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Raiva!

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| Sally | | 7 comentários em Raiva!

Venho reparando um fenômeno triste e curioso que vem ocorrendo no Brasil e em alguns outros lugares do mundo: todos os sentimentos negativos que as pessoas experimentam acabam vindo acompanhadas ou sendo substituídas pela raiva. As pessoas estão desaprendendo a reconhecer e dar lugar a diferentes sentimentos, tudo desemboca em raiva.

Antes de entrar no tema em si, uma introdução para ajudar na compreensão. Vamos trabalhar com simplificações grosseiras e até tecnicamente imprecisas, para fins didáticos, pois é mais importante que todos entendam os conceitos, mesmo que para isso algo da parte técnica tenha que ser sacrificado: qual é a diferença entre emoções e sentimentos?

Emoções são reações instintivas, instantâneas, quase sempre incontroláveis, que aparecem de imediato em respostas a eventos, pensamentos ou estímulos do ambiente. Costumam ser universais, inerentes a todo ser humano e provocam mudanças fisiológicas, como alterações na frequência cardíaca, tensão muscular e expressões faciais.

As emoções estão ligadas à nossa sobrevivência e evolução como espécie. A seleção natural privilegiou quem tinha essas emoções na hora certa e na medida certa. Por exemplo, o home das cavernas que sentia medo quando via um predador se aproximando e se escondia, foi o que sobreviveu para passar seus genes adiante. São exemplos de emoções inveja, ansiedade, tristeza, alegria, tédio, medo, nojo e raiva.

Por exemplo, reencontrar um amigo querido gera alegria (não euforia, alegria). Vivenciar a perda de uma pessoa querida gera tristeza (não desespero, tristeza). Presenciar uma injustiça gera raiva (não ira, raiva).

No geral, não somos muito bons em controlar nossas emoções, pois, como já foi dito, é um mecanismo evolutivo que vem de fábrica. Mas podemos controlar o que fazemos com essas emoções. Vamos falar de sentimentos.

Sentimentos são o resultado da interpretação mental e consciente dessas emoções. É o que surge quando temos tempos de observar e racionalizar uma emoção sentida. São estados emocionais mais complexos e duradouros.

O cérebro processa e atribuí significado às emoções, transformando aquilo em um pensamento e em uma memória. Por exemplo, o sentimento de gratidão não é imediato, é um resultado da racionalização de que alguém fez algo bom por você, provavelmente despertando emoção de surpresa e alegria. É uma construção da sua cabeça: “quando eu precisei, a pessoa estava lá para me ajudar, então, agora eu sou grata a ela e a ajudarei quando ela precisar”.

Então, a diferença entre emoção e sentimento consiste basicamente na duração (emoção é mais rápida, sentimento é mais duradouro) e na complexidade (emoção é mais simples e sentimento é mais complexo). Provavelmente você vai encontrar outras formas de classificação por aí, e tá tudo certo, não se apegue a isso, e sim à ideia de que existem emoções rápidas, imediatas e instintivas e existe o que nós fazemos com essas emoções depois que são racionalizadas. Essa diferença é o importante.

Passada essa introdução, fica fácil entender que, dentro desse sistema de pensamento, raiva é uma emoção, não um sentimento. Algo que foi desenhado para ser rápido, instantâneo, automático… e depois ser elaborado em algo mais complexo, virando um sentimento, por exemplo, de decepção por ter confiado em quem te sacaneou, arrependimento por ter compartilhado uma informação que deveria ser mantida em sigilo e assim por diante.

Pois bem, eu acho que muita gente está tão descontrolada, polarizada e surtada, que está deslocando a raiva da emoção para o sentimento. Mais: quase todo sentimento negativo que têm, vem acompanhado pela raiva ou acaba sendo substituído ou ofuscado por ela.

“Mas Sally, qual é a sua fonte?”. Arial 12. É tudo da minha cabeça. Daqui para frente é absolutamente tudo da minha cabeça sem qualquer base científica e sem qualquer pretensão de estar certa. Me interessa mais o debate, a construção, o somatório de opiniões, do que ter razão.

Não me atrevo a dizer qual combinação de fatores causou isso (e devem ser muitos), mas provavelmente tem um componente intelectual e também um componente cultural, pois é cada vez mais comum ver as pessoas levando tudo para o pessoal (se você discorda delas, você é um inimigo) e acreditando que se não “retribuir”, se não “se vingar”, se não “der o troco” é otário.

