Calças curtas.

Posso estar acompanhando os sites de notícias errados, mas me parece que todo dia aparece uma nova polêmica com alguém reclamando do tamanho das roupas de uma mulher e o caso viralizando nas redes sociais. Pelo visto, estamos passando por uma nova revolução no vestuário feminino… ou… será que não?

Moda definitivamente não é o meu forte. Como muitas outras pessoas sem grande interesse pelas variações de cortes e cores dos panos que vestimos sobre nossos corpos, no máximo eu percebo mudanças no padrão de vestimenta das pessoas pelo volume mesmo: eventualmente você vê tantos exemplos que começa a notar que algo mudou.

Eu vivo dizendo que moda é uma indústria estúpida, mas tenho plena consciência que todo mundo tem direito aos seus interesses estúpidos, eu mesmo tenho vários. Ninguém é imune. Nas minhas décadas de vida, já vi estilos de roupas mudando bastante, e provavelmente sem ter muita consciência disso, fui me adaptando também.

A discussão relativa às mulheres mostrando mais e mais pele nas roupas que vestem vem de muito longe, e francamente, sempre foi uma bobagem. Essa onda de pudor excessivo com a nudez humana foi um longo ciclo baseado em dogmas das religiões monoteístas que finalmente começaram a ceder um pouco no século passado. As indicações que temos da história humana antes dessas religiões infectarem a mente humana eram de povos que se sentiam muito mais à vontade na forma de se vestir.

A patrulha da vestimenta feminina atacou com força em vários momentos das décadas passadas, brigando com calças, minissaias e biquinis como se fossem indicadores do fim dos tempos. Não eram. Em média, ainda somos as gerações da população humana mais seguras, saudáveis e ricas de todos os tempos, de longe. E por um tempo, parecia que tínhamos entendido isso: não era a quantidade de tecido sobre as coxas ou seios de uma mulher que mudariam o funcionamento do mundo.

E por algumas décadas, o clima de guerra de conservadores contra as roupas das mulheres foi ficando mais… pacífico. E nem tão curiosamente, vimos poucas alterações no tamanho das roupas delas. Claro, ainda temos alguns movimentos aqui e acolá, especialmente na questão da liberdade de exibir os seios em praça pública, mas parece algo mais de nicho, não vejo muita mulher esperando ansiosamente pela possibilidade de fazer topless em todos os lugares onde homens podem ficar sem camisa. Provavelmente é mais algo baseado em ter o direito de fazer do que propriamente querer fazer. O que eu realmente acho justo.

Falo disso porque com exceção de países onde a religião tem muito poder político (e militar), as mulheres do mundo moderno não tem tantas restrições assim para se vestir. As leitoras que me corrijam, mas eu acredito que no dia a dia não exista muita preocupação com repressão alheia ao decidir quanto de pele vai mostrar na roupa que vai usar para sair de casa. Talvez algum bom senso envolvido no ambiente que pretende frequentar, mas em tese até homem tem que se preocupar com isso. Não é legal estar de bermuda e chinelo num evento social, ou entrar sem camisa num shopping (cidade de praia não conta porque cidade que tem praia não conta como civilização).

Mesmo morando numa cidade interiorana, eu sempre vejo mulheres bem à vontade nos dias mais quentes. Podem até atrair alguns olhares indesejados, mas nunca vi uma comoção pública do tipo com ameaça à integridade física da pessoa por causa de um shorts ou um decote. E mesmo que você pense que é por eu frequentar ambientes de classe média, saiba que em comunidades mais carentes a preocupação com esconder o corpo é muito menor ainda.

Estamos acostumados a um padrão de liberdade relativamente alto nas roupas usadas pelas mulheres há várias décadas. Então… de onde vem tantas notícias sobre pessoas tentando reprimir mulheres que para todos os efeitos, estavam vestidas como a maioria das mulheres pode se vestir hoje em dia?

Como sempre, eu tenho uma teoria. Começo a enxergar um ciclo de reforço de comportamentos com a batalha entre conservadores e progressistas que se instaurou com o excesso de plataforma criado pela internet. Por mais que existam argumentos dos dois lados, do lado conservador uma preocupação com a hiperssexualização da sociedade moderna, e do lado progressista a luta por liberdades pessoais relacionadas ao próprio corpo, quando o campo de batalha são reações negativas ao tamanho do short de uma mulher aleatória, há uma superficialidade preocupante no processo.

Quando vamos prestar atenção, estamos vendo uma briga que já tinha caducado há mais de meio século. E ela não caducou porque um dos lados estava certo e o outro errado, e sim porque no final das contas não fazia diferença nenhuma. Era para os detratores de minissaias e decotes terem entendido que esse não era o problema real da vulgarização das relações humanas, era para as defensoras entenderem que feminismo de verdade não era mostrar a bunda.

