Rótulos.

Um lado mais progressista meu concorda com a ideia de que rótulos, seja quais forem, parecem algo do passado, algo que a humanidade deveria abandonar em busca de uma sociedade mais igualitária. Julgar pessoas pelo o que elas são e não por grupos que por ventura possam ser incluídas. Mas… será que esse é um futuro positivo para nós?

Acho bacana a ideia de um mundo onde a primeira impressão não é a que fica, onde tenhamos sempre a chance de nos mostrar como realmente somos antes de termos opções retiradas de nós, onde ódios generalizados e costumeiramente infundados não definam o tratamento dispensado a uma pessoa. Cada um pode ser o que quiser, na combinação que quiser. Ótimo, parece um objetivo nobre para o desenvolvimento da nossa sociedade. Não tem mais homem, mulher, hetero, gay, branco, negro… nada. Só humanos.

Minha maior dúvida sobre isso tudo é se queremos viver numa sociedade só de humanos. Passamos muito tempo aqui criticando os ativistas do politicamente correto, mesmo que no cerne das nossas crenças, não exista uma diferença tão gritante. Nada contra uma utopia de paz e aceitação, mas tudo contra o desconhecimento do termo “utopia”. Uma sociedade perfeitamente compreensiva e justa simplesmente não é possível, a ideia fantasiosa de resultado perfeito serve como uma linha guia para sabermos que sempre pode melhorar. Se você parte do princípio que uma utopia é alcançável, suas premissas não vão colaborar para uma conclusão racional. A ideia está estragada desde o começo.

Uma sociedade sem rótulos parece muito boa, mas é utópica. E é aí que a ideia de premissas contaminadas vai criando os monstrinhos ativistas que tanto incomodam atualmente. A pluralidade que sugere uma sociedade ideal sem separações claras entre grupos é a mesma que impede que o grupo humanidade seja suficientemente homogêneo para uma sociedade ideal. Não se pode subjugar a percepção das pessoas de tal forma a não notarem diferenças claras entre elas. Pode-se proibir apenas externalizar a percepção, e isso não é suficiente.

Rótulos são um subconjunto da nossa forma de perceber a realidade. O cérebro humano adaptado a reconhecer padrões e se moldar ao redor deles. Já falei bastante sobre isso em outros textos, então vou só reforçar o cerne da ideia: o cérebro que nota um padrão de perigo em predadores no começo da nossa existência é o mesmo cérebro que nota um padrão de perigo em pessoas diferentes atualmente. Não é só uma questão de conscientização, é uma questão extremamente primal sobre como o ser humano evoluiu para lidar com a realidade ao seu redor.

Não vemos as pessoas com rótulos porque queremos oprimir, vemos as pessoas com rótulos porque é a forma mais “econômica” para o cérebro resolver uma situação. Ao invés de aprender algo totalmente novo, usar o conhecido. E, infelizmente, o conhecido nem sempre está baseado nas melhores informações possíveis. Conscientização é válida, mas não reverte o funcionamento básico de um ser humano. Nesse funcionamento básico, o cérebro grita que algo é diferente do que está acostumado e exige mais atenção naquilo. Instinto de sobrevivência. Instinto que às vezes parece ridículo quando uma pessoa é exposta a um travesti pela primeira vez, mas que ela não tem controle. “Olhe para isso com mais atenção porque eu não sei o que é e se é perigoso”. Se esse tipo de instinto age quando você vê um inseto diferente, imagina só quando vê uma pessoa! Perigo por perigo, grandes primatas estão no alto dos alertas de qualquer espécie com mais de um neurônio. Não é saudável pra ninguém não enxergar perigo em seres desse tamanho com braços e mãos articuladas…

Isso perdoa as pessoas que agem deliberadamente para fazer mal para grupos considerados “inferiores”? Claro que não. Decidimo-nos por um padrão mais alto de tratamento entre nós, e mesmo que esse padrão viva sendo desrespeitado, é o pouco que temos para manter qualquer chance de evolução na mesa. O problema é quando nos prendemos à visão utópica de um mundo sem rótulos esperando que esse seja o ponto de estabilidade. Complicado esperar por algo que por definição é impossível.

