FAQ: Coronavírus – 21

A OMS já publicou o relatório sobre a origem do coronavírus. É verdade que suspeitam que ele veio de um laboratório chinês? Vocês falaram que isso era impossível.

Vamos por partes. O relatório já saiu sim e, como prometemos em outro FAQ, vamos resumir seu conteúdo.

Nós nunca falamos que era impossível que o coronavírus viesse de um laboratório. O que nós falamos é que Coronavíris não foi uma arma biológica criada pela China para um propósito e disseminada no mundo de forma intencional. Em um texto antigo eu cheguei a dizer que não descartava que ele tenha saído de um laboratório, mas com transmissão acidental de animal para humano ou de qualquer outra forma não intencional.

O relatório da OMS não concluiu que o vírus veio de laboratório, a questão ficou em aberto, justamente por isso solicitaram uma série de investigações e providências adicionais, para tentar entender a origem. Uma delas é que se aprofunde o estudo sobre a possibilidade do vírus ter saído de um laboratório chinês. É uma entre muitas outras medidas.

Informações do relatório da OMS:

– Não foram encontradas marcas (papo técnico: assinaturas) no genoma do vírus atestando que ele foi manipulado. Logo, continuamos sem qualquer indício de que o vírus foi feito como arma biológica e solto propositadamente para a china vender máscara e luva. O vírus teve origem em um animal, ou seja, não foi criado nem manipulado por seres humanos. Onde estava o animal e o humano quando se deu esse salto, ainda não sabemos.

– O tempo que a China ocultou o coronavírus foi o que o próprio país admitiu: poucos meses. Isso foi mensurado verificando um aumento nas internações hospitalares por problemas respiratórios e pelas mortes em excesso (compara-se o número de mortes na mesma época no ano anterior com as mortes do ano para ver se há alguma diferença muito grande). O aumento veio em novembro/dezembro, que coincide com a data estimada do surgimento do vírus. Também testara o material colhido (cuspe e etc.) de pessoas com doenças respiratórias dos meses anteriores ao surgimento da pandemia. Os primeiros coronas foram achados em novembro.

– Também se analisou onde os casos começaram. Se presume que os primeiros casos surgem próximos ao local onde se deu o contágio dos humanos pelos animais. O relatório (baseada nas internação e mortes em excesso) aponta como foco o norte da cidade de Wuhan, onde fica o famoso mercado de Hubei, o que indica que os primeiros contágios ocorreram ali. Nos testes com material colhido de pacientes do parágrafo anterior, os primeiros coronas vieram de Hubei.

– Analisaram o mercado de Hubei e encontraram contaminação em alguns animais e em algumas gaiolas. Os primeiros casos rastreados vieram de pessoas que estiveram no mercado e datam do final do mês de novembro. A linhagem de vírus ali é mais diversa, ou seja, tinha vários tipos de corona e um deles emplacou seu caminho ao sistema respiratório humano (ou vários emplacaram e só um vingou). Isso é típico de lugares que são berçário para surgimento de novos vírus. Também observaram que outros mercados da região tiveram uma explosão de casos pouco tempo depois, o que indica para que lado o corona se espalhou primeiro.

– Tiveram acesso a testes realizados por países vizinhos de pessoas vindas da China ou de chineses viajantes. Na Ásia se fazem muitos testes, principalmente para problemas respiratórios e mais principalmente ainda quando envolve a China. Depois do que eles passaram com a SARS, ninguém conta com a transparência chinesa. Todos os coronas que encontraram datavam de novembro em diante e da região de Hubei, só depois a coisa se espalhou.

– Avaliaram o registro de compras de remédios nos arredores de onde teria surgido o vírus, para avaliar quando as pessoas começaram a comprar remédios que supostamente aliviariam os efeitos da doença e não viram pico de compra de remédios antes do final do mês de novembro e, novamente, a incidência maior foi na região de Hubei.

– Analisara o resultado de testes imunes de funcionários do laboratório de Wuhan e concluíram que os profissionais do laboratório não tinham anticorpos contra covid. Também verificaram que no entorno do laboratório não houve aumento de procura por atendimento médico, de hospitalização, de venda de medicamentos para aliviar os sintomas nem foram encontrados funcionários que já tenham sido contaminados.

