Metaverso.

No meio de mais uma crise de imagem, o Facebook resolveu mudar o nome da empresa controladora de todos seus serviços: agora se chama Meta. O Facebook, o Instagram e o WhatsApp continuam iguais, mas agora são da empresa Meta, não mais da empresa Facebook. Seis por meia dúzia? Sim e não: a mudança de nome também indica o foco do grupo chefiado por Mark Zuckerberg, desenvolver o Metaverso. Mas… o que é isso?

Já vou dar o meu tratamento cínico habitual: Metaverso é uma palavra que estão tentando fazer pegar por motivos de marketing. Nada mais é do que a internet que conhecemos com mais ferramentas de imersão em 3D. Muitos já devem ter ouvido falar ou mesmo usado óculos de realidade virtual, o que dá pra fazer inclusive com um molde de papelão e um smartphone. Ao invés de ficar “preso” à tela do seu computador ou celular, você interage com o conteúdo através de todo seu campo visual, e pode usar gestos e controles virtuais para agir dentro dele.

“Mas isso é realidade virtual então?”

Sim. Mas eu estou falando de falar Metaverso por motivos de marketing justamente porque “realidade virtual” é um termo que já vem carregado de significados para o cidadão médio. Quando você pensa nisso, você já começa a imaginar a Matrix, um sistema praticamente perfeito. E o Metaverso como é possível na tecnologia atual não chega nem perto disso. É melhor não gerar muita expectativa, afinal, na prática não vai ser algo que vai te enganar completamente. É só mais uma interface para você consumir conteúdo.

E, realidade virtual também remete à ideia de escapismo, de viver isolado do mundo real. O que eu entendo que eles não queiram na cabeça das pessoas, por ser algo que ainda parece negativo, e também porque não existe dinheiro em te isolar do resto do mundo. O que a Meta e todas as outras empresas focadas nesse mercado querem é que as pessoas integrem suas vidas reais com a realidade virtual e continuem fazendo negócios através dela. Precisa dar lucro uma hora ou outra, não?

E talvez num terceiro motivo marketeiro, é para criar a ilusão de uma novidade. Por mais que o cidadão médio não use mundo virtuais em 3D para acessar a internet, todo mundo já sentiu algum gosto desse Metaverso. Porque num significado mais amplo, o Metaverso é um caminho que a humanidade está seguindo faz tempo. Muito tempo, aliás.

Já faz algum tempo que eu estou postando aqui sobre personalidades e fenômenos puramente virtuais com impactos na vida real das pessoas. Desde inteligências artificiais básicas capazes de conversar com o cidadão médio até mesmo aquela história da modelo virtual que irritou as modelos reais ao mostrar sua nudez digital na webcam e ganhar dinheiro de verdade com isso. É fácil pensar que “o ser humano está ficando maluco” e desdenhar desse processo de virtualização da vida como se fosse algo relegado àqueles seres mais patéticos da nossa espécie.

Mas não é verdade. O Metaverso é um objetivo compartilhado da humanidade, as pessoas só entram nele em níveis diferentes. Quando você começou a receber o boleto de um serviço pelo e-mail ao invés de pelo correio, você já estava entrando no Metaverso. Numa forma bem básica de analisar a coisa, é o processo de digitalizar nossa vida. Qualquer coisa que você transforma em bits e bytes começa a fazer parte desse Metaverso.

A primeira fase dessa transformação veio na forma de relações de comércio e comunicação instantânea. Coisas e pessoas disponíveis para você o tempo todo, através de uma interface digital. Seu cérebro, você querendo ou não, já aceitou essa primeira fase do Metaverso: vai dizer que sabe de cabeça o telefone de todo mundo que está no seu WhatsApp? O cérebro viu que dava para terceirizar essa parte e entregou sorrindo o controle dos seus contatos para o smartphone. E imagino que boa parte de vocês já não veja muita diferença entre comprar coisas na loja real ou na loja virtual.