Mas, num exercício imaginativo, vamos considerar que esse objetivo seja alcançável: o dia em que ninguém mais julga ninguém sem conhecer chega e os rótulos tornam-se coisa do passado. Isso não quer dizer que as pessoas ficaram “boas”. Só quer dizer que ninguém mais é julgado pelo o que aparenta. Nada impede que ainda sejamos horríveis uns com os outros, e nesse mundo especial, não há nada que impeça o estrago que as pessoas ruins possam fazer com as boas antes que seja tarde demais. Porque se você não usa mais rótulos, você só julga ações realizadas. E ações realizadas obedecem um princípio de incerteza quase que quântico: você não sabe se foram boas ou ruins até fazer a medição. O preconceito não nos faz bem em alguns casos, mas pode salvar nossas vidas em outros. Complicado querer padronizar isso, seja para um lado ou para o outro. Um racista te dizendo que todos os diferentes são ruins está te mostrando um mundo absurdo, um ativista dizendo que todas as pessoas são boas também.

Na verdade, enquanto houver disputa por recursos nesse mundo, não é possível presumir as boas intenções (ou mesmo neutras) de qualquer outra pessoa. Enquanto o que os humanos desejam esteja disponível em quantidade menor do que a necessária para todos se satisfazerem, estamos em guerra. Fazemos alianças, alguma para toda a vida, mas mesmo assim, a disputa existe. E se pararmos pra pensar, a constante nesse tempo todo de evolução humana foi a disputa pelos recursos, básicos ou não. Estamos cada vez menos brutalizados, mas cada vez mais gananciosos. O que era luxo há algumas décadas é padrão até mesmo para os mais desprovidos. O desejo pelos recursos disponíveis cresce, e muita gente não aceita mais as migalhas que as disputas realizadas antes de nascerem as deixaram.

Se ao invés de ficar pregando uma utopia de aceitação (indevida), os nossos ativistas mais vocais estivessem pregando aumento de produção e redução de concentração de recursos, talvez estivéssemos correndo muito mais rápido para um mundo onde ninguém tem sequer preocupação com o que está dentro das calças dos outros. Um mundo talvez tão utópico quanto, mas mais alcançável por estar diretamente ligado ao verdadeiro desejo do ser humano: livrar-se da escassez. Com esse problema resolvido ou muito bem encaminhado, a família tradicional não choraria por nada mais. Afinal, não tem ninguém tentando tirar nada dela. Quando temos muito, cada concessão é menos dolorosa.

Se queremos matar um instinto de preservação que vive sendo usado para tornar esse mundo menos justo para alguns, temos que focar no instinto, e não na vocalização dele.

Para dizer que se sentiu rotulado, para dizer que vai chorar do mesmo jeito, ou mesmo para dizer que se a minha solução é o fim da escassez estamos ferrados: somir@desfavor.com

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Comments (3)

  • A sociedade nunca será igual por várias razões:
    *o ser humano não gosta de igualdade e tranquilidade, ele gosta de aventura, de ter algo (ou alguém) pra lutar. a expressão “problemas de primeiro mundo” não foi criada a toa.
    e vai sonhando que todo mundo vai ter a humildade aceitar ser igual a todo mundo…
    *desigualdades sempre vão surgir, sempre. o nível de exigência aumenta e toda semana surge um oprimido novo
    *o sistema não foi feito pra ser igualitário, se me perdoem o esquerdismo
    *todas as tentativas de trazer igualdade plena falharam, vide ditaduras comunistas/socialistas

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  • ” aumento de produção e redução de concentração de recursos”
    Como se daria isso? Só consigo imaginar numa ditadura fascista ou comunista, ou seja, no coletivismo. Ou então você fala de um movimento em que as pessoas com muitos recursos sejam estimuladas a não concentrar? Isso me parece utópico de qualquer forma. “O problema é quando nos prendemos à visão utópica de um mundo… esperando que esse seja o ponto de estabilidade.”

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    • Os comentários mostram que a nova militância só entra em um modelo pré estabelecido de retroalimentação de opostos. Sem outros valores e conceitos acima do liberalismo, países que conseguiram uma sociedade satisfatória para a maioria não o teriam feito. E sociedades que se renderam pelo discurso do mercado como supremo delineador de sociedade, amargaram diversos efeitos colaterais e viram cada vez mais uma parcela maior da sociedade viver cada vez pior e uma minoria acumular riquezas de forma senão ilegal, ao menos imoral. Sem um equilíbrio e medidas minimizadoras dos efeitos colaterais, uma sociedade que fomenta o
      egoísmo inato como forma motriz, movida ideologicamente apenas pelo darwinismo social (individualismo predatório) está fadada a miséria, à regimes fascistas (o liberalismo almeja o fim da democracia) ou à ascensão periódica e cíclica do famigerado “esquerdismo”.

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