Bug.

Janaína esfrega o dedo no trackpad do seu notebook de forma cada vez mais impaciente, a frustração com mais um travamento da sua máquina de trabalho a faz começar a bater em teclas aleatórias. Um dos problemas do home-office é a dificuldade de entrar em contato com o suporte técnico, um simpático rapaz que sempre resolvia suas dificuldades quando ainda batia ponto na sede da empresa.

Nenhum avanço. O programa utilizado para fazer reuniões estava preso na tela de inicialização há vários minutos, sem sinal de começar a funcionar. Ela pega o celular para mandar uma mensagem para o suporte, mas para assim que percebe que não consegue lembrar o nome do homem, a única indicação no contato era “TI”. Ela navega pelo histórico em busca de uma pista, sem sucesso. Procurar no computador não era uma opção, nem o relógio parecia atualizar na tela.

A hora da reunião se aproximava. Ela decide disfarçar o melhor que pode, enviando a mensagem “tudo bem? você pode me dar uma ajuda?”. Mensagem enviada, mas não recebida. Ela acompanha a tela, impaciente. Vários minutos se passam sem sinal de contato com o outro lado. Ela resolve fazer uma ligação. Depois de dois toques, ela ouve uma voz:

“É aqui que está com problema?”

O estranho é que a voz vem de uma direção indeterminada. Um tanto quanto desorientada, Janaína avança na conversa:

“O programa de reunião não está funcionando, está tudo travado aqui! Tem reunião com a diretoria daqui a cinco minutos e eu não sei o que fazer…”

“Trava tudo, mas segura essa instância.” – a voz continua. Prestando mais atenção, Janaína começa a perceber que não se parece com a voz do rapaz do TI. Ela é mais grave, e continua vindo de algum lugar que não parece o seu celular.

“Como eu faço isso?”

“Está no último nível!” – a voz está bem diferente agora. Parece… feminina.

“Você está falando comigo?” – Janaína vai ficando cada vez mais confusa. Ela começa a olhar ao seu redor, como se buscasse a origem dos sons que escuta.

“Isola.” – a primeira voz volta. Ela percebe que está escutando uma conversa da qual não faz parte.

“Isolada.” – responde a voz feminina.

“Oi? Tem alguém me ouvindo?”

Silêncio.

Janaína se levanta da cadeira, ainda segurando o celular. Ela segue em direção a uma janela, desconfiando de uma recepção ruim. De canto de vista, consegue olhar para a rua na frente do seu prédio. Lá embaixo, os carros estão todos parados no meio da rua. Ela presta mais atenção, e começa a ver pessoas paradas também, mas não consegue achar o motivo da comoção.

“Está me ouvindo?” – a voz feminina retorna, ainda impossível de posicionar ao seu redor.

“Estou, estou!” – Janaína começa a voltar para perto do seu notebook.

“Qual o seu nome?”

“Janaína.”

“Janaína, eu sou do suporte técnico, me chamo Glr… Maria.”

“Que legal, finalmente uma mulher no TI da empresa! Você começou quando?”

“Faz… faz pouco tempo. Janaína, você pode desligar e ligar o computador de novo?”

“Vou tentar.”

Janaína aperta o botão de desligar do notebook, mas nada acontece.

“Está travado mesmo, Maria… eu aperto e não acontece nada.”

“Entendo. Tenta apertar e segurar o botão por alguns segundos.” – Maria responde.

Janaína faz como lhe foi instruído. Ela segura o botão por vários segundos, mas nada acontece novamente.

“Maria, não está funcionando… continua na mesma tela com o negocinho girando.”

“Nós vamos mandar um técnico para sua casa, ok?”

“Poxa, mas a reunião vai ser agora… não tem um jeito mais rápido?”

O som de batidas na porta dá um susto em Janaína.

“Espera, tem alguém batendo, deve ser um vizinho…”

Janaína se aproxima da porta, e pelo olho mágico percebe um homem de pele bem morena, totalmente careca, vestindo uma calça jeans e uma camiseta com os escritos “suporte técnico”.

“Ele já chegou? Como é possível? O porteiro não avisou… onde ele estava?”

“Nós… é… nós contratamos uma equipe terceirizada, e ele estava por perto. Ele está com o uniforme de suporte técnico?”

“Sim…”

“Então pode deixar entrar. O nome dele é… João.”

