Escolhi radicalizar.

Para não dizer que o governo Bolsonaro abandonou todas suas pautas que não sejam ajudar garimpeiros e grileiros na Amazônia, ainda temos alguns resquícios da chamada “pauta de costumes” pipocando aqui e acolá, tanto no Ministério de Cristo da Mulher, Família e Direitos Humanos com Damares, quanto com deputados e vereadores alinhados com o presidente na questão de sexualidade. A solução para tudo? Dizer para adolescentes não fazerem sexo. O que pode dar errado?

Há tempos eu digo que os cristãos têm uma obsessão doentia com sexo, 99% da energia deles é dedicada a regular o uso de genitálias e ânus alheios. Toda aquela história de perdão, amar o próximo… tudo em segundo plano quando tem a questão passa perto de sexo. Deus tem um plano, e ele passa pela correta utilização de suas gônadas.

Nessa sanha de regulação reprodutiva, dois pontos se destacam: a repressão à homossexualidade e a manutenção da pureza de crianças e adolescentes. O resto é bem mais perdoável, afinal, o resto é o que o cristão adulto médio faz e o cristão adulto médio não quer parar de fazer as putarias que já faz, só quer interferir na vida alheia. Gays e jovens são alvos ideais.

Sim, outras religiões também são doentes mentais quando o tema é sexualidade, mas a que pentelha nossas vidas no Brasil é o cristianismo. Fiquem tranquilos, meu horror à religiosidade ainda é universal.

Como já escrevi várias vezes sobre o monumental desperdício de tempo e energia que é tentar reprimir homossexualidade, inclusive dizendo num texto que provavelmente é por isso que ainda não estamos colonizando as estrelas, hoje eu quero me concentrar mais na parte de encher a cabeça de crianças e adolescentes com informações de péssima qualidade. Ou, em termos mais simples: defender abstinência.

Existem vários programas financiados pelos evangélicos e católicos falando sobre as benesses de não fazer sexo antes do casamento. Evidente que o foco é o público adolescente, justamente quem vive na prática com as dúvidas sobre o início de sua vida sexual. Enquanto essas iniciativas estavam dentro de um contexto puramente religioso, era só mais uma ferramenta de lavagem cerebral para um grupo desejoso, mas quando entidades governamentais começam a dar suporte a isso, temos um problema muito mais fundamental.

Crente pode falar bobagem, é a religião deles. Mas o Estado não pode (em tese) agir sem pensar. O foco em abstinência é de uma burrice ímpar: se fosse no campo econômico, seria mais ou menos como aconselhar pessoas pobres a não gastar mais dinheiro até ficarem ricas. Ou, no campo da saúde, dizer que para não enfrentar filas no SUS, é só não ficar doente. Sim, não fazer sexo tem a melhor taxa de sucesso para evitar doenças sexualmente transmissíveis e gravidez, mas é uma sugestão estúpida.

Típica solução perfeita que gente burra acha que funciona na vida real. Para a sorte delas, com o manto da religiosidade, poucos realmente os criticam pela vergonhosa limitação intelectual demonstrada com a ideia. Não querem se ver como adversários de uma religião. Se o ministro da Economia aconselhasse o povo a ganhar mais dinheiro para evitar problemas com salários baixos, xingaríamos até a décima quinta geração de sua família. Mas se um crente diz que a solução para não engravidar é não fazer sexo, não recebe o mesmo tipo de reação.

Precisamos acabar com isso. Se tudo o que você conseguiu montar na sua cabeça para lidar com o problema de doenças sexualmente transmissíveis e gravidez na adolescência é a sugestão de não fazer sexo, você é um completo retardado e não deveria mais dar ideias para os outros. Uma ameba consegue conceber relação entre causa e consequência. Chega de ser educado com quem ofende a inteligência alheia.

E sim, eu sei que a Igreja Católica disse que abstinência resolveria o problema da AIDS na África enquanto se dizia contra o uso de camisinha. Eu bato nos evangélicos agora porque a bola está no campo deles, mas os católicos são tão burros quanto nesse tema.

E por que é burrice? Porque trata algo instintivo como racional. Seja por intermédio da evolução ou do ser mágico da sua escolha, seres humanos são animais sexuados, com programação de fábrica para tentar a reprodução. E no nosso caso, ainda tem o agravante de sexo ser uma ferramenta de integração social. O instinto vem turbinado pela seleção dos indivíduos mais afeitos ao ato sexual por prazer através de milhares de gerações.

Então, evidente que é tapar o sol com a peneira exigir abstinência de jovens cheios de hormônios, estimulados a formar laços através do sexo por uma sociedade baseada nisso. O que não quer dizer que não existam jovens capazes de se segurar, ou mesmo que não sejam afoitos por iniciar a vida sexual, mas se formos considerar a média da humanidade, eles não são maioria. Importante lembrar que políticas públicas tentam lidar com as vontades da maioria e proteger (na medida do possível) as minorias.

