu ser, ou pode ser alguém que expressou uma opinião crítica contra uma mulher num caso específico. A lógica nos diz que na dúvida, é mais provável que seja o segundo caso. Se tanto homem fosse misógino assim, não ia ter mais muita mulher nesse mundo… quanto mais metade da população humana.

O racista pode ser quem deseja a volta da escravidão ou pode ser alguém que falou mal do cabelo de uma apresentadora de TV. O homofóbico pode ser quem ataca gays na rua ou quem faz cara de desgosto quando vê dois homens se beijando. O pedófilo pode ser quem abusa violentamente de crianças de colo ou pode ser alguém que elogiou uma jovem de 16 anos no WhatsApp. Nós realmente queremos que todos esses casos sejam pressionados pra caber nas mesmas palavras?

Bons os tempos em que eu reclamava das pessoas dizerem que amavam qualquer coisa, chamavam de épico qualquer feito mediano, diziam que odiavam uma comida que não lhes apetecia muito… a coisa está piorando, e piorando para esvaziar o significado de muitas das mais sérias acusações que um ser humano pode fazer. E ênfase em esvaziar. Talvez daqui a alguns anos ninguém se importe muito de pesquisar sobre uma pessoa e ver que ela tem múltiplas acusações de racismo, misoginia, transfobia… porque talvez seja um nazista terrível, mas muito provavelmente é só alguém que falou umas merdas quando estava estressado.

E é aí que as pessoas realmente perigosas desses mundo vão conseguir se esconder na multidão. Se todo mundo é supremacista branco, ninguém é supremacista branco, não? Talvez a língua tenha que se renovar, achando palavras ainda mais hiperbólicas ou reaproveitando algumas medianas que caem em desuso. Mas enquanto isso, os piores exemplares de nossa espécie só têm a agradecer: nada melhor para sua imagem do que ter virtualmente toda pessoa famosa na mesma categoria que elas.

Quando a acusação vale mais que o julgamento, o crime fica em segundo plano.

Para me chamar de meio babaca, para dizer que não concorda com alguns pontos mas tudo bem, ou mesmo para dizer que foi um texto bem razoável: somir@desfavor.com

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Comments (6)

  • Se me permite fazer um paralelo rapidinho a título de comparação, vamos lá: eu percebi um pouco disso a algum tempo atrás quando lecionei para ensino médio. Fiquei me questionando, poxa, o que diachos há com essa geração? Pelamor!

    Na minha época a gente pesquisava as coisas com enciclopédia barsa, ficava horas com a bunda sentada na biblioteca lendo e escrevendo à mão, pra conseguir alguma informação demandava algum esforço. Essa turminha de hoje tem tudo na mão aí bem mastigadinho, só dar dois cliques no google e já acha tudo que quer, bem resumidinho! Fica até sem graça pedir algum trabalho de pesquisa do tipo biografia de determinado autor, porque supostamente eles já sabem tudo, ou pelo menos já ouviram falar, ou já leram algo bem resumidamente na wikipedia ou num site qualquer de resumos. O ensino, então, ainda mais essa parte especulativa, que supostamente desperta alguma curiosidade, passa a ser visto como chato e monótono por eles.

    Mas, mais do que isso, onde eu quero chegar é: não bastasse toda informação possível disponível na palma da mão deles – como se eles já soubessem de tudo já de antemão -, alguns (deveria dizer, a maioria?) vêm com julgamentos preconcebidos a respeito de autores, filósofos ou obras que eles nem sequer conhecem direito com profundidade. É uma mania de dizer que a obra do passado “é ruim” porque sempre se aplica o olhar do presente para o passado. Aplicação bem errada, vale dizer! Isso é mais ou menos o que Felipe Neto fez outro dia falando besteira no twitter sobre literatura brasileira.

