Pequenos abusos.

Hoje comemoramos a Semana Anta na República Impopular do Desfavor, data especial para falar sobre a estupidez da religião, com um foco todo especial no cristianismo, por ser a religião mais popular no mundo ocidental. É de praxe sacanearmos a insanidade da mitologia religiosa, mas dessa vez eu quero fazer algo mais… pessoal. Vamos ser mais compreensivos com as fábulas religiosas e menos com quem acredita nelas.

Quase que a totalidade das religiões mais populares do mundo traçam suas histórias por milhares de anos. As religiões monoteístas modernas como Cristianismo, Islamismo e Judaísmo tem basicamente a mesma raiz, numa mudança que tirou de moda as antes mais populares religiões politeístas. A história das crenças sobrenaturais humanas é tão longa quanto a história da espécie humana, e precisaríamos de vários volumes de livros para sequer arranhar sua superfície.

O que nos interessa neste texto é que elas são antigas. Desenvolvidas (ou divinamente inspiradas segundo os que acreditam nelas) por pessoas que viveram milhares de anos antes de qualquer um de nós. Viveram num mundo cuja natureza era muito parecida com a que conhecemos, mas numa situação social e tecnológica pra lá de diferente da realidade moderna.

Eram pessoas com desejos, sonhos, medos e problemas parecidos com os nossos, mas muito mais limitadas em suas ferramentas para lidar com as coisas. É importante ressaltar essa diferença: se você vive de forma isolada com pouquíssimos recursos numa civilização pré-científica, é totalmente aceitável aceitar qualquer que seja o discurso religioso vigente. “Deus” é uma explicação razoável para qualquer coisa que nem você nem ninguém ao seu redor tem capacidade de entender.

Imagine que você nasceu de parto natural num barraco de palha com zero conhecimento de medicina, que cresceu sem sequer ouvir falar do conceito de escola, que viu boa parte dos seus irmãos morrerem de todo tipo de doença, que só trabalhou na roça e eventualmente se casou com alguém indicado pelos mais velhos da tribo até ter seus filhos… seu conhecimento máximo sobre o planeta vai até outros vilarejos próximos e conversas míticas sobre outros povos. Imagine que todo seu conhecimento sobre o universo cabe em um ou dois parágrafos de texto que você nem saberia escrever ou ler…

Neste contexto, eu não tenho reserva nenhuma sobre a crença em divindades, por mais infantis que sejam suas descrições de forma ou poderes. Se eu vivesse a vida do tempo no qual as religiões mais populares de hoje foram inventadas, eu tenho certeza que acreditaria piamente em tudo o que elas dizem. Qualquer dúvida que a pessoa tiver pode ser respondida pela “vontade de Deus”, e para ser bem realista, para aqueles povos era mesmo a melhor resposta que poderiam dar.

De uma forma curiosa, era lógico acreditar em religiões há milhares de anos atrás. Porque mesmo uma pessoa que nascesse em berço de ouro e tivesse acesso a muito do conhecimento disponível ainda sim estaria bem limitada no que poderia depreender da realidade. Sim, tivemos vários gênios na antiguidade que avançaram e muito o conhecimento humano, especialmente nas áreas de engenharia, matemática e filosofia. Coisas que dificilmente cobriam a necessidade de se ter um deus ou deuses para explicar o funcionamento das coisas. Ou eram coisas muito práticas do dia a dia, ou eram coisas que se misturavam facilmente com pensamento religioso.

Eu entendo até mesmo quem colocou na religião ideias preconceituosas, uma coisa é lidar com um homossexual nos tempos modernos, outra completamente diferente é ter medo de não deixar descendentes há milhares de anos atrás. Ainda é escroto tratar mal alguém por algo que nem pode escolher, mas o meu argumento é que em tempos de cérebros tão “crus”, algumas coisas são muito mais razoáveis. O pensamento religioso é essa bagunça de histórias mal contadas e preconceitos “institucionais” porque o ser humano era basicamente capaz disso quando criou essas religiões.

