O tempo da qualidade.

Muitas vezes na minha linha de trabalho eu tenho que tomar decisões chatas sobre quanta qualidade pode entrar num projeto. Chatas porque o conceito de nível de qualidade não só varia de acordo com vários fatores práticos como tempo e verba, como também é percebido diferentemente entre as pessoas. E isso sem contar a questão do gosto pessoal, que torna tudo ainda mais complicado. Então hoje eu quero falar um pouco sobre como imprimir um padrão de qualidade realista no trabalho (remunerado ou não) que você faz, coisa que eu noto que a maioria das pessoas entrando no mercado de trabalho tem dificuldade de entender. Você sabe se está fazendo coisas com qualidade?

Definir nível de qualidade é complexo por si só, tanto que é uma das bases da “magia” da publicidade: dar uma solução, mesmo que temporária, para a dúvida das pessoas sobre o que é bom e o que não é. Francamente, na maioria dos casos você precisa de alguma experiência e de parâmetros sólidos para saber o que está bem feito ou não. Eu consigo notar se uma arte ou um texto estão bem feitos, mas com certeza não sei diferenciar entre um conserto de ar-condicionado bem ou mal feito… todos nós vamos ter muito mais pontos cegos do que certezas no que configura um trabalho bem feito. Um produto ou serviço de qualidade é um conceito bem mais variável do que gostaríamos.

Por isso, o primeiro passo é unificar o que consideramos um bom trabalho da nossa parte e um bom trabalho feito por outros. Eu costumo brincar (sério) que o trabalho mais fácil do mundo é o trabalho dos outros. Quem trabalha com qualquer tipo de criação sabe muito bem como sai fácil da boca alheia que “é só dar uma mexidinha rápida” para resolver todos os problemas. Eu costumava ficar puto com clientes meus que tratavam meu trabalho com tão pouca gravidade até perceber como o as pessoas simplesmente não entendem, em geral, qual é o verdadeiro fator determinante para definir a qualidade de algo: o tempo efetivo.

Tempo efetivo é aquele que foi realmente usado para fazer alguma coisa. Obviamente atrasos e descaso não corroboram para a qualidade final… dito isso, temos que entender o que configura o tempo efetivo. Por exemplo, no meu trabalho, eventualmente eu faço logos para meus clientes. Logos são elementos visuais que representam uma marca de empresa, produto ou mesmo pessoas, e são dos elementos mais confusos para se definir preço ou nível de qualidade por um motivo: às vezes você imagina e desenha o logo em quinze minutos. Pode demorar meses para ficar pronto, mas o tempo real de sentar a bunda da cadeira e desenhar a ideia certa costuma ser muito curto.

E aí, a dúvida: se demorou 15 minutos, custa 15 minutos pra mim e para o cliente? Obviamente que não. Porque essa conta está errada. No meu caso, um logo demora uns 10 anos mais 15 minutos para ficar pronto. Porque o tempo efetivo é muito mais complexo do que o tempo de trabalho físico, é o tempo que você demorou para entregar aquele nível de qualidade em 15 minutos. Assim como se eu e um pedreiro experiente fizermos um muro em um dia, o meu vai desabar e o dele vai durar décadas, se eu e um completo perdido na área demorarmos 15 minutos para fazer um logo, o meu vai seguir padrões de qualidade relevantes para o mercado e o dele vai ser de uma qualidade aleatória que 99,99% das vezes vai estar abaixo desse padrão. Pura probabilidade.

Calcular qualidade não é só ver quanto tempo uma pessoa demora para efetivamente entregar a tarefa, é saber quanto tempo demorou para ela ficar boa o suficiente para entregar a tarefa. E é aí que eu percebo o maior problema na percepção das pessoas em geral: a dissonância entre o que se vê de tempo gasto e o quanto elas pagam por esse tempo. O que para uma pessoa experiente e bem informada no seu campo de trabalho pode parecer extremamente simples, para o resto de nós pode demorar anos para se fazer de forma remotamente parecida. Mas, sejamos honestos, é raro termos esse tipo de percepção na hora, não?

