Projeto de caos.

Mais uma semana bizarra no Brasil, com apenas um projeto avançando: o projeto do caos. Mas será que o brasileiro será capaz de reconstruir o que está sendo destruído? Desfavor da Semana.

SALLY

Passei o ano de 2020 inteiro escutando brasileiros dizerem que “a Argentina ia virar a nova Venezuela”. Por mais risível que isso fosse, eu nunca poderia imaginar que, um ano depois, o mundo daria tantas voltas que essa previsão voltaria para morder a bunda de seus autores.

O desfavor da semana de hoje é a situação calamitosa do Brasil, não necessariamente a atual, mas a que está se formando. Não que a atual não seja calamitosa, ela é, mas o que está se formando parece muito, muito pior. Assim como o brasileiro não percebeu a tsunami de covid chegando, não parece estar percebendo todo o resto que está se formando. Continua inerte, indiferente, anestesiado ou inconsciente.

O Brasil caiu para a chamada “zona vermelha” no Ranking Mundial de Liberdade de Imprensa, ou seja, está no mesmo patamar de liberdade de imprensa que Venezuela, Rússia, Belarus e outros países nada democráticos. Pergunta se o povo percebeu, sentiu ou está fazendo alguma coisa para reverter esse quadro? Não, claro que não. E não se trata de ter medo do Presidente Malvado, pois sabemos que são incompetentes incapazes de articular qualquer plano sério de poder. É sobre o brasileiro aturar qualquer merda que façam com ele. Existirão consequências.

A situação covídica vai de mal a pior, obrigada. Mas parece que o brasileiro está celebrando que, em vez de morrerem 4 mil pessoas por dia estão morrendo 3500. Surgiu uma nova variante, a P4, mutação da tão temida P1 (a variante de Manaus), mas foda-se, ninguém vai tomar nenhuma precaução extra por causa disso. Pessoas continuam nas ruas de forma desnecessária. Existirão consequências.

A pandemia dá sinais de que não vai ceder tão cedo, de que virá uma terceira, quarta, quinta onda e o brasileiro continua inerte. Em vez de se adaptar, de buscar uma nova forma de ganhar dinheiro, continua de braços cruzados repetindo o mantra “nem todo mundo pode trabalhar de home office”. Pode sim, meu anjo, é só se adaptar. É fácil? Não, não é fácil. Para ser bem sincera, é bastante difícil. Mas é possível. É só tomar as rédeas da sua vida e sair da zona de conforto. O curioso é que aqueles que dizem não ser possível, em sua maioria, nem tentaram. Existirão consequências.

Em vários pontos do mundo o vírus está fora de controle, em vários pontos do mundo estão surgindo novas variantes. Na Índia, corpos estão sendo incinerados de forma coletiva, cremação em massa, para aqueles que não acreditavam na possibilidade de um colapso funerário. Tem variante nova surgindo no Texas, na Índia e em diversos pontos do planeta. O Brasil fechou as fronteiras para os países onde estão surgindo novas variantes? Não. Existirão consequências.

Os países vizinhos ao Brasil estão todos destruídos, colapsados, batendo recorde de mortos graças à variante brasileira. O vírus em si está sendo chamado de “coronavírus brasileiro” e há uma forte hostilidade no ar, graças à indiferença do Brasil, que sequer um pedido de desculpas ou uma nota de pesar emitiu. Existe algum tipo de comoção, vergonha ou consternação por parte do brasileiro? Claro que não. Existirão consequências.

Bolsonaro discursou na Cúpula do Clima afirmando que destinaria mais verba para a fiscalização ambiental. Biden disse que isso eram “notícias encorajadoras”. Menos de 24 horas depois Bolsonaro cortou a verba para o meio ambiente. Bolsonaro não está mais falando com Trump, ele está falando com Biden, que tem pouca paciência e é conhecido e lembrado por suas soluções bélicas. Ele é o responsável pela morte de Osama Bin Laden, um sujeito que foi caçado por anos e escapou de todo mundo, menos de Biden. Bolsonaro prometeu uma coisa publicamente para esse homem e, no dia seguinte fez outra para. Existirão consequências

Bolsonaro também decidiu que “por falta de verbas” não vai realizar o Censo 2021. Isso significa que ninguém vai saber o quanto o brasileiro adoeceu, o quanto o brasileiro empobreceu ou qualquer outra consequência do desastre que está acontecendo no país. O curioso é que falta verba para o Censo mas para anistiar dívidas bilionária de igrejas sobra. Esta semana mais uma foi anistiada. Isso significa que se o povo ficar inerte e não exigir a realização do Censo, em 2022 todos votarão sem saber ao certo o estrago que Bolsonaro fez. Existirão consequências.

