FAQ: Coronavírus – 26 – Sequelas

Quando falamos de uma doença nova, como é o caso da covid-19, é um tiro no escuro falar de sequelas. Com pouco mais de um ano infectando humanos, é cedo, muito cedo, para compreender o que essa doença pode fazer com o corpo humano a longo prazo.

Portanto, este texto é sobre o que se sabe até agora a respeito das sequelas deixadas pelo coronavírus, mas nada impede que o que foi concluído em tão pouco tempo seja revisto ou ampliado. Não sei em que data você vai ler isto, então, fica o aviso: se estiverem disponíveis informações novas vindas de uma fonte confiável que se sobreponham ou contradigam o que está aqui, fique com elas.

A primeira coisa que você tem que saber é que não tem sequelas apenas aqueles que tiveram uma versão grave da doença, que foram para o respirador, que ficaram entre a vida e a morte. Qualquer pessoa que teve covid pode ter sequelas.

Se considerarmos problemas físicos e psicológicos, uma a cada três pessoas que teve coronavírus apresenta ou apresentará sequelas em algum momento. Mesmo aqueles que tiveram casos leves ou até assintomáticos. É um número muito alto, certo?

O assunto deveria ser mais falado. Mas, ainda estamos em uma situação calamitosa, infelizmente o foco agora é salvar vidas de quem adoeceu e tentar prevenir novos casos. Não é por não ser muito falado que não é real, são as circunstâncias que impõe outras prioridades.

Outro dado importante é que nem sempre as sequelas aparecem logo depois da “cura”. A pessoa pode ficar bem, pode levar uma vida normal e, meses depois, começar a apresentar sequelas, que podem aparecer de forma repentina ou de forma gradual, estabilizando-se ou agravando-se com o tempo.

Ainda não se sabe o que faz com que algumas pessoas tenham sequelas e outras não, nem o que faz com que algumas sequelas sejam muito mais graves e incapacitantes do que as outras. Também não se sabe quais sequelas terão natureza temporária (ficarão por um tempo e depois passarão) e quais serão permanentes (a pessoas vai ter que conviver com elas para o resto da vida pois, mesmo com tratamentos, elas são irreversíveis).

Então, esse papo de “recuperados” do covid, número que os governos adoram ostentar, deve ser visto com ressalvas. A pessoa pode não estar mais com covid-19, mas ela pode sim continuar muito doente, ou adoecer depois, inclusive muitos meses depois.

De onde vêm essas sequelas ainda é nebuloso. Se acredita que seja uma resposta inflamatória do corpo a vestígios do coronavírus ou uma hipersensibilidade que dispara novas respostas inflamatórias mesmo quando não há perigo algum. Porém, isso não está confirmado.

O que sabe: estima-se que as sequelas do covid-19 serão tão comuns e tão graves que afetarão a saúde do brasileiro por, pelo menos uma década. O sistema de saúde precisa começar a levar essas pessoas em conta, caso contrário pode não suportar a demanda. Estamos prestes a ver pessoas que necessitarão de tratamentos e internações para tentar manejar as sequelas.

Até a terminologia para discutir o assunto está meio bagunçada. Você vai ler diferentes termos na mídia, nem sempre com o significado correto. Você vai escutar se referirem às sequelas do coronavírus com nomes inclusive inventados, que não existem.

Um rápido guia: quando os sintomas da doença se prolongam mesmo após o paciente estar “curado” dela (não há mais vírus presente no organismo), se costuma chamar de “Covid Longa” ou “Covid Persistente”. Mas, quando o paciente chegou a se “curar”, se sentiu melhor, levava uma vida normal, mas apareceu uma sequela que lhe causou alguma incapacidade, se costuma chamar de “Covid Pós-Aguda” ou “Síndrome Pós-Covid”.

Você também vai encontrar quem diga que pacientes que ficaram internados na UTI tem mais chances de ter sequelas por causa da covid. Não é bem assim.