O jovem médio vai fazer sexo na primeira oportunidade que tiver. E salvo uma primeira experiência terrível, vai continuar fazendo praticamente todas as vezes que puder depois. Esperar comportamento diferente não faz o menor sentido. É por isso que pessoas com mais de dois neurônios querem manter esses jovens bem informados, para evitar o pior. Sexo tem consequências, algumas terríveis. Se não faz muito sentido tentar controlar o impulso de fazer, reduzir as chances de doenças e gravidez não planejada já ajuda demais. E olha que eu nem vou entrar no mérito do aborto legalizado, o que ajudaria a diminuir muito o número de crianças sem a menor condição de ter uma vida digna nesse mundo.

E agora, eu tomo um rumo um pouco diferente: posto que ideias como abstinência são estúpidas por ignorarem a natureza humana básica, existem outros argumentos desses conservadores religiosos que se sustentam muito melhor. Especialmente os que lidam com a hiperssexualização da sociedade moderna. Realmente, tem algo de problemático de uma criança passar sua fase de desenvolvimento ouvindo uma funkeira repetir “senta” sem parar. De entrar na puberdade sendo bombardeada com imagens extremamente sexualizadas nas redes sociais. De ler e ouvir de muita gente que ela pode fazer tudo o que quiser e quem for contra é opressor.

Aqui que a polarização começa a criar mais problemas ainda: as visões de mundo de quem quer regular sexualidade pelo ângulo religioso ou pelo ângulo ideológico moderno não conseguem se encontrar num meio termo. O primeiro que ceder um centímetro vai ser traído pelo outro lado. Se o religioso aceitar educação sexual nas escolas, os ideólogos vão colocar drag queens dentro das salas de aula. Se os ideólogos cederem sobre permitir alguma repressão dos instintos dos jovens, os religiosos vão querer decidir que roupa a mulher pode usar.

Ficamos no meio desse duelo armado. Ninguém confia em ninguém. Oras, o que mais faz sentido é permitir alguma liberdade para os jovens se tornarem adultos, mas oferecer alguma segurança ao mesmo tempo dando limites. Não queremos gente reprimida que acha que sexo é sujo, mas também não queremos gente sem filtros que vive para chocar os outros. Repressão e promiscuidade são dois resultados ruins no desenvolvimento sexual de uma pessoa.

E até quem está tentando se manter num meio termo mais lógico tem que lidar com a desconfiança de qual vai ser o abuso que os radicais vão cometer se cedermos um pouco. Sim, eu concordo que crianças e adolescentes devem receber educação sexual, mas para aprender como fazer sexo seguro, não para ouvir teoria crítica de gênero. É temerário que uma jovem não receba informação nenhuma sobre sexo, mas também é temerário que ouça que se gosta de jogar bola com os meninos talvez devesse mudar de sexo!

No final das contas, só criamos uma terceira via, os radicais de centro, que ficam batendo em conservadores e progressistas, morrendo de medo que qualquer um dos lados ganhe muito espaço. Sim, eu detesto a estupidez galopante de políticos religiosos tentando empurrar a fixação cristã com sexo goela abaixo de todo mundo, mas eu também detesto a estupidez galopante de lacradores que rejeitam a ciência e querem transformar biologia em ideologia.

Talvez essa desconfiança acabe sendo o principal problema do mundo atual. Ninguém pode ceder. Eu me vejo cada vez mais sem alternativas do que negociar com qualquer um dos lados, porque tudo vem com uma enorme bagagem junta. Tolere qualquer gracinha de religiosos ou lacradores e eles já tentam aplicar sua visão de mundo como se fosse verdade absoluta. Algo me diz que o ateísmo do século XXI não é só mais em relação à crença em divindades, e sim escapar do discurso maluco de dois lados em guerra, e mesmo assim, com o péssimo efeito colateral de ter que se fechar para qualquer tipo de concessão, sendo radical na rejeição da radicalidade.

Hoje em dia, pensar radicaliza. Consumir informação radicaliza. E quanto mais eu me descubro como centrista ateu radical (ateu em relação ao deus dos conservadores e ao evangelho lacrador), menos eu tenho esperanças que vamos resolver isso na conversa. Talvez a única solução para o mundo seja a maioria que não pensa muito, enquanto eles tiverem os números, conseguem controlar um pouco a insanidade da polarização.

Mas se temos dois lados lutando com força para convocar mais pessoas para suas causas, talvez seja a hora dos centristas se esforçarem um pouco mais. Enfiarem o nariz de novo na confusão e tentar conquistar alguns simpatizantes entre o povão, pelo menos para evitar que qualquer um dos outros lados consiga ter poder suficiente para impor suas visões.

