Pessoas Quer Dizer

Hoje vamos falar das “Pessoas Quer Dizer”.

“Pessoa Quer Dizer” é aquela que pega uma frase sua e a usa como premissa para tirar um monte de conclusões bizarras que não se depreendem do que você falou. Se você não entendeu bem o que isso significa, não se preocupe, você verá diversos exemplos no texto de hoje, que vai deixar o conceito muito claro. Certamente todo mundo já se deparou com uma Pessoa Quer Dizer na vida.

Um exemplo que acontece comigo o tempo todo: a frase “eu não quero ter filhos”. A Pessoa Quer Dizer já começa: “quer dizer que você não gosta de criança?”, “quer dizer que você odeia criança?”, “quer dizer que você acha errado que eu tenha filhos?”, “quer dizer que ninguém deveria ter filhos?”, “quer dizer que se fosse por você sua família acabava na sua geração?”, “quer dizer que se fosse por você a humanidade seria extinta?”.

Não. Nada do que eu falo quer dizer nada a não ser aquilo que eu disse. Quando eu quero falar outra coisa, eu digo outra coisa, eu sou assim rudimentar: eu falo o que penso, não deixo nada implícito, não tenho nenhuma camada de sutileza. Quer dizer apenas isso: eu não quero ter filhos. Para não querer ter filhos não é necessário odiar crianças ou planejar o fim da humanidade.

Outro exemplo. Uma vez eu disse em um ambiente informal, entre amigos, que não achava legal dar Coca-Cola para bebê, na mamadeira, por questões de saúde. Havia uma Pessoa Quer Dizer na sala: “Quer dizer que você quer escolher o que filho dos outros vai tomar?”, “Quer dizer que eu sou uma péssima mãe por dar Coca-Cola para o meu filho?”, “Quer dizer que você sabe cuidar de criança melhor do que eu?”, “Quer dizer que você acha que sabe mais do que o pediatra do meu filho?”. Não, quer dizer que eu não acho legal das Coca-Cola para bebê na mamadeira, por questões de saúde. Nem mais, nem menos.

Aqui mesmo, somos agraciados com Comentário Quer Dizer quase todo santo dia. Por causa da nossa política de tolerância zero, ultimamente não aprovamos nenhum, mas se você pegar comentários de postagens antigas, tá cheio. O mais triste é que a pessoa, mesmo sem te conhecer, tem certeza absoluta daquilo que depreende. Tem gente vive focada em procurar crítica, contradição, em achar qualquer coisa que possa ser usada contra quem escreveu. Bizarro dedicar tempo e energia a isso.

Geralmente as pessoas que usam o “Quer Dizer” em ambientes públicos, seja no Desfavor, seja uma sala de reunião da empresa, estão querendo desestabilizar o interlocutor, se sentir melhores sobre si mesmas ou voltar a opinião pública contra a outra pessoa. Às vezes os três. Se tentarem fazer isso com você, fique exatamente onde você está, não mova um dedo para entrar no jogo da pessoa, refutar ou se defender.

“Mas Sally, e se as pessoas comprarem a falácia da Pessoa Quer Dizer e ficarem contra mim?”. Nesse caso, se essas são as pessoas com as quais você convive, considere o evento com uma bênção e promova uma faxina social. Você merece ter pessoas que te conheçam, que saibam o seu valor e que não sejam idiotas de sofrer esse tipo de manipulação. Quem gosta de verdade de você não vai morder a isca do “Quer Dizer”.

E se fizerem em redes sociais ou ambiente virtual, menos ainda. Provavelmente é uma pessoa que não está bem e está de alguma forma vomitando sua própria infelicidade em você. “Quer Dizer que agora não posso mais criticar os outros se não eu sou infeliz?”. “Quer dizer que você é a favor de censura?”. Quer dizer que todo mundo tem que ficar puxando o saco de todo mundo, só elogiando?”. Ah… as Pessoas Quer Dizer, elas aparecem em todas as horas…

Não, não quer dizer nada disso. O que eu disse é que quem usa esse tipo de recurso, depreendendo algo online sobre uma pessoa que mal conhece por causa de uma frase e se dá ao trabalho de ir falar mal e confrontar um desconhecido não deve estar em um bom estado mental.

Quem está bem, quem está feliz, quem está em um bom estado mental, não perde tempo procurando o erro de desconhecidos, por um único motivo: não lhe interessa, não há nenhum ganho com isso, apenas perda de tempo.