O que concluíram daí:

– O vírus é natural e deve ter um hospedeiro intermediário, relacionado com o mercado de Wuhan. Se fosse um vírus que saltou de morcegos diretamente para humanos demoraria muito para se adaptar bem a humanos, logo, teria que ter contaminado pessoas muito tempo antes. Para chegar assim, contaminando todo mundo, se espalhando com fúria, ele deve ter passado por um animal intermediário com organismo mais parecido com o ser humano, que o ajudou nessa adaptação. Façam suas apostas, a minha é o Pangolim.

– Não há evidências dele se espalhar fora da China e fora de Whuhan antes de dezembro de 2019, o que levaria a concluir que os casos detectados em esgotos e em outros lugares antes disso são um erro do laboratório ou um outro vírus que causou um falso positivo.

– Não detectaram o vírus em comida congelada, portanto, ele não veio de fora pela comida e também não saiu de lá pela comida.

– Não está descartado que possa ter acontecido um contágio acidental ou vazamento do laboratório de Wuhan, infelizmente essas coisas são mais comuns do que se imagina e acontecem no mundo todo. Se escapou sem querer de um laboratório, o mercado de Wuhan se encarregou de espalhá-lo.

Quando soltarem o novo relatório das providências adicionais solicitadas a gente volta aqui para resumir o que foi encontrado.


É verdade que existe relação entre alguns tipos sanguíneos e casos graves de covid?

Foi observado que pessoas com o tipo sanguíneo A+ (A Positivo) tem uma tendência maior ao contágio e a apresentar quadros mais graves de coronavírus, enquanto pessoas do tipo O parecem ter maior proteção. Ainda não está comprovado (e talvez nunca seja), mas é uma hipótese válida. Vamos entender o motivo pelo qual isso supostamente acontece.

Antes de mais nada, vamos falar rapidinho sobre tipos sanguíneos. O que faz com que classifiquemos sangue em diferentes tipos são os são as diferentes proteínas presentes nas células sanguíneas (papo técnico: antígenos).

Ter um tipo sanguíneo determinado significa ter anticorpos contra os outros tipos sanguíneos, por isso, quando uma pessoa toma uma transfusão de sangue do tipo errado ela tem uma reação grave e pode até morrer. Por exemplo, se eu tenho sangue A, eu tenho antígenos Anti-B, que fazem meu corpo rejeitar o sangue do tipo B.

A primeira hipótese se baseia nisso: que diz que esses anticorpos naturais contra outros tipos sanguíneos também tenham outras funções ainda não muito bem conhecidas. Por exemplo, quem tem sangue O ou B tem o antígeno anti-A, ou seja, rejeita sangue A. Especula-se que esse antígeno anti-A também desempenhe outras funções além de rejeitar sangue do tipo A, uma delas seria um efeito protetor contra certas doenças virais, dificultando a entrada do vírus nas células.

Então, pessoas com sangue do tipo A, que não tem o antígeno Anti-A, não teriam essa “proteção extra”, o que as tornaria mais suscetíveis tanto ao contágio como a casos graves de covid. Esta é uma das hipóteses que explicam a razão pela qual pessoas com tipagem A+ seriam mais vulneráveis à doença.

A segunda hipótese para explicar o desgraçamento dos A+ é que pessoas da tipagem A possuem coagulação mais intensa do que pessoas de tipagem O (papo técnico: tem mais componentes “pro-coagulantes”), o que pode favorecer um quadro de trombose, uma das complicações mais comuns e mais perigosas do coronavírus (papo técnico: tromboembolismo pulmonar).

A terceira hipótese cogitada é de que isso aconteceria por causa dos antígenos (proteínas) dos grupos sanguíneos: ao que tudo indica, uma estrutura-chave na superfície do vírus que ele usa para entrar nas nossas células e infectá-las também se liga diretamente ao tipo sanguíneo A, por isso ele entraria mais facilmente e se instalaria mais facilmente.

O impacto do tipo sanguíneo em doenças não é algo inédito. Doenças como malária, hepatite B e outras mostram variações de acordo com o tipo sanguíneo, portanto, sabemos que é perfeitamente possível que ele afete o contágio e o desenvolvimento da doença. Segundo estimativas, ter sangue A+ significaria um risco 2,5 maior de ter um caso grave de covid, quando comparado a pessoas de sangue O.

