Desfavor Bônus: Pela Ciência!

SEMANA ANTA: Sallera e Somireus são dois deuses numa missão especial para a entidade de classe, a AUD (Associação Universal de Deuses), investigando inúmeras irregularidades no planejamento divino deste planetinha azulado chamado Terra. Está na hora de tirar isso a limpo!

Sinto-Me no dever de oferecer contraponto às sandices proferidas pela Deusa Sallera em seu relatório preliminar da sindicância nº 0087551239881, referente ao caso do planeta “Terra”. Como supervisor encarregado pelo Setor Universal 239881, acredito estar muito mais interado sobre os acontecimentos.

Embora não dispute que a espécie semi-racional dominante no planeta em questão enfrenta inúmeras dificuldades para alcançar padrões mínimos de civilidade cósmica, a situação inusitada gerada pela evolução sob os cuidados de uma divindade em processo de experiência revelou e ainda revela resultados impressionantes.

É de conhecimento desta comissão que Eu já havia enviado uma requisição formal de adiamento de Criação em relação ao sistema estelar em questão. Minha argumentação, rejeitada, mencionava que não havia disponibilidade de mão de obra qualificada para delegação de responsabilidades levando em consideração meu projeto previamente aprovado de civilizações irmãs no sistema 239879-X563.

Recebei como resposta uma negativa, obrigando-me a supervisionar a expansão para este Setor. Fiz um último apelo mencionando o desastre ocorrido no Setor Universal 239880, onde ainda estamos tentando conter aquele buraco negro de classe 4. Novamente, meu pedido foi rejeitado.

Como (dúbia) medida compensatória, recebi um estagiário chamado Sol, com a promessa que minha carga de trabalho seria reduzida. Ledo engano. Sol se mostrou um dos piores candidatos a Deus que já vi. É de pleno conhecimento deste conselho também que Sol colocou uma das civilizações mais promissoras do Setor Universal 239881 num estado de guerra insolúvel após uma desastrada tentativa de revelação numa sociedade até então administrada em método não interventivo.

Meu relatório naquela situação já mencionava a preocupante tendência de Sol interferir de forma intempestiva na vida das criaturas que deveria apenas supervisionar. Defini Sol como carente, inseguro, violento e pouco racional, justificando assim seu desligamento de minha unidade de trabalho.

Ao ser informado da relação de parentesco de Sol com o líder do Conselho da AUD, previ que o surpreendente perdão e reintegração de suas funções apesar de meus protestos se repetiria mais e mais vezes. A partir daí, decidi delegar a tarefa da Criação no Setor 239881 para o desastrado (e protegido) estagiário. Sem nenhum planeta com espécies semi ou totalmente racionais, parecia um laboratório ideal para que Sol aprendesse com suas experiências e… inevitavelmente, seus erros.

Posso afirmar que o Setor designado a Sol é suficientemente distante de quaisquer outros projetos de sucesso para configurar risco ao trabalho já desenvolvido pela AUD e seus membros.

Decidi mantê-lo isolado por lá por um curto período de tempo, enquanto cuidava de minhas civilizações gêmeas no Setor 239879. Imaginei que um bilhão de anos seria o suficiente para um curso rápido em geração de vida inteligente, mas qual não foi minha surpresa ao ver que o estagiário ainda estava com dificuldades de estabilizar a superfície de um planeta? Depois de alguns conselhos, Sol finalmente conseguiu encaixar um planeta na zona habitável da estrela daquele sistema… Batizada com seu próprio nome. Típico de Deus de primeira viagem, não?

Pois bem, para não alongar demais a história, devo dizer que fui obrigado a reaquecer o núcleo do planeta, criar um satélite natural e direcionar cometas até a superfície local nos bilhões de anos seguintes, tudo por completa incapacidade de foco apresentada por Sol.

Quando finalmente haviam condições ideais para o desenvolvimento de vida no planeta (que confesso ter desistido de drenar do excesso de água por falta de tempo disponível), voltei-me novamente para meus projetos e deixei ao cargo de Sol direcionar e organizar a evolução biológica daquele planeta.

Durante três bilhões de anos, não ouvi sequer notícias do estagiário e seu planeta. E para ser honesto, não estava particularmente interessado naquele projeto básico, tendo várias outras civilizações bem mais interessantes em ambientes bem mais complexos para atender.

Meu distanciamento foi completamente compreensível. Planeta em zona habitável de estrela pequena, num dos braços mais tranquilos da espiral galáctica… Forma de vida baseadas em carbono? Não era sequer digno de consideração que algo tivesse dado errado. Temos exemplos de planetas esquecidos por bilhões de anos que se desenvolveram adequadamente sob as mesmas características! Como alguém poderia errar algo tão simples?

Cabe notar que eu já fiz a mesma coisa com outros estagiários em outros Setores, todas civilizações completamente aceitáveis, com uma alta taxa de evolução intelectual. Encontrei-me tão surpreso quanto quaisquer um dos outros Deuses que souberam sobre o caso “Terra” há algum tempo atrás, depois daquele famigerado documentário…

E como informado em comunicados anteriores, tomei diversas medidas para assegurar que Sol retomasse as rédeas da situação e resolvesse por conta própria o caos instaurado por sua administração. Depois de observar os métodos ineficientes de controle populacional aplicados por Sol, tive a nítida impressão que não era de sua vontade alterar os rumos evolutivos de suas criaturas.

