O ano do fim.

Aproveitando um dos últimos “temas livres” do ano, resolvemos falar sobre o elefante vindo para a sua sala: as reuniões familiares de final de ano e a forma como o brasileiro parece estar fingindo que a pandemia não é mais um problema.


É. Desfavor da Semana.

SALLY

Um dia eu gostaria de entender essa desconexão que o brasileiro tem da realidade: ele tem a informação, ele sabe do que está acontecendo, mas na hora de escolher como se portar, ele se porta em desacordo com as informações que tem.

Sabe que o político é corrupto e vota nele mesmo assim, sabe dos riscos de continuar fumando após um câncer de pulmão e continua fumando mesmo assim, sabe que duas doses de vacina não protegem contra a Ômicron e decide se reunir mesmo assim.

E não é apenas se reunir: ele decide se reunir em um evento do qual ele historicamente fala mal, a ceia de Natal com a família. Um evento onde se tira a máscara, a maior proteção contra contágio. Um evento que mistura jovens que não param o cu em casa com idosos, especialmente vulneráveis à covid-19.

A Rainha da Inglaterra, que mora em um palácio enorme, que tem todos os recursos para adotar os “protocolos de segurança” necessários, cancelou o evento de Natal dela. Mas Jocleverson, que mora em um apartamento de 60m2, cujo pai é diabético, mãe hipertensa, ambos com apenas duas doses de vacina, acha que pode fazer uma reunião familiar “com todos os protocolos de segurança”. Ou pior: acha que não vai acontecer nada não, que só uma passadinha não tem problema, como se o critério para contágio fosse temporal.

Longe de mim me posicionar contra a família. Tanto é que minha escolha assim que a pandemia começou foi me mudar de mala e cuia e morar com as pessoas da minha família que precisam de mim – e com elas estou até agora. Mas, para ficar ao lado da sua família e ser uma ajuda (e não um risco), alguns sacrifícios são necessários, como por exemplo os dois anos de quarentena que eu mantenho. Nesse caso, pode passar o Natal em família sem problema.

O que não pode é querer ter tudo: quer a sua “liberdade”, mas não querem abrir mão de ver pessoas de risco. E vale lembrar que pessoas de risco não são apenas idosos: crianças ainda não estão vacinadas. Pessoas obesas, pessoas hipertensas, pessoas diabéticas, pessoas com doenças autoimunes e tantos outros são grupo de risco. Foi “uma passadinha rápida” de um parente “com todos os protocolos de segurança” que mataram Nicete Bruno e Tarcísio Meira, ambos vacinados.

Se você quer manter contato direto em segurança com pessoas vulneráveis que ainda não estão totalmente protegidas, vai ter que abrir mão da sua “liberdade” e ficar em quarentena. Se você quer a sua “liberdade” e deseja continuar saindo, não seja arrombado e participe da Ceia de Natal ou qualquer outro evento por telefone, por chamada de vídeo ou por sinais de fumaça.

Mas não. O brasileiro quer tudo, e está acostumado a uma dinâmica onde nunca é responsabilizado pelas merdas que faz, uma vez que é governado por incompetentes que não fiscalizam nem punem. Só que o vírus não é o governo brasileiro, ele vem se mostrando bastante competente até aqui.

“Mas Sally, eu leio em tudo quanto é lugar que a Ômicron não é tão perigosa para vacinados”. Sim, e você também deve ter lido que duas doses de vacina não bastam para frear essa variante. E, eu duvido muito que você tenha dados de como ela age em pessoas vulneráveis, como idosos, diabéticos ou obesos, pois ainda não existem dados seguros sobre isso. Quer pagar para ver? Quer fazer sua família de cobaia?

O curioso é que os que mais se arriscam são aqueles que se dizem defensores da “instituição familiar”, da “família brasileira”. Dois homens se beijando impacta mais do que morrer com um respirador enfiado na goela? Qual é o problema mental do “cidadão de bem”? Botar em risco a vida da avó tudo bem, mas personagem de ficção beijando alguém do mesmo sexo… ah, isso sim é um atentado grave contra a família! Criança com arma ok, mas Deus os livre de uma criança tomar vacina! É por coisas como essas que o merda do Lula vai voltar.