Por isso hoje em dia eu tento explicar minha repulsa ao pensamento religioso separando deuses de fiéis. Pouco me importa se uma pessoa com uns 30 pontos de Q.I. a menos que o ser humano moderno falava sobre cobra falante e um velho barbudo voyeur que te julga de cima de uma nuvem. Aliás, pouco me importa se um ser humano atual – dada a capacidade intelectual média que ainda vemos como maioria – acredita nas mesmas coisas. A parte mágica dessa história não é tão relevante assim.

Eu não tenho nada contra deuses, porque nem acredito neles. Eu tenho muito contra quem cobra para ser intermediário deles. E não estou falando só de dinheiro, essa cobrança pode vir em muitas formas de abuso de poder e influência. Acredito que muitos ateus apontam suas armas para a parte errada do problema religioso: a crença. A crença é muito mais lógica do que parece: seres humanos extremamente limitados criaram e adaptaram historinhas que por um motivo ou outro controlavam bem suas crianças e davam algum alento aos adultos. O deus pode ter barba ou seis braços, pode ter criado o mundo num estalar de dedos ou cortado a barriga de um elefante com asas…

A mitologia das religiões é o que menos importa, porque ela é basicamente uma mistura de palavras e conceitos aleatórios. Mitos de criação e história mitológica religiosa podem ser desenvolvidas em qualquer conversa com uma criança empolgada. Aliás, eu adoraria fazer esse experimento com uma criança: “inventa uma história de como o mundo apareceu”. Aposto que daria uma religião nova na hora. Quem tiver filho pequeno aí e tempo livre, tente e conte aqui, por favor!

Por um motivo ou por outro, algumas dessas histórias infantis acabaram integradas à cultura humana e repetidas por milênios. É meio bizarro aceitar uma delas sem ter grandes dúvidas sobre a lógica da coisa, mas se esse fosse o único problema, já teríamos resolvido faz muito tempo. O verdadeiro problema, como já disse, é que algumas pessoas conseguem acumular recursos e poder se colocando como defensoras de uma história maluca ou outra.

Só tiro sarro de mitologia religiosa, porque é só isso que ela merece. Mas está na hora de culpar os verdadeiros problemas causados pela religião em quem empurra goela abaixo das pessoas essas histórias e todas as maldades relacionadas. Se eu tivesse o poder divino de julgar seres humanos, com certeza colocaria padres, pastores e relacionados de outras religiões como os primeiros a queimar no fogo do inferno. Não para sempre, porque ao contrário dos outros deuses, eu sou justo e acredito em proporcionalidade.

Mas isso vai além de quem ganha a vida mentindo que é intermediário entre uma divindade e as pessoas desse mundo, como em qualquer sistema de organização humano, o processo religioso sempre vai ter gente tirando vantagem e acumulando dinheiro e poder em cima de pessoas mais vulneráveis. Muitos vão até acreditar que estão fazendo um bem para elas!

Eu quero descer ainda mais nessa escala e pegar o verdadeiro culpado pelos problemas causados pela religião: pais que as ensinam para os filhos. Como de costume, a pior violência sempre está dentro de casa. Quando os pais ensinam ignorância seletiva, preconceito e intolerância em casa, os filhos têm pouquíssima chance de alcançar seu potencial máximo como ser humano. Fiquem felizes que eu não sou o ditador do mundo, porque eu equipararia ensinar religião em casa com abuso psicológico severo. Estupro mental, por assim dizer.

Qualquer criança tem imaginação para criar uma religião do mesmo nível que as tradicionais, mas são forçadas a acreditar em outra bobagem aleatória sob pena de violência física e emocional dos pais. Religião não substitui moralidade e ética em nenhum nível, apenas coloca um substituto de baixíssima qualidade no lugar, que vai gerar muita confusão e por consequência, baixa capacidade de agir de forma humanitária no futuro.