Estamos nos adaptando a confiar que pixels numa tela formados por dados voando por aí tem significados reais. Mandar uma mensagem para uma pessoa pelo aplicativo é falar com a pessoa! Você não está vendo-a, mas você confia que é ela. Você não está vendo o produto, mas confia que ele vai chegar até sua casa se você fizer o pagamento (pela internet).

O Metaverso vai tomando conta da sua vida sem você perceber. Já estamos numa segunda etapa, a da meta-socialização. Vou dar um exemplo pessoal: eu sempre achei bacana ver o basquete da NBA, mas dificilmente achava alguém com gostos parecidos para compartilhar a experiência. No máximo uma mulher do meu lado perguntando quando que valia três pontos. Sim, eu achava divertido por conta própria, mas foi só quando eu comecei a ter acesso a plateias compartilhadas que a experiência ficou realmente bacana!

Sim, uma pessoa real do seu lado que também entende e gosta da mesma coisa é legal, mas dá pra substituir boa parte da experiência com um chat em tempo real só com gente que gosta daquilo, faz piadas e memes específicas e sabe reconhecer os momentos especiais do jogo. Eu via uns 10 jogos por temporada antigamente, hoje em dia vejo uns 40, 50. Chats e chans tornaram a experiência muito mais agradável. Eu dou esse exemplo porque ele demonstra como a internet pode subir de nível e oferecer experiências compartilhadas que eram basicamente impossíveis antes dela.

Quando se fala de Metaverso no momento atual, estamos falando basicamente dessa nova era de experiências compartilhadas. Não é só ver um show de uma banda, é ver o show da sua casa junto com um monte de gente que pode interagir de diversas formas. É ter opções de comprar uma camiseta da banda tocando num botão, é poder ver outras pessoas alterando essa realidade em tempo real e poder escolher o que mais te interessa, sempre. Você nunca está preso num programa ruim no Metaverso. A banda está tocando as músicas do álbum novo que você não gosta? Vai jogar alguma coisa enquanto isso e volta quando tocar aquela preferida. Distrai conversando com alguém que também gosta das mais antigas. Quem sabe conhece alguém novo do outro lado do mundo?

A realidade virtual desses novos mundos 3D é uma facilitadora dessa nova compreensão de interação humana. Até porque elas podem tirar boa parte das dificuldades de interações reais: você se apresenta como quiser, como uma versão cheia de filtros de imagem para esconder espinhas ou rugas, ou mesmo como um cachorro azul se quiser! No Metaverso sua imagem pode ser projetada de diversas formas diferentes, e tudo isso sem exigir conhecimentos avançados de programação, design ou algo do tipo. É só escolher sua imagem e ir interagir com os outros. Com gestos e microfones, nem a barreira da linguagem escrita existe mais.

No fundo, o ser humano gosta mesmo é de interagir com outros seres humanos. Se no passado isso exigia muitas concessões, afinal, pessoas são muito diferentes e nem sempre as pessoas que você tem acesso compartilham dos seus gostos; no Metaverso (vulgo internet moderna) você tem uma prateleira infinita de pessoas para escolher a cada interação. Você se apresenta como quiser, para pessoas pré-selecionadas por gostos parecidos, e ainda por cima sem os perigos de interações tradicionais. Você não fica preso, você não corre muitos riscos… alguns dos bônus sem nenhum dos ônus.

“Mas as pessoas vão sentir falta de interação real, não?”

Sim e não. Tudo na vida é questão de escolha. Essa internet que se desenvolve através do Metaverso não é diferente: se os benefícios de virtualizar socialização superarem as perdas do contato real para uma pessoa, ela vai ficar com isso. Tem gente que não vai querer ser um avatar 3D para falar com outras pessoas? É claro que sim. Mas da mesma forma que a internet não precisou de toda a humanidade para pegar, essa nova etapa de socialização virtual não vai precisar de todo mundo também.