Porém, para quem está se sentindo mal, com um autoconceito ruim, com culpa ou medo, apontar o erro alheio gera algum grau de conforto: “olha lá, olha para ela, como ela é hipócrita, como ela é errada, como ela é escrota, vou olhar bastante para os erros dela para me sentir melhor, para me sentir superior e para não ter que olhar para mim”.

O mais interessante é o impulso que move a pessoa a perder seu tempo confrontando um desconhecido para falar mal dele. Eu imagino que seja algo muito forte, que a cegue para o ridículo da situação. O comediante Ricky Gervais faz uma comparação bem didática que expõe o ridículo de ir contestar um desconhecido.

Ele diz que se você encontra um anúncio de aulas de violão pregado em um mural em algum lugar e você não quer aulas de violão, ou não gosta de violão, você não pega um dos papeizinhos que contém o número de telefone para ligar para o professor de violão e dizer “EU NÃO QUERO AULAS DE VIOLÃO, ESTÁ ME OUVINDO?” ou “EU NÃO GOSTO DE VIOLÃO, EU ACHO QUE TODO MUNDO QUE TOCA VIOLÃO É UM CUZÃO”. Você simplesmente ignora o anúncio de algo que você não quer, não se identifica ou não gosta.

Por algum motivo, online, as pessoas fazem isso. Ao ler algo dito por um completo desconhecido, se elas não gostarem ou discordarem, elas se sentem compelidas a ir lá dizer o quanto discorda, pois acham suas opiniões muito importantes (seu tempo, por sua vez, parece ser pouco importante). Existe a possibilidade (e é muito saudável) de ler algo que um completo desconhecido escreveu, discordar e seguir sua vida adiante, sem dar importância nem ao que foi dito, nem ao desconhecido.

E percebam que quase sempre os Quer Dizer envolvem temas sensíveis. Dificilmente você vai dizer que não gosta de rúcula e alguém vai responder “Quer dizer que você odeia vegetais?”. “Quer dizer que você acha que não tem que comer comida saudável?”. “Quer dizer que por você tá tudo bem desmatar?”. Não. No geral são temas sensíveis, que estão mal resolvidos na pessoa.

Experimenta dizer que você se exercita pois para você é muito importante se manter em forma para a pessoa errada. “Quer dizer que é feio ser gorda?”. “Quer dizer que a única forma de ser saudável é se exercitar?”. “Quer dizer que você está dizendo que eu não sou saudável?”. “Quer dizer que gordo é doente?”. Daí para baixo. Faça qualquer observação sobre uma predileção sua sobre aparência, estética, dinheiro ou qualquer outro tema sensível e observe quem vai pular.

Em ano de eleições, as Pessoas Quer Dizer vão fazer hora extra. Fala que você vai votar no candidato X para a pessoa errada e observe ela depreender compulsivamente. Em poucos segundos você vira desde genocida até comunista, sem que a pessoa sequer te pergunte o motivo pelo qual você vai votar nesse candidato. Mais um motivo para falar sobre o assunto. Será melhor passar por isso entendendo o mecanismo e aprendendo a ignorar.

Mesmo passado o período de eleições, existem outras situações em que certamente vamos nos deparar com esse tipo. Por exemplo, quando a Pessoa Quer Dizer, além de tudo, é militante. Ah, com essas todo mundo já cruzou um dia. Pode ser a causa que for, a mais nobre, há grandes chances da pessoa ficar cega e vai se meter onde não foi chamada. Uma Luisa Mell, que se dedica a ficar procurando o erro alheio o dia todo e se dá ao luxo de criticar a família de uma cantora em luto por, no seu velório, ter soltado pombos. Bem-estar do pombo > uma mãe que enterrou a filha encontrar algum conforto fazendo a cerimônia que quer.

“Quer dizer que só você pode falar mal dos outros aqui no Desfavor?”. “Quer dizer que quando você fala não conta?”. “Quer dizer que cada Processa Eu é uma contradição ao tudo que você está dizendo?”. Não, Pessoa Quer Dizer. Existe uma diferença enorme entre ir escrotizar um desconhecido por depreender coisas por uma frase a fazer uma coluna de humor com pessoas públicas por uma série de atos públicos.

