FAQ: Coronavírus – 54

Quais são os remédios que realmente funcionam para quem já está com covid? Se já tem remédio contra covid como é que o Brasil ainda tem tantos mortos?

O que comprovadamente funciona para tratar pacientes com covid: Anticorpos Monoclonais e Antivirais.

Anticorpos Monoclonais são anticorpos feitos em laboratório, desenhados especificamente para atacar o vírus. Vamos pensar da seguinte forma: você tem uma casa com cães de guarda no quintal para te proteger de assaltos. No geral, cães de guarda são bastante eficientes, mas, se um bandido for realmente habilidoso, talvez ele consiga escapar.

Os Anticorpos Monoclonais seriam cães de guarda treinados com o “cheiro” do assaltante, adestrados especificamente para atacar aquela pessoa que é uma ameaça. Isso os torna muito mais eficientes, pois quando esse determinado bandido se aproximar, eles vão reconhecer rapidamente, não vão confiar nele e vão atacar. Então, com o perdão da simplificação, são “anticorpos de elite” que já vem treinados para atacar o vírus.

Os Anticorpos Monoclonais são indicados para os primeiros dias de infecção, para pegar o vírus quando ele ainda não está em grande quantidade dentro do corpo e impedir que ele se multiplique e cause estragos. Então, podemos dizer que seria um “tratamento precoce” que realmente funciona.

Infelizmente não é algo que se possa comprar em farmácia e tomar. Não é o tipo de coisa que se venda para uma pessoa física. É algo que só se pode fazer uso em ambiente hospitalar e seu uso requer um timing muito preciso: depois de um certo grau de “espalhamento” do vírus, eles não ajudam muito, uma vez que quando o vírus se espalha, o grosso do dano é causado pelo nosso organismo, que surta e ataca tudo, inclusive a si mesmo, no desespero por matar o vírus.

Para completar, é um tratamento extremamente caro. Não é distribuído pelo SUS nem bancado por plano de saúde. E, para piorar, seu uso ainda não foi autorizado no Brasil. Portanto, por enquanto, não conte com ele. Nem vou citar nomes, pois as pessoas no Brasil não podem ter acesso a isso agora.

Se um dia forem liberados, podem usar sem medo, realmente funcionam: quando aplicados nos primeiros dias após o contágio, são capazes de prevenir cerca de 80% dos casos de hospitalização.

Os outros medicamentos são os antivirais, que impedem que o vírus se multiplique dentro do organismo. Ao contrário dos Anticorpos Monoclonais, os antivirais não foram desenhados para atacar e destruir o vírus e sim para “esterilizá-lo”, impedindo que ele se reproduza, o que também ajuda muito, uma vez que se o vírus não se reproduz, ele não consegue infectar com eficiência.

Os três mais famosos são o Remdesivir (da Gilead Sciences), o Paxlovid (da Pfizer) e o Molnupiravir (da MSD). Eles também devem ser ministrados nos primeiros dias de contágio para fazerem algum efeito e são capazes de reduzir em 87% o risco de hospitalização. São comprimidos, portanto, o tratamento pode ser feito em casa, sem necessidade de hospitalização.

No Brasil, o único aprovado é o Remdesivir (os outros estão pendentes de aprovação), e não foi incorporado ao SUS nem é obrigatório a planos de saúde, ou seja, você só tem acesso pagando por ele. O preço? Bem, se você fizer o tratamento pelo tempo mínimo exigido, que são cinco dias, custa mais de 3 mil dólares, que daria hoje em torno de 17 mil reais – como mínimo. Ou seja, está disponível, mas para poucos.

É por isso que a gente diz que para alguns países a covid pode virar endêmica, similar a uma gripe: mais de 70% da população com 3 doses de vacina (= poucas pessoas pegando) e hospital público com anticorpos monoclonais e antivirais. Os poucos que são infectados não vão morrer pois ainda tem tratamentos eficientes para salvá-los, mesmo com a doença. Quando deixa de haver risco de vida, reabrir e flexibilizar volta a ser uma opção.

O que não é a realidade brasileira. Poucas pessoas vacinadas com 3 doses e remédio para verme para aqueles que acabarem hospitalizados. O resultado? Em pleno 2022, com vacinas, mais de mil mortos por dia.

