FAQ: Coronavírus – 32

A vacina cubana é pior do que as outras por precisar de três doses? Qual é melhor se eu puder escolher, a de três doses ou a normal?

A Soberana II precisa de três doses para alcançar o auge da proteção, por ser uma vacina de vírus inativado, ou seja, o que se injeta na pessoa é o “cadáver” do vírus, o vírus destruído, morto, incapaz de infectar alguém. É o caso da Coronavac e da Covaxin. É uma forma de fazer o sistema imunológico reconhecer o vírus e aprender que ele é um inimigo que tem que ser atacado sem correr o risco que ele infecte e cause danos ao organismo.

As vacinas de vírus inativado costumam ser menos eficazes, é esperado que esse tipo de vacina provoque uma resposta menor, pois depende do corpo reconhecer aquele invasor sozinho. Nas outras, há algo provocando o sistema imunológico, obrigando-o a olhar para o invasor.

Por exemplo, nas vacinas de vetor viral (Astrazeneca, Sputnik, Janssen e outras) têm um outro vírus vivo (que carrega um pedacinho do coronavírus consigo) para chamar a atenção do sistema imunológico. É mais provável que ele seja percebido e atacado.

É como se o seu corpo fosse um policial tentando pegar um bandido. No caso de vacinas com vírus inativado, tudo que o policial tem é uma foto do bandido, sem a menor pista de onde ele está. Nas demais, o policial tem mais recursos, como cães farejadores, que o ajudam a encontrar o meliante. Por isso a vacina Soberana II precisa de três doses, para aumentar as chances do corpo encontrar o invasor e aprender que ele é um inimigo.

Não sei se dá para dizer que é “pior”, pois pior mesmo é não se vacinar. Se for a vacina disponível, tome. Suponho que você esteja em Cuba, pois até onde eu sei, essa vacina não é aplicada no Brasil. Se for esse o caso, saiba que existe uma outra vacina cubana, a Abdala, que tem uma eficácia maior, pois usa outro tipo de tecnologia parecida com a da Novavax (sobre a qual falamos no último FAQ), o que lhe gera uma eficácia acima de 90%.


A Butanvac fez pedido de uso emergencial à ANVISA, mas estão metendo o pau. Tem motivo para isso?

Tem sim.

Já falamos em detalhes sobre a Butanvac em outro FAQ, então, vou fazer apenas um resumo simplificado: ela é uma vacina de vetor viral, usa outro vírus para transportar pedacinhos do corona e induzir o organismo a ataca-lo. Ela usa um vírus chamado vírus de Newcastle, de aves.

Isso a torna atraente, pois em vez de cultivar vírus humanos em um laboratório que exige um sistema complexo de biossegurança, ela poderia ser cultivada de forma mais fácil e barata, em ovos (não é o ovo que se compra em supermercado, é um ovo desenvolvido para vacinas). Muito mais simples, muito mais barato e já existe toda a infraestrutura para isso, uma vez que essa tecnologia já é usada pelo Brasil para fazer a vacina contra a gripe.

O grande problema é: esse vírus de Newcastle ainda não foi suficientemente testado em humanos. Não tem vacina que tenha passado de fase 3 com ele. Lembrando sempre que o vírus é seguro, pois a segurança se mede na Fase 2. Estamos falando sobre ser eficiente o suficiente para chamar a atenção do nosso sistema imunológico e apresentar o coronavírus de forma a que ele seja atacado.

Como já falamos outras vezes, a Fase 3, que avalia a eficácia de uma vacina, não é um processo rápido. É preciso avaliar uma quantidade significativa de pessoas, é preciso respeitar um protocolo, um calendário, que não dura dias, dura meses. E a Butanvac ainda não cumpriu essa fase, nem ao menos publicou um estudo com os resultados. Complicado liberar uma vacina nessas condições. Não se queimam etapas quando se criam vacinas. Não fizeram isso nem quando não tínhamos vacina alguma, não seria o caso de fazer agora.

Além disso, a Fase 3 da Butanvac (se espera) será diferente das anteriores. A forma ética de se fazer isso agora, quando já temos vacinas, é que o duplo cego seja entre pessoas vacinadas com Butanvac e pessoas vacinadas com uma vacina que se sabe ser eficiente. Antes, o outro grupo tomava um placebo, pois não havia vacinas. Agora que temos vacinas, é sacanagem deixar gente pegando covid.

