Tempo perdido?

Muita gente considera a manhã a pior parte do dia, e isso é diretamente relacionado com acordar. Passamos a vida toda acordando em horários que não são necessariamente os que o nosso corpo quer. Sally e Somir entendem que precisamos de disciplina na vida e que nem tudo é como queremos, mas discordam sobre a função prática de uma pequena rebeldia contra o sistema. Os impopulares despertam a discussão.

Tema de hoje: apertar o botão “soneca” do despertador (aquele que te dá mais alguns minutos de sono) é uma estratégia válida?

SOMIR

Sim. Toda forma de retomar o controle sobre a sua vida é válida. Podem ser cinco, dez ou quinze minutos, mas são os seus minutos. Não é uma questão quantitativa, é uma questão qualitativa: a soneca é um pequeno momento de poder humano numa vida que frequentemente nos pressiona a agir feito máquina.

Não vão ser esses minutos que vão mudar alguma coisa na sua noite de sono, eu já admito isso de cara. Minha argumentação não é necessariamente fisiológica, é mais psicológica mesmo: um ser humano deve ter o direito de controlar seu tempo. Claro, não podemos fazer isso o tempo todo, e nem devemos impor nosso relógio ao resto do mundo se queremos viver em sociedade, mas estamos falando de alguns pequenos períodos de subversão social aqui.

Poucos minutos, mas minutos significativos. Quando você aperta o botão soneca, está passando uma mensagem para você mesmo: eu não quero acordar agora. Eu não preciso me justificar, eu não tenho que me justificar, eu estou escolhendo gastar mais minutos na cama e se necessário, reduzir minutos de outras tarefas antes de cumprir minhas obrigações do dia.

E por mais que a cultura de produtividade acima de humanidade que temos desde a Revolução Industrial seja prevalente na nossa sociedade, ela só existe porque pessoas ricas descobriram como mecanização é eficiente para ficarem mais ricas. O ser humano é tratado como uma peça na linha de produção, e deve se enxergar como peça para manter as coisas como estão. Todo nosso sistema educacional foi pensado em condicionar crianças a ficarem em espaços fechados com foco no que não querem e obedecendo autoridades, porque é isso que o “dono da fábrica” quer de sua mão de obra.

Sim, eu sei que estou entrando num papo hippie, mas esses argumentos são muito válidos, por mais que sejamos adultos e entendamos que as pessoas precisam ganhar dinheiro e ter algo o que fazer para a sociedade funcionar. Não precisa ir derrubar a burguesia ou ir morar numa comunidade de maconheiros, basta manter em mente que seres humanos são máquinas utilizadas por outros seres humanos para produzir e acumular recursos.

Vivemos numa cultura que tenta envergonhar a pessoa que não age como uma máquina, mesmo hoje em dia tem o influencer filho da puta que diz que seus problemas vão se resolver se você acordar às cinco da manhã. Gente que vive de empurrar essa ideia de ser humano robótico como se fosse o ápice da nossa capacidade como seres vivos. Não é. É um mercado como qualquer outro: as pessoas são criadas para achar que são melhores se forem máquinas mais eficientes.

Tanto é um papo furado que tem consequências de papo furado: a pessoa é condicionada a acreditar que é um crime sério não obedecer a horários, mas que está tudo bem em fazer as coisas de má vontade e sem um mínimo de comprometimento quando está trabalhando. Acorde às cinco da manhã, mas pode ser um incompetente preguiçoso depois disso. Mesmo que você não consiga racionalizar isso diariamente, pequenas atitudes como apertar o botão de soneca do despertador são formas da sua mente ir contra essa baboseira toda.

“Eu sou um ser humano livre, eu quero passar mais alguns minutos na minha cama.”

Pode ser mais saudável ir dormir 15 minutos mais cedo? Pode. Mas não é sobre a qualidade de vida desses minutos dormidos, é sobre sua mente te lembrando que você não é uma máquina. Mesmo que você concorde com a Sally hoje, que pelo menos se lembre de uma coisa deste texto: você não é uma máquina. Seu corpo sabe disso instintivamente e te dá vários avisos durante a vida.