Se um bilhão de pessoas escolherem viver esse tipo de vida, o Metaverso vai funcionar maravilhosamente bem. Mesmo que as outras sete bilhões achem bizarro. E, convenhamos, basta olhar para a popularidade dos smartphones e comunicação instantânea para saber que a maioria das pessoas vai adotar essa forma de funcionar assim que a tecnologia for avançada e barata o suficiente.

Hoje em dia, estamos falando de usar óculos 3D e melhorar as capacidades gráficas de computadores e celulares para explorar mais essa parte de criar “lugares virtuais” na internet, muito mais do que sites. Talvez você se lembre da febre do Second Life muitos anos atrás, no final das contas não é muito diferente do que Zuckerberg diz que quer com seu Metaverso. Avatares e transações virtuais com dinheiro real. Mas agora com máquinas mais potentes, e o grande diferencial: banda larga de verdade para quase todo mundo.

O 5G não é mais rápido que uma boa conexão cabeada atual, mas vai permitir que todo mundo tenha internet de alta velocidade em praticamente qualquer lugar. Isso não só permite que você possa receber conteúdos mais complexos como vídeos e representações 3D, mas também que possa colocar conteúdo na rede. Seu vídeo chega mais rápido, suas mensagens podem ser mais complexas. Se eu reclamava da “maldita inclusão digital”, em poucos anos vou estar com saudade dessa internet elitizada. Porque com banda larga extremamente disponível e barata (talvez até grátis em troca dos dados cedidos pelos usuários), qualquer lugar onde você estiver vai ser uma praça pública. E mais: praça pública em dia de evento. Todo tipo de show e palestra, todo tipo de jogo, todo tipo de discussão… é como se você colocasse um óculos e de repente milhões de pessoas aparecessem ao seu redor.

É como a experiência da rede social elevada ao cubo: você não precisa nem rolar a tela para receber mais e mais conteúdo. As coisas vão acontecendo ao seu redor, e você foca no que quiser. Se o ser humano já estava ficando neurótico com a ideia de não conseguir acompanhar tudo com telas cheias de texto e fotos, não quero nem imaginar o impacto psicológico de estar 24h por dia num evento mundial com opções intermináveis.

A realidade virtual é inevitável. Eu já escrevi sobre as possibilidades mais futuristas aqui: você cria mundos só para você com simulações até mesmo de outras pessoas, para que tudo aconteça como você quiser, e se quiser, apaga essa noção de que foi você que decidiu tudo da sua memória para não ficar sem graça. A partir do momento que o ser humano tiver essa opção, vai ser complicado comparar com uma realidade compartilhada. Mas isso é problema de gerações bem no futuro, o nosso é uma transição da internet normal para o Metaverso. Uma versão simplificada da realidade virtual e ainda altamente dependente de relações entre pessoas, até porque ainda precisamos de dinheiro para funcionar.

E como eu também já avisei em textos anteriores, criptomoedas e NFTs em geral vão ser essenciais para essa economia do Metaverso. Primeiro que gera um senso de valor próprio no mundo virtual, e depois que resolve o problema das cópias com certificados de propriedade e originalidade. Muita gente pode assumir uma personalidade no Metaverso, mas só uma vai ser a “verdadeira”. Isso permite que mesmo que as leis de direitos autorais caduquem no Metaverso, ainda exista a possibilidade de monetizar suas criações.

Eu diria que o único erro do filme Matrix foi tirar do ser humano a escolha de entrar na Matrix. Não precisa de ditadura totalitarista robótica: nós queremos fazer isso. Só falta desenvolver a tecnologia. Estava até conversando com a Sally sobre isso recentemente: é a minha resposta preferida do Paradoxo de Fermi: se existem aliens muito mais avançados que a gente, quase certeza que estão quietinhos dentro de seus mundos virtuais, sem nenhuma das limitações chatas da física no seu caminho. Uma estrela das mais comuns dá trilhões de anos de energia para rodar outras trilhões de simulações ao mesmo tempo. Mas estou saindo do foco…

O Metaverso é só um nome que deram para o que já estamos fazendo desde a Idade da Pedra: adaptando o mundo real ao nosso mundo imaginário. Reduzindo escassez e facilitando a vida das pessoas, com versões cada vez mais idealizadas de nossas realidades. Eu até prevejo que a humanidade nem vai precisar fazer upload da mente para a Matrix, com o tempo o ser humano virtual e o real vão ser indiferenciáveis dentro do Metaverso. E aí, que diferença faz se aquele indivíduo saiu de um útero ou de uma função do programa de realidade virtual? Isso vai gerar um monte de problemas psicológicos nos humanos do futuro? Com certeza! Mas nada é de graça nessa vida, seja ela real ou virtual.