Para corroborar ainda mais com essa teoria, estudos feitos com o Sars-Cov (coronavírus anterior ao covid) demonstraram que pessoas com sangue do tipo O teriam mais resistência ao vírus. Então, já é uma desconfiança antiga.

Então, em resumo, o que dá para dizer é que: com as informações que se tem até aqui, há evidências de que o tipo sanguíneo pode influenciar no contágio e no desenvolvimento da doença. Não quer dizer que ele sempre vai influenciar, quer dizer que ele pode influenciar. E isso ainda não é uma certeza científica, os estudos apontam nessa direção, mas não é possível ter certeza.

Para ter certeza, seria necessário reunir pessoas de todos os tipos sanguíneos e colocá-las em um ambiente controlado onde tivessem igual exposição ao vírus, para que se saiba que o fator determinante para contaminação e morte não é fruto de variáveis externas. Isso é algo que nunca deveria acontecer, pois seria absurdamente antiético contaminar deliberadamente pessoas saudáveis, portanto, pode ser que nunca tenhamos a confirmação.

Se você, assim como eu, tem sangue A+, não precisa se desesperar. Não quer dizer que você vá ter covid nem que vá desenvolver uma versão grave da doença. Há pessoas A+ que desenvolvem quadros leves e há pessoas O que desenvolvem formas graves. Apenas cuidem-se muito para não descobrir qual será a reação do seu organismo se vocês adoecerem.


Sally, está surgindo na mídia um termo chamado “sindemia”. Entendi que é como se as consequências da pandemia encontrassem as já existentes da desigualdade social. Pode explicar, quando puder?

Para alguns cientistas o covid-19 não é uma pandemia e sim uma sindemia. Há muitas vozes defendendo a ideia de uma sindemia, mas a coisa se popularizou quando um grupo de cientistas escreveu um artigo para a “The Lancet”, uma das publicações de medicina mais conceituadas do mundo, cujo título é “Covid-19 não é uma pandemia”, defendendo que o coronavírus seria algo maior e mais complicado que uma pandemia e precisaria ser tratado como tal

O termo “sindemia” vem da junção de duas palavras: sinergia (uma espécie de cooperação) e “pandemia”. O termo surgiu na década de 90 e foi criado por um antropólogo americano chamado Merrill Singer. Em uma simplificação grosseira, a sindemia ocorre quando há a interação de duas ou mais doenças de modo a causar um dano maior do que elas causariam em separado.

Exemplo: você tem uma doença A, que causa dor de cabeça e tontura quando contraída individualmente e uma doença B, que causa enjoo e vômitos quando contraída individualmente. Mas, se as duas forem contraídas ao mesmo tempo, além de dor de cabeça, tontura, enjoo e vômito, você terá outros sintomas mais graves causados pela interação das duas e fazendo com que a população seja ainda mais vulnerável ao seu impacto.

Além disso, a sindemia também leva em conta como as condições sociais e ambientais, que se somam a essas doenças e agravam seu quadro. Não bastaria combater a doença em si, mas também as condições sociais e ambientais que a agravam, o que poderia mudar totalmente o plano de combate ao coronavírus.

Exemplo: o Peru, país com um dos maiores números de mortes proporcionais, fez uma das quarentenas mais severas e, ainda assim, viu o número de casos e mortes explodir. O que teria faltado olhar é que quase metade das casas peruanas não tem geladeira, então, por mais que você imponha a quarentena mais severa do mundo com a melhor fiscalização do mundo, se as pessoas não saírem de casa elas não tem o que comer, pois não conseguem armazenar comida.

Então, segundo os defensores da sindemia, se particularidades como essa fossem olhadas e incluídas no plano de combate à covid, cada país teria adotado medidas mais assertivas, pois combateria não apenas a doença como os outros fatores (comorbidades, fatores sociais e fatores ambientais) que a agravam. Não é que a fórmula isolamento social + testes + rastreio de contatos não seja correta, é que a forma como ela é aplicada, muitas vezes é sem o respaldo necessário para que ela possa efetivamente ser cumprida.