Vamos repetir mais uma vez: não acabou. Tomara que a Omicron não seja tão ruim, tomara que ela nem seja considerada um coronavírus, apenas uma gripe forte, tomara que nada aconteça e nem ao menos um brasileiro morra por causa dela. Mas… você tem certeza disso? Eu não tenho. E na dúvida, o sensato é ter cuidado.

Eu disse “cuidado”, não medo, histeria e angústia. Preservar as pessoas que você ama com base na consciência, não no pavor. Não é sobre o ato, é sobre o lugar interno de onde ele vem. Um mesmo ato pode vir do terror, do medo, do pavor ou apenas da consciência. Sejam apenas conscientes e entendam, de uma vez por todas, que nesta vida não dá para ter o ônus sem ter um bônus. Quer bundear na rua? Beleza, se afaste de pessoas vulneráveis, principalmente em um evento onde todo mundo vai estar sem máscara.

Vou repetir: não adianta medir temperatura (a pessoa pode ter covid, estar assintomática e contaminar), não adianta fazer PCR (existe uma janela de dias em que a pessoa está contaminada mas não tem vírus suficiente para testar positivo em nenhum teste), não adianta estar vacinado (vacina serve para você não morrer, mas você pode adoecer, ainda que sem sintomas, e contaminar). Não tem jeito seguro de fazer reuniãozinha, festa ou de dar “uma passadinha” na casa de ninguém.

Talvez ler e levar a sério o que a gente está dizendo seja a diferença entre começar o ano no velório de uma pessoa amada. Realmente vale o risco? Sim, pode ser que não aconteça nada, mas pode ser que aconteça. É um risco. Você faria essa roleta russa com a vida de alguém que te é importante? Você se arriscaria a carregar essa culpa para o resto da vida?

“Ain mas tudo na vida é um risco, eu posso sair de casa, tropeçar na rua, bater com a cabeça no chão e morrer, quer dizer que eu tenho que parar de sair de casa por isso?”. Já deu da falsa simetria, né? Se cair na rua, bater com a cabeça e morrer fosse um evento que gerasse, em 2021, a mesma quantidade de pessoas mortas por covid este ano (o pior ano em mortes de toda a pandemia) a comparação seria válida, mas todos sabemos que as mortes provocadas por cabeçada no asfalto não guardam a mesma proporção. Estamos falando de correr um risco real.

Francamente, passaram anos falando mal de reunião familiar e jantar em família e agora, do nada, todo mundo faz questão de ir? Vão um pouco à merda, fazendo o favor.

Para dizer que sua família vota no Bolsonaro portanto se morrerem não é de todo ruim, para dizer que sua família vota no Lula portanto se morrerem não é de todo ruim ou ainda para dizer que você está indo na esperança de você pegar e morrer: sally@desfavor.com

SOMIR

Para não ser repetitivo, eu vou pegar um ângulo um pouco diferente. Vamos falar sobre liberdade pessoal? Não importa como a pandemia seja discutida, uma hora ou outra acabamos falando sobre liberdades. Grande parte das pessoas que critica as ações tomadas por governos e a reação social ao coronavírus argumenta que está tendo suas liberdades pessoais tolhidas.

Então, vamos começar do começo: o que é uma pessoa livre? É uma pessoa que pode fazer tudo o que quer? Por motivos óbvios, isso não é possível. Ninguém pode fazer tudo o que quer por limitações da física. Você não pode quebrar a lei da gravidade. Você não pode carregar um carro nas costas. Você não pode vencer a entropia. Nada de máquinas de movimento perpétuo nesse universo!

Somos limitados pelas regras universais, e limitados por nossas capacidades físicas e mentais. Todos vão morrer um dia, e não tem como ficar livre dessa obrigação. Parece bobagem definir isso, mas é importante lembrar como nossa liberdade é tão grande quanto nossas possibilidades. Você não é livre para ignorar um vírus, porque o vírus não vai respeitar essa liberdade. A natureza não está nem aí para o que você quer ou não quer.