E por um tempo, parecia que todo mundo tinha entendido isso. Muito dinheiro foi feito explorando essa nova liberdade de exibição do corpo feminino, mas evidente que ninguém tinha entendido isso. Ambos os lados continuaram achando que era sobre quanto pano tinha mesmo na frente de seios e bundas. Se por muitas décadas víamos mulheres com roupas sumárias como pessoas que tinham vontade de exibir seus corpos, nos últimos anos isso começou a tomar contornos cada vez mais políticos.

Nudez deixou de ser algo natural, virou uma declaração dos seus valores como ser político. A mulher não está mais nua na foto porque se acha bonita e quer mostrar isso para o mundo, não está mais vestindo uma roupa minúscula porque está com calor e é o direito dela, não… ela está empoderando outras mulheres através da sua coragem.

E aí, quem só queria uma desculpa para cagar regra em cima dos outros sorri de orelha a orelha. Se é uma declaração política, não tem mais aquela pressão social de deixar o outro em paz. Chamar uma mulher de vadia porque está com uma roupa pequena é escrotice, mas se você pintar essa escrotice de preocupação com os rumos da sociedade moderna e o apreço pelos valores de tempos melhores, vai ter gente te apoiando. O ser humano tem essa tara por discussão e polêmica, só precisa de uma desculpa.

E quando ambos os lados percebem que podem transformar tudo numa questão política e surfar na onda da pandemia de opiniões desnecessárias da internet, vemos coisas bizarras como brigas por tamanho de roupa voltando à moda. Essa já tinha acabado. Já tínhamos partido para outra. Mas aparentemente era tão saboroso que a humanidade pediu mais.

Quem manda bilhete xingando mulher por causa de roupa ou mesmo age de forma agressiva com elas por esse motivo é gente descompensada? Sim, quase sempre são pessoas com histórico de barracos constantes ou mesmo problemas mentais, mas o perigo é a quantidade de apoiadores que essas pessoas vão conquistando. Pessoas que provavelmente nem ligam tanto assim pra quanta coxa está de fora, mas se lembram de toda aquela história de empoderamento com foto de peito de fora no Instagram. E tudo o que vem junto nesse pacote.

E qual é a resposta? Marcha das vadias pra baixo. Não é sobre a liberdade de se vestir como quiser, é pela opinião política expressada pelas roupas vestidas. Mas, assim como as roupas, as opinião também são mero acessório na moda que a pessoa está seguindo. Posicionamento político como se fosse um penteado. Te dá mais curtidas na rede social, dependendo do quanto gosta quem está te vendo.

A vaidade não está nem mais na roupa, e sim na reação que ela gera nesse ambiente de divisão. Porque se formos realistas mesmo, a discussão mais honesta sobre quanta roupa uma mulher deve ou não deve usar já está velha e desgastada. Eu duvido muito que as pessoas tenham mudado tanto nesses últimos anos, de um saudável desinteresse pelas posições políticas de peças de roupa para o atual dramalhão envolvido.

Eu gostaria de escrever um texto aqui malhando a volta do puritanismo, mas esse nem é o caso. São apenas pessoas se aproveitando de que tudo gera polêmica na rede social para exibir suas opiniões-acessórios e seguir a moda que acham mais vantajosa. Mandar bilhete para mulher aleatória reclamando da roupa dela é só o decote do conservador. Exibir esse bilhete na internet para receber apoio nada mais é do que a saia curta do progressista.

O mundo onde essa discussão existia de verdade já acabou (mesmo que alguns países – especialmente os muçulmanos – ainda estejam na Idade das Trevas nesse tema). Não deixa de ser uma moda: algo que foi recuperado do passado, mesmo que não fizesse sentido, só para que algumas pessoas se sintam melhores com a aparência que projetam.

E como eu já disse antes, moda não é o meu forte.

Para dizer que acha que tem limites (ok, mas é problema seu), para dizer que estou culpando a vítima (nem leu, né?), ou mesmo para dizer que as coisas eram melhores no tempo que você nem estava vivo: somir@desfavor.com

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Comments (18)

  • Uma mulher vestida com simplicidade e beleza eh muito mais bonito de se olhar que uma mulher praticamente desnuda andando em qualquer lugar do planeta.
    Mulher com calcinha enfiada no rêgo, com a pata de camelo aparecendo, os seios com as auréolas quase aparecendo, gente, vamos ter bom senso. É ridículo sim. Chama a atenção pois se tornou vulgar, nada tendo a ver com sexi. E as calças jeans toda estropiadas onde sobram pouco pano. Isso é moda mesmo? Desde quando essa calça comprida rasgada que sobrou só a cintura e barra é roupa para se vestir? Nossa, sinto vergonha alheia quando vejo algo tão escroto na minha frente. Visão do inferno.