Mais empresas estão abandonando o Brasil. Esta semana foi a maior fabricante de cimento do mundo, a Lafarge Holcim, decidiu encerrar suas atividades no Brasil. A justificativa: a moeda brasileira está muito fraca e isso compromete os resultados da empresa no país. Ford, Sony, 3M e tantas outras fizeram as malas e se mandaram. Elas conseguiram ver o que está por vir. Estima-se que o país vem perdendo uma multinacional a cada 3 meses. Existirão consequências.

Estes são apenas algumas das muitas danações que estão se formando no Brasil. E o povo continua inerte. Reforço: eu acho positivo, a longo prazo, alguém que faça ruir tudo, assim se constrói algo melhor. Mas, para isso, é preciso um povo capaz de construir algo melhor, e esse não parece ser o caso do brasileiro, pela forma inerte e vergonhosa que ele vem se portando. Dói ver que tanto sofrimento e tanta danação não estão servindo para que as pessoas aprendam, melhorem, reajam.

Parece que é ofensivo falar, conversar, discutir os problemas do Brasil: “Ain quanto pessimismo, quanta negatividade”. Apontar o que está errado não é uma traição ou falta de amor, muito pelo contrário, é abrir portas e dar a oportunidade para perceber o que deve ser corrigido. É o primeiro passo para se tornarem um país melhor.

Mas, pelo que estou vendo, o plano que eu vislumbrava desde as últimas eleições, de Bolsonaro ser uma ferramenta para colocar tudo abaixo e construir algo melhor, não vai dar certo. Bolsonaro vai fazer a sua parte, mas o brasileiro vai falhar miseravelmente em construir algo melhor: ou vai fazer uma gambiarra tosca sem qualquer esforço, ou vai delegar a construção a terceiros que, novamente, construirão algo em interesse próprio e não do povo.

Ou seja, todo esse caos, destruição, mortes e decadência serão à toa. Parabéns, Brasil.

Para dizer que não quer construir porra nenhuma só quer ir embora do país, para responder como se fosse impossível o povo fazer algo a respeito ou ainda para dizer que está revoltado com seu time por ter sofrido outra derrota ou injuriada com seu crush por ele não ter ligado: sally@desfavor.com

SOMIR

A história nos diz que para ter um governo autoritário realmente seguro, os líderes do território dominado não podem deixar a condição de vida de seus súditos passar de um certo nível. Quanto mais pobre e ignorante um povo, mais fácil é exercer poder sobre eles.

Muita gente acha que concentração de poder gera uma população miserável, mas na verdade, é o contrário: quanto mais devastado um país, maior a possibilidade de controlá-lo com mão de ferro. Sociedades ricas e igualitárias tendem à democracia, porque o povo consegue exercer poder por conta própria, e com tantas forças interagindo, um governo baseado em acordos e concessões é inevitável. Não é à toa que mesmo as monarquias europeias, milenares, estão mais para atrações turísticas do que propriamente lideranças políticas.

Por isso é virtualmente impossível dar um golpe de Estado num dos países que consideramos desenvolvidos hoje em dia. A situação já precisa estar muito desigual para qualquer aventura autoritária gere frutos. E com o passar das décadas, a linha divisória entre país seguro e país passível de dominação foi se tornando cada vez mais difícil de ultrapassar. O aumento da qualidade de vida média é considerável desde o século XX, e a tecnologia, especialmente da comunicação, deu muito mais poder para o cidadão influenciar os rumos da sociedade.

E esses fatos não são ignorados por quem deseja ter poder absoluto hoje em dia. País que funciona não pode ser dominado por uma pessoa ou um pequeno grupo. E é por isso que vemos “projetos de caos” como o aplicado no caso brasileiro. Que fique claro: eu não acho que o Bolsonaro tenha o refinamento para entender essa estratégia, mas ela é quase que intuitiva para quem sonha com controle absoluto. Quanto pior, melhor.