Não concordo com os métodos de Sol, mas ao analisar aquela espécie semi-racional por alguns tempo, comecei a perceber algumas características muito interessantes e incomuns em outras espécies planejadas que seguiram a cartilha da AUD. Os “humanos” foram a espécie com desenvolvimento intelectual geral mais lento registrado até agora, mas em algumas áreas, são pontos fora da curva.

Vocês sabiam que esse humanos criaram armas de destruição em massa baseadas em fissão e fusão nuclear ANTES de qualquer outra a partir da estabilização social básica? E que até o presente momento, ainda não desenvolveram tecnologias básicas como bioprodução de alimentos?

A tecnologia bélica humana evoluiu de forma impressionante, e estudando relatos históricos deles, isso tem muito a ver com os constantes acessos de fúria de Sol. Ele não me confirma a veracidade das informações, mas entre ações diretas e intervenção por sugestão na população local, ele é responsável pelo maior número de extinções de vida consciente em toda a história daquele povo.

Outro fato curioso: O planeta Terra é o com o maior número de representações mortais diferentes sobre sua divindade até hoje. Segundo minhas contas, essas representações chamadas de “religiões” pelos locais já somam mais de 4 milhões de versões diferentes só nos últimos vinte mil anos! Neste momento, apenas algumas dezenas dividem a atenção da maioria da população, mas há uma tendência histórica de que nos próximos milhares de anos a população local crie, organize e siga outras completamente diferentes.

Resultado evidente das intervenções absurdas de Sol durante a evolução da espécie. Carente e vaidoso, ele tende a se mostrar para pouquíssimos indivíduos, sempre validando a imagem e a história mais agradável para cada um deles. Humanos de diversos períodos históricos e localizações geográficas já o viram de diversas formas diferentes. O conflito gerado por essa falta de método pode ser identificado nas frequentes batalhas motivadas pelas religiões, algumas ocorrendo enquanto escrevo este relatório, inclusive.

Mas eu fico realmente impressionado com um grupo específico de humanos, um que vai se tornando cada vez maior com o passar dos anos: Os ateus. Poucos acreditam nessa loucura quando conto pela primeira vez… Os ateus são seres semi-racionais da espécie humana que não acreditam na existência de deuses. Mesmo num planeta onde houve intervenção direta de um (neste caso, um estagiário)!

Temos casos de civilizações onde não houve intervenção e as populações locais não desenvolveram a mentalidade de representações divinas, temos casos de intervenções diretas onde as populações sabiam da existência de deuses, mas uma civilização enfiada numa dúvida (muito razoável) sobre a existência de Deuses? A Terra é o único planeta que eu conheço com essa mecânica de funcionamento.

Os ateus alegam que nunca houve evidência razoável para saber se Deuses existem. E por incrível que pareça, no planeta Terra não há mesmo! Sol interviu sem nenhum planejamento, para satisfazer apenas necessidades emocionais baratas, e além disso, decidiu não se revelar da forma correta para não ter de lidar com o difícil processo de atender aos desejos e aspirações de suas criaturas.

Apesar de estarem objetivamente errados, os ateus do planeta Terra chegaram numa das conclusões mais racionais de uma espécie pré-iluminação espacial já registrada. Dadas as devidas proporções causadas pelo atraso intelectual absurdo médio do ser humano, é quase como se uma espécie criada de forma correta começasse a entender a flexibilidade inerente das regras da física.

Se ainda não é o suficiente para conferir o título de espécie racional (convenhamos que as últimas promoções não dependeram de uniformidade de distribuição de conhecimento), é o suficiente para colocá-los na categoria de espécie protegida semi-racional. Sallera argumenta que os humanos ainda são pré-racionais e por isso podem ser exterminados, mas aposto que ela sequer sabia das peculiaridades das representações divinas presentes no planeta Terra.

E mesmo que esse ponto não os convença, ainda posso lembrar que a forma incomum pela qual a evolução terrestre se desenvolveu vale como um inestimável “teste de estresse” da nova revisão das leis da física e o algorítimo evolutivo vigentes desde o começo deste ciclo. As criaturas irracionais curiosas (embora muitas vezes sem propósito, feito ornitorrincos, girafas e araras) provam que esse novo algorítimo evolutivo aguenta muita punição antes de quebrar completamente.

Lembro que passamos quase um trilhão de anos desenvolvendo essas novas leis e algorítimos, num universo com entropia quase no limite, apinhado de buracos negros (os antigos, lembram? ainda fico arrepiado…) antes de reiniciar todo o sistema para este ciclo. Se me recordo corretamente, Sallera liderou o movimento para recomeçar o universo logo por estar… se não me engano a expressão era… “com o cu congelado!”.

E vamos nos lembrar que por causa dessa impaciência, tivemos que iniciar tudo com esse maldito bug da energia escura! Está cada vez mais chato fazer todo o caminho até os Setores originais, já que eles ficam cada vez mais longe. Sallera nunca foi grande defensora do avanço científico dos Deuses, e é por isso que está propondo a destruição imediata do planeta Terra. Ela não percebe as oportunidades!

Sim, saiu quase tudo errado, mas são nessas situações que as descobertas mais impressionantes ocorrem. Estou fazendo minha parte para convencê-la da manutenção do planeta Terra para observação do desenvolvimento do ateísmo e uma possível revelação no final deste ano.

Não se preocupem com Sol. Enquanto estivermos por aqui, ele está proibido de fazer intervenções mentais nos humanos. O estrago já está feito, mas essas criaturas semi-racionais ainda não apresentam nenhum risco de destruição das imediações espaciais com o nível tecnológico atual.

Vamos seguir o experimento. Há males que vem para o bem!

Propotentemente,
Somireus

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