Escassez.

Ultimamente eu fiquei fascinado com um canal do YouTube chamado “Primitive Technology”, onde um cidadão mostra como fazer desde ferramentas até casas usando barro, madeira e pedras. Cidadão não fala uma palavra, só trabalha que nem um condenado até terminar a missão da vez. Mas eu não estou só indicando vídeos, algo nesse material começou a me fazer pensar: dá um trabalho enorme para ter qualquer uma das comodidades que temos. Enorme. E talvez isso explique a grande parte dos problemas sociais desse mundo.

Mas vamos por partes: a primeira coisa a estabelecer aqui é a complexidade necessária para produzir o padrão de vida que até mesmo as pessoas consideradas pobres tem atualmente. Nem digo as muito pobres, porque elas tendem a viver dos restos e rejeitos de quem tem um pouco mais, estamos pensando aqui em quem consegue pelo menos manter o nariz acima da faixa da miséria. Mesmo para essa pessoa que tem uma casinha num lugar afastado, com péssimos serviços públicos, podemos considerar um teto de alvenaria, energia elétrica, água encanada, alguns eletrodomésticos básicos… tudo isso exige uma enorme quantidade de horas de trabalho para ser oferecido.

Cada tijolo que constrói uma casa depende de uma rede de pessoas trabalhando várias horas por dia. O cimento que vai entre eles idem. Claro que com tecnologia o trabalho não é mais tão braçal quanto já foi, mas alguém teve que fazer todas as etapas necessárias para entregar o produto até o consumidor. Mesmo serviços como água e energia partem do mesmo princípio: alguém teve que instalar os sistemas, gerenciar a produção e fazer a entrega, por canos ou fios. Tudo isso custa muitas e muitas horas de trabalho físico e mental de outros seres humanos.

A comida que chega na sua mesa não é diferente. São muitas e muitas etapas até a parte onde a pessoa come. Não canso de repetir: isso significa que são muitas e muitas horas de trabalho, muitas vezes árduo, para conseguir chegar até a etapa final do consumo. É comum achar que as coisas que não fazemos nós mesmos são muito fáceis e rápidas, é até humano ter essa ilusão. Só que a verdade, como sempre, é bem mais complicada. Não fosse uma quantidade de horas insana de trabalho nos bastidores, não teríamos a vida que temos. Se você tivesse que fazer cada tijolo da sua casa, como nos vídeos que eu usei para abrir este texto, não seria capaz de ter outro trabalho.

Ok, e essa é a base do funcionamento da sociedade humana moderna: ninguém consegue chegar sozinho ao padrão de qualidade de vida que todos nós conseguimos com cooperação e divisão de tarefas. Mas isso tem um custo, um custo muito grande que quando mal explicado, soa como idealismo de um metido a comunista: nossa sociedade é imensamente baseada na exploração de pessoas por pessoas. Mas não por sermos inerentemente ruins, e sim porque o padrão de vida que escolhemos não existiria de outra forma. A absurda concentração de valor em horas de trabalho humano em qualquer produto oferecido significa necessariamente que alguém trabalhou por um valor muito abaixo do que a maioria de nós consideraria justo para fazer o mesmo.

Não estou fazendo juízo de valor algum aqui (embora obviamente exista um, é muito injusto para quem trabalha em condições quase escravas), o que existe é um sistema que não se equilibra mais sem um lado mais fraco para a corda estourar. E na configuração social atual, vemos que alguns grupos humanos reconhecíveis por etnia pagam desproporcionalmente por essa necessidade de geração de valor para os bens de consumo. Resumindo: sim, é verdade que existem grandes vantagens em ser branco nesse mundo, por exemplo. Não necessariamente como indivíduo, mas com certeza como grupo.