Ficar na UTI, ficar em um respirador, são coisas que, por si só, também implicam em um sério risco de sequelas, que podem acontecer se a internação foi por causa de covid ou por qualquer outro motivo. Então, não devemos confundir as sequelas que uma internação gera, das sequelas que uma doença gera.

Existirão sequelas que uma pessoa que sofreu um acidente de carro e ficou meses na UTI também pode ter, que são da internação. Existirão sequelas que quem nunca pisou em uma UTI pode ter, que são da covid. Existirá um mix disso, criando, talvez, uma terceira forma de sequela. Estamos começando a aprender e entender.

Também é comum que quando se fale em sequelas de covid se ache que elas são sinônimo de perda de olfato ou fadiga, mas o buraco é muito mais embaixo. Existem sequelas graves, que deixam a pessoa incapacitada para o resto da vida, que demandam cuidados permanentes, tirando a autonomia da pessoa (principalmente sequelas neurológicas).

Não é brincadeira, não dá para comemorar número de “recuperados” ou ficar dizendo “eu venci a covid”. Seis meses depois a pessoa pode morrer, acordar cega, ou ter sérios problemas cognitivos que demandem cuidados especiais para o resto da vida. Não dá para cantar vitória simplesmente por não ter mais vírus no organismo. Pode ser que a pessoa nunca tenha nenhuma sequela? Claro! Mas pode ser que tenha.

E não digo isso para te assustar, e sim para alertar: não cantem vitória antes de tempo, estejam atentos aos sinais do seu corpo. Quando antes se perceber o problema, mais fácil de diagnosticar e tratar.

Eu sei que o assunto ainda não é muito discutido, pois a doença em si, o colapso no sistema de saúde e as mortes que ela vem provocando são um elefante branco no meio da sala, mas é crescente o número de “recuperados” que não conseguem retomar seu trabalho, que não conseguem levar uma vida normal, que não conseguem nem amarrar os próprios sapatos.

E, um dado surpreendente: problemas cardíacos e pulmonares são mais comuns em quem teve casos graves, mas problemas neurológicos, até mesmo os mais graves e incapacitantes, foram muito observados em pessoas que tiveram casos leves. Então, não estabeleça limitações: “eu tive um caso leve, não pode acontecer nenhuma sequela neurológica”. Pode sim. Tomara que não aconteça. Mas pode.

Repito: a intenção não é assustar, a intenção é alertar quem está todo pimpão alardeando que “venceu a covid”. Fique alerta, fique esperto, podem surgir sintomas e sequelas muitos meses depois e, se você não estiver prestando atenção, pode só perceber quando a coisa ficar muito séria e talvez irreversível. Mas, se você estiver atento, pode detectar desde o princípio e terá mais chances de cura/tratamento/reversão do que quer que esteja aparecendo.

E, mais uma informação amarga e dura de engolir, estejam atentos às crianças também, pois elas não têm a capacidade de zelar pela própria saúde. Sequelas forma diagnosticadas em crianças também e, quanto antes isso for percebido pelos pais, maiores as chances de um desfecho positivo. Nem sempre a criança percebe ou consegue dar nome ao que a incomoda. Observem. Observem com atenção.

E não caia nessa de que “criança não pega” a doença. Podemos até discutir se eles são mais propagadores (tem menos chances de contaminar os outros), mas eles adoecem sim. Só no Brasil morrem, em média, cinco crianças por dia de covid. Se o médico relutar em acreditar que a criança teve covid, troque de médico.

Muito cuidado também com médicos que atribuem tudo ao “efeito psicológico da pandemia”. Os “médicos do psicossomático” sempre existiram: aqueles que acham que tudo que eles não conseguem diagnosticar é psicológico, e agora eles têm essa nova versão, de culpar a pandemia e suas restrições pr problemas de saúde.

