Milagre!

O padre vira a garrafa térmica para pegar as últimas gotas do café trazido por uma das fiéis horas mais cedo. Não há muito o que fazer no dia, o ânimo da cafeína viria a calhar. O tédio era constante naquela paróquia. O silêncio costumeiro daquele horário é interrompido pelo som de passos rápidos se aproximando.

É Ademir, o sacristão, um senhor aparentemente de uns sessenta anos de idade, talvez mais caso tivesse certidão de nascimento para consultar; ele é magro feito um palito, pele castigada pelo sol, mas ninguém na cidade confia mais em alguém para manter a igreja limpa e conservada. Ele atravessa a porta, expressão empolgada:

“Padre! Padre! Eu… é…”

O padre termina um gole do copinho plástico:

“Desembucha, criatura.”

“Eu acho que eu vi um… um milagre!” – o sacristão levanta as mãos espalmadas para o céu.

“Tudo ao nosso redor é um milagre.”

“Eu sei, mas esse é mais, padre.”

“E que milagre foi esse?”

“É…” – o senhor fica pensativo, como se buscasse as palavras certas.

“Complicado.” – finaliza, derrotado.

O padre vai se voltando para a cadeira atrás da escrivaninha onde se acumulam vários documentos, alguns aparentemente antiquíssimos.

“Se você não explicar, é mesmo. Vamos…”

“A Nossa Senhora no altar, padre.”

“O que tem ela?” – o padre está puxando a cadeira para se sentar.

O sacristão respira fundo, esperando o contato visual do homem com a batina para completar:

“Está saindo sangue.”

O padre arregala os olhos. Interrompe o movimento e imediatamente passa pelo sacristão rumo ao salão central da igreja.

Na porta, um cão vira-lata deita preguiçosamente para fugir do sol da tarde; nos bancos mais próximos do altar, duas velhas carolas seguram as contas dos terços nas mãos enquanto sussurram suas Aves-Marias. O padre avança pelo corredor central dos bancos, tomando tempo para sorrir para as senhoras. Elas sorriem de volta, mas interrompem sua reza para acompanhar com os olhos a pressa do sacerdote.

O padre sobe os três degraus que levam ao seu púlpito, e dali mais dois passos até se aproximar da figura de Nossa Senhora Aparecida, uma modesta escultura cerâmica coberta por um paninho azul ornamentado, e finalizada com uma coroa de latão pintada de dourado. Ele junta as mãos como se estivesse rezando, mas na verdade está buscando sinais do suposto sangramento relatado pelo sacristão.

Sacristão que logo o alcança, fazendo o sinal da cruz antes de se aproximar também da imagem. As duas senhoras começam a cochichar entre si, estranhando o movimento.

“Onde você viu sangue, Ademir?” – o padre diz baixinho, virando apenas uma parte do rosto em direção ao sacristão.

O sacristão ensaia dizer alguma coisa, mas parece novamente perdido em busca das palavras certas:

“É… é… o senhor… eu…”

“Mentir é pecado.” – o padre lança um olhar acusador.

“Eu estava limpando a Nossa Senhora por causa da obra, que juntou poeira, e aí eu vi o sangue, não mexi mais e fui te chamar, padre.”

“Eu não estou vendo sangue em lugar nenhum.” – o padre aponta para a imagem, cruzando os braços em seguida.

“É que não está na frente…”

O padre começa a inclinar a cabeça em busca da parte traseira da imagem. Ele vê uma pequena mancha avermelhada nas costas da Nossa Senhora, mas numa altura da escultura que indicava algo muito diferente das lágrimas que esperava encontrar.

“Não é possível… parece que… parece que a Nossa Senhora está sangrando pelo…”

“Nossa Senhora está vertendo sangue?” – a voz feminina, rouca pela idade, assusta padre e sacristão. É Loreta, carola de carteirinha, presente em todas as missas e ávida frequentadora da igreja nas suas muitas horas vagas. Ela e Isadora, a outra habitual do local, haviam se aproximado do altar sem chamar atenção.

“Não tirem conclusões ainda.” – o padre diz enquanto tenta esconder a estátua com o corpo.