No Brasil, ainda é preciso adotar restrições como distanciamento, uso de máscaras e outros. Não adianta olhar o coleguinha na Europa abolindo tudo e falar “tá vendo? Já acabou essa porra, é histeria ficar usando máscara”. Não, não é. Tá com três doses de vacina? Tem 20 mil reais para pagar num tratamento? Então bota a máscara e fica na disciplina.


Como sei se estou com Covid Longa ou se estou com outra doença depois de ter covid, como saber? Se for Covid Longa, qual é o tratamento e em quanto tempo passa?

A única forma de saber é fazendo exames para excluir outras doenças: checou tudo e tá tudo normal? Por exclusão, pode ser covid longa.

Covid longa, também conhecida como síndrome pós-covid, ocorre quando os sintomas de covid demoram mais do que o esperado para desaparecer. Quando passam mais de três meses após a doença e a pessoa continua experimentando sintomas, já se pode dizer que é covid longa. Ou, quando já se passaram mais de três meses, os sintomas desapareceram, mas do nada, voltaram.

O tempo máximo que esses sintomas podem ficar, ainda não sabemos. Podem ser meses, podem ser anos, podem ser décadas, podem até ser para sempre. Não deu tempo de ver. Também pode acontecer desses sintomas serem “flutuantes”, ou seja, vem e vão, melhoram e pioram ou podem ser contínuos. E, por fim, pode ser que um dia se entenda o motivo pelo qual eles se apresentam e possam ser completamente curados.

No Brasil, não há dados precisos nem de quantas pessoas têm covid, uma vez que não se testa o suficiente, quem dirá de quem tem covid longa. Nos resta olhar para países com maior controle para estimar sua incidência. Segundo dados do Instituto Nacional de Estatísticas britânico (ONS, na sigla em inglês), cerca de 1,3 milhão de pessoas no Reino Unido têm covid longa. Não é um número pequeno, principalmente se pensarmos que em muitos casos ela causa diminuição da capacidade de trabalho ou até incapacita por completo.

Como eu disse no primeiro parágrafo, o diagnóstico é por exclusão. Por se tratar de uma doença muito recente, ainda não entendemos bem a covid nem a covid longa, então, primeiro se tenta olhar para o que conhecemos bem (outras doenças) e, se elas não estiverem lá, tudo indica que os sintomas sejam causados por covid longa.

Em países que estão fazendo um acompanhamento competente da covid longa, os principais sintomas relatados são: cansaço extremo, falta de ar, dor no peito, palpitações, aperto no peito, problemas de memória e concentração (que foram apelidados de “névoa mental”, pois tudo fica muito confuso), alterações no olfato e no paladar, dor nas articulações e problemas cognitivos (dificuldade em aprender coisas novas, dificuldade de compreensão).

Isso não quer dizer que a covid longa não possa apresentar outros sintomas. Estamos longe de entender tudo que pode acontecer, inclusive, pode ser que a covid longa da Ômicron seja diferente.

Então, é possível que, em breve, novos sintomas sejam incluídos nessa lista de covid longa. Esses são apenas os mais comuns (e em outros países). Para você ter uma ideia, um estudo da University College London (UCL) identificou mais 200 sintomas que apareceram por covid longa e que afetam 10 sistemas de órgãos. Basicamente, pode ser qualquer coisa.

Sequer entendemos bem qual é o mecanismo da covid que provoca isso. Há quem diga que o corpo “surta” e, achando que o vírus ainda está lá, começa a atacar o próprio corpo, causando estrago em áreas saudáveis (mais o menos no mesmo estilo de uma doença autoimune).

Outra teoria diz que fragmentos do vírus permanecem no corpo e, em alguns casos, não se sabe o motivo, acabam “reativados” após algum tempo, voltando a causar dano (mais ou menos no mesmo estilo do vírus da herpes).

Por não entender como ela funciona, não há medicamento específico para covid longa, o que se faz é tratar os sintomas, à medida em que eles vão aparecendo, para tentar dar um pouco mais de qualidade de vida à pessoa.

Infelizmente não existem locais de acolhimento específico para essas pessoas, com profissionais que se dediquem a este problema, ao menos não em grande escala, ao menos não no Brasil. O país ainda está apagando o incêndio dos doentes, não tem estrutura para olhar para as sequelas da doença.

