Pesquisa pessoal.

Com a guerra ideológica infinita na qual vivemos, somos bombardeados o tempo todo com frases como “confie nos especialistas” e “faça sua própria pesquisa” quando temos que lidar com conhecimento científico popular. O problema que eu vejo nessa situação é que as duas frases estão certas e erradas ao mesmo tempo. Como definir o que é uma fonte segura de informação?

Durante a fase de preocupação com a pandemia (a pandemia não acabou, mas a fase de preocupação das pessoas aparentemente sim) isso foi especialmente problemático de explicar. Não invejo quem tinha que lidar com um público mais “mediano” na hora de repassar o conhecimento científico acumulado sobre a doença: embora fosse positivo que o cidadão médio fosse se informar sobre o coronavírus, tinha um limite de quanto ele poderia aprender antes de cair numa armadilha de conteúdo complicado demais para ele.

Então, ao mesmo tempo que se incentivava a busca por informações, não tinha como explicar a parte mais complexa para todo mundo ao mesmo tempo. Todo mundo corria o risco de se “informar demais” e cair na armadilha de tentar fazer senso de algo que não estava preparado para entender. É bizarro que o conceito de se informar demais exista, mas vivemos numa realidade que fica mais complexa quanto mais você presta atenção nela.

O cidadão comum não está pronto para lidar com isso. E não ache que o cidadão comum é uma entidade distante vivendo nas margens da sociedade, o cidadão comum somos nós. Como já disse várias vezes em outros textos, mesmo pessoas muito bem informadas tendem a ser muito bem informadas em alguns temas, mantendo-se ignorantes sobre a maioria. O comum é não estar pronto para lidar com conhecimento científico avançado em qualquer área.

A probabilidade de dar de cara com um conceito confuso ou mesmo assustador quando você tenta se aprofundar num tema aumenta exponencialmente. Em praticamente todos os campos do conhecimento, no mínimo algumas milhares de pessoas estão há mais de um século se aprofundando no tema. Coisas que despertaram seu interesse quinze minutos atrás já foram o projeto de vida de muita gente, e ainda são.

Não é à toa que precisamos de cursos superiores para ensinar esses temas de forma razoável: “está aqui o resumo do que a humanidade aprendeu sobre esse tema.”

Neste ponto do texto, estou estabelecendo o valor de confiar em especialistas. Demora para aprender sobre qualquer tema de forma confiável, e não vai ser alguém que acabou de cair de paraquedas no assunto que vai mudar toda a lógica da coisa. Essa coisa do “zelador escrevendo resposta de equação na lousa” é ficção. Claro, tivemos vários insights valiosos vindos de amadores durante a história, mas alguém precisou reconhecer a ideia inovadora, e essa pessoa sempre era uma estudiosa. Não existe descoberta complexa sobre ciência no vácuo. Alguém tem que ter estudado o tema.

Agora, isso não quer dizer que especialistas não se enganem, ou mesmo que não tenha intenções obscuras. Tem um monte de gente formada em Medicina que receita remédios homeopáticos. Foram médicos – alguns com currículos invejáveis – que cismaram com Cloroquina durante a pandemia de Coronavírus. É aqui que eu digo que pode ser um perigo confiar em especialistas. Especialista no quê? Em algo que tem a ver com o tema? Conhecimento específico não se traduz bem em áreas diferentes. Um especialista em tratar câncer não é um especialista em tratar doenças respiratórias. A complexidade é tanta nos dois temas que é praticamente impossível alguém ser muito bom nas duas coisas.

Piora: especialistas muito bem-intencionados podem estar errados também. Dedicar anos e anos da vida num caminho errado acontece, e acontece muito. Tem gente que passa décadas testando uma hipótese que está errada, e embora no quadro geral isso faça bem para o conhecimento humano geral, naquele microcosmo de especialização leva uma pessoa a cometer um erro grosseiro. Especialistas acertam e erram o tempo todo, e podem fazer isso de forma igualmente ética.

A verdade, cruel até, é que você sempre está fazendo uma aposta quando confia na ciência. Não é sobre buscar a verdade absoluta, é sobre fazer a aposta mais segura possível. Se a maioria dos especialistas numa área concordam sobre alguma coisa, é muito seguro apostar junto com eles. Mas não é garantia de sucesso. Ninguém vai te oferecer garantias de 100% nessa realidade. Você só escolhe a sua aposta. O que a história nos conta é que apesar de todos os erros da ciência, quem ficou do lado do consenso de especialistas tendeu a ter mais sucesso na vida. Quem apostou no que achava que fazia mais sentido sempre jogou uma moeda pra cima e “rezou” para dar certo.

Mas, como saber se o consenso dos especialistas está certo? Primeiro: você não vai saber, nem mesmo se virar um desses especialistas. Ciência é baseada em evolução constante e nenhum medo de jogar tudo o que se acreditava fora quando as evidências dizem o contrário. O ser humano falha nesse sentido, afinal, é humano, mas a ciência como instituição não é pra ter orgulho nenhum. Se provarem algo diferente da crença vigente, a crença vigente muda junto.

E é aí que entra o argumento a favor de fazer sua própria pesquisa. Quem está apostando na veracidade de alguma afirmação é você. Quando temos que tomar decisões, como a de tomar uma vacina, por exemplo, por mais que se fale sobre o bem coletivo, no final das contas é no seu braço que vai a agulha. Nada conta querer saber o que está acontecendo. É racional pedir alguma informação para entregar sua concordância, uma troca justíssima.

