Negando negacionistas.

Vem por aí medidas mais restritivas ainda contra a proliferação do Covid-19. Ontem batemos o recorde de mortes diárias e hoje é bem possível que ele seja quebrado de novo. Quem é leitor do Desfavor já estava avisado do desastre com alguma antecedência, mas sabemos que somos uma minoria por aqui. Você provavelmente convive com gente que no mínimo fica confusa com o que está acontecendo, e se você gosta delas, esse texto pode te ajudar a explicar as coisas melhor.

Há tempos falamos aqui que quem discute para vencer a discussão está falando com as paredes, porque não é assim que a comunicação entre seres humanos funciona: se você só quiser passar por cima da outra pessoa, ela vai entrar num estado de defesa que impede qualquer ideia nova de entrar na cabeça dela.

Então, por mais tentadora que seja a ideia de discutir de forma agressiva com alguém que está negando parte ou a totalidade da pandemia, especialmente quando você quer o bem da pessoa, ela não vai funcionar. O máximo que você consegue é fazê-la ficar quieta, mas vai ficar quieta pensando as mesmas coisas que pensava antes da discussão, e não agir de acordo quando você não estiver mais pressionando.

“Ah, mas eu quero que negacionista se exploda!”

Tudo bem, mas uma hora ou outra você acaba diante de um negador, parcial ou total, do qual você gosta e quer ver bem. E considerando que o grau de desgraçamento do nosso sistema de saúde aumenta a cada dia, o clima está ficando pesado e até mesmo os governantes mais bolsonaristas começam a se ver pressionados a tomar alguma atitude para evitar uma crise humanitária. As medidas começam a ficar cada vez mais próximas de um lockdown real, e o brasileiro médio não tem nem ideia do que é um lockdown real.

Talvez até uma pessoa que não estava reagindo mal à pandemia comece a ficar mais arredia com essas medidas. É aqui que você pode ser uma força positiva na vida dela, caso ela valha esse esforço. Seja por gosto ou por necessidade: se você está preso numa casa com gente que se recusa a se proteger, você mesmo entra em situação de risco.

Por isso, vamos tentar organizar os argumentos e estratégias de discussão que mais ajudam quando você precisa mesmo convencer alguém:

É praticamente uma questão evolutiva: guardamos na memória as informações mais importantes sobre um tema. Considerando o consenso científico ao redor do tema, é relativamente fácil não se aprofundar nos motivos exatos pelos quais as medidas de proteção contra a doença, ficando apenas com os fatos úteis.

Máscaras criam uma barreira física para o vírus. Não são mágicas, elas ainda têm que ter buracos para passar o ar, mas evitam que a maioria das partículas que podem carregar o vírus, as gotículas que todo mundo expele ao falar, gritar, respirar ou espirrar, viajem pelo ar sem controle. Quanto melhor a máscara (a mais indicada é a PFF2 como a Sally disse ontem), menos isso acontece. Quanto mais gente usa máscara, mais gente evita de passar o vírus para o ambiente.

Algumas pessoas têm o péssimo hábito de se considerar invencíveis, e muitas vezes dependem dessa “coragem” para se validar. Normalmente são pessoas que fazem pose de fortes e poderosas o tempo todo, nas mais diversas situações. Você provavelmente conhece uma dela, e provavelmente é um homem. Para essas pessoas, o ideal é usar o ângulo da proteção do outro. Máscara é para proteger as pessoas mais fracas que ela. Isso normalmente mexe com o senso de poder desse tipo de pessoa, afinal, proteger os mais fracos é sinônimo dela ser uma pessoa forte. Pode dizer que mesmo que o corpo dela seja capaz de vencer a doença, o vírus que ainda não morreu pode sair dela e contaminar alguém menos resistente.

Já outras pessoas consideram isso uma questão ideológica, como se máscaras fossem o governo forçando-as a se submeter. Esse é o ângulo mais comum entre quem está no time Bolsonaro da gripezinha: a doença não é tão grave assim e a máscara é só um plano das elites para aumentar o controle sobre a população. Temos alguns problemas sérios aqui: é comum que quem tenha as opiniões mais radicais sobre política seja também quem menos entende sobre política.

Bobagem pegar uma pessoa com esse tipo de pensamento e tentar travar uma discussão profunda sobre a lógica da coisa. No segundo que você morder a isca sobre esquerda, direita, socialismo, hormônios na água e etc., você perdeu qualquer chance de conversar com a pessoa de verdade. Vira uma guerra de palavras-chave e é comum que gente assim seja um repositório infinito de argumentos e “fatos”, façam eles sentido ou não.

Por isso, a dica é ficar “em casa”: fale com a pessoa, não com a ideia política dela. Não fale sobre Bolsonaro, Dória, Lula, não fale sobre Trump, Macron, Netanyahu… não deixe o nome de nenhum político ou sistema de governo sair da sua boca. Seja irredutível, fale somente sobre você, a pessoa ou conhecidos. Tem um anzol pronto para te puxar a todo momento, não morda. Quase todo mundo muda sua política assim que estamos falando de pessoas próximas.