Obviamente confinamento pode gerar sintomas, mas as sequelas físicas, decorrentes do vírus, também são reais. Nem tudo é consequência de escola fechada, sedentarismo ou confinamento. Algumas coisas são sim sequela do coronavírus. Hoje não são muito faladas, mas em breve serão.

Para finalizar, não se apegue às sequelas “mais comuns” divulgadas pela mídia. Nem sempre elas correspondem à realidade. Se fala muito na perda de olfato, a grande estrela das sequelas, mas ela não é a mais comum. Só para citar um exemplo, a queda de cabelo é mais comum do que a perda de olfato.

A julgar pela demanda, em breve teremos médicos com algum tipo de especialização em covid e suas sequelas. Até lá, cuidem de vocês e dos seus, pois está todo mundo perdido e todo mundo no escuro. Se você detectar algo que pode ser uma sequela de covid, investigue e busque tratamento, mesmo que para isso tenha que procurar vários médicos.

Por uma questão estratégica, deixei as possíveis sequelas todas para o final, assim, se algum de vocês achar que pode ser uma leitura muito assustadora que vá fazer mais mal do que bem, ou se acharem que a informação pode sugestioná-los e fazer com que sintam alguma dessas sequelas, não leiam. Finalizem o texto aqui.


As sequelas não estão por ordem de prevalência, estão por ordem aleatória. Tentei explicar o que são cada uma das sequelas (as que não são de conhecimento público), mas, com são muitas, a explicação ficou bem resumida. Espero que um dia este texto ajude alguém a identificar, tratar e resolver uma sequela decorrente do coronavírus.

Possíveis sequelas psicológicas: Transtorno de Ansiedade (não é um mero se sentir ansioso, é um problema bem mais grave e limitante), Alterações de Humor (não é uma simples oscilação de humor, em alguns casos acarreta uma mudança tão significativa que até os mais próximos dizem não reconhecer o comportamento da pessoa), Depressão, Dificuldade para Dormir, Síndrome do Pânico.

Possíveis sequelas neurológicas: AVC (vulgo “derrame”), Hemorragia Cerebral (seu cérebro começa a sangrar e pode deixar sequelas graves, como cegueira ou surdez), Demência (mesmo em pessoas jovens), Confusão Mental (a pessoa fica permanentemente desorientada), Anosmia (perda do olfato), Ageusia (perda do paladar), Dores de Cabeça Crônicas (dores de cabeça constantes que não respondem a tratamento), Dificuldades Cognitivas (a pessoa não compreende o que lhe é explicado), Delírios (a pessoa vê coisas que não estão lá), Síndrome de Guillain-Barré (fraqueza e formigamento muscular incapacitante).

Possíveis sequelas cardiorrespiratórias: Redução da Capacidade Cardiovascular (não consegue correr, não consegue fazer esforço), Fadiga (a pessoa está permanentemente cansada), Fibrose Pulmonar (parte do pulmão fica comprometida, portanto, a pessoa perde capacidade respiratória), Coágulos Sanguíneos (o sangue coagula sem motivo e esses coágulos podem se soltar, viajar pela corrente sanguínea e comprometer o fluxo de sangue pelo corpo, causando até morte), Embolia Pulmonar (obstrução de artéria do Pulmão), Ataque Cardíaco, Trombose (formação de um coágulo em uma veia), Cardiomiopatia de Takotsubo (Síndrome do Coração Partido, temos um texto só sobre o assunto), Miocardite (inflamação de músculo do coração), Arritmia Cardíaca (o coração bate fora do ritmo correto), Choque Cardiogênico (o coração não consegue bombear sangue suficiente), Isquemia (não oxigenação de alguma parte do corpo, que leva à morte das células da região), Cor Pulmonale Agudo (insuficiência cardíaca por mau funcionamento do pulmão), Hipoxemia (baixa absorção de oxigênio pelo pulmão).

