Pequenos erros.

Enquanto vemos diversas variantes do coronavírus surgirem por aí, especialmente em lugares onde recebeu passe livre para se multiplicar, é natural surgir uma dúvida: o que o vírus está tentando fazer? Tentando se tornar mais mortal? Ou querendo se tornar mais resistente? Qual é o plano? Bom, como tudo na natureza, o plano é não ter plano.

Variantes virais são resultado de mutações no código genético do vírus, no caso do coronavírus, seu RNA. A hipótese mais aceita atualmente é que o RNA surgiu antes do DNA, uma versão simplificada e menos resistente de armazenar e replicar informações genéticas. Mas como vemos nos números de infecções e mortes causadas pela Covid, RNA ainda funciona muito bem, obrigado, na natureza.

Depois de bilhões de anos de evolução, podemos afirmar que apesar da função importantíssima de guardar informação de uma geração para a outra, essas moléculas fizeram a diferença mesmo pela sua capacidade de mudar com o passar do tempo. Não fosse isso, a primeira forma de vida existente teria estabilizado e nunca sairíamos disso.

São pequenas alterações acumuladas por um grande período de tempo que formam toda a complexidade da vida na Terra que vemos atualmente, também conhecido como Evolução. Basicamente todo ser vivo tem essa capacidade, que se provou essencial para sobreviver num planeta que não ficou parado nesse tempo todo. É espetacular como a vida se adapta às condições que o planeta apresenta!

Mas o que talvez muita gente não considere é que o objetivo de sobrevivência é uma percepção nossa sobre as coisas que realmente acontecem. O ser humano tende a dar significado para o que observa, com seu pensamento abstrato adicionando conceitos como propósito para a natureza. Só que quanto mais você se aprofunda nessa linha de pensamento, menos intencional tudo parece.

As moléculas que permitem a vida são amontoados de átomos. Colocados em uma ordem correta, claro, mas ainda sim átomos. O átomo não tem como pensar, ele é governado por leis fundamentais da natureza, e pior: ele mesmo é composto de outras partículas ainda menores, e essas partículas, por sua vez, de outras ainda menores… em tese a ciência parece ter achado o limite de quanto se pode subdividir a matéria, mas evidente que não podemos afirmar com 100% de certeza que as partículas fundamentais como os quarks são o fim da história.

Considerando que sejam, não há nada ali capaz de ter intenção. São elementos que reagem ao ambiente segundo um conjunto de regras que ainda estamos tentando entender. Quando a física clássica parecia ter estabelecido uma visão razoável da realidade, surge a quântica para bagunçar tudo de novo. Então sim, ainda vivemos numa era de muitas incertezas sobre as propriedades fundamentais da matéria/energia, mas já dá para afirmar com alguma segurança que partículas fundamentais não tem a complexidade suficiente para tomar decisões.

E isso é importante porque estabelece o conceito de propriedades emergentes aqui. Uma propriedade emergente é algo que surge a partir de uma condição específica: quarks precisam estar em núcleos de átomos específicos dentro de moléculas específicas de células específicas do corpo humano para fazer uma sinapse. E um conjunto de sinapses específico é necessário para gerar um pensamento num cérebro humano. O quark não pensa, mas faz parte de um conjunto muito especial que tem essa capacidade. Pensar é uma propriedade emergente da matéria configurada como cérebro.

Voltando às mutações e às variantes do coronavírus, podemos dizer que são uma propriedade emergente do amontoado de átomos configurado como forma de vida. Mesmo sendo absurdamente mais complexo que um mero quark, um vírus ainda falha em ter capacidade de tomar decisões conscientes. É uma máquina natural que reage de forma específica a estímulos externos específicos.

E nessa máquina, um dos elementos constituintes é o RNA, que não escolhe mudar, mas acaba mudando a cada replicação porque é um processo muito complexo. São muitas e muitas sequências extremamente específicas de átomos para duplicar, e por mais que a natureza tenha mecanismos para corrigir erros nesse processo, nem todos são arrumados a tempo. Mutações são erros de reprodução. A pessoa ouviu “soar”, mas achou que era “suar”. Não é difícil imaginar que duplicar algo complexo como RNA (ou DNA) pode gerar esses erros.

Nessa escala da matéria, qualquer coisa pode tirar um átomo do lugar, elétrons então… até por isso radiação é algo perigoso: ela é capaz de acertar o código genético e literalmente quebrar alguma coisa. Quando uma molécula faz muita diferença, qualquer coisa fora do lugar pode causar um erro de cópia. Radiação nada mais é do que pedaços de átomos voando desgovernados para todos os lados, pequenos o suficiente para passar pelo seu corpo, mas grandes o suficiente para bater no seu DNA e trocar o “o” pelo “u”. O código genético tenta, com muito afinco, corrigir todos esses errinhos, mas alguma coisa sempre passa.