Será que a informação é consenso entre especialistas? Que especialistas são esses? Será que tem algo para considerar no seu caso específico? É normal fazer perguntas, e quanto mais você se informar sobre o tema, maior a chance de fazer boas perguntas. Por isso mesmo eu já sugeri antes aqui que o melhor que você faz quando estiver com dúvidas sobre uma decisão baseada em ciência é ir estudar os elementos mais básicos dessa ciência. Entender sobre vírus é muito bom para quem está pensando sobre uma vacina que combate um vírus. As coisas que os especialistas dizem começam a fazer mais sentido, você tem alguma noção sobre o que vai acontecer no seu corpo, e talvez até descubra algo que pode mudar sua decisão.

Mas aí entra o argumento contra fazer sua própria pesquisa: quem disse que você entendeu o que estudou? Dentro da sua cabeça não tem prova nem nota, não tem diploma certificado por alguém que conhece sobre o tema para assegurar que você assimilou a informação que é consenso entre especialistas. Você não fez nenhum experimento sobre vírus ou vacinas para ter informações sólidas sobre o que está acontecendo, por exemplo. Todos os dados que você coletou podem não ser de fonte confiável.

Aprender sobre um tema te ajuda a perceber melhor a confiabilidade de uma fonte de informação, mas não é garantia de nada, especialmente se você está apenas começando nessa parte do conhecimento humano. É muito fácil enrolar uma pessoa com termos técnicos. Os conspiradores atuais estão ficando excelentes nisso: pegam casos isolados e dados não relacionados para chegar em conclusões.

E aqui mora um perigo pouco mencionado: o do conhecimento básico presumido como avançado. A pessoa estuda um pouco sobre um tema como física ou biologia, acha que entendeu e tenta pular etapas para tirar conclusões de um estudo avançado. Se ela fosse totalmente ignorante sobre o tema, provavelmente trataria como tecniquês e seguiria sua vida normalmente; mas se ela está vivendo a ilusão de entender sobre o tema, é provável que leia os gráficos e termos técnicos de forma totalmente errada. E o perigo é que normalmente essas pessoas passam essas conclusões erradas para frente, fazendo parecer que são especialistas no tema, quando na verdade são apenas iniciantes que aprenderam um termo diferente ou outro.

É aí que você vai fazer sua própria pesquisa e começa a achar argumentos realmente convincentes sobre qualquer maluquice. E eles parecem vindos de fontes confiáveis, que falam uma língua mais específica do que as insanidades tradicionais da “turma do Whats”. Não vem em analfabetês com conclusões lógicas bizarras e mitologia religiosa misturada, vem de forma que parece que foi estudado a fundo por alguém com um cérebro.

É muito fácil entender ciência do jeito errado. O cientista médio não tem tempo para ficar explicando as coisas para um público leigo, precisa produzir conteúdo para publicação e ser reconhecido pelos seus pares. O cientista médio já se especializou e presume que está conversando com outros especialistas. Se você se enfia no meio dessa conversa, é como se estivesse tentando entender outra língua. Precisa aprender um monte de coisa antes de tirar qualquer conclusão desses materiais técnicos.

Coisas que a gente não aprende facilmente durante a vida. Não é conteúdo disponível numa pesquisa qualquer do Google. Não é conteúdo que cai na sua timeline da rede social, ou mesmo que costuma ser divulgado na grande mídia. Fazer sua própria pesquisa pode te ajudar a ter bases melhores para fazer perguntas sobre o tema, mas dificilmente vai te dar respostas. Até porque quem quer respostas normalmente não se dá muito bem no mundo científico, é um ramo de pessoas que gostam de fazer perguntas, isso sim.

Resposta é coisa de sacerdote religioso, político e estelionatário, não que sejam categorias diferentes. Ciência é sobre perguntas cada vez melhores. Eu não tenho uma resposta boa para o problema entre confiar em especialistas e fazer sua própria pesquisa, mas posso te dizer que você sabe que está aprendendo sobre alguma coisa de forma decente quando suas perguntas ficarem mais específicas. Se você ainda está se perguntando se “pode confiar” em alguma coisa, é porque você nem começou a aprender sobre o tema. Nesse caso, lembre-se da sua aposta: ou você está junto com o que parece ser o consenso dos especialistas, ou você está fazendo uma aposta bem mais arriscada.

Não posso te responder se sempre ir com o consenso de especialistas vai ser a melhor resposta, mas posso te deixar essa pergunta: o que você ganha apostando nas outras opções? Se sua resposta não tiver nada a ver com o tema, você está fazendo besteira.

Para dizer que ficou mais confuso(a), para dizer que fez sua pesquisa e discorda sem dar motivos, ou mesmo para dizer que se pergunta quem manda no mundo: somir@desfavor.com

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Comments (4)

  • Boas perguntas em ciência são perguntas que podem ser respondidas. Eu acho que parte do problema está além da dicotomia pergunta x resposta, estando na dicotomia certeza x incerteza. Existe a questão da ignorância matemática, mas também existe muita malandragem. Tem pessoas que aceitam e entendem estatísticas quando se trata de previsão do tempo ou de um campeonato de futebol, mas viram analfabetas matemáticas quando se trata de saúde pública ou questões sociais.

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