Porque aí entra um segundo fator: a obscuridade do processo. Ou seja, quão fácil é se imaginar fazendo a mesma coisa, por mais fantasiosa que a ideia seja. É fácil se imaginar abrindo um programa de computador e desenhando duas linhas, por isso eu sofro com essa percepção de “é rapidinho” no meu mercado; mas se estivermos falando de um cirurgião, duvido que alguém aqui seja arrogante o suficiente para dizer “é só cortar um pedaço e costurar outro!”, mesmo que no fim do dia, seja justamente isso. O processo é muito mais obscuro para o cidadão médio, até porque só de imaginar um cirurgião fazendo algo “de qualquer jeito”, todos nós ficamos assustados. Ninguém quer se imaginar nesse grau de pressão. Por isso médico pode cobrar basicamente o que quiser, por isso faculdades de medicina são tão concorridas: o processo de entrega de qualidade da profissão está muito bem escondido da imaginação popular.

Mas qualidade continua funcionando da mesma forma: um cirurgião que sabe “entrar e sair” em quinze minutos demorou décadas para fazer isso com eficiência. Custou muito tempo e dedicação fazer aquilo daquele jeito, muito mais do que o ato sugere. No final das contas, novamente, o que contou foi o tempo. O que eu ando percebendo nas gerações mais recentes é um certo desdém pelo tempo efetivo antes da entrega do serviço ou do produto, como se numa involução silenciosa, tenhamos retornado aos tempos do “dom”, do suposto talento natural que surge no momento sem um custo elevado de horas antes. Sinto informar que “dom” não existe. Porque por mais talento para algo que uma pessoa tenha, sem dedicar tempo efetivo para uma tarefa, sempre vai ter um nível de qualidade baixo. Acho essencial definir esse ponto para chegarmos no objetivo do texto de hoje:

Os “gênios” das startups estão aí para provar o ponto. Muita gente ignora que para cada empresa inovadora que surge (e por inovadora hoje em dia quero dizer fazer um aplicativo para celular, 99% das vezes) com sucesso, incontáveis mais morreram pelo caminho. Ninguém teve uma ideia de ouro surgida do éter, todas foram resultado de muito tempo efetivo. As que são só ideias diferentes morrem feito moscas. Ou esquecemos que para cada ideia que “mudou o mundo” temos umas dez pessoas que tentaram antes e não conseguiram? Tinham uns cinco Googles antes do Google, para quem não acompanhava ou não tinha idade para ter acompanhado. O que teve mais tempo efetivo, ou seja, pessoas que estavam prontas para realizar o trabalho mais o suor empregado no projeto, venceu e virou uma das maiores empresas do mundo.

Um bom produto ou serviço não é resultado de um gênio sendo atingido por um raio, é hoje como sempre foi… resultado de horas. Tempo dedicado. Talentos são desperdiçados a cada minuto nesse mundo, justamente porque as pessoas não conseguem ou mesmo não sabem investir neles. Mais uma definição que eu espero que entre na cabeça de todos vocês: talento é tempo efetivo com ou sem aplicação prática. Só tem talento para algo quem gasta tempo com esse algo, seja direta ou indiretamente. É humanamente impossível nascer com talento para algo, não é assim que a biologia funciona. O que acontece é que algumas características inatas podem facilitar o uso do seu tempo para desenvolver um talento prático. Mas garanto: todo mundo tem algum talento potencial gigante que nunca vai desenvolver por pura probabilidade. O mais comum é nem saber que ele está lá por não fazer nada na vida que te faça perceber isso. Infelizmente às vezes é só a questão de não estar no lugar certo na hora certa.

Quando eu vejo essas novas gerações entrarem na pilha de “uma grande ideia e uma startup na mão”, eu vejo um problema sério: esqueceram da parte que você tem que ser capaz de fazer as coisas direito, da parte que tudo custa muito caro em tempo nessa vida e ninguém consegue pular essa parte. Você pode ser rico sem esforço, mas não pode entregar qualidade sem esforço. Tempo e qualidade nunca vão se dissociar, mesmo que esse tempo não seja todo usado suando a camisa na produção. E aí entra o perigo da mentalidade vigente dos mileniais e seus seguidores: fazer o que gosta não significa fazer o que consegue entregar com qualidade. Porque podemos gostar de milhares de coisas nessa vida, mas consciente ou inconscientemente, vamos dedicar nosso tempo efetivo para pouquíssimas delas.