Então, o conceito de pessoa livre tem que ser reduzido: talvez uma pessoa que possa fazer tudo o que tem capacidade para fazer seja livre. Parece uma boa definição, não? Só que essa esbarra em outro problema: vida em sociedade. Talvez um tigre seja livre dessa forma, mas animais que vivem em grupos? Aí até mesmo os instintos começam a tolher algumas liberdades em prol do grupo. Animais que evoluíram para viver em grupos sentem uma necessidade inerente de fazer parte. E digo mais, no meio do caminho evolutivo, deixaram de lado várias capacidades que animais que vivem sozinhos mantiveram.

Uma formiga sozinha morre. Um lobo sem matilha tem pouquíssimas chances. Um ser humano que não tenha tido contato com outros provavelmente não vai viver muito melhor que um chimpanzé. Aliás, bem pior, porque vai faltar muita, muita força física em comparação com nosso parente mais próximo. E tudo isso considerando que o animal humano tenha tido uma criação com outros seres humanos. Senão, somos que nem formigas mesmo.

O ser humano vive em sociedade, a mais complexa da natureza. O ser humano precisa no mínimo uma década de proteção, sustento e atenção de outros seres humanos para ter alguma chance de sobrevivência. E muito mais se quiser ter sucesso nessa sociedade. O conceito de liberdade de fazer tudo o que for capaz não funciona numa sociedade humana. Criamos leis para garantir isso. E eu nem estou falando de estados de direito modernos, em praticamente qualquer sociedade humana, existem punições severas para quem mata, para quem violenta, para quem rouba…

O ser humano que vive numa sociedade é tão livre quanto as leis que a regem permitem. E geralmente, sociedades mais avançadas tem uma quantidade muito maior de restrições, justamente em troca de uma qualidade de vida maior. Porque dentro de uma sociedade, a liberdade pessoal termina quando a de outra pessoa começa. E quanto mais liberdades pessoais tentamos incluir nesse pacote, paradoxalmente, mais restrições são necessárias.

Sociedades desiguais como a brasileira trabalham com uma ideia de troca de recursos por liberdades. E funciona nos dois sentidos: os ricos são mais pressionados a não exercer algumas de suas liberdades pela maior atenção que recebem, e os mais pobres gozam de relativa liberdade vinda do desinteresse sobre suas vidas. O rico pode comprar vistas grossas para suas ações ilegais, o pobre já pagou a conta ao nascer, trocando sua qualidade de vida por pouca supervisão do Estado. E isso é negativo na conta geral porque só os ricos puderam fazer essa escolha.

De qualquer forma, o ponto aqui é que na nossa busca por uma melhor qualidade de vida, fomos trocando liberdades pessoais, não porque é uma boa coisa por si só, mas porque é o preço que pagamos para que a liberdade pessoal do outro não nos faça mal. E normalmente, quando alguém tem muito mais liberdade que os outros, ou é sinal de corrupção do Estado, ou é sinal de abandono do Estado. Todas coisas ruins.

Sim, eu considero muito importante que o ser humano tenha o máximo possível de liberdades pessoais, detesto a ideia do Estado regulando quem pode fazer o quê. Mas detesto os abusos, não o conceito de existirem regras. Tem um lugar no meu coração para uma utopia anarquista, mas o cérebro faz cara feia: enquanto houver competição por recursos, o ser humano não pode ser confiado com liberdade total. E pra ser bem honesto, terrivelmente honesto, por sinal, uma boa parcela da humanidade sequer tem o Q.I. necessário para internalizar regras de convívio por lógica.

Precisamos de limites como sociedade, mesmo que você, o indivíduo, seja capaz de tomar decisões por conta própria. Você controla, de forma limitada, as suas decisões, não as decisões do outro. O direito de matar alguém é natural, mas não é social. Nada te impede de tentar, mas se estamos vivendo numa sociedade e aproveitando todas as benesses dessa construção coletiva, existe uma regra que impede que você decida unilateralmente contra o direito de existência do outro.

A liberdade total, aquela que eu defini no começo como a de fazer tudo o que você tem capacidade de fazer, essa sempre vai existir. Foi uma escolha consciente do grupo humano criar limitações para ela. Parece indissociável do conceito de sociedade: ela só existe quando as pessoas abrem mão da liberdade total. Você passa quase toda sua vida deixando de fazer a primeira coisa que vem na cabeça por causa das regras sociais. Esse é o custo de estar aqui.