A tendência é que em breve tenhamos clínicas especializadas para atenção de pós-covid, já que uma quantidade significativa de doentes acaba passando por isso. Profissionais que só vejam isso todos os dias vão ajudar a criar um padrão, entender melhor e descobrir quais são os melhores tratamentos. Provavelmente terá que ser uma equipe multidisciplinar, com diferentes especialistas atuando juntos: desde neurologistas até nutrólogos. Se você quer empreender, fica aí minha sugestão. É um público enorme e quase não tem concorrência.

É comum que epidemias e pandemias deixem um rastro de sequelas e problemas a longo prazo por onde passam, tanto é comum que existe até um nome para isso: “cauda longa”. Hoje, a única informação concreta que eu posso te dar é olhando para o lado, para a “prima” da covid, a SARS (Síndrome Respiratória Aguda Grave) e avaliando sua cauda longa.

Em 2004, alguns profissionais de saúde do Canadá que haviam sido infectados com SARS no ano anterior ainda apresentavam diversos sintomas, alguns até incapacitantes, apesar de testarem negativo para a doença. A condição foi chamada de “Síndrome pós-SARS”.

Depois de muitos estudos, juntando todos os depoimentos dos afetados e cogitando todos os mecanismos possíveis, cientistas acabaram concluindo que a maior probabilidade era de que o problema estivesse no cérebro.

Em um esforço conjunto com cientistas de vários países, acabaram confirmando essa suspeita: estudos mostraram fragmentos do material genético do vírus em várias células cerebrais de pacientes com síndrome pós-Sars. Aí veio a dúvida: como essas células chegaram lá?

A melhor explicação que conseguiram encontrar para isso foi o acesso direto do vírus: há uma conexão direta do nosso nariz com o cérebro, (nervo olfatório), e é provável que o vírus tenha entrado por ela, caindo diretamente na circulação cerebral. O que se concluiu, então, é que esses fragmentos de vírus estavam, de alguma forma, interferindo no seu funcionamento, causando uma série de problemas.

Pode ser que se descubra o mesmo para covid. Pode ser que não. Ambos são doenças respiratórias, ambos são coronavírus. Se eu fosse pesquisadora, começaria o estudo partindo do que já se sabe sobre SARS.

Mas, no momento, o mundo todo está focado em acabar com a pandemia. Ainda não estão olhando em larga escala para as vítimas que ficaram dela. Mas, em algum momento terão que olhar, pois pode ser que vejamos milhões de pessoas no mundo incapacitadas para trabalhar, boa parte delas profissionais de saúde.

Se for esse o seu caso, se for de fato covid longa, o conselho que eu te dou é: observe-se e veja o que te ajuda. Quando nos sentimos mal e a ciência não nos ajuda e não nos dá respostas é realmente muito frustrante, mas não caia na armadilha de procurar curas alternativas, mágicas ou “naturais”. Não tem chá, não tem oferenda, não tem reza.

Faça por conta própria o que estiver ao seu alcance: teste praticar atividade física regularmente e veja se melhora, teste diferentes tipos de alimentação e veja se melhora, tente dormir mais horas de sono e veja se melhora, e assim por diante.

Mas antes, consulte vários médicos, faça todos os exames necessários e descarte qualquer outra doença. Só é Covid Longa se nada mais for encontrado.


Quando a OMS falou que a fase aguda da pandemia poderia terminar este ano, ela falou para o mundo todo, não apenas para alguns países. Mas você disse que só pode flexibilizar quem “fez o dever de casa”. Quem está certo?

Ambos. Essas falas não se contradizem.

O que a OMS disse: “Nossa expectativa é do fim da fase aguda da pandemia este ano, desde que 70% da população mundial seja vacinada até o meio do ano, por volta de junho, ou julho”

Sabe quantas pessoas no mundo tem duas doses de vacina? Metade. Sabe quantas pessoas no mundo tem 3 doses de vacina? 15%. Tomara que o melhor aconteça, tomara que a gente se surpreenda, tomara até o meio do ano 99% da população mundial esteja vacinada com quatro doses, mas não é algo que temos certeza de que vá acontecer.

Além disso, o que a OMS fez é uma estimativa, não uma certeza matemática. Com base nos dados que eles têm, SE 70% da população mundial estiver vacinada até o meio do ano, eles estimam que os humanos sejam mais rápidos que o vírus, fazendo com que o vírus circule menos e não consiga mutar com tanta facilidade. E tomara que isso aconteça, estamos todos na torcida. Mas, só é para se portar como tal, quando de fato acontecer.