Mesmo que não pareça, você está desenvolvendo um talento todos os dias da sua vida, e se esse talento estiver obscuro, você pode passar a vida toda atirando para tudo quanto é lado e nunca acertar num alvo. O que eu quero passar aqui é: podemos fazer muitas coisas nessa vida, mas só algumas com nível de qualidade “lucrativo”. Como aparentemente temos muita dificuldade de entender o que conta como qualidade aceitável, estou passando uma cola aqui: tempo efetivo. Se o tempo do trabalho físico combina com o tempo despendido anteriormente para aprender a fazer aquilo direito, você consegue entregar qualidade. Se os dois não se conversarem, taí a explicação de porque tanta coisa sai errada ou meio nas coxas.

Não é o esforço do momento ou mesmo uma grande ideia que vão te permitir um bom serviço ou produto – seja ele fazer um logo ou consertar um ar-condicionado – é o tempo efetivo. Por mais que você se esforce, usar um martelo para tirar um parafuso sempre vai gerar um resultado tosco. Pense no tempo. Tempo é dinheiro… e qualidade.

Para dizer que ainda acha que trabalho criativo é refúgio de vagabundo, para dizer que gostou da propaganda e vai comprar, ou mesmo para dizer que foi um desperdício de tempo: somir@desfavor.com

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Comments (5)

  • Somir, essa valorização do “talento nato” não é um problema da geração atual: é um problema da juventude, desde que o mundo é mundo. As pessoas só aprendem a valorizar a experiência, ou seja, o aprendizado pela dedicação, quando elas mesmas já ultrapassaram a barreira do tempo. Acontece que, agora, você está passando para o outro lado e começando a enxergar pelo ângulo da pessoa experiente.

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    • Válido, mas a barreira de entrada para o mercado não era tão pequena assim, pelo menos não antigamente. Gerente de 20 anos de idade nem sempre é um prodígio…

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  • O tempo dedicado na idealização é muito maior do que a eexecução. O mesmo se dá com a escrita de um livro: a fmente já encontra pronto, mas não imagina quantos anos o escritor levou na pesquisa e criação da trama.

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  • “Calcular qualidade não é só ver quanto tempo uma pessoa demora para efetivamente entregar a tarefa, é saber quanto tempo demorou para ela ficar boa o suficiente para entregar a tarefa.”

    Bem isso, Somir! Isso vale também pra trabalhos com áudio/studio e mesmo tradução e revisão de textos. As vezes – segue o fato também que já tenho certa experiência e o ouvido treinado, então… – tu saca já de cara o erro no arranjo do sujeito, e sabe bem que aquele acorde de Am7 tá fora do lugar, e que, para aquele gênero musical, seria mais adequado um Am7sus4. Ou, as vezes também tu saca já de cara que aquela faixa de áudio saturou em algum lugar e que precisa aplicar um filtro cut off + um passa banda na masterização. Mas fazer o trabalho de fato e deixá-lo perfeito pra entregar, ahh isso leva tempo! Bastante tempo!

    No caso de trabalho com textos: uma tradução de um artigo (coisa de 16 páginas) posso até fazer meio que no modo automático, só com algumas horinhas sentado. Mas todo o processo de revisão, reelaboração do texto, e adequação ao nível estilístico pretendido na língua de chegada, ahh isso demora. E claro que esse tempo demorado cu$ta.

    Outro ponto do texto que considero interessante pra discutir: tu disse em termos de “obscuridade do processo”. Me irrita deveras o fato de que certas atividades – envolvendo mídia/fotografia/edição de vídeo, e mesmo revisão de texto, só pra citar alguns exemplos – hoje todo mundo faz, todo mundo sabe. Aquele cidadão médio que tem uma câmera DSLR faz todo um serviço de fotografia mais barato, sendo que nem é profissional formado naquilo, apenas leu uns tutoriais na internet e…
    Isso acaba que “nivelando por baixo” o mercado, já que, se tem gente que cobra mais barato por aquele serviço, porque pagar caro por um profissional que sabe muito bem o que faz? Bahh!

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    • Sobre esse lance do “todo mundo faz”, eu aprendi a aceitar ele na minha vida e ver o lado positivo. Quase todos os meus clientes chegam querendo refazer o que “todo mundo faz”, porque pra muita gente, é obrigatório o passo de passar por alguém que faz serviço merda: não aceitam pagar o preço real até descobrirem que fica merda e entenderem porque com o profissional que se respeita é bem mais caro. “Todo mundo faz” me dá vários clientes.

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