Você nunca vai me ver indo no perfil de ninguém e dizendo que a pessoa é isso ou aquilo, eu uso meu tempo de outra forma. Eu tenho um blog, que é a minha casa, onde eu escrevo o que eu penso. Se alguém quiser me encontrar e ler, tudo bem. Eu não divulgo meu blog, eu não pago e não permuto para que meu blog abra em um popup na tela de ninguém que não quis voluntariamente entrar aqui, eu não sou uma pessoa pública, eu não invado a casa das pessoas. Eu falo na minha casa, para quem quiser se dar ao trabalho de ligar o computador ou celular, digitar o meu endereço, entrar no meu blog e ler meu texto.

Na minha casa eu falo o que quero, quando quero e de quem eu quero, e recomendo que todos tenham essa liberdade. Mas bater na casa dos outros para falar que a pessoa está errada, que a pessoa é isso, que a pessoa é aquilo? Jamais, cada um que faça o que quer sem ter que tolerar outros invadindo seu espaço e dizendo como se portar, como pensar, como se expressar. E colocamos isso em prática: nunca corremos atrás de tomar satisfações com ninguém que falou mal do Desfavor em suas casas.

O direito à opinião, pura e simples, está deixando de existir. As pessoas estão com um vício cansativo de problematizar tudo. É chato? É, é bem chatinho, mas eu vejo um lado positivo nas Pessoas Quer Dizer: o “quer dizer” delas espelha o que tem dentro delas, os medos, inseguranças, projeções. A pessoa vem com dedo em riste, se achando a super Sherlock Holmes por ter “descoberto” algo sobre você e, na verdade, está te contando tudo sobre ela.

Se não incomoda, não vira “quer dizer”. Se virou “quer dizer” é por ter incomodado. Se incomodou, tem questão mal resolvida aí. É surpreendente o tanto que dá para saber sobre a quantidade de lixo que tem na mente alheia olhando para os seus “quer dizer”. Comecem a fazer essa leitura, é realmente interessante. A pessoa está projetando em você uma sombra que ela tem: um medo, uma insegurança, uma questão mal resolvida.

Justamente por isso, é contraproducente responder a uma Pessoa Quer Dizer, ela própria não percebe de onde vem, portanto, não há chances de um diálogo. Ela não está dialogando com você, ela está fazendo um monólogo. Nada do que você diga será escutado, considerado ou compreendido, a Pessoa Quer Dizer está determinada a imputar aquelas supostas verdades a você. Então… pra que?

“Mas Sally, é injusto alguém me acusar de algo que eu não fiz ou não sou!”. É? Em um tribunal, talvez. Mas falando? Qual a relevância que a opinião daquela pessoa tem na sua vida? Injusto é você cobrar de você mesma que todos tenham uma visão positiva a seu respeito, perdendo seu tempo para conversar com quem não quer dialogar. Deixa que falem.

Não que você seja obrigada a escutar – ninguém é, mas deixa que falem, em suas casas, em seus ambientes, não na sua. E se for inevitável escutar, observe bem, você vai aprender muito sobre a pessoa pelas coisas que ela depreende. “Quer dizer que você é a favor de censura?”. “Quer dizer que você não suporta escutar umas verdades?”. “Quer dizer que você só quer escutar opiniões de pessoas que pensem como você?”. Não. Quer dizer que ninguém quer escutar Pessoas Quer Dizer.

Mas é mais fácil atribuir a recusa a escutar imbecilidade alheia à censura do que ao fato de que o que a pessoa fala é medíocre, desinteressante ou incoerente. Censura é impedir que falem mal de você em qualquer lugar, não permitir que falem alguma coisa de você na sua casa é um sagrado direito seu. Um exemplo: chegaram a fazer uma comunidade no Facebook para falar mal do Desfavor (olha o grau de importância que dão para a gente, que perda de tempo). Pergunta se movemos um dedo para impedir? Jamais. Não sei se ainda está lá ou não, mas nunca nos incomodou.

Isso não quer dizer que a pessoa vai vir aqui, falar a bosta que quiser e ter o comentário aprovado. Obrigar a que os outros te escutem é que é ditadura, quando os outros não tem interesse em escutar não é censura, é profilaxia. Tenha essa diferença muito clara na sua mente: você não pode impedir que as Pessoas Quer Dizer desfilem suas falácias por aí, se quiserem falar nas redes sociais delas, simplesmente não dê importância. Mas você não é obrigado(a) a ouvir o que gente desinteressante pensa.

