Os três leões.

Na final da Eurocopa, realizada no último domingo, a Itália venceu a Inglaterra nos pênaltis e levantou a taça. Seria apenas mais uma final de campeonato de seleções, mas algo se sobrepôs à narrativa: os três últimos batedores de pênaltis ingleses erraram suas cobranças, uma na trave e duas defendidas pelo excelente goleiro italiano. Esses três jogadores eram negros. Se você é uma pessoa minimamente decente, deve estar se perguntando por que essa informação é importante…

Vamos estabelecer algumas coisas: os ingleses são um dos povos mais apaixonados por futebol do mundo. Eu arrisco dizer que até mais que o brasileiro. As divisões mais baixas dos campeonatos deles perigam de ser mais organizadas e com mais público do que o campeonato principal brasileiro. Além disso, são considerados os inventores do esporte e muitos de seus times são os mais antigos do mundo.

A Premier League, a primeira divisão do campeonato inglês, é de longe a mais lucrativa e poderosa do mundo. Vários dos maiores jogadores do mundo estão em seus clubes. Mas, na hora de montar uma seleção, os ingleses normalmente não refletem esse sucesso todo: o “escrete leãozinho” coleciona fracasso atrás de fracasso, mesmo quando chegam cheios de badalação para os torneios dos quais participam.

A final contra os italianos é apenas a segunda em um campeonato importante na história deles. A primeira foi em 1966, quando ganharam seu título solitário da Copa do Mundo, jogando em casa. Em 2021, 55 anos depois, tinham a oportunidade de ganhar o segundo título importante no campeonato europeu de seleções. Mas, futebol é futebol, só um time pode vencer. Os italianos levaram o jogo para a disputa por pênaltis, e acertaram mais que os ingleses no final.

Taça para a Itália, decepção terrível para a Inglaterra. Some-se ao tempo de espera até finalmente alcançar outra final uma sina de perder em disputas por pênaltis que vem de longa data. A seleção inglesa já tinha um trauma de sempre ser derrubada nos torneios pelas penalidades máximas. Até mesmo os melhores jogadores falhavam na hora H. Já fazia parte do folclore futebolístico deles a ideia de que o time não sabia lidar com esse tipo de pressão.

Pois bem, com a final terminando empatada em 1 a 1 depois da prorrogação, lá se foram os ingleses enfrentar o trauma. Pênaltis. Os dois primeiros foram no alvo. Mas os três seguintes não. Os dois primeiros batidos por jogadores brancos, os três últimos por jogadores negros (no Brasil pelo menos um seria chamado de moreninho). Os italianos acertaram três e perderam dois (todos jogadores brancos).

Resultado? A palavra “nigger” chegou a virar trending topic do Twitter na Inglaterra. Essa palavra não tem uma tradução exata para o português, mas é considerada bem ofensiva na língua inglesa, e eu argumento que não é frescura lacradora: “nigger” é um misto de “macaco”, “escravo” e “inferior” num pacote só quando utilizado de forma pejorativa (negros podem usar como se fosse o “viado” que homem diz um para o outro no Brasil, uma espécie de ofensa-não-ofensa carinhosa), é complicado entender tudo o que a palavra pode ser na prática, então via de regra se convencionou que caso você não seja negro, é melhor nunca usar a palavra.

E o “nigger” dos Trending Topics não era a versão carinhosa utilizada pelos próprios negros, era a ofensiva mesmo. Muita gente resolveu colocar toda sua raiva com mais uma eliminação nos pênaltis num campeonato de futebol na ofensa aos jogadores que erraram as cobranças. O que normalmente acontece mesmo, basta ver o Twitter argentino depois de qualquer derrota da sua seleção, mas que nesse caso inglês assumiu um componente racial muito pronunciado.

