Criptomoedas – Parte 2

Eu já fiz uma introdução sobre o assunto meses atrás, mas como o assunto é gigantesco, evidente que não deu para cobrir tudo. Hoje eu retorno ao tema das criptomoedas (e criptoativos em geral) com um pouco mais da realidade técnica desse mercado. Pode ser meio chato agora, mas algo me diz que num futuro próximo você vai achar isso muito mais importante…

No texto inicial, falei mais sobre o conceito de valor por trás das criptomoedas, como não deixam de ser baseadas em confiança, ou seja: só valem se outras pessoas também virem valor nela; e também como a maioria dos governos mundiais vai ter que decidir como lidar com elas, porque a cada dia que passa, mais e mais dinheiro “tradicional” entra nesses mercados digitais.

Mas dessa vez eu vou me aprofundar mais na forma como elas funcionam na prática. Isso é resultado de experiência. Como eu disse em textos anteriores, a tecnologia me deixou fascinado e eu comecei a investir desde aquela primeira onda de interesse. De forma alguma estou tentando te fazer investir em qualquer coisa, mas para ter alguma transparência: foi o primeiro curso que eu fiz sobre algum tema que me pagou para aprender.

É importante dizer que meu saldo de investimentos está positivo desde que entrei nas criptomoedas porque pode te ajudar a entender o estado mental no qual o texto é escrito: leve empolgação. Leve porque eu não fui maluco de investir mais do que poderia perder, portanto, os ganhos também não foram nada que mudasse a lógica da minha sôfrega conta bancária em tempos de pandemia. Mas, eu estou positivo na soma geral. Guarde essa informação na cabeça porque eu vou voltar nela mais tarde no texto.

Como disse no texto anterior, criptomoedas são muito mais do que a Bitcoin. A pioneira ainda é a mais valorizada, pela quantia de dinheiro que está “parado” nela, mesmo que existam outras que tenham valores unitários maiores. Todas as Bitcoins somadas valem mais de um trilhão de dólares. Eu não escrevi errado: um trilhão. Para efeitos de comparação, se fosse o PIB de um país, seria a 18ª maior economia do mundo, à frente da Suíça e da Arábia Saudita.

Só que existem outras, e são elas que mantém o mercado realmente animado com o futuro. O segundo lugar, uma moeda chamada Ethereum, tem sua capitalização de mercado chegando a meio trilhão de dólares. A Dogecoin, que eu usei como exemplo de moeda sem sentido no texto anterior, já está na faixa dos 60 bilhões de dólares! Se você achava que criptomoedas eram coisas muito alternativas ainda, está na hora de repensar: a quantidade de dinheiro que já entrou nelas é tudo, menos alternativa.

Mas isso quer dizer que o mundo enlouqueceu de vez? Um monte de gente comprando “selos virtuais” que não valem nada na prática? Bom, é aqui que eu te explico melhor o que está dá alguma razão a um mercado que soma quase 2 trilhões e meio de dólares em geral: não, criptomoedas não são apenas colecionáveis digitais. Elas podem ter funções muito práticas que tem tudo a ver com o futuro da humanidade.

Vou usar o exemplo da Ethereum: há muito tempo, quem não está inserido no mundo das criptomoedas acha que a ETH (símbolo dela) nada mais é do que um clone mais barato da Bitcoin, só que isso passa muito longe de ser verdade. A ETH e diversas outras moedas que surgiram desde então tem o objetivo de criar utilidade para as criptomoedas.

E como a ETH faz isso? Colocando a ideia original dos criadores da Bitcoin em prática. Praticamente todas as criptomoedas funcionam num sistema chamado Blockchain, que pode parecer um conceito super complexo até você descobrir o que o sistema realmente é: um banco de dados. Sim, em última instância, a ideia das criptomoedas é criar um banco de dados sem dono, onde as pessoas podem ler e escrever informações quando bem entenderem, e com a confiança que ninguém pode falsificar esses dados.

Foi esse entendimento que me fez perceber o potencial das criptomoedas e como o nosso futuro provavelmente depende delas: a ideia de criar esse banco de dados global confiável é daquelas coisas tão simples que você fica se perguntando porque não tiveram antes. Pra mim, é uma ideia do mesmo tamanho da de conectar computadores para trocar informação à distância.

Sim, estou arriscando dizer que a ideia por trás das criptomoedas é do mesmo tamanho que a ideia de criar a internet. Algo que muda o mundo sem volta e que em pouco tempo vai ser tão natural para a vida cotidiana das pessoas que vão até esquecer como o mundo era antes disso. Quase ninguém previa que a internet criaria um mercado de troca de dados e uma revolução total na comunicação humana, e agora, quase ninguém parece perceber como organizar esse mercado da informação com bancos de dados globais vai criar a maioria das novas profissões das próximas décadas.