Quando você é um ser composto por trilhões de células, um errinho ou outro não vão causar mudanças consideráveis, mas se você é um vírus composto de apenas uma… qualquer mudança passa pra frente. E pra frente, e pra frente… um ser humano é muito grande para mudar muito por causa de uma mutação ou outra, mas um vírus pode virar algo completamente diferente, até porque no tempo de uma geração humana, incontáveis gerações de vírus passaram pelo mundo. É muito pequeno e muito rápido pra se reproduzir.

E se por um acaso um desses erros se mostrar um acerto, aumentando a chance do vírus de se multiplicar, não é nem que ele vai aproveitar a oportunidade, é inevitável: se se multiplica mais, vai virando a base para todas as outras mutações, afinal, é o mais comum. Eu lembro que eu passava uma informação tecnicamente errada no começo da pandemia: que vírus de sucesso evoluem para não matar seus hospedeiros. O vírus não liga pra sucesso, o vírus não sabe de nada. O vírus se reproduz mais quando é mais fácil se reproduzir. Vírus menos mortais são uma propriedade emergente das mutações, mas de forma alguma obrigatórios. A vantagem do vírus que não mata o hospedeiro é que ele não elimina a população infectada e pode continuar se reproduzindo, mas em momento algum o vírus tomou alguma decisão.

Se o vírus encontrar um caminho aleatório que aumenta sua reprodução, mas que o extinga em curto prazo, é esse o caminho que vai seguir. A evolução não liga pra nada, a gente é que tira conclusões baseados nos resultados que observamos. O átomo que constitui a molécula de um ser vivo não liga para estar vivo, nem tem como. Somos nós, amontoados deles, que temos a capacidade de nos importar.

A natureza provavelmente não tem nada de aleatório, mas as coisas são tão complexas que não conseguimos prever os resultados, é só por isso que eu digo que mutações são aleatórias, porque por pura incapacidade de analisar todos os elementos de uma só vez, elas nos parecem aleatórias. É uma limitação do nosso amontoado de matéria em forma de cérebro que provavelmente nunca vai ser vencida. Nem mesmo se começarmos a utilizar computadores ao invés dele.

As variações vão continuar surgindo, provavelmente uma surge a cada contaminado, mas apenas algumas poucas são capazes de aumentar a chance de reprodução de forma impactante o suficiente para se tornar algo reconhecível. Quase todas as mutações não dão em nada perceptível ou às vezes até atrapalham o vírus, mas é um jogo de números: se você tentar bilhões de vezes, uma hora alguma coisa funciona. São os infinitos macacos em máquinas de escrever da natureza.

É importante sabe que a Covid não está tentando escapar da vacina, mas se por um acaso uma variante conseguir enganar o sistema imunológico treinado por uma delas, é a variação que vai seguir em frente. Digo isso porque é possível que essa variante já tenha surgido, mas a pessoa não tenha contaminado outras, ou talvez até tenha morrido com essa variação. Até pelo caminho da natureza (via de regra o mais simples), não é errado imaginar que uma mutação possa surgir em várias pessoas de lugares diferentes ao mesmo tempo. RNA tem um número enorme de combinações, mas não infinito. Se a mutação A, B ou C ocorreu, é porque a chance delas acontecerem existe. Se a chance existe no Brasil, existe na China e em todos os outros lugares.

Até por isso eu considero uma temeridade baixar a guarda mesmo em populações vacinadas. Cada corpo é uma fábrica de variações potencial, já que vírus dependem de um hospedeiro para se reproduzir. Vacinas não impedem que o vírus entre no corpo, apenas o tornam muito mais capaz de eliminá-los. Mas não é impossível que um vírus consiga a mutação para escapar da vacina dentro de um vacinado. A chance é muito pequena, porque o sistema imunológico é um bicho bravo que age rápido na maioria dos casos, mas a chance está lá.

Qualquer tipo de imunidade que possamos adquirir como grupo vai ser resultado de matar o vírus tão rápido nos corpos das pessoas vacinadas que a chance de uma mutação perigosa vira mera probabilidade estatística. Possível, mas extremamente difícil. Essa é uma batalha contra um adversário que age de forma aleatória (para a gente), mas seguindo a lógica da propriedade emergente da vida: quanto mais se reproduz, mais se reproduz, até que acabem seus recursos.

