Prendendo o sintoma.

Ontem, por decisão unânime dos jurados, Derek Chauvin foi considerado culpado pela morte de George Floyd. Para quem não está ligando os nomes às pessoas: foi o caso que gerou o estopim para as imensas manifestações contra o racismo nos EUA ano passado. A imagem do policial Chauvin ajoelhado sobre o pescoço de Floyd tornou-se símbolo dos abusos cometidos pela força policial americana contra populações marginalizadas. Sobre o mérito da condenação, há pouco o que se dizer: mesmo que você acredite que no fundo não era a intenção do policial, ele assumiu o risco e isso tem um preço.

E, é claro, ninguém queria o país pegando fogo com a revolta que uma absolvição causaria. E é isso que merece uma análise, afinal, para dizer que o agora ex-policial fez por merecer uma condenação, tem quase todo o resto da grande imprensa. O quanto o medo de uma grande revolta influenciou esse caso? Porque mesmo concordando que foi feita a justiça, essa pergunta precisa de resposta.

Há tempos eu escrevo aqui que nem tudo que parece puro racismo é puro racismo. Seres humanos podem ser bem terríveis uns com os outros sem necessariamente enxergar cor de pele como motivação principal. Qualquer combinação de tons de pele tem algum histórico de violência, e pra falar a verdade, na maioria dos casos estamos falando de pessoas violentando ou matando outras pessoas de cores parecidas. O ser humano tem esse hábito de ser violento dentro ou próximo de suas fronteiras, onde as pessoas ainda são muito parecidas.

Além disso, é muito complicado separar fatores socioeconômicos de fatores puramente raciais. Isso vale para desmontar argumentos de quem prega superioridade ou inferioridade genética, afinal, como saber onde o ambiente e as vantagens ou desvantagens sociais herdadas terminam e onde a propensão natural começa? São tantas variáveis que não faz sentido tentar fazer esse tipo de análise. Mas isso também vale para enfraquecer o ponto de quem tenta argumentar sobre racismo como base única da abusos contra grupos étnicos específicos.

O policial abusa do negro pobre porque ele é negro ou porque ele é pobre? E se você acha que tem uma resposta, provavelmente está errado. Não faz sentido tentar isolar essas variáveis no mundo que vivemos. Mas, a minha dúvida sobre o valor real da dita vitória contra o racismo no caso de George Floyd é se ela vai conseguir lidar com essa questão de forma completa.

Porque se ficar apenas no aspecto racial, vai faltar uma parte muito importante da verdadeira história: desigualdade socioeconômica. Se a vitória da vez for fazer as forças policiais prestarem mais atenção na forma como tratam os negros por medo de viralizarem como bandidos, a vitória da vez vai ser de curta duração.

Explico: o fator socioeconômico não desaparece com essa condenação. Ainda vamos ter problemas com pessoas marginalizadas, das quais uma grande parcela é negra. Policiais vão precisar agir de forma dura com pessoas que por uma série de motivos vão infringir a lei. Enquanto houver uma correlação direta entre cor da pele e condição econômica (mesmo que não seja uma propensão genética e sim o resultado de um sistema de opressão), vamos continuar vendo mais pessoas desse grupo étnico em situações problemáticas com a polícia.

E aí, qual o verdadeiro ponto de fazer a polícia agir de forma menos racista? Se houver alguma redução na forma truculenta ou mesmo assassina como alguns policiais lidam com negros, será que ela resiste a um sistema que não consegue corrigir a disparidade econômica? Pessoas mais pobres estão mais expostas e vulneráveis à criminalidade. Seja como perpetradores ou vítimas.

Se o sistema não muda a causa da criminalidade, o sistema continua sob a mesma pressão de antes. Policiais se fecham ainda mais na certeza que precisam fazer qualquer coisa para sobreviver como classe. Eu vou dizer uma coisa horrível, mas sem corroborar com ela: a violência policial contra minorias era uma das válvulas de escape para evitar a explosão de todo o sistema de repressão à criminalidade. Uma carta branca dada pela sociedade em troca da sensação de segurança.

Essa válvula de escape é horrível, mas é real. Se vamos ficar apenas com o tratamento dos sintomas da desigualdade, ela precisa ser compensada de alguma forma. A polícia precisa de alguma coisa em troca de ficar correndo atrás de gente perigosa, e mesmo que nos EUA o salário seja bem maior em média que no Brasil, por exemplo, ainda não é algo que compensa sozinho.

Se a polícia é vista com cada vez mais hostilidade, ela vai devolver hostilidade. E se não “puder” tratar os pobres e os marginalizados como bem entender, vai ter que achar outro jeito de lidar com isso. E nós, brasileiros, sabemos muito bem como isso pode acontecer: com esquemas e mais esquemas de esconder as brutalidades cometidas, e em casos mais severos, com o desenvolvimento de milícias.

Sim, eu acredito que Chauvin nunca poderia ter sido inocentado depois do que fez. Só que a maior preocupação aqui é o fato de que esse “nunca poderia ter sido inocentado” nem sempre é uma medida de justiça por um fato ocorrido, mas também uma forma de achar que está tratando do problema do racismo na sociedade. Disso eu desconfio, e muito.

Violência policial é sintoma de sociedade desigual, e mesmo que se proteja um dos grupos perseguidos por algum tempo, ou a coisa volta ao patamar anterior por cansaço coletivo (hoje já pipocou um caso de um policial que atirou numa jovem negra aparentemente tentando esfaquear outra pessoa, e a conversa já está girando ao redor de racismo), ou a polícia começa a achar outras formas de extravasar, mais ou menos como já faz em países mais desiguais ainda como o Brasil.

Tratar sintoma pode até aliviar um pouco, mas a doença continua firme e forte.

Para dizer que não queriam mais um surto de Covid, para dizer que todo mundo bom é todo mundo morto, ou mesmo para dizer que agora que o Trump saiu nem precisava mais: somir@desfavor.com

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Comments (4)

  • Vai ser um ciclo sem fim, isso aí deve ser só pra calar a boca dos militantes por um tempo. Sempre teve casos como esses e o problema mais profundo não é resolvido. É como as crianças mortas pelos pais, alguém um dia poderá impedir que uma pessoa sem condições psicológicas, emocionais, materiais etc. tenha filhos? As autoridades, ou seja lá quem for, poderão um dia resolver esse problema da desigualdade de uma vez por todas sem colidir em interesses dos mais poderosos? Será que alguém estaria disposto a se sacrificar por essa causa e não ser egoísta filho da p#ta e abrir mão da riqueza, do status e do luxo para tal? Difícil. Não faltam ideias mas… Difícil.

  • Eu vou dizer que estou relativamente surpreso com a continuação desses arrastões. Eu tinha certeza absoluta que era só uma estratégia de… alguém… para derrubar o Homem Laranja Mau ano passado, e que assim que ele fosse retirado do cargo (em uma eleição completamente isenta e livre de fraudes, claro), essas intervenções artísticas iam acabar.

    Não entendo exatamente o por quê de elas continuarem. Quer dizer, parte disso obviamente se refere ao fato do movimento ter total apoio e suporte da trindade jornalistas-artistas-acadêmicos, como diversas autoridades políticas incluindo a presidência da república estarem a favor do movimento, e de como a polícia não está agindo contra esses arrastões, seja por não querer ou por estar de mãos atadas.
    Mas qual o fim disso? O que eles querem? E as figuras que estão bancando ou mesmo dando legitimidade a eles, ganham o quê com isso?

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