Os quinze minutos são basicamente irrelevantes para o quadro geral da sua saúde durante a vida. Se você quer usar eles para reduzir a chance de atrasar na chegada ao trabalho ou se quer usar eles para ficar mais tempo sentindo a excelente sensação de estar na sua cama ainda com sono, você escolhe. Não deixe ninguém te envergonhar por ser humano.

Soneca é uma escolha válida sim. Distrair um pouco durante o trabalho também. Deixar alguma coisa chata para depois ou escolher preguiça ao invés de resultados também. Se você é adulto, presume-se que possa fazer essas escolhas. Não caia no papo furado de excelência absoluta, porque isso só uma máquina sem consciência pode entregar. Não se pode ter tudo nessa vida, você vai abrir mão de algumas coisas, você vai decepcionar pessoas, você não vai conseguir ser perfeito.

O cérebro humano existe no presente. Boa parte das doenças mentais modernas tem conexão direta com ficar preso em culpas do passado e ansiedades sobre o futuro. Decisões de momento sem função muito clara no futuro como ficar na cama por mais quinze minutos nos trazem felicidade imediata, isso é, se você não transformar esse descanso em culpa ou ansiedade. A dopamina é liberada na hora que você escolhe fazer algo que tem vontade, para te dar mais estímulo para fazer aquilo, não durante. A mente humana só existe no agora.

E o botão de soneca existe no agora também. Ele é uma decisão do agora que te ajuda a relembrar sua humanidade, e que boa parte das cobranças e pressões da vida moderna nada tem a ver com sua felicidade, e sim com sua produtividade para acumular recursos (e na maioria dos casos, nem para acumular recursos para você). Viva o agora, permita-se fazer algo “errado” na mentalidade capitalista robótica, e deixa a preocupação para a hora que ela for necessária.

Torne-se ingovernável: durma mais cinco minutos e foda-se quem achar ruim.

Para dizer que eu sou um vagabundo, para dizer que eu vou acabar me filiando ao PCO, ou mesmo para dizer que concorda com tudo o que for mais fácil pra você: somir@desfavor.com

SALLY

Apertar o botão “soneca” do despertador (aquele que te dá mais alguns minutos de sono) é uma estratégia válida?

Não. Se você dormiu pouco (ou dormiu mal) não vai fazer diferença mais alguns minutos de sono para se sentir melhor, entretanto, alguns minutos a mais são capazes de te atrasar e até de te fazer sentir com mais sono.

Tem vários textos sobre sono aqui no Desfavor. Em um deles explicamos que, além das horas de sono, o que ajuda a ter um despertar mais agradável é o momento do sono no qual você acorda. O sono é composto de cinco ciclos de “profundidade”, que vão de um sono mais leve até um sono profundo, acordar no meio de um ciclo se sono leve ajuda a ter um despertar menos sofrido e acordar no meio de um sono profundo é tenebroso.

Se o despertador tocou no meio do sono profundo (existe tecnologia para sincronizar despertador com seu ciclo de sono, a quem interessar possa), ou se você simplesmente dormiu pouco e continua com sono, não adianta voltar a dormir, você não cai automaticamente no sono profundo, os ciclos recomeçam. E, para que você passe por todos eles e acorde no melhor momento, serão necessários, em média, menos 45 minutos.

Portanto, o botão soneca não se baseia na ciência, se baseia na preguiça. Ele te dá um ganho mínimo de apenas adiar algo desagradável (5, 10, 15 minutos de sono não geram nenhuma melhora significativa no seu cansaço) mas é capaz de te causar um grande prejuízo, uma vez que, dependendo da hora do seu compromisso, esse tempo pode fazer toda a diferença e você ainda corre o risco de levantar pior do que da primeira vez.

Repito: não é opinião minha, é cientificamente comprovado que mais cinco minutinhos não te deixam mais descansado e não geram benefício algum em matéria de rendimento. O sono restaurador é o sono profundo, portanto, você não vai se sentir descansado. E, para piorar a situação, passar pelo processo de dormir e acordar sucessivas vezes é estressante para o organismo, portanto, quanto mais você dormir e acordar, pior se sentirá.