Por isso, deve ser preciso testar muito mais pessoas do que se a Fase 3 fosse feita com um placebo, uma vez que se espera que quase ninguém se contamine. Isso torna o procedimento mais complicado e demorado. Com placebo as pessoas estão desprotegidas, então, o resultado vem rápido para comparação. Mas, quando comparamos dois grupos vacinados, o ritmo de contágio é bem menor. Se for feito do jeito correto, esses resultados só saem no ano que vem.

Por isso, se a ANVISA por coerente, não vai aprovar o uso emergencial da Butanvac sem a Fase 3 concluída, como não vem aprovando nenhuma vacina sem Fase 3 concluída desde que outras opções estão disponíveis. Ainda mais em um contexto polarizado, onde, se algo sair errado com essa vacina (errado = não ter uma boa proteção contra covid), será capitalizado para fins políticos.

Sem nem ao menos um estudo publicado, seria uma grande surpresa ver a ANVISA aprovando uma vacina nessas condições. Não estou dizendo que a vacina é ruim, estou dizendo que, pelos critérios que a ANVISA alega trabalhar, faltam informações e, por muito menos já recusaram o uso emergencial de outras vacinas. Então, por uma questão de coerência, seria correto esperar publicar resultados, concluir a Fase 3 e só depois autorizar o uso.

Não sei qual será o desfecho desse caso, mas se autorizarem a Butanvac em outubro, conforme foi pedido, irão contra todas as diretrizes que adotaram até hoje. Nada contra a vacina, estou apenas falando de coerência com as exigências costumeiras da ANVISA.


Os palhacinhos que aboliram uso de máscara e comemoraram o retorno à normalidade já estão tendo que colocar a máscara de volta?

Sim. Todo ano isso. Tira o casaco, bota o casaco. Parece que as pessoas sofrem de algum retardo mental que as impede de antever o que está por vir. Vimos alguns destes mesmos palhacinhos no verão do ano passado, comemorando o “fim da covid” e sendo arrombados pelo vírus este ano, e parece que, ainda assim, a lição não foi aprendida.

Ano passado a Tchéquia fez piquenique de despedida da covid, com direito ao povo aglomerado nas praças sem máscara comendo. Deu certo? Não deu. Foi um dos piores surtos de covid no inverno. Uruguai passou 2020 praticamente intocado pela pandemia e em 2021 chegou a ter a maior taxa de mortalidade por milhão de habitantes do mundo. Não tem garantias, quem hoje está muito bem, pode ser trucidado amanhã. Sazonalidade, mutações e muitos outros fatores fazem com que não seja possível se descuidar.

Ok, este ano temos vacinas e alguns países de fato estão vacinando bem, mas isso não é garantia de que no próximo inverno deles a coisa não saia do controle novamente, uma vez que, se por um lado temos vacinas, por outro, temos variantes mais contagiosas e mais letais, temos ambientes mais propensos a contágio no inverno e temos, é claro, a burrice das pessoas. O excesso de confiança, o mau uso de pequenas liberdades e um misto fascinante de negação e arrogância.

Países que acharam que estavam prontos para dar um passo de flexibilização, como EUA, Austrália, Inglaterra e Portugal, estão tendo que recuar. Mas tá tudo bem, pois, no geral, são países que fazem as coisas com cuidado, monitoradas, com controle. Não esperam ter dois mil mortos por dia para começar a pensar em isolamento social. Tem país que com 5 mortos já fez lockdown, pois sabe que se a coisa se espalha muito, fica impossível de conter.

O lado bom é: eles são um canário de mina. Basta olhar para o que acontece lá e teremos um bom medidos do que pode vir a acontecer no resto do mundo. Se, numa população com muitos imunizados ocorrer um surto de covid no inverno, é sinal de que ainda não dá para fazer essas extravagâncias. Se tudo ficar sob controle, parabéns, é só vacinar mais de 60% da sua população com todas as doses necessárias de uma vacina de eficácia alta e tentar reabrir.