Excepcionalmente, o custo de viver em sociedade é não contaminar pessoas vulneráveis com um vírus que ainda não sabemos se conseguimos controlar. Tudo indica que ainda não. Você nunca foi livre para matar outras pessoas, não vai ser agora que vai começar a ser. Sua liberdade pessoal acaba quando a de outra pessoa começa, essa é a regra fundamental. Essa É a sociedade.

Se não concorda com as regras dela, vá embora. Você é livre para ir embora, mas não é livre para quebrar o acordo mais básico de funcionamento do grupo humano quando bem entender e continuar se beneficiando de tudo o que ele providencia para você.

É simples assim. Sociedade ou liberdade total. Escolha.

Para me chamar de lambe-botas, para dizer que é livre para não entender, ou mesmo para dizer que se você acredita que não está matando a pessoa não é crime (claro, funciona assim): somir@desfavor.com

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Comments (12)

  • Volta e meia aparecem na Internet alguns desses discursos sobre “liberdade”, e como mesmo os países mais livres do mundo “atentaram contra a liberdade do cidadão” ao impor medidas restritivas.

    Eu leio essas groselhas, especialmente quando escritas por gente que eu achava que eram pessoas minimamente esclarecidas, e perco o pouquinho de fé que eu tinha na humanidade.

    Se você tem um vírus potencialmente letal à solta no mundo, sua liberdade acabou faz tempo. Não é com o chefe de Estado, nem com o cientista, nem com o Papa que você tem que reclamar. É com o vírus. É pra ele que você tem que pedir sua liberdade de volta. Se ele deixar, beleza. Se ele te pegar, já sabe.

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    • Esse discurso não se sustenta. Toda sociedade tem regras. Ninguém reclama da “liberdade” em dirigir bêbado, por exemplo. E se, para esse grupo, a liberdade é mais importante que tudo, por qual motivo não liberam as drogas?

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  • Os velhos da minha família tão tudo com a 3 dose já faz tempo! E vc não pode comparar a rainha da Inglaterra com nós BMs, porque ela tem um vião a perder e nós vivemos uma vida de cão. A gente vive como se não houvesse amanhã, porque se morrer não perde muita coisa. É por isso que a gente trepa sem camisinha e tá cagando pra pandemia, porque a vida é só o agora, espremer o máximo pra ser menos infeliz. Como vc não sabia disso?

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  • A argumentação da Sally foi mais convincente. A do Somir seria facilmente rebatida por um ancap de apê.

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  • O pior de tudo são conspiradoidos falando que “passaporte de vacina” vai transformar o mundo numa distopia comunista gay ou algo assim.

    Todas as vezes que eu fui a um estabelecimento e precisei apresentar meu cartãozinho de vacina, era sempre um funcionário cansado que mal olhava e me deixava entrar. Aposto que não notariam se eu tivesse mostrado um papel com uma casinha desenhada.

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    • Os piores problemas do pretenso “passaporte da vacina” é a possibilidade dele ser falsificado sendo fonte de renda para agentes corruptos que eventualmente condicionem sua confecção a pagamento de “propina” ou para criminosos da falsificação que também cobrariam pelo serviço, além de dar uma falsa sensação de segurança para eventuais variantes do COVID.
      O mais adequado seria manter a vigilância cerrada, mas o problema é que essa pandemia desviou a atenção de outros problemas de saúde igualmente sérios.

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  • Essa pandemia serviu pra mostrar o pior de todos em nível global, não me iludo com mais ninguém. Até em lugares relativamente decentes teve manifestação contra medidas de segurança, contra vacina, fake news e conspirações, políticos flagrados em baladas (tipo a primeira-ministra da Finlândia). A única diferença é que em alguns países existe accountability e punições pra esse tipo de macaco.

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  • às vezes eu penso naquelas fotos de reuniões de políticos, eventos de celebridades, todos sem máscara e fazendo o que querem enquanto os empregados estão com máscara servindo aos deuses…

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