Tente misturar a conversa com memórias compartilhadas entre vocês, fale sobre parentes, amigos… se você começar a falar sobre a saúde do seu bairro, já foi longe demais. Se a pessoa tentar forçar uma conversa sobre política, simplesmente não entre no mérito. Deixe ela falar sobre celebridades tirando sangue de bebês sozinha, cortando sempre para dizer que está preocupado(a) com vocês, que não quer ver ninguém próximo em hospital lotado correndo risco de não ter UTI. Fale sobre como deve ser terrível ficar sem ar, como tem medo que alguma pessoa que vocês dois conheçam passe por isso. Se tiver um idoso para jogar no papo, melhor ainda.

Se estiver muito difícil escapar do tema político, diz que não confia em político nenhum. Seja apartidário, politicamente apático. Diga que fez sua pesquisa independente para se preocupar com a pandemia, que juntou informações de médicos e de pessoas que confia. Se tiver o assunto da parte técnica da doença, pode usar, mas sem nunca usar nenhuma entidade como a OMS para defender o argumento. E importante: se a pessoa gostar de você o suficiente para se sentir mal de te deixar com medo, use isso sem dó. Porque não é mentira: se ela agir errado, você que vai sofrer. Papo político é confortável pela impessoalidade, você pode falar qualquer asneira sem sentir que está fazendo mal para os outros, mas se você fizer dessa conversa algo muito pessoal, quase todo mundo que não é psicopata vai perder o rebolado e se obrigar a pelo menos pensar de forma mais responsável.

Ainda tem gente dizendo que máscara faz mal porque corta o seu oxigênio e faz o vírus ficar concentrado perto do seu nariz e boca. Volte ao argumento de proteger os outros: ao invés de dizer que a pessoa é uma anta, o que vai impedir que ela te escute depois disso, diga que é justamente esse vírus que não queremos voando por aí e contaminando gente que vai morrer depois. Simpatize com o fato de que máscara é um saco de usar, às vezes a pessoa só quer reclamar disso e perde a mão tentando justificar. É comum que uma pessoa fique puta da vida com o fato de estar sofrendo (mesmo que pouco) com alguma coisa e ninguém mais parecer compartilhar do sofrimento.

Não tem problema dizer que máscara é um sacrifício. Pode fazer que nem criança: dizer que vai acabar logo. Não a pandemia, pra ser honesto, mas o uso da máscara. Fala que é só por algumas horas e em casa pode tirar. Relembre o fato de que ela está sofrendo para ajudar o resto das pessoas. E para lidar com quem não faz pose de durão e fica reclamando que não consegue respirar, não tire sarro ou faça pouco, de forma alguma! Ajude a pessoa na hora: diga que médicos e funcionários de construção civil usam essas máscaras há décadas e nunca ninguém sufocou. Diga que é questão de costume. Se quiser e tiver clima, brinque que é mais ou menos como estar numa cidade na montanha com ar mais rarefeito. Nem é muito verdade porque máscara não corta tanto oxigênio assim, mas a mente é poderosa: se ela achar que tem pouco, começa a ficar desesperada mesmo.

Explique calmamente que é para respirar devagar, puxando e soltando. Isso resolve um monte de problemas paralelos também, especialmente os relacionados com nervosismo. Pessoas costumam baixar a guarda quando sentem que a outra está bem-intencionada e levando a sério o sofrimento delas. Não funciona para todos os seres humanos sem falta, mas acredite: vai demorar para você encontrar um caso em que isso não resolve.

Distanciamento social é outro campo complicado de argumentar. Mas basicamente pelos mesmos motivos da máscara: a pessoa pode precisar da negação para se sentir segura, e nesses casos, é a mesma lógica de tratar ficar em casa como algo que uma pessoa forte faz para ajudar as mais fracas. Só que continuando a lógica de ser obrigado a tratar negacionistas como crianças, não é só porque te escutou agora que vai agir de acordo daqui a 15 minutos. Por isso, é bom você se inteirar rapidamente de tudo o que pode ser feito à distância ou ser pedido para entrega, assim você tem na ponta da língua uma alternativa para basicamente todas as desculpas de quem quer sair de casa à toa.

Mesmo que você seja uma pessoa frugal, de pouco consumo, baixe e tenha todos os apps de entrega prontos para usar. Qualquer coisa que a pessoa teimosa quiser sair de casa para pegar, você pesquisa e acha pra ela. Mas pesquisa na hora, na frente dela, porque quem está procurando desculpa para sair mente que já pesquisou e não achou. Se reclamar do frete e for tolerável para você pagar, diga que você vai pedir então. Se for uma pessoa orgulhosa (tomara, essa brincadeira pode sair cara) ela provavelmente vai evitar que você pague pelo frete das coisas dela.