“MILAGRE!” – diz Isadora, sua voz ecoando pelo salão.

“Senhoras, ainda não sabemos de nada, por favor.” – o padre sinaliza para o sacristão afastar as duas dali, mas elas se aproximam ainda mais.

“Não estou vendo as lágrimas…” – Loreta coloca o óculos para tentar uma visão melhor.

“É que o sangue está na parte de trás dela…” – Ademir completa.

“Nas costas?” – Isadora pergunta.

“Não sabemos de nada, por favor, se afastem que eu vou chamar o Bispo no telefone, tudo bem?” – o padre tenta empurrar os três para longe da figura.

Loreta, num ato de agilidade surpreendente para sua idade aparente, passa por baixo do braço esticado do padre e coloca o rosto bem perto da parte traseira da imagem.

“É no bumbumzinho dela!”

O padre arregala os olhos.

“Ela me ouviu! Glória! Ela me ouviu!” – Isadora junta as mãos e aponta para os céus.

“A senhora pediu por isso?” – o sacristão parecer realmente confuso.

“Hemorróida. A minha está terrível…” – a idosa aponta na direção do banco, onde uma almofada está no lugar onde sentava, agora com o terço sobre ela.

“Aleluia! Nossa Senhora te ouviu!” – Loreta abraça o padre, com um sorriso genuíno de felicidade.

Isadora começa a se movimentar, pega a almofada no banco e vai saindo pela porta:

“Eu tenho que contar para todo mundo!”

O padre tenta interromper, mas é tarde demais. Nas próximas horas, a cidade toda lota a igreja, e mesmo diante de todos os protestos do sacerdote, centenas de pessoas começam a formar filas para passar pela imagem, agora colocada de costas para o público. Alguns choram, emocionados pelo milagre que estão presenciando.

A primeira equipe de TV chega antes do cair da noite, e logo é acompanhada por outras. Carros com antenas de satélites posicionados nas calçadas da praça da igreja, e pela porta, vários cabos atravessando a aglomeração de pessoas para iluminar o altar e alimentar câmeras e microfones. Repórteres batem na porta da sala do padre em busca de uma entrevista, mas ele não sai dali.

Ademir aproveita seus minutos de fama.

“Estamos aqui com Ademir, o sacristão. Foi você que descobriu o milagre?” – pergunta uma bela e bem-vestida repórter da emissora local, diretamente da cidade grande mais próxima. Visão rara para pessoas dali.

“Foi sim senhora, eu estava limpando e vi que ela estava sangrando pela… pode falar bunda aqui na TV?”

A repórter fica sem graça, sorri e continua falando sozinha com a câmera.

Na sala privativa, o padre está no telefone com o Bispo regional:

“Pra você ver, eu fiquei reclamando de ser mandado para esse fim de mundo, e menos de um mês depois, surgiu a Nossa Senhora da Hemorróida! Deus trabalha de formas misteriosas.”

Ele está com um sorriso debochado no rosto. Escuta uma resposta rápida e continua:

“Capital? Parece uma boa sim, Bispo. Eu sempre tive esse sonho. Se o senhor fizer isso por mim, eu tenho certeza que vamos resolver esse mal-entendido aqui. Talvez tenha pingado tinta da obra e a gente não viu no dia, né?”

O Bispo responde positivamente.

“Pois é. Mas eu gostaria que fosse rápido, porque tem um pessoal da emissora nacional que não para de me ligar… acho que de amanhã não passa eu falar com eles.”

O padre ouve mais um pouco antes de agradecer e desligar o telefone. Ele ri sozinho e coloca as mãos atrás da cabeça ouvindo as insistentes batidas na porta.

Para dizer que o milagre foi você ter lido até o final, para dizer que gostou desse padre, ou mesmo para dizer que eu vou ter ar-condicionado quando chegar no inferno: somir@desfavor.com

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Comments (2)

  • Capitão Impressionante

    Quanto mais doutrinada, mais propensa uma pessoa fica a enxergar o que não existe e a inventar historinhas que só acontecem dentro de suas cabecinhas perturbadas.

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