Se tem algo para levar em consideração hoje, é que realidade e economia virtuais não são uma moda, são um caminho inescapável. Quanto mais visual for a internet, quanto mais intuitiva for a nossa relação com ela, mais ela vai se tornar atraente. E alguns conceitos foram testados e aprovados pela nossa evolução até aqui: macaco pelado gosta de cutucar coisas, mesmo que não sejam reais. Macaco pelado é inseguro e quer controlar como as outras pessoas o enxergam. Macaco pelado quer atenção sem pagar todo o preço pela atenção…

Metaverso é uma novidade, mas ao mesmo tempo, é basicamente o que já estamos fazendo com um nome diferente para parecer que é novidade e vender mais fácil. O futuro, como sempre, é hoje.

Resumo: o Facebook quer que você viva no The Sims. E muito provavelmente, você vai topar.

Para dizer que a humanidade está perdida, para dizer que a humanidade sempre esteve perdida, ou mesmo para dizer que no seu mundo virtual eu vou escrever textos mais divertidos: somir@desfavor.com

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Comments (8)

  • Bem legal , eu acho …
    Mãssss, vc acha q o face e insta conseguem se manter como a rede social favorita depois disso ?
    Pq o normal é a gente esquecer e ir pra novinha . Eu q peguei icq, flogão , Orkut , MSN, multiply, etc sempre abandono depois de um tempo e vou pra algo novo.

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  • Meu chute é que isso vai ser mais ou menos como acontece no leste asiático. A mídia ocidental diz que todo mundo lá vive isolado num mundo imaginário dentro de casa com jogos e mangás, não quer fazer amigos nem casar, mas a maioria da população são pessoas normais que usam a tecnologia de forma normal enquanto vivem a realidade. O humano médio não é extremista, então doomers podem ficar sossegados.

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  • Acho que vou estar no grupo dos “carentões de contato real”. No auge do lockdown, no meio do ano passado, eu só faltei enlouquecer. Acordar, passar o dia sentado com a cara na tela do PC, dormir. Tá louco, isso não é vida pra mim. Foi um alívio voltar ao trabalho presencial (que grazadeus não envolve computador e redes sociais), sair, me reunir com os amigos, andar pelas ruas e ver o mundo, ver gente. Óbvio que não é um manifesto contra tecnologia, inclusive uso várias, mas eu definitivamente não fui feito pra uma vida corrida e cheia de estímulos sendo jogados na minha cara 24/7.

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    • Ficar muito tempo “preso” em casa sem poder sair tende a ficar meio monótono mesmo, mas eu não me senti tão mal durante a quarentena. Possivelmente porque, mesmo antes de tudo isso acontecer, eu já era bastante “caseiro” e também nunca fui muito afeito a contato freqüente com outras pessoas.

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    • Você não é carente, é só uma pessoa normal. O povo deste blog que acha que todo mundo tem que ser um robô frio e sem sentimentos, um modelo completamente irreal de pessoa que não existe nem em países que são conhecidos por ter um povo “frio”

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      • Eu acho que você está confundindo o “povo deste blog” com um espantalho que você criou na sua cabeça. Eu sou do time frieza como qualidade superior, Sally não é, e tem um monte de textos pra provar. Tem leitores que tendem mais para o meu lado, tem leitores que pendem mais para o lado dela. E tirando alguns comentaristas que parecem detestar o blog que leem todo dia, o povo aqui convive numa boa.

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