Sally fez um belo apanhado das notícias recentes que demonstram essa estratégia: enquanto o Brasil tiver um mínimo de força, não é possível aplicar essa ideia de controle absoluto que tanto anima o conservadorismo da era da internet. Considerando que boa parte ainda sofre para decidir se a Terra é plana ou redonda, não é como se estivessem muito atualizados sobre como o mundo funciona hoje em dia. Por isso, olham para o passado e enxergam a destruição do sistema atual como única possibilidade de exercer o poder como desejam. Funcionou milhares de anos atrás, tem que funcionar hoje em dia.

Então, paradoxalmente, o caminho para aplicar as reformas que desejam para tornar o mundo melhor passa obrigatoriamente por destruir o mundo moderno. Apelo à tradição é uma armadilha para acorrentar pessoas, fazendo-as acreditarem que a sensação de segurança é melhor que a liberdade. E, justiça seja feita, direito da pessoa de preferir isso. Eu só argumento que escolha que não pode ser desfeita normalmente não é uma boa ideia…

Estou usando o ângulo da direita para falar sobre Bolsonaro, mas, é claro, não podemos nos esquecer que direita e esquerda podem ser apenas dois caminhos para o autoritarismo: só muda a mentira que usam para tomar o poder. Direita finge que se importa com valores tradicionais, esquerda finge que se importa com direitos fundamentais, mas via de regra o que querem mesmo é a sensação de poder e as vantagens pessoais de serem donos ou aliados dos donos do país onde moram. Quando o PT estava no poder e mostrou a carinha verdadeira começando o processo de destruição na esperança de se consolidar no topo, estávamos aqui batendo neles dia sim, dia também.

Tudo isso para explicar de onde vem nossa acusação de “venezuelização” do país. A ditadura de Chávez, agora herdada por Maduro, se baseou no caos causado por sucessivos desmandos e colapsos econômicos para fincar as garras no poder. E agora, é muito difícil tirá-los de lá: dominam os recursos e podem manter uma massa de manobra enfraquecida sob seu controle por tempo indeterminado.

O Brasil ainda não está nesse ponto. O país tem recursos suficientes para manter um sistema democrático e instituições capazes de evitar o pior na questão de concentração de poder. Mas isso não impede sonhos autoritários: Lula e seus postes começaram o processo de forma mais tímida, e Bolsonaro os seguiu com seu objetivo de causar o maior caos possível, testando a resistência do sistema brasileiro. Talvez agora, com uma mãozinha da natureza com a pandemia, o projeto de poder pelo caos tenha seu maior potencial em décadas.

O que vale a nossa atenção. Como dissemos, não na expectativa de um golpe de Estado vindo de um analfabeto funcional arrogante e teimoso como Bolsonaro, mas na expectativa do avanço do caos. Destruir é muito mais fácil que construir. Talvez esse povo todo nem saiba direito o que fazer quando o caos finalmente se instalar, mas com certeza intuem que precisam dele para ter uma chance. E cada atitude do governo demonstra que o plano é justamente esse: destruir.

O que seria um problema em qualquer lugar, mas que fica exacerbado no país do jeitinho, onde o povo se encosta onde der e vai vendo o problema aumentar sem realmente exercer força no sentido contrário. Aceitamos o aceleracionismo ainda na campanha do atual presidente, esperando que esse país se reconstrua depois de um projeto de destruição baseado em incompetência e sonhos autoritários, e tudo indica que estamos chegando na primeira metade desse processo. A destruição vai de vento em popa.

Mas e a fase da reconstrução? Bom, essa vai depender de quanto tempo o povo vai tolerar uma situação terrível, e pelo jeito que o brasileiro lidou e ainda lida com a pandemia, parece que ela não começa tão cedo após o colapso. Seja lá o grau de destruição que já vivemos, não é o suficiente para esse povo. É só poder voltar para o barzinho que as coisas ficam “boas” novamente. Prepare-se para o caos, você está cercado de pessoas que o querem e por pessoas que nem ligam.

A reconstrução pode demorar, talvez bem mais do que prevíamos anteriormente.

Para dizer que só fica ruim quando ficar ruim pra você, para dizer que sou comunista e fascista ao mesmo tempo, ou mesmo para dizer que nada é mais patriota que afundar orgulhosamente com seu país: somir@desfavor.com

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Comments (16)

  • Com licença, vou ali rir depois eu volto.
    Vocês ainda acreditam que trocar 6 por meia dúzia resolve algo tão complexo?
    Calma, gente, a teoria, na prática é outra.
    Cada um de vocês precisavam governar 30 dias apenas para saborear o gostinho do “sem apoio nada sou, nada faço”
    Vão lá, experimentem.