Acionar o botão soneca pode causar a chamada “inércia do sono”, uma sensação de torpor, de lerdeza e cansaço que faz com que você acorde “bêbado de sono”, que certamente seria menor se a pessoa tivesse levantado de primeira. É que esse voltar a dormir por mais cinco minutinhos pode confundir o cérebro e fazê-lo iniciar o processo de segregar mais neuroquímicos que causam sono.

Ou seja, quando o despertador tocar, minutos depois, você estará ainda com mais vontade de dormir. E talvez o programe para mais cinco minutos por conta disso, fazendo com que seu cérebro segregue ainda mais neuroquímicos que causam sono. Então, quando o despertador tocar novamente, será ainda mais difícil levantar. Percebem a armadilha? Mesmo que a pessoa faça um esforço e levante, isso vai comprometer seu rendimento.

Aí você empilha atraso por cima de atraso: além do tempo a mais que ficou na cama, a tendência é que execute todas as suas tarefas de forma mais lenta e menos eficaz, uma vez que o corpo fica atordoado por esse acorda-dorme-acorda. Essa lerdeza pode fazer com que você se atrase ainda mais, uma vez que fará tudo mais devagar. Ou seja, você não estará mais descansado e ainda começará seu dia com estresse e atraso.

Eu não sei como é a rotina matinal de vocês, mas, para muitas pessoas, sair 15 minutos depois de casa gera uma manhã caótica (perde a hora do ônibus, pega mais trânsito ou qualquer outro fator estressante). Mas, mesmo que não faça muita diferença no seu cronograma, é sempre feio chegar atrasado. Depõe contra você, não importa em qual contexto. E se você tiver senso de responsabilidade, vai se sentir mal com isso e gerar ainda mais estresse.

Em vez de dormir mais para acordar com a exata mesma quantidade de sono, você pode dedicar poucos minutos para um despertar melhor. Por exemplo, ao acordar, não pule da cama, alongue por cinco minutos. Isso ajuda o corpo a acordar e ainda gera algum bem-estar. Abra as cortinas, deixe a luz natural entrar, ela avisa ao corpo que é hora de acordar. Tome um café. Coma um pedacinho de chocolate meio-amargo. E se puder, invista em pulseiras que monitoram seu sono e fazem com que o despertador do celular toque na hora em que ele está mais leve.

Ou, melhor ainda, se programe para dormir mais cedo, de modo a acordar bem e não precisar de recurso algum. Se você for dormir todos os dias na mesma hora e acordar todos os dias na mesma hora por várias semanas seguidas, o corpo acaba se acostumando e deixa de ser um esforço tão grande acordar cedo. “Mas eu gosto de dormir até tarde no final de semana”. Beleza, vai dormir cedo no domingo então. “Mas eu não consigo dormir cedo no domingo, pois acordei tarde”. Bom, então se fode aí, a vida é feita de escolhas.

“Mas eu não consigo acordar quando o despertador toca, eu ligo o botão sem perceber e volto a dormir”. É bem fácil: coloque o despertador longe o bastante para ter que se levantar da cama ao desligá-lo. Se, mesmo levantando da cama você volta a dormir, é escolha e não acidente.

Outra opção é deixar absolutamente tudo preparado na noite anterior (roupa escolhida, bolsa pronta, café da manhã na geladeira preparado, tudo organizado para apenas levantar e sair) e colocar o despertador para tocar um pouco mais tarde, assim se ganha mais tempo de sono, mas com planejamento, sem foder com o seu cronograma.

Na real, qualquer coisa é uma opção menos usar seu tempo de uma forma que não te ajuda e ainda te faz mal. Procure um médico, estabeleça hábitos que te ajudem a dormir, se isso não for possível se medique para ter uma boa noite de sono, mas durma o suficiente. Viver nesse sofrimento de apertar o botão para adiar o despertador é contraproducente.