Possíveis sequelas gastrointestinais: Diarreia, Vômito, Dor Abdominal.

Possíveis sequelas dermatológicas: Manchas na Pele, Escurecimento da Pele, Eritema (vermelhidão), Urticária (coceira).

Ainda existem outras sequelas de cunho geral, as mais comuns são: Desenvolvimento de Doenças Autoimunes (o corpo começa a atacar o próprio corpo), Insuficiência Renal Aguda (os rins não conseguem funcionar de forma adequada), Lesões Hepáticas (o fígado fica comprometido), Fadiga Crônica (mal-estar no organismo, dificuldades para dormir, dores musculares, dores nas articulações, dores de cabeça, problemas para a concentração, palpitações e problemas de memória), Hiperglicemia (níveis altos de açúcar no sangue), Diabetes, Cetoacidose Diabética (descompensamento no organismo causado pelos altos índices de glicose), Perda de Cabelo (chegando inclusive a ficar careca), Conjuntivite (inflamação e vermelhidão nos olhos), Congestão Nasal (nariz entupido).

Repito: ainda estamos no começo dessa jornada, de entender o que o vírus faz com o nosso corpo. Novas sequelas ou sintomas vão surgir pelo caminho. Atualmente, os esforços da medicina são em salvar vidas, o foco de acompanhamento de doentes virá depois, e só então vamos entender melhor as consequências dela.

Portanto, se você teve covid e está sentindo algum desconforto recorrente que não esteja listado aqui, ainda assim, procure um médico, pois pode sim ser uma sequela da doença.

Como saber quando é preciso procurar um médico? Se o desconforto está atrapalhando a sua vida. Se está de alguma forma comprometendo seu rendimento ou qualidade de vida, sim, procure um médico, mesmo que em um primeiro momento não pareça nada grave.

Já deveríamos estar olhando para as sequelas, falando das sequelas e cuidando com muita atenção das pessoas com sequelas. Infelizmente a situação ainda é calamitosa e isso não está sendo feito da melhor forma possível. Resta torcer para que não se demore muito para começar a focar nesse problema.

Para dizer que meu objetivo parece ser desgraçar sua cabeça, para dizer tem que mudar o “Placar da Vida” para o “Placar das Sequelas” ou ainda para dizer que não aguenta mais covid nem o Desfavor: sally@desfavor.com

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Comments (4)

  • “(…) Ou ainda para dizer que não aguenta mais covid nem o Desfavor”. Imagino o quanto você deve estar triste, desgastada, cansada, estressada… Nem eu nem ninguém aguentamos mais ouvir falar de covid, Sally, mas, se nós quisermos sobreviver a esta pandemia, não tem outro jeito: temos que nos manter atentos e o mais informados possível sobre essa desgraça que ainda nos assola. Por outro lado, eu não posso de forma nenhuma dizer que “não aguento mais o Desfavor”, ainda mais agora, em que é tão necessário. E ainda mais com a imprensa de merda que temos…

    • Nossa intenção é ser o filtro, para que vocês não sejam expostos ao bombardeio de informações negativas, repassando apenas o essencial para que possam se manter seguros. Mas, mesmo assim, ainda somos emissários de más notícias…

  • Vou confessar que achei a leitura do texto um tanto cansativa, afinal formam vários parágrafos esperando pelas sequelas e nada…
    Mas enfim, detalhes de escrita à parte, confesso que fico até com medo agora de um simples nariz entupido que nunca passa, mesmo que atribua a isso meu problema de rinite é desvio de septo que sempre me persegue.

    • A intenção é primeiro avisar que as sequelas existem, que elas são graves e que podem acometer qualquer um, que são coisas pouco faladas.
      A decisão de deixar elas para final é para tentar não dar gatilho em quem está com medo.
      Fica tranquilo, um nariz entupido não é capaz de te causar um mal significativo. Mas fico de olho, se aparecerem outras coisas.

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