Bom, eu finalmente entendi. E estou te avisando: a Bitcoin foi o começo de uma nova era da humanidade. E da mesma forma que acessar uma BBS nos anos 90 para mandar uma mensagem de texto por dia não era a definição do poder real da internet, a Bitcoin não é a definição do poder real da Blockchain.

Voltemos à Ethereum: a ideia dessa moeda era criar um sistema que permitisse às pessoas usar seu banco de dados sem ter ninguém realmente no controle dele. Todo mundo tem acesso ao banco de dados da ETH, e ninguém pode mudar a informação colocada pelo coleguinha sem o coleguinha concordar primeiro. O aspecto financeiro é a adaptação dessa ideia à realidade. Bancos de dados precisam de um lugar para armazenar os zeros e uns que formam suas informações, e processadores para trabalhar com esses dados.

Tudo isso demanda tempo, manutenção e eletricidade. Para incentivar as pessoas a doarem seus recursos para a utilização desse banco de dados, a ETH cobra dos seus usuários o custo de cada modificação no banco de dados e paga para quem deixa o computador rodando para fazer essas transações serem possíveis. O que as pessoas chamam de mineração. Nada mais é do que “alugar” seu computador para os outros usarem.

Percebam que por mais que se fale muito de criptomoedas como investimentos financeiros, tem algo fundamentalmente prático sobre sua utilização: tratamento de informação. E desde que a internet mudou a forma como muita gente trabalha, informação virou uma das commodities mais valiosas na humanidade, senão a mais valiosa, pessoas compram e vendem sequências de zeros e uns. Um texto que você escreve, uma imagem que você edita, uma planilha que você monta no trabalho, todos dados que são trocados por dinheiro.

E se ao invés de ficar trocando esses dados de um computador para o outro, você pudesse ter tudo realmente na nuvem? Realmente mesmo: ao contrário de serviços de dados como os da Amazon e da Microsoft, que podem deixar de funcionar, os serviços da Blockchain estão disponíveis enquanto houver um computador no mundo disposto a trabalhar. Ninguém manda na Blockchain. Ninguém pode ser censurado por conservadores ou lacradores, ninguém pode ser impedido de trabalhar por causa de uma piada na rede social…

E como todo banco de dados, o das criptomoedas como a Ethereum é só o começo. Todos os grandes sites e sistemas do mundo tem interfaces que tratam esses dados. O banco de dados não precisa entender o que você vai fazer com as informações, só tem que mantê-las disponíveis (e organizadas). Você pode criar um sistema de análise de vazamentos de gás ou um joguinho idiota de celular na Blockchain, ela só é onde os dados ficam armazenados de forma confiável.

Atualmente, existe uma disputa entre vários desses bancos de dados para ver qual se torna mais popular. A Ethereum começou antes, por isso é maior, mas isso não quer dizer que o jogo esteja definido. Até porque como é comum na história humana, a diversificação permite que várias pessoas atuem no mesmo mercado. Alguns focam no mercado de lojas virtuais, por exemplo. Outros querem colocar até mesmo o computador inteiro na Blockchain.

Eu escrevo esse texto para tentar fazer você perceber que o aspecto de especulação financeira é parte dessa revolução, mas nem de longe é sua fundação. Tem algo verdadeira disruptivo por trás das criptomoedas, e não é por insanidade coletiva que entra tanto dinheiro nelas todos os dias. Tem função. Tem lógica. Se a revolução da internet nos fez compartilhar informação, a revolução da Blockchain vai mantê-la confiável e disponível.

Excelente, então é pra pegar todo o dinheiro e colocar em criptomoedas? Evidente que não. Se alguém te dissesse há algumas décadas atrás para colocar todo seu dinheiro na AOL porque a internet seria o futuro, estaria te dando um bom e um péssimo conselho ao mesmo tempo. Blockchain é o futuro sim, mas ainda é pura especulação quais das moedas vão se tornar dominantes. Se eu soubesse qual seria o Google ou a Amazon do futuro, claro que investiria tudo o que tenho, mas isso ainda é impossível de saber.

Estou com a nítida impressão que estamos agora com as criptomoedas numa fase parecida com o começo da popularização da internet: é muito difícil saber quem serão os gigantes do futuro, mas já dá pra saber agora, como se sabia naquele tempo, que quem entender como usar a Blockchain e as criptomoedas um pouco antes da maioria vai ter oportunidades muito melhores no futuro.

E lembram que eu falei sobre uma leve empolgação minha antes no texto? O mercado está aquecido, crescendo muito rápido. Assim como a internet gerou uma bolha imensa que explodiu e demorou anos para se recuperar para virar o que é hoje, eu imagino que isso ainda vá acontecer com as criptomoedas e a tecnologia da Blockchain em geral. Eu já fiz as pazes com a ideia de que os meus lucros vão virar prejuízo em algum momento antes de estabilizarem em algo mais sólido. No mercado, tudo o que sobe, desce.