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  • Na real, tem mulher que perdeu noção do limite. Se deixar o festival de shortinho enfiado na bunda e top mostrando as tetas, daqui a pouco elas vão achar bacana andar de topless e fio dental pela rua!

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    • E qual é o problema disso? Porque se for para reclamar de hiperssexualização, é melhor fechar a internet toda primeiro.

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  • Posso ter uma visão muito provinciana das coisas… me parece que quem implica com tamanho da roupa alheia passa atestado de que é um animal no cio que não consegue controlar seus instintos, ou é esposa de um. É urgente que a sociedade deixe de tolerar comportamento de animal no cio!
    Mas da forma como essas historias são divulgadas parece que eles persinalizam demais em fulano x e ciclana y ao invés de bater no comportamento de animal no cio.

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    • Antes fosse, viu? Porque pelo menos dava pra dar um remedinho e acalmar esses malucos. O problema, pelo menos pelo ângulo que eu vejo aqui, é que a pessoa acha que tem uma função social importante ao encher o saco de uma mulher aleatória por causa da roupa dela. Uma espécie de orgulho conservador criado para equilibrar o orgulho lacrador.

      Não, está só sendo uma pessoa babaca e mantendo o ciclo de estupidez vivo, quando nem precisávamos mais dessas discussões.

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  • Tudo tem que ser politizado hoje em dia! Até a forma como as pessoas se vestem! E tem gente que resolve fazer barraco com cada coisa… Só eu que acho isso ridículo?

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    • Não, temos 12 anos de postagens e muitos milhares de comentários para provar que você não está sozinho(a).

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  • Homem que reclama de saia curta tem um quê de hipócrita (ou um pé no armário). Mulher que faz esse tipo de reclamação tem inveja dos atributos da outra. O resto é “bullshit”.

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    • Tem hora e lugar pra ver mulher semi nua. Não vou gostar que uma dessas desfile perto se eu estiver com meus avós idosos, nem com meus sobrinhos crianças e muito menos com a minha noiva surtada.

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  • Quando você tem uns 15, 16 anos, você definitivamente não pode ficar fora de alguma militância.

    Com 20 a 24 anos, ainda é divertido quebrar o pau em redes sociais e lacrar/mitar no rolê.

    A partir dos 25, algo começa a mudar. Essas discussões não levam a nada e você tem contas pra pagar. Tá, você até se irrita com alguma merda que vê e se dá ao luxo de lacrar/mitar um pouquinho, mas… Está muito mais light que anos antes…

    Aos 35 em diante, percebi através de algumas pessoas, que há desinteresse intenso ou absoluto, quando não raiva ao abordar esse tipo de assunto por certa mediocridade.

    Mas claro… Existem pessoas que não saem da fase dos 15, 16 anos mesmo já tendo mais de 25 anos… Essas ou têm muito tempo livre e uma vida estável classe média-alta de condomínio (White People Problems) ou possuem rabo preso em alguma esfera (é influencer, político, etc). Nem vou falar das questões psicológicas…

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    • Abençoados os corações dos adolescentes e jovens adultos que querem mudar o mundo. Mas a fase tem que passar, justamente para ter a chance de mudar alguma coisa. Quando não passa, fica mesmo essa mediocridade.

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  • Sexo nunca deixará de ser entretenimento pro macaco médio, só muda a maneira. É aquela velha piada de que o religioso fala tanto de sexo quanto um não-religioso.

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  • Ou são fanfics de militantes de classe média procurando algo pra militar, ou é só a humanidade sendo cíclica, como sempre.
    Tenho um exemplo empírico na minha própria família: meus avós são ateus e têm algumas visões bem progressistas pro padrão da geração deles, mas a única filha deles, minha mãe, é uma das evangélicas mais fervorosas que eu já vi e teve quase 10 filhos. Pois é…
    (E antes que alguém ache que ela é uma “vítima do patriarcado” e foi hipnotizada por algum homem malvadão opressor, ela se converteu por conta própria quando era jovem e solteira, e meu pai é um evangélico bem de boa.)

    Enfim, não duvidaria que, ao invés de termos uma “japãonificação” da humanidade, com gente jovem trancada no quarto idolatrando personagens fictícios e transando com realidade virtual, teremos uma geração de gente extremamente focada na família (independente do formato) e em atividades ao ar livre.

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