Obviamente tem muito mais que contribuí para esse cenário, mas eu não saberia listar tudo. O que me interessa aqui é a consequência. Esses fatores geram o estranho fenômeno: a raiva, que deveria ser uma emoção instantânea diante de um evento negativo, continua sendo alimentada, cultivada e até ostentada com honra. “Veja como eu não sou otário, veja como eu não engulo esse desaforo, eu estou com raiva de você!”. Tudo vira raiva. Nunca entendi o motivo, mas um número considerável de pessoas parece achar mérito ser muito intenso em tudo e, talvez por isso, cultive a raiva.

Então, uma transmutação natural e saudável da emoção raiva para outro sentimento mais elaborado, não acontece ou fica incompleta. Vamos das um passeio por alguns sentimentos, para que vocês percebam como uma raiva que não deveria estar lá, está?

Ciúmes por exemplo. É possível que a pessoa sinta uma raiva imediata quando algo lhe dá um gatilho de ciúmes, mas, o natural, o civilizado, o esperado, é que a raiva passe e a pessoa elabore isso como ciúmes, que pode ser resolvido conversando, esclarecendo, estabelecendo alguns limites. Só que nem sempre é o que acontece. Muitas vezes ciúmes vira briga, gritaria, ameaça e muitas vezes até agressão física ou coisa pior.

Por algum motivo, a pessoa não deixa a raiva ir e transitar para outro sentimento mais complexo. Ou mantém o ciúme e a raiva, ou mantém apenas a raiva mesmo. Talvez alguém esteja pensando “mas ciúmes implica em sentir raiva!”. Não, não implica. O ciúme é definido como “medo de perder o afeto ou a exclusividade de uma pessoa”. Em momento algum se depreende raiva disso aí. Nem desse, nem de nenhum outro sentimento negativo. Mas, como a raiva está cada vez mais presente em tudo, acaba sendo naturalizada.

Mesmo a tristeza, um sentimento de grande porte e conhecido por todos, costuma estar acompanhado pela raiva: raiva de quem ou do que causou essa tristeza, raiva do entorno, raiva de pessoas apontadas como culpados pela situação que causou a tristeza, afinal, está virando mania sempre designar culpados para tudo.

Ponha a mão na consciência em responda quando foi a última vez que você viu ou que você mesmo sentiu tristeza pura, sem qualquer raiva. Está cada vez mais difícil de se ver. Geralmente a pessoa está triste, mas está com muita raiva também. A raiva permeia tudo.

O relacionamento terminou? A pessoa fica triste e com raiva (de quem terminou, de quem está com a pessoa que terminou, do entorno que pode ter contribuído para o término). A pessoa foi demitida? Ela fica triste, mas fica com raiva (de quem a demitiu, de pessoas a quem ela atribuiu essa demissão e até de entes inanimados como marcas e empresas). Quase sempre tem o fator raiva. E não deveria.

E a raiva nem precisa ser contra terceiros, pode ser consigo mesmo, se a pessoa chegar à conclusão de que ela é a “culpada” pelo sentimento negativo que está sentindo. Sentimentos como remorso, culpa, arrependimento, dúvida e até luto podem despertar raiva, seja pela pessoa não querer sentir aquilo, seja pela pessoa se achar culpada pelo evento que desencadeou os sentimentos

Obviamente a raiva contra si mesmo é igualmente fora de lugar e inaceitável. Não faz sentido que uma pessoa sinta raiva de si mesma por sentir algo. Sentimentos são construções complexas, se você acha que algum deles está te fazendo mal ou inadequado, pode trabalhar para desfazê-lo ou substituí-lo, mas… sentir raiva de si mesmo? Não façamos isso com nós mesmos.

Pense em sentimentos negativos, qualquer um deles: temor, sofrimento, revolta, preocupação, medo, mágoa, rancor, insatisfação, indignação, impaciência, hostilidade, frustração, estresse, desilusão, desgosto, desconforto, antipatia ou qualquer outro. Nenhum deles precisa vir com a raiva junto. Por sinal, o ideal é que não venha, raiva é um alarme imediato que desgasta o corpo e turva o discernimento, é um recurso de emergência que deve ser transitório.

Arrisco dizer que boa parte das pessoas hoje está tão imersa nesse mecanismo de embutir raiva em tudo que não vivenciam sentimentos negativos sem sentir raiva. Foram educados assim, foram educados vendo isso, então, na cabeça, são sentimentos siameses, que estão sempre onde o outro está. Esse é o “correto” na cabeça de muita gente, se é que em algum momento elas param para pensar nisso.

Isso atrofia. A pessoa resume tudo negativo a raiva (é bem mais fácil do que vivenciar uma enorme nuance de sentimentos complexos e ter ferramentas para lidar com todos eles). Com o tempo, a pessoa só sabe reconhecer a raiva, só sabe lidar com a raiva e só sabe ensinar a raiva como sentimento válido e adequado para aquela situação. Assim, a sociedade parece estar se transformando em uma massa de zumbis emocionais. Mais por hábito do que por escolha, a raiva é o acompanhamento que sempre vem junto, pois é assim que as coisas são.