Sim, eu acho natural que o torcedor fique puto da vida e xingue até a milésima geração da família do jogador que não converteu sua penalidade. E se for para falar a verdade mesmo, eu até entendo usar uma palavra como “nigger” para machucar mesmo o jogador que cometeu o erro. Pessoas ficam irracionais com derrotas no futebol. Num contexto diferente, eu até estaria aqui advogando perdoar quem passou da linha na putez após o jogo. Como vimos, o inglês médio estava realmente incomodado com os fracassos recorrentes da sua seleção.

Nesses casos, putez passa. No dia seguinte o cara já estaria torcendo para quem xingou quando voltasse para o seu time. Enquanto estiver na conta da passionalidade despertada pelo jogo, pode até ser escroto, mas é perdoável. E, francamente, a maioria desses jogadores vai chorar a derrota com seus milhões de dólares no colo de modelos. Eles podem ser xingados eventualmente.

Mas tinha algo a mais nesse contexto da derrota inglesa. Algo que tornava os xingamentos mais vis do que o normal, e ao mesmo tempo, quase que compreensíveis. Vamos desatar esse nó, e para isso, precisamos estabelecer esse contexto.

Antes de todos os jogos dos ingleses, todos os jogadores se ajoelharam em campo por alguns segundos, num gesto de solidariedade à causa dos negros. A ideia de se ajoelhar foi inspirada num jogador de futebol americano que causou bastante polêmica nos EUA (fazia isso sozinho quando tocavam o hino do país). Com o caso de George Floyd, o gesto de se ajoelhar em solidariedade à causa do combate ao racismo acabou se tornando mais e mais difundido. Até por causa da forma como o americano morreu sob o joelho de um policial.

E não foi só a Inglaterra que fez isso, várias outras seleções imitaram o gesto antes de seus jogos, especialmente as que enfrentavam os ingleses. Na final, não foi diferente: ingleses e italianos se ajoelharam contra o racismo antes da bola rolar. Há muito tempo se discute racismo no futebol, seja dentro do jogo, seja na sua relação com a sociedade que o envolve. Campanhas antirracismo não são novidade, mas essa forma de se ajoelhar antes do jogo causou mais impacto que as anteriores. O gesto é muito mais rebelde do que usar uma faixa no braço ou qualquer outra coisa armada pelas confederações futebolísticas como propaganda.

Ajoelhar é algo mais orgânico, que não foi combinado com a UEFA de antemão. Até porque a pegada da UEFA (a Conmebol deles) era mais de aceitação de pluralidade sexual dessa vez. O carrinho que usavam para divulgar a Volskwagen levando a bola do jogo até o centro do campo até foi envelopado com uma bandeira de arco-íris na final. Em alguns jogos, os capitães de algumas equipes usaram a mesma bandeira como faixa no braço.

O campeonato acabou carregando duas bandeiras: uma mais oficial contra a discriminação sexual, outra mais orgânica contra a discriminação racial. Apesar de ser um cínico de carteirinha e achar que essas coisas não fazem muita diferença, no final das contas acho que mal não faz. Calho de ser uma pessoa que também não quer ver ninguém sofrendo por orientação sexual ou cor da pele. Mesmo achando que é “para inglês ver”, não custa nada fazer algumas demonstrações nesse sentido.

Quer dizer…

Não era para ter custado nada. Porque mesmo quando você se posiciona politicamente de uma forma meio rasa como se ajoelhar por cinco segundos antes do jogo, você se posiciona politicamente. A ideia é passada. O combo de suporte aos gays e aos negros começa a fazer parte da visão do cidadão médio sobre o jogo. Não tanto que mude o foco deles do jogo, mas o suficiente para deixar algo ali no fundo da cabeça.

Inclusive, antes da final, quando a Inglaterra começou a mostrar uma capacidade maior de levar o título que em anos anteriores, a lacração de plantão aproveitou para lembrar o inglês médio que sem imigração, eles jamais teriam aquele time. Tinha até imagem dizendo quais dos jogadores titulares tinham pais que nasceram em outros países. Como de costume, dizendo para o povo local que diversidade era uma das suas maiores forças. Como o time estava indo bem, quase todo mundo achou isso lindo. “Um viva para nossos meninos! Somos todos ingleses!”.