    Mas o ponto de articulação que eu queria mesmo com o texto é o seguinte: realmente, essa turminha de hoje é lá “radical”, se não gostam de uma coisa – e muitos nem gostam sem sequer conhecer a fundo – já te tacham de alguma coisa que revela ou significa seu sentido extremamente oposto. Poucas palavras pra abarcar muita coisa, muitos significados, reducionismo semântico. Tá errado isso aí…

  • Palavras usadas repetidamente de forma inadequada acabam perdendo sua força e se tornando irrelevantes com o passar do tempo. E isso acontece desde sempre. Começou com as que exprimiam ideais nobres, como “justiça”, “cidadania”, “igualdade”, “direitos”, “inclusão”. Depois, foi a vez das que explicitam sentimentos e opiniões, como “amo”, “odeio”, “gosto”, “abomino”. Agora, são as que se emprega para insultar e acusar que estão tendo seus significados esvaziados. E assim, infelizmente, caminha a Humanidade…

    Estamos todos cada vez mais inseridos em um mundo em que muito se fala, mas pouco se diz. A maioria das pessoas alfabetizadas, na hora de ler e escrever, só ajunta palavras e não é plenamente capaz de realmente se expressar ou de depreender alguma coisa. Falta a essa gente “bagagem” para conseguir perceber coisas como contextos, sub-textos, ironias, deboches, piadas, falácias, sátiras, paródias, hipérboles, alusões, referências, paráfrases, distorções, citações, paralelos, comparações, relações-de-causa-e-efeito, etc. Junte a tudo isso a atual polarização e radicalização entre as diversas bolhas dentre e fora da internet e temos a receita perfeita para um desastre.

    • Também percebo isso num nível mais básico da coisa, W.O.J. A pessoa é incapaz de entender uma paráfrase, sub-texto, ou mesmo estabelecer uma relação lógica, de causa e efeito, e construir uma oração subordinada com a conjunção adequada. Difícil, viu? Tenho a impressão de que os seres humanos, no geral, realmente estão regredindo.

  • A maioria das pessoas ainda vai ser normal. Mas a tendência é um aumento na porcentagem de pessoas se fechando no seu próprio mundo com sua waifu ou hasubando. Sinceramente? Talvez eles que estejam certos, por não conseguirem ou não quererem se encaixar nessa sociedade doente.
    E fica a reflexão: até onde essa coisa de “diversidade” é sustentável?

  • Isso é comodidade, a facilidade de entretenimento gerado pela tecnologia fez com que os pais se esquecessem da importância de estimular a criatividade, raciocínio lógico entre outras coisas.
    Quando não havia internet, como era feito o entretenimento de crianças e adultos? Aprender instrumentos musicais, jogos como xadrez, damas, a leitura, mexer nas coisas da casa, montar, desmontar, consertar, brincar de faz de conta, enfim atividades realmente estimulantes e intelectuais que te colocavam a ponderar sobre as coisas.
    Atualmente a internet entrega tudo mastigado, o que não quer dizer que a tecnologia não é uma ferramenta que possa ser utilizada na realização dessas atividades, é apenas o padrão de comportamento humano que mudou.

  • “Não sei como isso vai se adaptar à parda realidade brasileira, mas nos EUA todo mundo que você não gosta é supremacista branco.”

    Tem imigrante hispano-americano sendo acusado de “supremacia branca” na internet, esse país é surreal. Se bem que as classificações raciais de lá são bem estranhas, pegam brasileiros, argentinos e mexicanos, independente se for branco, negro ou asiático, e colocam como “latinos/hispanics”, embora a herança espanhola não tenha sido tão abrangente no Brasil quanto foi nos vizinhos. Árabes e europeus mediterrâneos ficam num limbo nas classificações de “pessoa branca”, e assim vai. Me pergunto pra que isso ainda existir, só pega a nacionalidade da pessoa e pronto.

    E respondendo sua dúvida, não vai se adaptar. O brasileiro médio tem um parente e um vizinho de cada cor, e prefere usar seu escasso tempo livre pra fazer outra coisa.

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