Senão, vamos de Lula a Bolsonaro, e de Bolsonaro a Lula, sem parar. E pode ser que um dia desses, não tenhamos mais tanta gente assim disposta a trocar de lado. Se isso acontecer, nós que estamos no centro vamos sofrer muito mais: sem o poder ou a ilusão de estar lutando pela alma da humanidade, apenas chocados com a estupidez que tomou conta do mundo.

Normalmente eu diria para não se dar ao trabalho de sacanear quem defende coisas absurdas como abstinência sexual preventiva para adolescentes, mas infelizmente é necessário. Bater nisso e nos pronomes neutros, na esperança de trazer mais gente para o meio termo…

Para dizer que vai esperar para se importar, para dizer que vai começar a se declarar radical de centro, ou mesmo para dizer que o ser humano sempre vai ter uma religião: somir@desfavor.com

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Comments (16)

  • Tenho muita vontade de ao me aposentar atuar com palestras sobre responsabilidade reprodutiva para os adolescentes. Por ter tido filho (e principalmente por isso) simpatizo bastante com o pensamento childfree. E discordo com o dito acima sobre a relevância do acesso do jovem a este tipo de assunto na internet, pois mesmo que houvesse a busca pelo conteúdo, a “absorção” muitas vezes é mais eficaz com uma abordagem mais interativa.

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  • E a modinha do nofap? Além de não fazer sexo, não pode nem ver pornô nem bater uma. E não tem nada a ver com religião isso. Dizem que vc vira quase um superman após 90 dias!

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  • Brasil católico era fichinha perto do Brasil evangélico, pelo menos ainda tínhamos algum traço de cultura própria e um certo grau de libertinagem em vez de sermos só uma cópia da breguice, segregação e falso moralismo da América protestante (e isso vale pra ambos os lados). Ainda vai piorar muito.

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  • Embora instinto seja real, não sei se é um bom argumento porque muitos abusadores usam ele pra justificar suas atrocidades…

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    • Instinto é uma força poderosa, mas não é justificativa pra nada. O adolescente que cede aos hormônios e tem uma criança sem a menor condição de criar está fazendo uma besteira enorme do mesmo jeito.

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  • Primeiro que pra mim só faz sentido ter filhos se você é irreligioso. Botar filho no mundo acreditando que existe a possibilidade dele passar a eternidade no inferno, pra mim é crueldade. Mas enfim…

    Apesar da suposta ditadura do lacre, não descarto a possibilidade de um rebote conservador na humanidade. Países/regiões onde a mentalidade geral é mais liberal estão fadados à autodestruição, pois cada vez mais pessoas se sentem desencorajadas a ter filhos e esses países já se encontram num déficit de crescimento vegetativo alarmante mesmo com imigração. Óbvio que não vai ser amanhã nem ano que vem, mas no longo prazo pode acontecer.

    Creio que quando esses países ficarem demograficamente insignificantes o marketing e as mídias mundiais serão influenciados pelo fundamentalismo islâmico moderno, que, embora muitas concessões, não vai se desvirtuar tão rápido quanto a tecnologia seria capaz de avançar ao ponto de perder seus principais pontos-chave, como aconteceu ao longo dos séculos com o Cristianismo, desde que ele deixou de ser por si próprio um poder vigente na Europa.

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    • Interessante pensar por esse ângulo. Imagino que os “zoomers” de países fundamentalistas islâmicos não sejam tão relaxados assim com as regras do mundo passado… essa geração vai crescer em meio a lacradores cada vez mais velhos e irrelevantes.

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  • Jovem passa o dia todo na internet, a internet cheia de sites sobre saúde reprodutiva, médicos de verdade oferecem atendimento online pra tirar dúvidas anônimas e ainda acham que gravidez indesejada e DSTs acontecem por falta de informação. A pessoa quer é trepar sem camisinha, simples assim, não tem educação sexual que vai impedir isso.

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    • A parada das aulas presenciais nos mostrou quanta verdade tem nessa afirmação de que o jovem tem tanta internet… os que mais tem problemas com sexo inseguro são justamente os que só tem internet, quando tem, pra usar o WhatsApp. E sem contar que se você vive em rede social, não está exatamente extraindo o máximo de informação que a internet tem pra oferecer.

      Bônus: se você nunca recebe informação de qualidade, tudo relacionado ao sexo vira tabu e vergonha. É onde trava a cabeça de muito jovem.

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    • O fato de a informação estar lá não significa que ela esteja sendo consumida. E além do mais, não é apenas a falta de informação, a desinformação também tem seu papel. Muito tabu e muita crendice sobre o tema, sendo às vezes mais divulgados que as informações corretas

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