Esse substituto de baixíssima qualidade até poderia ser considerado o melhor disponível há milhares de anos atrás, quando não tínhamos sequer tempo de educar crianças. Elas estavam trabalhando e fazendo filhos numa idade muito menor do que se espera hoje em dia. Os pais dessas crianças ancestrais não tinham conhecimento suficiente para explicar de nenhuma outra forma, e precisavam forçar um conjunto de valores específicos na cabeça de seus filhos para manter sua propriedade e capacidade de se alimentar no curtíssimo prazo. Numa sociedade baseada em subsistência, é razoável limitar o desenvolvimento intelectual dos filhos para garantir que eles continuem exclusivamente focados em produzir alimentos e gerar mais descendentes para continuar o trabalho.

Hoje em dia, deveria ser crime. A pessoa não só reduz a capacidade de seus filhos de realmente entenderem o que é ser uma boa pessoa (se você faz coisas consideradas boas por medo de punição, não é uma boa pessoa), limitam bastante sua capacidade de desenvolver inteligência, e por tabela, empurram preconceitos ancestrais completamente inúteis na sociedade moderna, incitando a renovação constante de um público violentamente ignorante. E tem mais: quando você coloca mais um religioso na sociedade, coloca mais um entrave para a evolução humana em geral. Menos gente capaz de se adaptar à realidade e conviver pacificamente com o diferente.

Quase todo ateu enfia o dedo na cara de Deus dizendo que a história é ridícula, a maioria bate nos golpistas que tiram dinheiro dos pobres se dizendo intermediários desse deus, mas são raros os casos daqueles que se lembram de falar do ABUSO que é ensinar religião para crianças. Se você acha que é razoável ensinar esses absurdos intolerantes que glorificam estupidez para seus filhos, você só está passando pra frente o abuso que recebeu dos seus pais. E eu não acho que você seja uma pessoa horrível intencionalmente, apenas que só conheceu o abuso e achou que isso era normal.

Não é para ser. Pode se matar à vontade para decidir que ser imaginário é melhor, mas poderiam pelo menos deixar as crianças fora disso? Se bem que religioso costuma só ligar para criança dentro da barriga da mãe…

Para dizer que se ofendeu (quer dizer que tem algo aí, não?), para dizer que finalmente alguém pensou nas criancinhas, ou mesmo para dizer que primeiro tem que parar de comer as crianças: somir@desfavor.com

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Comments (8)

  • Maioria das pessoas são religiosas e você mesmo entendendo que esses preceitos não são mais necessários, muito menos ao pé da letra, tem que agir feito um débil mental às vezes para sobreviver.

    É tipo você disparar na corrida, mas ter que parar e esperar os outros, senão te acusam de trapaça e te tiram da competição.

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  • É abuso psicológico infantil sim, mesmo que chamem isso de espiritualidade. Ensinam as crianças que elas não valem nada, que merecem ser torturadas por toda eternidade pelos erros que cometeram, e que só há um ser que é muito bonzinho e salvá-las desse sofrimento desde que receba a devida adoração. Mas o que poderia dar errado ao repassar essas idéias pra pessoas sem maturidade e em fase de desenvolvimento? Além de gerar legiões que praticam a servidão voluntária sem grandes questionamentos, essa mesma criação religiosa gera ansiosos, deprimidos, adultos disfuncionais, mentirosos patológicos, estupradores e psicopatas.

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  • Hoje é dia de rir da cara dos trouxas que pagam mais caro no peixe porque comer carne é pecado. Igual meus coléguas que pecam todo dia, fumam e se drogam, puxam tapete, mas sextinha santa só peixinho pra agradar gzuis!

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  • Não entendo por que costumam usar cientistas religiosos do passado como argumento, sendo que eles mal praticavam a religião. Por exemplo, uma breve pesquisa sobre as maiores figuras da tal “era de ouro islâmica” e descobre que a maioria dos cientistas foram acusados de blasfêmia, executados ou exilados.

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