A sua parte nisso é: observar se doeu em você. Se doeu em você, aí sim tem algo para olhar, nem que seja o motivo pelo qual você está tão incomodado com o que gente sem importância pensa a seu respeito. Quando algum “Quer Dizer” falso doer em você, tire um tempinho para pensar a respeito dele, talvez tenha alguma coisa para você resolver internamente sobre esse assunto ou sobre a pessoa que falou.

Opiniões estão supervalorizadas. Opiniões não são tão importantes, nem as minhas, nem as suas, nem as de ninguém. Vivemos em uma época em que qualquer ignóbil pode opinar, se opinião bosta for nos incomodar, vamos todos ficar malucos. Não se dá importância a opinião, opinião é como peido: não faz o menor sentido controlar quando os outros soltam. Se te incomodou, hora de sentar e refletir sobre o motivo.

Às vezes a pessoa quer te atacar e acaba te fazendo um bem, trazendo à luz algo que pinça um nervo e faz você perceber que existe uma questão a ser trabalhada. Se não doeu, vida que segue, não tem motivo para dar importância. Ou por acaso você acha que todo mundo sempre vai gostar de você ou concordar com você? Se precisaram usar uma falácia, uma conclusão forçada, uma presunção descabida para falar mal de você, sorria: não acharam nada concreto e tiveram que inventar. Meus mais sinceros parabéns.

Para ir procurar a página que fala mal do Desfavor no Facebook, para dizer que o Brasil é a capital mundial dos ofendidos ou ainda para dizer que eu sou obrigada a ouvir sua importante opinião se não é censura: sally@desfavor.com

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Comments (12)

  • Concordo com o que a Sally disse, hoje em dia tem mesmo esse problema de que tudo parece servir de material pra ser problematizado. Mas eu vejo outros dois problemas aí também, sendo um o extremo oposto do outro: ou a pessoa tem uma super falta de compreensão e de interpretação, e não entende o que tu disse, daí fica te enchendo de perguntas como se fosse pra ter certeza da tua afirmação; ou ela superinterpreta as coisas e tira conclusões erradas a respeito de um único dado que tu disse.

    Ambos os casos são bem chatos de contornar numa réplica, as vezes vale mais a pena deixar a pessoa falando sozinha mesmo do que tentar se explicar.

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    • Quer dizer que quem problematiza tudo é desocupado com tempo sobrando pra ficar procurando pêlo em ovo?

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  • Quer dizer meia hora de bunda?

    Quer dizer que coca cola não é saudável? Quer dizer que vc acha que vou passar o dia cozinhando em vez de dar cpca com miojo pro meu pivete? Ainda bem que vc não tem filhos, não entende nada de cuidar de criança! hahaha

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    • Uma opinião genérica “eu acho x coisa nociva para CRIANÇAS” (todas as crianças do mundo) vira automaticamente algo pessoal, algo sobre aquela pessoa e seu filho. Vai se achar importante assim na casa do caralho, não?

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      • Pensa que até meados do século passado, referência de saúde era ser “gordinho”.
        Depois não sabem porque Coca carrega Ácido Fosfórico (o mesmo usado no Biotônico Fontoura) e a 7 UP carregava até 1948 Citrato de Lítio (só deixou de ter isso quando se proibiu a manutenção de psicotrópicos na fórmula).
        PS: Remédios a base de Lítio implicam em ganho de peso (podendo levar a obesidade) e vários efeitos negativos pelo corpo, tanto que é usado em combinação com Ácido Valpróico ou Valproato de Sódio no caso de pessoas que precisem de tal tipo de medicação, caso dos bipolares.

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  • Não vale a pena tentar conversar com quem é tão burro e tão teimoso que só entende o que quer e não tá nem aí pros seus argumentos.

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      • Diálogo tem que necessariamente envolver duas pessoas. Se um só quer falar sem parar despejando um monte de “quer dizer” e o outro se cala por sequer ter chance de argumentar, temos então um monólogo.

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        • De fato, anônimo, e muita gente se esquece disso, ficam cegas a meu ver pelo seu próprio narcisismo, e não se enxergam que estão produzindo um monólogo e não um diálogo.

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  • A pior coisa de, eventualmente, ter que lidar com “Pessoas Quer Dizer” é que elas depreendem absolutamente tudo do que falamos/escrevemos, menos aquilo que a gente realmente disse.

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  • “Quer dizer que você acha que sabe mais do que o pediatra do meu filho?”

    Sim.

    Próximo caso!

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