Para dizer que para acordar cedo basta ter um pet que te acorda pedindo comida e não tem como desligar, para dizer que você não tem esse problema pois quando o despertador toca o atira no chão ou ainda para dizer que é rico e não tem hora para acordar: sally@desfavor.com

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Comments (12)

  • Engraçado que até certa idade eu sempre tive problemas com sono – em grande parte devido à ansiedade -, tinha dificuldade pra pegar no sono, não dormia o suficiente, ficava agitado na cama e não tinha aquele sono restaurador, enfim.

    Hoje tenho certa higiene de sono, de forma que prefiro até mesmo dormir mais cedo pra acordar bem sempre no mesmo horário, do que acordar um caco. Isso acontece alguns dias na semana, por exemplo, chego em casa, me alimento, me banho, faço algumas poucas coisas e 10hs já tô pregado na cama, e acordo naturalmente no dia seguinte às 7hs, dormindo direto.

    Aliás, outra coisa que me habituei foi a isso: acordar todo dia no mesmo horário, salvo algumas raras exceções tipo feriados, mas também não durmo até mega tarde não, até porque atrapalha também todo meu metabolismo relacionado à dieta e tempo de ação das insulinas.

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  • Pra mim, a função soneca serve pra não deixar cair no sono de novo e acabar perdendo a hora. Os cinco minutos a mais são pra acostumar com a ideia de ter acordado, desapegar da cama e fazer o download da alma.

    Já usei app de sono várias vezes e realmente funciona muito bem. No geral, acordo muito mais disposto.

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  • Usar o botão de “snooze” do despertador não é bom. Não são cinco minutos a mais na cama que vão revigorar uma pessoa depois de uma noite mal-dormida. E interromper um dos ciclos de sono no meio – justamente na fase “mais profunda” – é quase tão ruim para a saúde e para o rendimento no trabalho no dia seguinte quanto ter passado a madrugada toda acordado. Tudo isso sem falar no tempo que se perde tentando em vão “dormir mais pouquinho”, ocasionando tantos atropelos, atrasos e resmungos logo pela manhã, quando ainda nem se despertou direito e já se é forçado a “pegar no tranco”.

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  • Cada ciclo de sono são uns 90 minutos, se a pessoa põe soneca de 10 ou 15 min, vai acordar pior cada vez porque vai ser interrompida. Se for pra cama onze e meia por ex, calcula meia noite tá dormindo, então vai ser melhor botar o despertador pras 4:30 do que pras 5hs.

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  • O botão soneca é das piores invenções que já fizeram. Esses minutos a mais não fazem real diferença no descanso (parece que você piscou e ele já tocou de novo), você precisa se submeter a diversas pequenas frustrações (ao ser relembrado que precisa acordar) e ainda perde um tempo que fará falta quando levantar.

    O melhor a fazer é deixar o despertador longe da cama e em volume alto.

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  • Eu particularmente sempre tive dificuldade em pegar no sono, desde criança. Pra mim, a função snooze sempre foi completamente inútil, já que eu demoro mais do que cinco ou dez minutos pra pegar no sono de novo. Mas mesmo que não fosse o caso, eu acho que não ajuda em nada. Cinco ou dez minutos de sono a mais dificilmente te revigoram mais do que o que você já dormiu, e pra mim, faz mais sentido usar esse tempo extra pra se preparar com mais calma pra sair.

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  • Desde criança minha mãe me levou ao médico e ele disse que nasci com relógio biológico trocado. Só me encontrei na vida depois que passei a estudar e trabalhar à noite ( bom que ganho adicional) Quando por uma infecllicidade preciso acordar de manha, o app Sleep Cycle salva minha vida sem precisar soneca. Bom dia é o cacete! Sou de boa noite.

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  • Não é válido porque quando eu durmo mais do que o costume, mesmo apenas alguns minutos, sinto uma dor de cabeça do inferno.

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  • Prefiro não usar o botão de soneca. Já me atrasei muitas vezes pra compromissos por querer ficar na cama por “só mais cinco minutinhos” e hoje não faço mais isso. Mesmo que tenha dormido pouco ou mal, eu levanto, lavo o rosto com água gelada e tomo um café pra espantar o sono e conseguir tocar a vida pra frente.

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