Aos olhos da sindemia, os danos que estamos sentindo agora não são apenas do coronavírus, uma vez que ele, por si só, não faria um estrago desses. O dano que estamos sentindo é uma confluência de fatores que incluem o coronavírus, comorbidades e questões sociais e ambientais que colaboram para que o impacto seja bem maior do que aquele que o vírus poderia causar sozinho.

O plano de atuação ideal teria que combater ou controlar doenças como hipertensão, diabetes, obesidade, problemas cardíacos, câncer e outros que, somados ao covid agravam o quadro. Além disso seria preciso observar as questões sociais e ambientais para promover as medidas mais adequadas para proteger populações mais vulneráveis.

Tem muita gente boa prevendo que covid é algo com o qual vamos conviver por muito tempo, portanto, se justificaria adotar medidas, ainda que a longo prazo, para mitigar comorbidades, questões sociais e ambientais como forma de combate ao estrago que a doença faz.

Além disso, dizem que é questão de tempo até surgir outra pandemia, em função do uso predatório que o ser humano faz do planeta, depredando o habitat natural de animais que, até então, viviam afastados dos humanos e agora estão adentrando em seu território.

Então, se pensarmos que pandemias serão eventos cada vez mais frequentes, podemos entender a preocupação em combater não apenas a doença em si, mas tudo em seu entorno que a torna pior, mais contagiosa e mais letal. O plano de ação deve ser “personalizado” de acordo com a realidade de cada lugar.

Para completar, os defensores da abordagem da sidemia afirmam que se continuarmos tratando o coronavírus como uma pandemia, as vacinas fracassarão, ou seja, não dá tempo de vacinar toda a humanidade sem que surja uma variante que escape das vacinas. Nesse caso, novas vacinas teriam que ser feitas e a população teria que ser toda revacinada, mas, nesse meio tempo, se não olharmos para as questões sociais e ambientais, outra mutação poderá surgir mais uma vez, nos colocando sempre em posição de ter que refazer as vacinas sistematicamente.

O que se sugere como preparação para uma próxima pandemia é cuidar que toda a população do mundo tome as vacinas que tem que tomar, se alimente de forma suficiente, sejam feitas campanhas para esclarecer e prevenir doenças crônicas e se trabalhe para reverter as desigualdades sociais, que impedem que grupos menos favorecidos cumpram medidas de distanciamento e outras. Segundo os defensores da teoria da sindemia, a abordagem puramente biomédica estaria fadada ao fracasso.

Para dizer que se tiver FAQ na quinta você não volta mais, para dizer que quando Somir se torna o alívio cômico do blog tem algo errado ou ainda para dizer que é A+ e não vai dormir hoje à noite por minha culpa: sally@desfavor.com

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Comments (4)

  • Sally, obrigada por responder, por um bem comum, não só a minha questão como também todas as outras dos demais que tiveram genuína curiosidade (ou não) sobre essa situação tão desgraçada. Muito obrigada a vocês dois por manterem o Desfavor mesmo com todo esse festival de merda no Brasil (por mim eu já teria mudado o idioma e todo público alvo do site pra gringos). Obrigada por não desistirem de nós.

  • Brasil tá com 27 milhões de doses aplicadas e zero reporte de efeito colateral.
    Lá fora tem país suspendendo Oxford e Jansen porque eles detectaram possiveis problemas.
    Não que isso seja surpresa, considerando que o corona da floresta foi descoberto pelo Japão.
    Se e gente fosse menos incompetente poderiamos ajudar nessa investigação dos efeitos colaterais… mas isso é pedir demais.

    • A melhor ajuda seria não criar novas variantes, já estava de bom tamanho…
      Os efeitos colaterais das vacinas não são nada, estão totalmente dentro do esperado. É White People Problem de quem tem muita vacina e pode escolher.

  • “O que se sugere como preparação para uma próxima pandemia é cuidar que toda a população do mundo tome as vacinas que tem que tomar, se alimente de forma suficiente, sejam feitas campanhas para esclarecer e prevenir doenças crônicas e se trabalhe para reverter as desigualdades sociais, que impedem que grupos menos favorecidos cumpram medidas de distanciamento e outras.”

    E isso é justamente o que é o mais difícil de se fazer! Ainda há – e sempre houve – egoísmo demais, ganância demais, ignorância demais, preconceito demais, politização demais, má vontade demais. A Humanidade já estava bastante doente muito antes de o Coronavírus aparecer…

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