E muita gente não sabe mesmo que não tem quase nada que não se possa pedir. Porque mesmo em lugares onde os aplicativos não têm muitas lojas, é só pegar o telefone ou o WhatsApp da maioria dos lugares e pedir diretamente. A coisa está feia o suficiente para que quase todos os comerciantes se mexam para não perder uma venda. Parece um bando de obviedades, mas faz muita diferença já ter tudo meio pensado antes da situação de confronto. É um minuto para ter anotado os lugares que vendem as coisas mais comuns que você usa na casa.

Novamente: se a pessoa quiser sair de casa sem necessidade por bolsonarismo, continue não falando nomes de políticos ou qualquer termo próximo. Nessa discussão, o governo não existe, só existem pessoas conhecidas com as quais se convive. Se te chamar de esquerdista, comunista, gayzista, seja lá o que for, não registre sequer a palavra e fale só sobre a saúde, sua e da pessoa. É difícil não ser arrastado para essa conversa, mas você consegue se estiver atento(a).

Eu sei que é ridículo ter que lidar com outros adultos como se estivesse lidando com uma criança, mas aqui eu uso a tática explicada no texto para tentar te convencer: sim, é ridículo. Sim, você tem todos os motivos para ficar furioso(a); sim, é inacreditável que a pessoa não consiga enxergar o que está na frente dela. Mas muitas vezes, é exatamente isso que está acontecendo. Se você deixar essa loucura “curtir” por muito tempo, vai ver pessoas que gosta correndo riscos enormes, e pior, é bem provável que elas tragam esse risco para perto de você.

Não é uma novidade na história humana, não faltam exemplos de negacionistas que arrebentaram com civilizações durante pandemias, fomes e desastres naturais. A imensa maioria dessas pessoas não eram malignas, apenas estavam muito mal-informadas e francamente… abandonadas pelas pessoas ao seu redor. Se algum dia eu começar a acreditar em algo bizarro que me coloca em risco, eu adoraria que alguém se esforçasse para me salvar.

Você não vai conseguir nada berrando ou ficando puto(a) da vida com gente teimando contras as medidas básicas de proteção contra a pandemia, nada além de mais estresse. E ninguém que realmente entende o que está acontecendo no Brasil agora tem espaço para mais estresse. Trate feito criança se precisar, manipule se for o caso, apele para sentimentos, apele para a humanidade.

As aglomerações são criadas por gente em negação sobre o mal que está causando para os outros e por politização incoerente. Trate o primeiro e ignore o segundo. Sempre com calma, sempre evitando o ataque. Se você perder a cabeça uma vez, vai ter que começar do zero na próxima. Pense nisso antes de começar a fazer, deixe a mente preparada. É um tratamento para negacionismo que só quem está tranquilo pode aplicar.

E boa sorte!

Para dizer que desistiu faz tempo, para dizer que conhece todas as pessoas sugeridas no texto, ou mesmo para dizer que vive sozinho(a) e quer que o mundo se exploda: somir@desfavor.com

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Comments (18)

  • É um país de kamikazes, acabei de crer. Né só o presidente q é louco não! Congresso (morreram três senadores já), população, judiciário, exercito e policia – até médicos!! – todos vivendo uma realidade paralela. E isso não iniciou na pandemia não, há tempos o Brasil enlouqueceu.

  • Na real, podem até trancar o máximo, fazer os pequenos empresários fecharem as portas que não vai adiantar. Os bailes das favelas não param, as festas clandestinas, inclusive dos riquinhos não param, a cracolandia não para. Então a única saída é esperar 2, 3 anos até vacinar toda essa boiada, enquanto isso, continuem enxugando gelo!

  • O governo te trancou em casa, pegou o seu dinheiro pra fazer hospital, não fez, roubou tudo, e agora ainda põe toda a culpa do colapso em você.

    • E é tudo culpa do governo, né?
      Qualquer semelhança com os idiotas que saem chamando o Bolsonaro de genocida não é mera coincidência.
      Em tempo, o Felipe Neto arrisca de ir fazer companhia pro dePUTAdo Daniel Silveira detrás das grades e se for, bem, fez por merecer.
      Acho é pouco pra esse imbecil.

      • agora ainda põe TODA a culpa do colapso em você.

        Todos têm uma parcela de culpa, quem não tomou as precauções, quem desviou o dinheiro destinado à saúde. Mas o mesmo político que roubou o dinheiro quer jogar toda a culpa no povo.

        Aprenda a ler.

        • Olha, não vejo o pessoal colocando a culpa nas pessoas pelo insucesso das medidas no sentido de tentar conter a PANDEMIA fora da bolha do desfavor.
          Eu vejo muito mais gente vilanizando o Bolsonaro, um Dória ou outra liderança local pelo insucesso das medidas.
          Se quiserem, posso até fazer um texto sobre isso pra ser postado no desfavor convidado falando sobre todos os problemas aí e como eles poderiam ser contornados.

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