Como ainda não aconteceu, como ainda não temos 70% da população mundial vacinada, temos que nos portar de acordo com essa realidade: fazer a nossa parte para que, até lá, o vírus circule menos e tenha menos chances de mutar. Como, por enquanto a realidade é outra, nós, seres humanos racionais, temos que criar barreiras físicas e comportamentais para impedir contágios.

Entenda que o que eu digo de forma alguma contradiz o que a OMS diz. Mais: eu nem tenho competência para fazer as previsões que a OMS faz, muito menos para contrariá-la. Se você me perguntar com quantos % da população mundial vacinada podemos flexibilizar medidas sem tantos riscos eu não saberei responder.

O que eu digo é que HOJE, ainda são necessárias barreiras físicas (como uso de máscara PFF2 da forma correta e higienização das mãos) e comportamentais (não aglomerar, especialmente em locais fechados, manter um distanciamento de outras pessoas etc.) como recurso para que tentemos vacinar uma quantidade razoável de pessoas antes desse vírus mutar e se transformar em algo mais difícil de conter.

Eu não estou dizer que “se não fizerem isso vai aparecer uma variante bla bla bla”. Quem dera eu tivesse bola de cristal para saber exatamente o que vai acontecer. Estou dizendo que quanto menos restrições impusermos ao vírus, mais espaço ele terá para mutar e maiores são as chances de surgir uma variante que seja de fato um problema, por sinal, uma fala totalmente alinhada com o que diz a OMS.

Então, vamos deixar claro de uma vez por todas: não sabemos do futuro, não podemos ter certeza de quantos % da população mundial vai estar vacinada até o meio do ano, muito menos contar com isso. Se alguém te diz que pode ser que até junho te pague dez mil reais, mas não tem certeza disso, você sai e gasta dez mil reais, sem ter a certeza de que vai receber?

O que sabemos é o presente. Hoje, no Brasil, temos 70% das pessoas vacinadas com duas doses, que não barram a Ômicron, que é variante presente em 98% do território nacional, e apenas 25% das pessoas vacinadas com três doses. Some-se a isso uma vacinação infantil baixa. Nesse cenário, ainda não dá para flexibilizar como o brasileiro quer sem perder vidas e correr muitos riscos. Ponto final.

Não matem o mensageiro.

Para dizer que você gasta o que não tem mesmo sem te prometerem pagar nada, para dizer que o uso de máscaras nunca aconteceu no Brasil pois todo mundo usa errado ou ainda para dizer que já perdeu as esperanças e essa desgraça de coluna vai chegar até a centésima edição: sally@desfavor.com

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Comments (6)

  • Você tá dando de dez a zero no Átila. Estética e Cientificamente. E olha que não foi minha aluna hein. Se reencarnar no Brasil avisa que eu tenho trabalho pra ti.

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  • Tratamento contra o Coronavírus só mesmo em hospitais, as sequelas ainda não são totalmente conhecidas pela ciência e o que resolve mesmo é vacinação em massa – inclusive de crianças – e os cuidados de sempre com o uso de máscaras e distanciamento social. Ah! E só os países que fizeram muito bem feitinha a “lição de casa” é que a esta altura podem pensar em flexibilizar certas regras de controle para combate ao vírus.

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    • Não.

      Resumindo: não sabemos o futuro, pois tem um fator que foge ao nosso controle, o vírus.

      Sabemos o presente: no Brasil ainda são necessários cuidados.

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    • Por enquanto ainda não dá para ter certeza de nada. Muita coisa ainda é novidade para a ciência e está sendo estudada. Só o que se sabe até agora é que o Covid-19, assim como todos os outros vírus, só faz aquilo que foi “biologicamente programado” para fazer: “passar adiante” o seu código genético enquanto infecta outros organismos, sempre se adaptando ao ambiente, em um rápido processo de reprodução/mutação que fica “facilitado” em “condições favoráveis”. E cabe a nós, seres humanos, não deixar que haja essas “condições favoráveis” – com uso de máscaras, vacinação e distanciamento social -, evitando assim que o vírus se replique e se modifique pouco a pouco a cada nova cepa até ao ponto de os atuais imunizantes não serem mais eficazes.

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