Não sentir nenhum efeito colateral depois de se vacinar, é sinal de que a pessoa teria covid assintomática ou de que a pessoa não produziu os anticorpos para a vacina funcionar?

Isso é um mito que acontece com várias vacinas, inclusive antes da covid-19: achar que se a vacina não causou efeitos colaterais ela não fez efeito. Algumas pessoas estão até espalhando que se a pessoa não sentiu nada “a vacina não pegou”. Também tem quem diga que se a pessoa teve muitos efeitos colaterais o corpo “não aceitou a vacina” ela não está protegida. Tudo mentira.

Não há necessidade de que exista um efeito colateral para que o efeito principal (a proteção pela vacina) aconteça. Vamos pensar em algo mais simples, do nosso dia a dia, para entender: algumas pessoas, quando tomam antibióticos, sentem enjoo e perda de apetite. Isso quer dizer que se você tomar antibiótico e não se sentir enjoado, não matou as bactérias do seu corpo? Claro que não. Algumas pessoas podem sentir efeitos colaterais e outras não, mas isso de forma alguma influencia a função para a qual aquele fármaco foi criado.

Uma coisa é o alerta que nosso sistema imune dá quando detecta um invasor, outra é sua aptidão para combatê-lo. Simplificando muito, podemos dizer que a resposta do corpo à entrada de um “invasor” é chamada de Imunidade Inata. Ela faz soar um alarme no corpo, provocando uma inflamação para atacar esse invasor, que são os efeitos colaterais das vacinas: febre, dor, etc. Mas não é esta Imunidade Inata que vai garantir que seu corpo saiba identificar e combater o coronavírus.

A imunidade que uma vacina pretende despertar é uma imunidade específica de longa duração: a Imunidade Adaptativa, que gera uma tropa de elite contra o vírus (papo técnico: Células T e anticorpos). Só que essa Imunidade Inata não funciona desencadeando inflamações e ela acontece, independente de efeitos colaterais da vacina.

Tanto é que se você toma uma vacina hoje e tem efeitos colaterais por três dias, no quarto dia você ainda não estará protegido. A proteção vem a longo prazo, pelo menos 15 a 20 dias depois da segunda dose. E é essa a proteção que conta, a da Imunidade Adaptativa.

Vendo os dados que os fabricantes das vacinas divulgam fica ainda mais claro. A queridinha dos brasileiros, a Pfizer, diz que 50% das pessoas vacinadas costumam ter efeitos colaterais, mas ela protege de forma efetiva em mais de 90% dos casos.

Se efeito colateral fosse sinônimo de proteção, a Pfizer teria apenas 50% de proteção. Efeito colateral não é sinônimo de imunidade. O que gera a confusão é que o efeito colateral também é causado pelo sistema imune, mas não é sinônimo do resultado das vacinas, é apenas um estágio para a formação dessa imunidade, que de forma alguma é essencial para que ela aconteça.

Vamos tentar deixar ainda mais simples. Pense em uma casa, que tem uma dupla proteção: cães no quintal (efeitos colaterais) para latir e dar o alerta caso entre um invasor e seguranças armados do lado de dentro (imunidade adaptativa) para matá-lo se ele tentar invadir a casa.

Os cães latem por qualquer coisa, nem sempre acertam quem é invasor e nem sempre conseguem pará-lo, basicamente, latem para tudo que não conhecem. Os seguranças armados que estão do lado de dentro foram treinados com uma foto do invasor e um relatório sobre seus pontos fracos, estão armados e sua missão não é dar alerta, é matar os invasores.

Então, mesmo que os cães no seu quintal (efeitos colaterais) não percebam que tem um invasor entrando, a vacina sempre te dá seguranças armados, treinados e com fotos do agressor do lado de dentro que vão disparar e matar quando ele entrar.

E, mesmo que por um azar, eles errem o disparo, o agressor vai ficar muito machucado e não vai ser capaz de te causar um dano significativo (caso de pessoas que pegam covid vacinadas e tem apenas sintomas leves).

Então, não confundam efeito colateral com o efeito principal de um tratamento, vacina ou medicação. Nem todo mundo tem efeito colateral, mas quase todo mundo tem o efeito principal.

