O futuro da vida.

Qual o seu plano para os próximos tredecilhões de anos? Se você ainda não tem, sorria, porque hoje vamos falar sobre as possíveis estratégias para a manutenção da vida nas escalas de tempo mais imensas que podemos imaginar atualmente. Se tudo tem um fim, até onde podemos prever que seria possível estender qualquer forma de inteligência num universo com prazo de validade?

O número que eu escrevi no primeiro parágrafo é um seguido de 42 zeros, algo consideravelmente maior que os cinco (ou seis no máximo) que a vida humana esteve presente, ou mesmo os nove que costumam ornar a idade estimada do universo, atualmente entre 13 e 14 bilhões de anos. Mesmo que pareça difícil considerar que duremos um milênio que seja, apesar dos pesares, a humanidade conseguiu aguentar muitos trancos neste caminho, e não é completamente insano pensar em como ela poderia continuar se adaptando à passagem das eras.

Mas antes de pensar nos tredecilhões, sejamos mais modestos: como sobreviver aos próximos milhões de anos? Bom, as coisas não vão ficar mais fáceis aqui nesta rocha molhada orbitando o Sol. O centro do planeta Terra tende a irradiar muito calor nos próximos milhões de anos, além de perder a velocidade do seu giro, essencial para a manutenção do campo magnético que nos protege do pior que a estrela mais próxima atira em nossa direção incessantemente. Em menos de um bilhão de anos, é bom o ser humano não depender mais dessa fonte natural de proteção, porque o Sol virá batendo à nossa porta com força.

Uma solução é pegar nossas malas e procurar vizinhanças mais aprazíveis, com as descobertas mais recentes sobre exoplanetas (isso é, planetas fora do nosso sistema solar), é provável que não demore muito para encontrarmos um candidato viável para acolher a humanidade longe da nossa Terra natal. Chegar lá são outros quinhentos (talvez quinhentos mil anos), mas nas escalas que estamos falando, parece factível. O ser humano pode ser congelado para uso futuro enquanto viaja para um novo local. E azar de quem ficar pra cá: mais alguns bilhões de anos e o Sol vem fazer uma visita pessoal, estrelas como ele tendem a crescer muito de tamanho quando consomem o hidrogênio em seus núcleos, o suficiente para engolir até mesmo a Terra.

Caso consigamos desviar dessa bala cósmica que é o envelhecimento de nossa estrela mãe, teremos um bom tempo para aperfeiçoar o processo nômade de manutenção da espécie: pular de planeta em planeta enquanto forem agradáveis, e de preferência montar bases mais estáveis (em bilhões de anos) ao redor de estrelas menores e mais longevas. Quanto maior uma estrela, mais tende a terminar mal para seus vizinhos. Estrelas do tamanho do Sol passam por essa fase de crescimento, virando gigantes vermelhas, e estrelas maiores ainda terminam em explosões catastróficas que conhecemos como supernovas. As realmente gigantescas… essas viram buracos negros.

Só que mesmo assim, a escala de tempo possível do universo continua criando desafios para a manutenção da vida. Como o universo está em expansão, a cada dia que passa, todos os pontos que não estão suficientemente amarrados pela força gravitacional vão ficando cada vez mais distantes uns dos outros. Caso alguém ainda teime em observar o céu da superfície da Terra em alguns bilhões de anos, não vai ter muito para ver: a maioria das estrelas vai ter ido para tão longe que não daria mais tempo de vermos sequer sua luz. O nosso céu seria quase todo escuro, apenas com nossos vizinhos mais próximos pontuando a vista.

E por mais que fiquemos excelentes em usar a matéria disponível ao nosso redor para sustentar uma civilização, o conceito de “redor” começa a mudar. Considerando a velocidade da expansão do universo, toda a matéria disponível para qualquer civilização humana presente ou futura está numa faixa de mais ou menos um bilhão de anos luz. Mais do que isso e vai estar indo embora rápido demais, por mais que tentemos alcançar. O que com certeza soa como muita matéria, mas é uma fração do que se tem disponível até mesmo nos dias atuais, na mais tenra infância do universo, onde tudo está muito próximo (mesmo considerando um diâmetro de 90 bilhões de anos luz como limite teórico).

E é aí que conservação de energia entra em foco. Energia não se cria, se transforma, e infelizmente, se transforma de formas cada vez menos aproveitáveis, o conceito da entropia, que assim como a velocidade máxima possível (a da luz), temos que considerar desafios impossíveis de resolver mesmo com trilhões de anos de pensamento e tecnologia. Um bilhão de anos luz de matéria e energia aproveitável é bastante, mas não infinito. Até porque essa energia não vai ficar nos esperando: até mesmo a porção do universo que vai continuar gravitacionalmente presa a nós mesmo com a expansão não está parada esperando por nós. Estrelas vão continuar queimando seu combustível e formando desde planetas até buracos negros nesse processo.