Se o jogo tivesse terminado com um vencedor no tempo normal ou mesmo se um jogador tivesse errado um pênalti para qualquer um dos lados, provavelmente este texto nem existiria. Ou os ingleses estariam comemorando horrores, ou estariam na depressão que estão agora. Era um jogo que eles queriam muito ganhar, evidente.

Agora, algo aconteceu naquela disputa por pênaltis. Três jogadores negros bateram pênaltis em seguida pela Inglaterra, e provavelmente muito mais por mérito do goleiro italiano do que ruindade deles, todos erraram. Normalmente não era para todo mundo pensar na cor de pele deles. Normalmente… mas o clima criado antes dessa final tirou as coisas do normal. Todos foram lembrados de que jogadores tem cor de pele e que diversidade racial era um componente valioso do time.

Tempestade perfeita. Se um jogador branco estivesse misturado nessa sequência, talvez nem chamasse atenção. Mas foram três negros em seguida errando os três pênaltis que tiraram o título inglês, obsessão daquele povo há meio século. O que se espera do inglês médio depois de tanta conversa sobre raça? Que ele lembre disso. Ele se lembrou, do jeito mais babaca possível. Evidente que eu sou contra discriminar os jogadores por causa da cor da pele deles, eu teria xingado muito, mas teria xingado a ruindade de quem bateu e o imbecil do técnico que colocou um menino de 19 anos para bater o pênalti mais importante da história recente da seleção. Teria xingado os outros jogadores que amarelaram.

Como eu disse antes, sagrado direito de xingar muito o jogador que perde o pênalti ou faz qualquer outra besteira numa final, mas sem extrapolar o que é do jogo. Quando os argentinos chamavam o Higuaín de “cemitério de massa” por estar acima do peso e perder gols, eu até entendia como algo do jogo (e hilário). Acho que deixou o jogador triste, mas era algo da performance dele, das escolhas que fez. No caso dos jogadores ingleses, a coisa deteriorou para um ódio totalmente fora do jogo. Não erraram porque eram ruins, erraram porque eram negros.

E aí eu entendo completamente a reação da confederação inglesa de futebol e de todo mundo que partiu para a defesa dos três jogadores negros. “Peraí, se você vai bater neles por isso, nós não vamos deixar!”. Justo. Perfeito. Mas será que alguém vai ter a capacidade de olhar para essa situação e perceber quem colocou o holofote na cor da pele deles? O torcedor médio inglês não estava muito interessado na quantidade de melanina na pele dos jogadores até todo mundo começar a ajoelhar e fazer campanhas sobre o valor da diversidade na sociedade deles baseados nos jogadores.

Propaganda sempre gera alguma reação. Será que propaganda que em tese é sobre inclusão focar sempre no que as pessoas têm de diferente resolve alguma coisa mesmo? Inclusão é sobre achar pontos em comum, não explicitar a diferença. Sim, eu acho que o coração dos jogadores ingleses ajoelhando em campo estava no lugar certo… mas a cabeça provavelmente não. Acharam que não teria consequência.

Lutamos por igualdade falando do que é igual ou falando do que é diferente? Tendo em vista o resultado terrível que vimos depois do jogo dos ingleses, eu fico cada vez mais confiante na primeira opção. Infelizmente, pareço ser voto vencido. Como sempre, vão dobrar a aposta e tentar excluir mais ainda quem falou besteira após o jogo.

E isso quer dizer que da próxima vez que os três jogadores entrarem em campo, ninguém vai ter outra opção senão olhar para a cor da pele deles. Não sei porque dar tanta volta e acabar no mesmo lugar…

Para dizer que futebol é coisa séria, para dizer que estava torcendo pela Itália mesmo, ou mesmo para dizer que não é meu lugar de fala (caguei): somir@desfavor.com

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Comments (18)

  • “mas teria xingado a ruindade de quem bateu e o imbecil do técnico que colocou um menino de 19 anos para bater o pênalti mais importante da história recente da seleção”.