O que temos que fazer é acabar com os recursos da população do coronavírus, ou seja, nós. Espero que não seja por falta de humanos e sim por potência dos sistemas imunológicos e o superpoder da inteligência complexa que temos para evitar contato e usar tecnologia como máscaras. Não tem outro jeito, não adianta teimar contra as regras básicas da vida.

O vírus não quer nada e não vai fazer nada de propósito para o bem ou para o mal, a bola está no nosso campo, desde o começo. Mas infelizmente, a propriedade emergente da inteligência não está sendo bem utilizada…

Para dizer que é tudo aleatório e não liga mais, para dizer que odeia a vida, ou mesmo para dizer que seus átomos se arrependeram de ler isso: somir@desfavor.com

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Comments (12)

  • O lógico seria se tornar mais transmissível, se matar o hospedeiro acaba a brincadeira. E vc realmente acha que o coronavirus vai acabar? Vai ser igual a gripe que nunca acabou e a gente se vacina todo ano. Tá esse inferno porque é novidade e tem pouca vacina, mas no futuro vai ter muita. Hoje me vacinei e tô feliz pra caralho!

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    • A missão do coronavírus é: infectar. Depois que ele entra em um organismo, ele passa os próximos dias se espalhando. Há um prazo no qual ele pode se espalhar (por isso se faz quarentena). Depois que ele é transmitido para todas as pessoas que pode, foda-se se o “hospedeiro” vai viver ou morrer, a missão dele está cumprida e não há qualquer prejuízo se o doente morrer.

      Fico muito feliz que você tenha se vacinado. Continue se cuidando!

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  • Resumindo: matéria orgânica surge a partir de átomos de substâncias inorgânicas “organizados” pela natureza em “configurações” específicas e vírus são entes vivos desprovidos de intenções que somente fazem aquilo que foram “biologicamente programados” para fazer: “passar adiante” seu código genético sempre se adaptando ao ambiente, em um rápido processo de reprodução que fica “facilitado” sob certas condições favoráveis. E cabe a nós, humanos, não permitir que hajam essas “condições favoráveis”, evitando assim que os vírus se repliquem e se modifiquem pouco a pouco a cada geração até ao ponto de as vacinas não serem mais eficazes. Acertei?

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    • Sim, é um resumo decente.

      O vírus não quer ou deixa de querer, somos nós que nos importamos com tudo isso.

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      • Só que, como você mesmo disse ao encerrar o texto: “infelizmente, a propriedade emergente da inteligência não está sendo bem utilizada…”

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  • Viver é uma perda de tempo, a vida não tem nenhum propósito, pro universo você e uma barata são a mesma coisa. Aceite isso e seja feliz :)

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    • Que pena que você acha sua vida uma perda de tempo.
      Sim, somos insignificantes, mas o propósito não está apenas na grandiosidade. Estamos aqui por algum motivo, deve ter algo que você deva fazer. Procure e vai encontrar.

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    • Ou você acha que somos insignificantes, ou você acha que estamos perdendo tempo.

      Perdendo tempo de quem?

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      • Discordo que o termo seja “perda de tempo”. Falta de propósito talvez caiba melhor aí.
        Vivemos um tempo curto, aprendemos e construímos muito, lutamos dia a dia contra todos os obstáculos que aparecem, amamos uma imensidão de pessoas, nos multiplicamos e tudo se acaba com um último suspiro.
        Qual o propósito disso tudo?
        Se houvesse um céu, um paraíso depois do fim já teríamos um propósito, mas não tem, viramos adubo.
        Pera aí, será que para virar adubo temos que passar por essa trágica comédia chamada vida?

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        • Se pequenos microorganismos desaparecerem, bom, você também desaparece. A menos que consiga sobreviver sem oxigênio. Mesmo os maiores fenômenos do universo são compostos de pequenas unidades que sequer podemos ver. Ok, isso não é propósito, mas é função. Se não houvesse algum propósito, também não haveria função. Nada existe a partir do nada. Não compreender o propósito é o que deveria nos impulsionar a descobrir mais do nosso universo e existência.

          E, bom, eu pessoalmente creio em “vida” pós-morte. Creio em outros estados de vida (ou equivalente) depois da vida humana. Nada se perde, tudo se transforma. E ainda assim, isso é sinônimo de propósito? Pra mim soa bem nonsense passar a eternidade em uma fofosfera digna de um jogo do Kirby. Você vive, ama, constrói as porras tudo pra… Terminar numa aglomeração celestial eterna. Não sente mais nada, não faz mais nada, não conquista mais nada…

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