Ou melhor… eram. Agora você leu este texto. Agora você sabe melhor. Agora a situação foi desemaranhada e apresentada de forma clara para você. Você pode refletir e, se quiser, colocar a raiva no setor que ela pertence: uma emoção imediata com prazo de validade curto, que se transforma em uma emoção mais complexa e menos desgastante quando racionalizada.

A raiva é para ser um sentimento imediatista, passageiro. Um momento de raiva. Ela vai apagando, como um fogo, quando não é alimentada. Mas, por algum motivo frequentemente as pessoas a alimentam. Por não quererem ser “otárias”? Por acharem que tem que ser assim para não serem sacaneadas novamente? Por costume? Não sei. Só sei que pegar um recurso rápido e fazer dele algo no longo prazo desgasta demais o corpo e a mente. Está fora de lugar. É tóxico. E não te ajuda nem te protege em nada, isso é uma mentira.

E, como sempre falamos aqui, só mantemos comportamentos custosos para nosso corpo e nossa mente quando ele nos traz um belo ganho secundário, ainda que seja inconsciente. Então, seria o caso de se perguntar que ganho secundário a raiva gera.

Talvez uma falsa sensação de proteção? De achar que ninguém vai fazer nada com a pessoa por ela estar visivelmente enraivecida? Ou um conforto para si mesmo, para se sentir menor idiota, no estilo “fizeram tal coisa comigo, mas eu não sou idiota, pois estou furioso”. Ou ainda usar a raiva como escudo para manter aquela ferida, aquela sensação ruim viva, como tentativa de não repetir o erro? Podem ser milhões de ganhos secundários, mas todos são contraproducentes. A raiva, no longo prazo, só faz mal.

E gera um “vício”. O vício na raiva é algo real. A pessoa se acostuma a acoplar a raiva em qualquer sentimento negativo e, quando não o faz, fica com a sensação de que não está dando importância a algo sério, que não está dando uma resposta ou reação à altura, que está sendo permissiva, que está sendo idiota, fraca, otária. Se você realmente se importa, então vai ficar muito puto e sentir raiva. Percebem a armadilha?

Nas últimas décadas, a raiva foi banalizada, cultivada e prolongada. E isso não é ruim apenas para o infeliz que fica sentindo raiva o tempo todo, jorrando cortisol no sangue, intoxicando seu corpo em majorando em 500% sua chance de ter câncer, para depois culpar as vacinas. Isso é ruim para a sociedade como um todo.

Primeiro pela dinâmica povo desunido, políticos unidos. A cultura da raiva faz mulher ter raiva de homem, homem ter raiva de mulher, esquerdista ter raiva de direitista, direitista ter raiva de esquerdista, rico ter raiva de pobre, pobre ter raiva de rico e muitos outros grupos, jogados uns contra os outros, brigando e achando que seu “inimigo” é o grande problema, quando, geralmente, não é. O grande problema costuma ser sistemas corruptos que sacaneiam o povo,  filhos da puta que detém poder (com ou sem cargo) que sacaneiam o povo e o povo distraído demais brigando com seu colega para fazer algo a respeito.

Também cria uma sociedade violenta, de desentendimentos, de conflitos na maior parte das relações: é filho espancando a mãe, é mãe matando filho, é casal se esfaqueando, é criança agredindo criança, é gente matando vizinho com martelada na cabeça… Esse é o resultado de uma sociedade que insere raiva como inerente a qualquer sentimento negativo. Vira essa barbárie, esse inferno e ainda ensina para suas crianças a reproduzirem isso.

E todos nós somos parte do problema, pois todos nós, em algum momento, acabamos fazendo isso sem perceber: inserir raiva onde ela não deveria estar.

Então, em vez de ser parte do problema, sejamos parte da solução: analisemos cada sentimento negativo e observemos se tem raiva nele. Se tiver, trabalhemos para tirar, pois ela está fora de lugar. Raiva é emoção, é para ser curta e te proteger de imediato, depois deve ser transmutada em algum sentimento mais maduro.

Hora da gente aprender o que significa cada sentimento negativo e se portar de acordo. Hora de deixar a raiva ir e sentir algo mais condizente com a vida adulta. Hora de se livrar dessa necessidade no vício de agregar raiva.

Te faço um convite: se observe. Se policie. Se eduque para não desembocar na raiva automaticamente.

Talvez você não mude o mundo, mas a sua vida com certeza vai melhorar.

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