Eventualmente as estrelas vão parar de ser criadas no ritmo que temos atualmente, e isso não está muito longe de acontecer, pelo menos não nessas escalas de zeros e zeros que estamos considerando. Cem trilhões de anos até lá. Quando as estrelas pararem de nascer, só vão poder queimar seu combustível até morrer. Mas estrelas são resilientes, mesmo as que explodem acabam deixando restos que continuam funcionando de alguma forma por muitos e muitos zeros. Desde anãs brancas (o futuro do nosso Sol) até mesmo buracos-negros, vai ter alguma forma de energia restante delas por um bom tempo.

Uns 120 trilhões de anos no futuro e nenhuma estrela no sentido clássico da palavra continuará existindo. Se dependermos ainda desse tipo de energia para sobreviver, será o fim. A ideia aqui é mudar a forma como consideramos a vida: um chip de computador é bem mais eficiente energeticamente para criar uma consciência do que neurônios. Bem mais. Se ainda não tivermos mudado nosso conceito de existência para simulações computacionais, ou seja, com pessoas sendo “códigos de computador” dentro de uma realidade virtual, o fim das estrelas vai tornar isso obrigatório. Até porque nessa era do universo, vai ter cada vez menos coisas acontecendo lá fora: vai estar tão frio e parado que não vai fazer muita diferença estar dentro ou fora.

E nesse salto para uma vida simulada (lembrando que pra quem está vivo nessa simulação é tudo igual a uma vida “real”, tanto que estatisticamente é mais provável que já estejamos nessa era e sejamos simulações do que os originais) começamos a explorar as vantagens de tempo e energia não serem mais as mesmas coisas que conhecemos agora. Num universo muito frio e quieto, é mais fácil fazer um computador funcionar por eras e eras com pouquíssima energia. Um dos caminhos pode ser ficar ao redor de buracos- negros, sugando a quantidade mínima de energia que eles irradiam via radiação de Hawking, por exemplo; e quanto maior o buraco-negro, menos energia escapa. E quanto maior, mais tempo ele dura. Estima-se que eles serão os últimos a evaporar para a entropia, e nossa última chance de ter alguma forma de energia disponível.

E quanto a idade do universo for de uns septrilhões de anos (30 zeros), das duas uma: se os prótons dentro dos átomos começarem a decair, isso é, virarem outras coisas “inúteis” para seres acostumados a trabalha com matéria tradicional, isso quer dizer que o jogo basicamente acabou. Quer dizer, começou a acabar: até todos os prótons decaírem, e até mesmo os buracos negros derreterem numa sopa primordial de partículas sem utilidade, chegamos no tredecilhão, uma dezena deles, aliás. Lá pelos 43 zeros, acaba qualquer chance inclusive de simular vida em computadores.

Se os prótons não decaírem, as coisas podem durar mais. Muito mais: os buracos negros durariam incrivelmente mais se os prótons se comportarem. Só depois de 100 zeros que o último deles evaporaria. Mas isso não seria o fim. Toda a matéria tenderia a decair para uma forma de ferro chamada Ferro 56, o último passo teórico para a matéria. O universo viraria ferro, literalmente. Se ficássemos excelentes em aproveitar energia, bolas de ferro gigantes que ainda estariam flutuando por aí poderiam nos manter funcionando por mais… mil e quinhentos zeros. E aí, um alento: o ferro acabaria, por um processo muito lento, virando novos buracos negros, o que estenderia mais um pouco a energia disponível para quem estivesse perto o suficiente.

E isso duraria no máximo até alguns milhões de zeros. Aí a última alternativa seria começar a queimar memórias que temos em troca de uns últimos minutos de vida… informação exige energia para existir. Nossa última lenha na fogueira da vida pode ser a informação que nos levou até aquele ponto. E quando não tiver mais informação…

Bom, chegamos no ponto onde por pura probabilidade já seria possível ter um novo Big Bang. O número de recombinações possíveis da matéria que existe bate num limite de alguns milhões de zeros mesmo. Pena que nenhuma informação (memória) poderia sobreviver a esse processo. Ou seja, se isso já aconteceu antes, não temos como saber. Mas pode ter acontecido.

Talvez, de uma forma muito maluca, sejamos todos eternos enquanto lembrarmos.

Para dizer que precisa que eu me aprofunde na vida simulada, para dizer que ler o texto demorou todos os zeros possíveis, ou mesmo para dizer que isso tudo é irrelevante (se você não for uma simulação, talvez): somir@desfavor.com

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Comentar

  • Gostei muito dessa viagem hipotética pelas possibilidades que temos até o fim.
    É muito interessante isso que você propôs nesse post: levar a gente a pensar numa escala absurda de tempo. É praticamente uma tirar qualquer limite para uma divagação dirigida pelo propósito de conjecturar – ainda que apenas no plano das ideias e sem qualquer utilidade prática imediata – como seria possível manter a vida até os estertores do universo. E de quebra, lançando como uma questão lateral, secundária, o conceito que temos do que seja vida.
    Obrigado.

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