Se você tem um dinheiro que PODE PERDER e um mínimo de inclinação tecnológica, só vai e começa a fuçar para aprender. Seu “eu” daqui a 10 ou 20 anos vai se lembrar de mim e desse texto com um grande sorriso no rosto. Se você quer ganhar dinheiro rápido, vai vender drogas; mas se quer molhar os pés no que vai ser a tecnologia mais importante das próximas décadas, não tem hora melhor que agora.

Tem gente prometendo dinheiro se você entrar agora, eu não: estou prometendo experiência com algo que você vai ter que aprender mais cedo ou mais tarde.

Para dizer que só faltou eu prometer um carrão e piscina, para dizer que ainda acha que é golpe (quase tudo é golpe), ou mesmo para dizer que só quer sair da frente do computador: somir@desfavor.com

Se você encontrou algum erro na postagem, selecione o pedaço e digite Ctrl+Enter para nos avisar.

Etiquetas: , , ,

Comments (10)

  • Coisa de especulador vagabundo (pleonasmo, aliás). Uma intervenção estatal massiva seria ótima para acabar com essa palhaçada, muito embora esse esquema de pirâmide deve implodir por si próprio. Seria ótimo para arrebentar esses parasitas da “mineração” que com sua preguiça de trabalhar inflacionam absurdamente o preço de produtos de informática – não só as VGAs, ao que parece: essa idiotice já chegou até a dispositivos de armazenamento.
    No mais, parabéns por se empolgar com um sistema destinado a sustentar o crime organizado e a lavagem de dinheiro.

    • Cada vez que eu vejo um comentário como o seu, eu tenho mais certeza da minha previsão que é a próxima revolução tecnológica. Se você acha que isso é sobre especulação financeira, não entendeu nada ainda. Mas obviamente sua opinião é mais preciosa que o interesse em aprender sobre tecnologia, fique com ela e continua achando que cavalos fazem tudo o que o carro faz…

      • E o que dizer de alguém que acha que o próprio (suposto) conhecimento vai fornecer alguma vantagem perante o 1% que sempre se aproveita de todas as inovações? A não ser que faça parte dele, claro.
        No mais, nem refutou a utilização criminosa dessa maravilhosa picaretagem, ops, tecnologia.

        • Que papinho furado de barzinho de faculdade, hein? Espero que você tenha menos de 20…

          Tecnologia É a humanidade. O resto é masturbação filosófica. A tecnologia e as inovações que permitiram a humanidade ser o que é. O miserável do século XXI tem mais acesso a itens básicos para a qualidade de vida que boa parte dos ricos de séculos anteriores. Se tem uma coisa que não fica travada apenas com as elites, é tecnologia e inovação.

          E sobre refutar a utilização criminosa… você prova que sequer consegue seguir sequências lógicas básicas. Utilizam a internet para dar golpes, então a internet toda é picaretagem? Em todo lugar tem golpista, e não são eles que definem a função de alguma coisa. O que eu falar sobre a importância de aprender sobre a blockchain e como utilizá-la tem a ver com qualquer coisa que você falou?

          Sinto muito se você está estressado(a) com alguma coisa, mas chega de bater palma pra maluco dançar.

  • Estou lendo bastante sobre investimentos recentemente, e obviamente o assunto criptomoedas está muito em alta. Não apenas as oscilações monstruosas delas, mas também o fato que grandes bancos e gestoras estão montando fundos de investimento em bitcoin e outras criptomoedas. Pra quem quer se expor à valorização, mas não sabe nem por onde começar, vale olhar esses fundos, que até podem ter aportes iniciais relativamente acessíveis pra começar. Mas lembre-se: mesmo através de um fundo, tem que ter gosto por tomar riscos.

    • Eu falo mais sobre a parte de entender o que a tecnologia faz do que propriamente investir justamente por causa da loucura que é. Com certeza ainda não é o mercado financeiro para quem está pensando em guardar dinheiro para a aposentadoria… mas que eventualmente todo mundo vai acabar interagindo com a blockchain a trabalho ou diversão, isso vai.

  • “ou mesmo para dizer que só quer sair da frente do computador”
    Eu já aceitei o fato de que provavelmente serei um velhinho meio cego. E surdo também, levando em conta o tempo que passo com fones de ouvido..

    • $RID

      Eu até lançaria para fazer o povo daqui brincar e aprender, mas tudo o que mexe com dinheiro irrita muito as pessoas. Não dou um dia para alguém perder 10 centavos e começar a chamar a gente de bandido.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.


República Impopular do Desfavor - Nenhum direito reservado, nem os seus.

Relatório de erros de ortografia

O texto a seguir será enviado para nossos editores: