Assunto errado.

Eu tenho a teoria de que boa parte das pessoas não fala sobre o que realmente quer falar. E nem estou falando só sobre repressão, vergonha ou mesmo confusão sobre os próprios sentimentos, é mais sobre o caminho que uma ideia faz no cérebro até se transformar em palavras. A gente pensa muito mais rápido e em muito mais coisas do que consegue verbalizar.

Essa teoria vem de décadas de dificuldade de comunicação com outros seres humanos, então dessa vez é mais importante do que o habitual que vocês que estão lendo pensem um pouco se percebem algo parecido. Afinal, pode ser que seja um problema mais específico do jeito que eu percebo os outros e não um padrão. Eu não tenho como entender essa questão se não tiver respostas de outras pessoas. Não é o tipo de profundidade que conversas normais da vida conseguem alcançar.

Começo explicando um pouco da dificuldade que eu sempre encontrei conversando e convivendo com outras pessoas: muitas vezes eu fico rapidamente entediado com uma interação com outro ser humano. Em outros tempos eu colocava isso na conta de uma espécie de superioridade intelectual, explicando tudo como se a outra pessoa fosse muito limitada para me deixar interessado. Mas felizmente eu consegui evoluir dessa fase. O outro é tão interessante quanto você estiver disposto a fazer dele. Pessoas, mesmo as aparentemente mais simples, tem uma série de habilidades e conhecimentos que você não tem.

Se você colocar energia numa interação, é muito provável que consiga muitas coisas interessantes de volta. Sensação de superioridade normalmente é uma ferramenta da mente para te proteger de alguma insegurança que você tem. Claro, tem gente que não combina com você mesmo, é esperado que de tempos em tempos você as encontre. Mas isso não quer dizer que apenas uma minoria “é digna” de você. Basicamente depende de quanto você quer se esforçar por cada relação.

E por que eu me vejo tantas vezes entediado ao interagir com outras pessoas? Se eu já percebi que esse senso de superioridade é uma armadilha do medo, eu deveria conseguir me livrar dessa sensação, certo? Bom, aí entra a teoria. A sensação que eu tenho na maioria das interações que tenho com outras pessoas é que cada ideia discutida tem uma espécie de pedágio. Algo que precisa ser discutido antes, que a pessoa precisa expressar antes de chegar ao ponto.

Se eu tivesse que descrever essa sensação, é mais ou menos como escutar alguém explicando algo que você já sabe para poder te contar algo que você não sabe. Mas não é tão direto assim. É aqui que pode ficar complicado: eu estou falando sobre algo além de impaciência com alguém prolixo ou que presume que você não entende algo que já entender, estou falando sobre perceber que a pessoa quer falar sobre um assunto, mas ter que escutar ela falando sobre outro.

A sutileza é que você não está sendo enrolado, é que a pessoa que conversa com você não percebeu ainda sobre o que ela realmente quer falar. E do ponto de vista social, perceber isso é um desastre. Não só a outra pessoa fica chata, porque sua mente já foi para outro assunto, como também é considerado má-educação tentar fazê-la ir logo para o ponto que você quer. Não sei se mais gente sente isso, mas normalmente é o que mais me incomoda na relação com outros seres humanos.

Um exemplo condizente com os tempos atuais para situar melhor a minha teoria: você está diante de uma pessoa falando sobre o perigo das vacinas. Ela está falando sobre casos que viu por aí de pessoas passando mal, sobre como não confia em grandes empresas farmacêuticas, etc. Pelo menos pra mim costuma ser trivial perceber que 1) a pessoa não tem capacidade técnica para discutir esses temas e 2) tem toda uma questão pessoal por trás disso.

O ponto 1 me irrita profundamente, porque como eu também não sou especialista na área, sei que vou entrar num potencial papo de maluco se avançar nesse sentido, com duas pessoas cuspindo informações que não compreendem de verdade (a gente segue especialistas por um motivo), e o ponto 2 é obviamente a coisa mais interessante na história toda. Eu não quero ter uma conversa maluca sobre conhecimento técnico que nenhum de nós dois tem, mas estou vendo claramente que tem toda uma questão pessoal por trás daquela conversa que, essa sim, eu consigo tratar de forma mais profunda.

É óbvio (pelo menos eu acho, por isso é bom saber se alguém mais sente isso) que meu cérebro vai todo para a parte daquela interação que tem alguma chance de avançar. Eu sou humano, interagir de verdade com outras pessoas é um desejo primal, e quando você enxerga essa chance, é difícil se concentrar em outras coisas. Ficando nesse exemplo: eu sei que a pessoa está se sentindo insegura sobre as informações que recebe e quer encontrar algum senso de estabilidade para ter tranquilidade de tocar a vida. Isso é fascinante, isso me atrai para uma conversa. Opinião de leigo sobre tecnologia medicinal não.

Quer dizer que todo assunto é chato? Não, não. Espera… eu me amarro em achar outro nerd que fica jogando informações que sabe no papo. Até mesmo gente que não tem nada de nerd falando sobre temas que gosta é muito bacana. O problema está na “mentira” de falar sobre um tema quando na verdade está falando de outro. Em conversas descontraídas isso não costuma ser um problema, mas no momento que surge alguma pressão sobre aquela interação, a chance desse “assunto falso” aparecer aumenta brutalmente.

Quantas vezes você já não se pegou discutindo sobre um assunto e percebendo que não se importa nem um pouco com ele? Isso não acontece num papo de bar ou algo sem consequência, não? É normalmente quando tem algo incômodo no assunto e/ou na pessoa com a qual se discute. O interesse desaparece assim que seu cérebro capta que você não está falando sobre o assunto real daquela conversa. E ele liga o modo de economia de energia, presumo eu.

A partir do momento que você vê que a pessoa do outro lado está falando de um assunto, mas parece ter outro assunto por trás, começa a ficar bem complicado. Vou usar outro exemplo bem comum, e esse é um clássico de relacionamentos entre homens e mulheres: depois de algum tempo de convivência com uma mulher, fatalmente um homem vai cair que nem um patinho na armadilha “não é sobre isso, é sobre aquilo” durante uma discussão com ela. Estou usando esse exemplo para criar um ambiente de reconhecimento com ambos os sexos:

O homem fica puto da vida porque achou que estava discutindo sobre a “toalha molhada na cama”, o que era algo banal e não merecia a reação dramática; a mulher fica puta da vida porque o homem não percebeu que ela está falando sobre falta de atenção em geral e o tema central da conversa não avança. Os dois lados estão certos em ficarem putos da vida, os dois lados estão errados em não fazer um esforço para chegar no meio termo. Ele tem ler um pouco mais do que o momento numa relação e ela tem que entender que precisa ser mais clara quando se expressa.

Mas não fica claro como é frustrante falar sobre temas diferentes numa mesma conversa? O ser humano médio pode até não ter a profundidade ou o conhecimento específico para colocar isso em uma explicação prática, mas todo mundo sente que tem algo errado quando duas pessoas falam de coisas diferentes ao mesmo tempo. É instintivamente incômodo.

Por muito tempo eu achei que isso era um problema de relações entre homens e mulheres quando sentimentos estão envolvidos, mas agora me parece claro que é só uma manifestação de algo mais básico em todas as relações humanas: qualquer troca de ideias precisa estar ancorada num assunto em comum. Quando uma ou as duas partes se enganam nessa parte, interagir começa a ficar frustrante.

Entender as palavras do outro não significa entender o outro. Talvez mulheres sejam mais hábeis nessa parte de multitarefa, mas eu não tenho em mim a capacidade de falar sobre um tema ao mesmo tempo que ouço outra pessoa falar sobre outro. É manter duas linhas de raciocínio ativas ao mesmo tempo! Eu não sei quanta gente consegue fazer isso na prática. Tanto que… não costumam fazer.

Nunca presenciou uma conversa ou mesmo esteve dentro de uma que pareciam dois monólogos? Duas pessoas falando sozinhas, quando muito fazendo turnos. Uma pessoa fala algo, e a resposta vem sem conexão nenhuma? Eu não sei se fui ficando mais atencioso com o passar dos anos, mas agora eu percebo claramente isso acontecendo em algumas conversas. Espero que você tire alguma vantagem dessa informação, porque assim que perceber uma vez, nunca mais deixa de perceber.

Minha estratégia agora é parar os monólogos. Costuma ser mais fácil ceder ao assunto da outra pessoa, porque a chance dela perceber o “monólogo duplo” costuma ser pequena. O problema é quando ela está fazendo essa coisa irritante de falar sobre o “assunto errado”. E como perceber que a outra pessoa está falando sobre o “assunto errado”?

Bom, primeiro é importante saber que sempre se pode estar errado, mas quando começa a ficar claro que a outra pessoa está com uns sentimentos vazando pelo papo, vulgo está muito irritada ou na defensiva, é bem provável que ela esteja só falando palavras por falar sem saber como chegar no cerne da questão: porque ela está com aqueles sentimentos ruins na conversa.

Seres humanos, eu incluído (infelizmente, queria ser robô), tendem a se importar muito mais com seus sentimentos do que com qualquer tema. Se tem algo mexendo com a pessoa, ela vai fazer qualquer tema possível e imaginário refletir com essas sensações. Pode estar falando sobre futebol ou mesmo sobre física quântica: vai vazar. Uma pessoa empolgada vai dar muito mais valor para qualquer bobagem que se conversa, dando a impressão que se interessa absurdamente pelo tema. Uma pessoa desanimada vai acabar derrubando o clima independentemente do assunto.

Uma pessoa irritada ou insegura vai transformar qualquer papo num martírio. Vocês podem estar falando sobre nadar numa piscina de Nutella com uma supermodelo e a pessoa vai dar um jeito de fazer o papo ser irritante. Vai reclamar que Nutella é enjoativa e que sua supermodelo favorita tem os cotovelos muito pontudos. Gente que não está bem pode falar sobre qualquer tema e vai dar um jeito de passar o incômodo pra frente.

O que é normalmente irritante por si só, mas quando você começa a perceber que as palavras saindo da boca dela (ou as que está escrevendo) são apenas enfeite, eu prefiro escolher entre lutar ou fugir, porque não vai ter meio termo. Ou você luta para fazer a pessoa vir para o assunto real, o que muitas vezes nem ela sabe que está fazendo, ou você pula fora dali. Como de costume, é bom avaliar se a pessoa vale o trabalho, porque é bem chato trazer ela pro tema real. Ninguém gosta de ser “lido” dessa forma, principalmente antes de estar pronto(a) para admitir que tem algo a mais ali.

É muito comum que tenha um tema “humano e sentimental” por trás de muitas das conversas sobre assuntos mais práticos, especialmente as que começam a ficar desagradáveis e antagônicas. Durante muito tempo eu tentei entender o motivo pelo qual a graça de discutir com os outros diminuiu abruptamente na minha vida, e essa teoria do “assunto errado” foi a melhor explicação que eu encontrei até aqui. Se por algum motivo você consegue enxergar isso uma vez, não tem mais volta.

Porque aí você começa a perceber os monólogos ao seu redor, e pior de tudo, o sofrimento de muita gente, que ficava escondido atrás de uma personalidade “difícil”. Não tem personalidade difícil, tem gente sofrendo por um motivo ou outro, e quando menos capaz essa pessoa é de lidar com esse sofrimento e seguir em frente, mais insuportável ela se torna. Talvez você conheça algumas pessoas assim, talvez você gaste muito tempo argumentando com elas, talvez até… você seja essa pessoa.

E talvez sejamos todos, eventualmente. Eu cometo esse mesmo erro, mas agora eu presto atenção. Se eu começo a me sentir mal numa conversa que não está indo pra lugar nenhum, ou eu ou a outra pessoa estamos no “assunto errado”. E aí, ou mete o louco e vai pro assunto real, ou sai fora dessa tortura. Ninguém merece uma vida de monólogos sofridos. Nem você, nem quem convive com você. Se está sofrendo, fale sobre o sofrimento, não sobre política, religião, ciência… vai ser um papo horrível que não acrescenta nada e você vai continuar sofrendo o mesmo que estava antes.

A mente avisa quando as palavras são inúteis. O difícil é escutar. Quando eu consolidei essa teoria do assunto errado na mente, eu consegui perceber muito mais vezes e evitar muitos desses momentos cretinos da vida. Talvez sirva para você.

Para dizer que eu tenho uma teoria por dia, para dizer que sofrimento é ler texto confuso, ou mesmo para dizer que a culpa é dos outros que não te ouvem: somir@desfavor.com

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Comments (10)

  • Pois é. As vezes dá preguiça de elaborar, de percorrer todo o caminho pra não dar em nada. Na maioria das vezes as pessoas estão falando (ou não falando) sobre si mesmas, sobre como as coisas lhes tocam etc, etc.

    Parto do princípio que somos macacos que aprenderam a falar e que só estamos buscando novas formas de conseguir proteção, descanso, comida e reprodução. Assim eu consigo relevar algumas coisas que demonstram ser o instinto gritando forte, seja nos outros ou em mim. Outras vezes fico puto mesmo.

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  • Dois pontos pra acrescentar ao texto:

    1) Acho que te entendo bem, Somir, quando tu disse, nos primeiros parágrafos do texto, sobre a frustração de querer dizer sobre um assunto, mas acabar dizendo outro, pra dai dizer o que quer realmente. Senti um pouco disso quando já tentei, algumas poucas vezes, contra argumentar com essas pessoas aí conservadoras e cabeça duras sobre algum ponto, seja ele político, sobre vacinas, sobre economia etc. Cansa ter que fazer toda uma exposição antes, pra dai chegar no ponto que tu quer de fato refutar. Além do mais, confesso que não tenho tanta paciência pra isso, então acabo que ficando calado e sem discutir, porque demanda muito tempo, além de paciência, pra explicar, expor e tudo mais.

    2) Tentativa de explicação plausível para o tema proposto (daí aqui vamos de papo sobre semiótica e linguística): acho que esse “atraso” entre o que se quer dizer e como expor e formular com palavras, é algo natural que sempre vai existir na linguagem humana. Afinal, a ordem dos signos em relação aos significados é quase sempre arbitrária, e a escolha dos significantes pelo falante perpassa sempre pela via do inconsciente, então… Tem coisas que a gente não percebe mesmo, e que não escapa.

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  • “Se tem algo mexendo com a pessoa, ela vai fazer qualquer tema possível e imaginário refletir com essas sensações.”

    Seja um escritor e eventualmente você perceberá que seu humor e seu estado de vida influenciam brutalmente na prática. É meio óbvio dizer isso, mas muitas vezes passa completamente inobservado ou negligenciado que você está saindo do foco da sua própria narrativa.

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  • Pessoas na maioria das vezes podem parecer rasas porém todos tem uma história, família, desejos ainda que não deixem transparecer :)
    Mas realmente, é muito tempo perdido com discussões infrutíferas ou até inúteis, ainda mais online. Todo dia o pessoal se irritando com uma opinião totalmente avulsa de alguém que 99,9% da população mundial nem sabe quem é, a internet parece cada vez mais com um bando de velho que fala com a TV.
    Aí quando vê mais um ano passou e a maioria não fez é nada.

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