Janaína vacila por alguns momentos, mas acaba abrindo a porta. O homem dá um sorriso protocolar e começa a entrar.

“Não repara a bagunça, estava uma loucura esses dias e…”

Ele não diz nada, apenas começa a andar em direção ao quarto onde estava o computador. A velocidade dos acontecimentos pegam ela de surpresa, que apenas acompanha o homem até seu computador.

“Como você sabia que o computador estava aqui?”

“GPS” – o homem responde, expressão neutra.

“Ah… então, o programa de reuniões ficou parado e não deixa eu fazer mais nada no com…”

“Se a senhora quiser esperar em outro cômodo, eu posso assumir daqui.”

“Ah, não, eu quero ver como faz para poder resolver sozinha da próxima vez.”

Ela não deixa de notar uma expressão de frustração no rosto dele. Começa a imaginar que o homem queria fuçar em seus arquivos pessoais, lembra de histórias de amigas que tiveram fotos íntimas vazadas depois de levar para a manutenção. Isso só a faz ficar mais atenta às ações do rapaz do suporte.

“Janaína?” – Maria chama pelo telefone.

“Estou ouvindo.”

“Você pode passar o telefone para o técnico?”

Janaína concorda educadamente, e oferece o telefone para o rapaz, que já está sentado diante do notebook, levantando o equipamento e observando a parte inferior.

“Tem certeza que é aqui?” – ele diz ao telefone.

O curioso é que o homem mexe com o notebook como se nunca tivesse visto algo parecido antes. Ele o levanta, chacoalha, observa as portas de entrada nas laterais. Janaína o observa repetindo o ritual de esfregar os dedos no trackpad e batendo em teclas aleatórias, assim como fizera minutos atrás.

“Não.” – ele diz ao telefone. Janaína continua ouvindo.

“Claro que não! Ninguém é treinado nessa coisa ancestral.”

“Não fui eu que fiz isso. Foi o seu departamento que deu luz verde para começar tecnologia nível três.”

“Essa instância não estava liberada para isso.”

“Não, não vai ficar nas minhas costas. Eu fiz a minha parte direitinho. Não! Não!” – a conversa começa a ficar mais ríspida.

Janaína interrompe:

“Você… você quer uma água, um café?”

“Não, obrigado. Senhora, eu vou ter que retirar seu equipamento.”

Janaína imediatamente imagina o homem mexendo em seus arquivos pessoais, e algumas fotos e vídeos que não gostaria que acabassem na internet.

“Impossível. Esse computador é meu, não é da empresa. E se tirar a bateria para ele desligar e colocar de volta depois?”

O homem fica pensativo por alguns segundos. Ele começa a mexer no notebook, mas sem saber muito bem o que está fazendo. Janaína se adianta, e gentilmente pede a máquina. O homem entrega. Janaína retira a bateria rapidamente, o que parece espantar o técnico.

“Eu também entendo algumas coisas de computador, sabe?” – ela diz com um sorriso triunfal antes de colocar a bateria de volta.

O computador reinicia. O técnico volta ao telefone.

“Voltou?”

Com o notebook funcionando novamente, ele se levanta e vai em direção à janela, ainda com o celular no ouvido.

“Era só isso?” – Janaína pergunta.

O homem olha para o horizonte, para o chão na rua.

“Ok. Não, eu resolvi aqui. Tudo rodando direito. Não precisa voltar não, senão pode travar de novo. Ela não desconfiou.”

Janaína fica sem reação. Da mesma forma fria e desinteressada que entrou, o homem começa a sair.

“Posso entrar na reunião então?” – Janaína pergunta.

“Faça como quiser.” – o homem entrega o celular na mão dela e segue rumo à porta.

“Grosso…” – Janaína diz baixinho enquanto vai para fechar a porta que ele deixou aberta. Ela dá uma olhada no corredor, ele já não estava mais à vista.

Ela olha para o celular, parece que está fazendo uma ligação ainda. Ela coloca no ouvido, escuta tocar mais uma vez até alguém atender.

“Marcos, pois não?”

Janaína se lembra do nome do rapaz do TI assim que o ouve.

“Ah, Marcos! É… não, não precisa mais, a Maria já resolveu meu problema com o note.”

“Maria?”

Para dizer que essa foi fácil de descobrir, para dizer que essa foi impossível de descobrir, ou mesmo para dizer que acha que seu computador quebra a realidade inteira também às vezes: somir@desfavor.com

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