E pouco antes dessa onda histérica de demonização desse grupo humano, a ideia estava relativamente bem estabelecida. O sistema de produção de valor humano beneficiava demais um grupo e isso parecia injusto. Tínhamos que corrigir o sistema. E foi muito por aí que os embriões do movimento politicamente correto de hoje surgiram: com gente tentando combater a pobreza extrema e a exploração de povos menos afortunados. Mas, no meio do caminho, algo saiu dos trilhos, e não parece ter voltado até hoje: ao invés de olhar para um sistema desequilibrado, começaram a procurar um atalho na culpabilidade pessoal de cada um dos membros desse grupo privilegiado. Como se fosse inerente a cada um deles oprimir e explorar o outro, e como se quem não tivesse essa cor de pele fosse automaticamente imune à crítica pelos mesmos motivos.

E é aí que a coisa desmonta o suficiente para gerar uma reação poderosa no sentido contrário: quando a preguiça de lidar com o grande problema real – o sistema de geração de valor baseado em exploração – faz com que seja criado um imaginário: que um grupo específico de pessoas esteja propositadamente degradando a qualidade de vida alheia por preconceitos pessoais. Como a Alemanha Nazista nos ensinou, é muito mais fácil apontar para um grupo de pessoas com características físicas parecidas do que tentar corrigir um problema estrutural na sociedade.

Temos um problema que gera desigualdade sim, e ele não é a cor da pele de um grupo. Quando precisamos de inúmeras horas de trabalho para ter algo que consideramos básico em nossas vidas e não temos dinheiro para pagar o que essas horas realmente valem, temos que escolher entre a escassez e o abuso. Escolhemos o abuso. E não havia nenhuma predisposição mágica para que o grupo que mais se aproveitasse do abuso fosse um com uma cor de pele específica, nada na genética humana impediria que as cores de opressores e oprimidos mais comuns fossem invertidas. Se não fossem os brancos com mais vantagens no mundo atual, seria um grupo de outra cor.

Alguém fatalmente seria opressor num sistema baseado nisso. Alguém vai fatalmente assumir o posto dos “vencedores” atuais se o sistema não mudar. E aí vamos continuar nos perguntando porque tem tanta gente pobre nesse mundo, mas com cores diferentes. Reformar o sistema não é só pintar ele de outra cor.

Para dizer que eu estou ficando cada vez mais radical, para dizer que eu não ofereci alternativa (não disse que era fácil), ou mesmo para dizer que alguém vai me chamar de nazista por causa disso: somir@desfavor.com

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Comments (3)

  • “para dizer que eu não ofereci alternativa (não disse que era fácil)”
    A suposta alternativa gerou ditaduras e genocídios e igualou todo mundo na miséria, no século passado. Verdade seja dita, os países que hoje admiramos por serem exemplares em igualdade e bem estar social, embora tenham seus méritos, nos bastidores se sustentam com base na exploração em países mais pobres que possuem clima favorável, solo mais rico, florestas, reservas de água e contingente populacional que trabalha por poucos dólares.
    Igualdade é uma utopia. Sempre vai ficar alguns países pra trás na corrida do desenvolvimento, a Noruega não está esperando a Etiópia se igualar a ela. E vocês acham que a Islândia, um pedaço de gelo boiando com 300mil pessoas, cultiva seus próprios alimentos ou exporta de algum shithole tropical cuja economia se baseia em agricultura?
    Estou soando um pouco amargo e maniqueísta (na verdade até os governantes dos povos explorados tem parte da “culpa”), mas me parece que esse vai ser sempre o sistema.
    E sobre a escassez. A civilização é mais frágil do que pensamos. Prova disso é esse choque entre povos que acontece hoje. Nada garante que a humanidade vai continuar dessa forma, uma ou duas gerações de ignorantes pode pôr tudo por água abaixo, assim como foi com outras civilizações avançadas do passado.

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  • Não existe alternativa

    só resta me sentir com sorte por ter nascido numa família e num ambiente relativamente dignos…

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    • Sim, com certeza existem lugares mais afortunados, mas considerando a média mundial, até mesmo classe média baixa brasileira já é estar acima da curva.

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