    O triste é que o próprio técnico havia perdido pênalti na disputa de pênaltis na semifinal da Eurocopa 1996 perdida para a Alemanha, também em Wembley, e relata ter ficado estigmatizado por isso durante algum tempo (sofrendo xingamentos na rua, sendo criticado até pela mãe etc.). Aí coloca esses três garotos na disputa de pênaltis…

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    • “O triste é que o próprio técnico havia perdido pênalti na disputa de pênaltis na semifinal da Eurocopa 1996 perdida para a Alemanha, também em Wembley, e relata ter ficado estigmatizado por isso durante algum tempo (sofrendo xingamentos na rua, sendo criticado até pela mãe etc.). Aí coloca esses três garotos na disputa de pênaltis…”

      É mesmo, Suellen. Bem lembrado. Eis o vídeo desse lance:
      https://www.youtube.com/watch?v=qpDmfRNNvyI

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  • Precisei fazer um B O (assalto) e quando o escrivão foi digitar a minha descrição como depoente ele me olhou e disse: cor branca.
    Achei tão desnecessário aquilo.
    Onde que a minha cor tinha algo a ver com o meu relato?

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      • Que seja obrigado a fazer a ficha, mas a minha cor altera em quê o meu depoimento?
        Pessoa branca foi assaltada e bla bla bla?
        Se eu fosse amarela ou verde, o que muda o fato em si?
        Não estou sendo procurada, não precisa me descrever.

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        • Suponho que seja padrão, pedir a descrição da pessoa para ter certeza de que a pessoa é realmente a pessoa. Se você soubesse a quantidade de gente que cria problemas usando documentos falsos…

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        • Outra hipótese seria: anotar a cor faz diferença sim pra colocar nas estatísticas e ver o número de pessoas que foi assaltada sendo branca, negra etc. Claro que isso recai facilmente naquele preconceito de que brancos são mais assaltados que outras etnias, mas…

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  • Xiii, lá o racismo ainda é contra os negros, é? Porque no Brasil agora é contra os brancos! Pode observar que a maioria das notícias vem acompanhadas pela descrição homem/mulher negro/a ou branco, mas a lacrosfera só fode os brancos. E tem empresas agora que exigem vc preencher cor no cadastro online. Claro que espertos vão marcar “prefiro não dizer” porque se marcar branco nem passa na triagem! Já tirei mesma nota num teste qualificativo e fui cortado porque o meu concorrente era negro e obviamente preferiram ele. Não sou racista, só fiquei puto mesmo!

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  • “ou mesmo para dizer que não é meu lugar de fala (caguei)” Seria curioso se aparecesse alguém dizendo isso e te acusando de racismo, porque em nenhum momento você mencionou a sua etnia. Meio problemático assumir que a pessoa do outro lado da tela é branca até que ela diga o contrário, não?

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  • Parece que existe uma tendência de enfraquecimento das identidades civis nacionais nas novas gerações dos países ocidentais. Aquele ideal de “seja branco, negro, índio, árabe ou asiático, somos todos americanos/brasileiros/etc.” está morrendo.
    Não que esse ideal tenha feito o preconceito desaparecer completamente, é claro. Mas o que tenho percebido é que os jovens atuais estão sendo encorajados a se identificarem com a sua cor antes de sua nacionalidade (e demonizarem as outras cores que moram no mesmo território), o que pode gerar consequências nem um pouco agradáveis pra humanidade como um todo…

    Tá, por enquanto pode ser só uma “bolha progressista”, mas a distância entre ela e a “bolha do povão que não faz ideia do que está acontecendo” está diminuindo a cada ano.

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      • Igualdade plena nunca vai existir, apenas aceite.
        Mesmo em nações desenvolvidas, como a própria Inglaterra no caso do texto, ou nações culturalmente homogêneas, como o Japão, existem desigualdades.

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