E antes que alguém reclame de efeitos colaterais, pegar covid é muito pior, pois além de você correr o risco de sentir tudo e muito mais isso por um período de tempo prolongado, também corre o risco de morrer ou ficar com sequelas. Então, para os que choramingam por efeitos colaterais, tenham compostura: é um preço muito barato a se pagar por sua vida.

Sobre covid assintomático, existem pessoas que tiveram covid com ou sem sintomas e que depois tomaram vacinas e tiveram ou não tiveram efeitos colaterais, então, basicamente, não há certezas. Não há uma forma de prever como a doença vai se manifestar em você, até pegar a doença. É uma loteria (ou seria roleta-russa?) impossível de prever com certeza, por isso a melhor forma é a prevenção.

Para dizer que eu não tenho que tirar dúvida de cubano, para fazer bolão sobre quantos FAQs teremos antes do fim da pandemia ou ainda para pedir que o C.U. passe a ser o diretor de pauta do Desfavor: sally@desfavor.com

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Comments (10)

  • “Então, para os que choramingam por efeitos colaterais, tenham compostura: é um preço muito barato a se pagar por sua vida.”
    Sally, e aqueles casos de trombose, inflamação cardíaca? Aconteceram até em pessoas que nunca tiveram problemas cardíacos nem circulatórios. Vou me vacinar pela primeira vez depois de amanhã mas confesso que estou com um pouco de receio…

    • Vamos estabelecer uma coisa aqui: tudo que a vacina causa, o vírus causa também. A vacina causa por ter algo do vírus nela. Então, o que quer que seja, o risco da pessoa ter está lá fora, seja na forma da vacina, seja na forma do vírus. Se for pelo vírus, o risco é muito maior e as consequências são muito mais agressivas.

      O percentual de pessoas que apresentaram trombose é baixíssimo. Por exemplo, é muito mais baixo do que trombose causada por anticoncepcional, que é algo que ninguém tem medo de tomar. Todo santo dia nos colocamos em risco de efeitos adversos por qualquer medicamento muito menos nobre, qual é o grande problema de fazer isso por uma vacina que vai salvar a sua vida?

      Pode tomar sem medo, as chances de cair um raio na sua cabeça no caminho do posto são maiores.

      • Oi, sou eu de novo. Tomei a primeira dose da Coronavac e só senti um pouco de moleza por dois dias, estou bem hoje :)
        Vou tomar a segunda dose no próximo mês.

  • Engraçado, Sally, as pessoas reclamando de não sentir efeito colateral, por um lado, sendo que, por outro lado, há quem reclame e queira até escolher vacina considerando o menor efeito colateral possível! Incoerência mandou abraços!

    Em tempo: eu tomei a 1a dose da Pfizer, e só tive dor no braço mesmo por uns dias, depois passou. Curioso que, com a vacina da gripe, tive uma puta dor de cabeça esse ano que não passou nem com analgésico.

    • O efeito colateral depende de uma série de fatores, é muito difícil prever o que vai acontecer com cada um em cada momento.

      Não sei como esta aí no Brasil, mas onde eu estou, quem toma vacina tem que preencher online um questionário sobre os efeitos colaterais da vacina que tomou, ou seja, isso ainda está sendo consolidado à medida que a vacinação avança. Se sabe que as vacinas são seguras, mas ainda precisam entender melhor a incidência de cada efeito colateral em grandes quantidades de pessoas.

      • Espero estar enganado – e por favor me corrijam se eu realmente estiver – , mas até onde eu sei, no Brasil não há ainda um levantamento de dados sobre efeitos colaterais das vacinas.

  • Já é foda vacinar com 2 doses, imagina com 3! Não é mais fácil comprar a de uma dose só e acabar logo com essa merda? Quando eu fui, geral queria a de 1 dose, mas fofocas rolaram que chegava e acabava logo, era reservada pros amiguinhos de quem trabalhava no posto.

    • Seria mais fácil se houvessem 220 milhões de vacinas de uma dose disponíveis imediatamente para o Brasil.
      Como não é o caso, melhor vacinar com duas do que ficar desprotegido.

    • Nota bene para o fato de que, com algumas vacinas, são exigidas 3 doses, como é o caso da vacina contra hepatite, que é tomada na infância.

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