    • Em 30 dias, qualquer pessoa com mais de 2 neurônios e/ou sem um projeto de destruição teria conseguido apoio. Apoio melhor que o aluguel do Centrão, diga-se de passagem. Seu ídolo teve bem mais que 30 dias para fazer isso, não?

      • Não necessariamente. Governos democráticos demais, e federativos, estão tendo muito mais dificuldade em lidar com a pandemia que ditaduras e regimes unitários (o que parece bastante lógico).

        Eu só gostaria que Bolsonaro não tivesse caído na insanidade de apoiar tratamento precoce para evitar gastos com auxílio emergencial. Duvido, porém, que um governo mais centralizador não fizesse absurdos, como quebrar o Estado (emitindo dinheiro) ou investindo os tubos em “vacina cubana”.

        • Como eu argumentei naquele texto sobre o país que se saiu melhor na pandemia: o feito da China é incrível pelo tamanho do país, mas a Nova Zelândia deu um show mesmo, e com governo democrático e liberal que veste hijab para visitar mesquita… o sistema de governo depende também da habilidade dos líderes de gerarem consenso.

          Como você bem disse, foi uma série de cagadas feitas que criaram apenas apoio de aluguel, e com nosso dinheiro (vide cortar tudo do orçamento pra dar pra deputado). Consenso também se constrói com um mínimo de bom senso. Bolsonaro ou quer ver o país pegando fogo para controlar mais fácil, ou realmente é burro ao ponto de apostar em imunidade de rebanho com os médicos malucos dos quais se cercou…

          • Sobre a Nova Zelândia: ajuda muito o país ser parlamentarista, com administração profissionalizada ao extremo e sem margem para incompetência. O Brasil é presidencialista, com governos tendendo ao personalismo e uma administração que tem um pouco de tudo, menos o essencial: racionalidade.

  • O Bolsonaro falou que iria botar o exército na rua se as medidas restritivas dos governadores dos Estados “trouxerem o caos”. Alguém por favor avisa ele que o caso já está acontecendo?

    • Brasil já é caótico quase que o tempo todo e em quase tudo. E a maioria das pessoas aqui só tenta tocar suas vidas em meio à bagunça. Já estão tão acostumadas que, quando não estão imersas nesse caos – viagem ao exterior, melhora de padrão de vida, “calmaria antes da tempestade”, etc. – , até estranham.

  • “E o povo continua inerte” Faltou vc dizer o que as pessoas podem fazer. Ou disse e eu não captei. O problema é o governo no Bolsonaro? Se trouxer o Lula de volta, vai ficar menos pior? É sério, a gente vem aqui é pra aprender. Ensina como resolver!

      • O povo não fará, porque o caldo ainda não entornou completamente. Nunca fomos preparados para o caos, e nunca seremos – porque nossas elites teorizam demais, enquanto o povo, despreparado, só age como escravo.

        Nos últimos 40 anos o Brasil fingiu ser um país moderno para ver se isso se consertava. Errou, e errou feio, porque não soube entender o que a população queria – e ainda não sabe.

          • Algo que realmente afete o povo, como forçar as pessoas a ficar em casa sem dar alternativas reais para seu sustento. Auxílio emergencial, para muitos, é dinheiro de pinga.

            Não custa lembrar que o Brasil passou toda a epidemia de gripe espanhola em estado de sítio – coisa que já deveria ter sido feita lá atrás, mas que, por medo do governo (e ingenuidade, também) foi deixada de lado.

        • “Nunca fomos preparados para o caos, e nunca seremos – porque nossas elites teorizam demais, enquanto o povo, despreparado, só age como escravo.”

          Definição certeira, Fábio.

  • Continuando nas paráfrases musicais, ao contrário do que cantava Gonzaguinha, o Brasileiro Médio TEM SIM cara de panaca, TEM SIM jeito de babaca e ESTÁ SIM com a bunda exposta na janela pra passar a mão nela.

  • Cantarolando:

    Aqui não tem terremoto (mas tem pandemia!)
    Aqui não tem revolução (nem uma para o bem, infelizmente…)
    É um país abençoado (sei não…)
    Onde todo mundo mete a mão (isso lá é verdade)

    Para quem ainda não conhece esse samba do Premê: https://www.youtube.com/watch?v=Dkw7Z-VxYog

    É… Quem precisa de desastres naturais, guerras ou revoluções sangrentas para se destruir um país quando se tem o Brasileiro Médio, né?

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