Viagens.

Dois átomos de hidrogênio se encontram em altíssima velocidade no núcleo do Sol. Estavam por lá há bilhões de anos, debatendo-se uns contra os outros o tempo todo, mas nunca com força suficiente para o encontro ser inescapável. Dessa vez é. O impacto é tão poderoso e preciso que seus núcleos se fundem, ambos se tornam um átomo de hélio. Mas nem toda a energia que carregavam se mantém ali. Uma parte é expelida na forma de um fóton.

Esse fóton corre na única velocidade que conhece: a velocidade da luz. A direção é resultado das forças presentes na colisão dos dois átomos de hidrogênio. Mas no núcleo de uma estrela, é muito difícil não ser interrompido: com uma quantidade imensa de matéria comprimida num espaço relativamente pequeno (para as medidas do universo), o fóton não consegue se mover um centímetro que seja sem bater em alguma coisa.

Mesmo sem ter massa, o fóton ainda interage com muita coisa: é uma partícula fundamental do campo eletromagnético. Qualquer coisa dentro desse campo pode interagir com ele. E tudo o que conhecemos responde a essa definição. Só chamamos o resto de “escuro”, como em matéria e energia escuras, porque nem mesmo a luz é capaz de tocá-los. E dentro do Sol, não falta matéria mais tradicional.

Por muitos milênios, esse fóton quica por entre os incontáveis átomos do núcleo solar, até que finalmente, num golpe de sorte, sua trajetória o leva para uma área menos densa da estrela. Cada rebatida em outras partículas demora mais e mais para acontecer. E nesse meio tempo, o fóton vai se aproximando mais e mais da fronteira entre estrela e espaço. Mas não é um caminho simples: longe disso. O Sol é turbulento e seu campo magnético é imprevisível. Os caminhos que providencia podem levar a qualquer lugar.

O fóton segue o fluxo de ejeção coronária, expelindo uma quantidade imensa de matéria no espaço frio ao redor. Finalmente, ele pode disparar sem impedimentos. Nada além do vácuo espacial no caminho. Vácuo em termos, é claro, alguma coisa sempre tem em cada cantinho do espaço, mas são elementos tão separados uns dos outros que a chance do fóton bater em alguma coisa é quase nula.

Quase. Sua trajetória o levaria para fora do Sistema Solar, e seriam apenas algumas horas para percorrer essa distância gigantesca. Desimpedido, o fóton demoraria umas 14 horas para percorrer 100 vezes a distância entre Terra e Sol, alcançando o fim da influência solar e entrando para o ambiente galáctico. Mas logo na órbita de Mercúrio, um encontro quase impossível acontece: o fóton se choca com uma rara molécula de água expelida pelo planeta há sabe-se lá quantos milhões de anos.

Mercúrio ainda tem um pouco de água, mesmo sendo bombardeado pela radiação solar, provavelmente restos de cometas que se chocaram com ele em algum momento de sua história. Qualquer dessas moléculas que se aventure para fora de uma das crateras eternamente escondidas da luz solar é rapidamente expulsa do planeta pelo vento solar, composto de inúmeras partículas expelidas pela estrela próxima. Uma delas calhou de estar bem no caminho do fóton. A colisão não é violenta ao ponto de alterar as características de nenhum dos dois, mas é o suficiente para mudar a trajetória do fóton. A luz muda de direção na água, mesmo que seja apenas uma molécula.

E a nova trajetória não é mais para fora do Sistema Solar. O fóton agora tem um encontro marcado com Saturno. Em menos de uma hora, ele já está atravessando os anéis do distante planeta, evitando cada uma das partículas de poeira e pequenos objetos que compõem a formação ao redor do gigante gasoso. Por mais que os anéis pareçam densos, na verdade você provavelmente veria mais espaço vazio do que qualquer outra coisa se estivesse entre eles. Só mesmo com muita sorte (ou azar) para acertar alguma coisa ali.

Passando pelos anéis, são apenas segundos para chegar à atmosfera saturniana. Assim como Júpiter, Saturno é basicamente hidrogênio com alguns traços de outras substâncias. Na verdade, os gigantes gasosos são gigantes por esse motivo: foram os primeiros a ter capacidade de absorver a maior parte da matéria que o Sol deixou de fazer no começo do Sistema Solar. No universo, basicamente tudo é hidrogênio ou hélio, o resto nem seria estatisticamente relevante não fossem as formas de vida para categorizá-las como algo importante.

O fóton atravessa milhares de quilômetros na atmosfera de Saturno antes de encontrar um cenário parecido com o da estrela da qual se originou: os átomos de hidrogênio e hélio começam a ficar cada vez mais próximos uns dos outros na medida que se aproximam do centro do planeta. Na verdade, até mudam de estado: começam a agir mais como líquido do que como gás. Talvez lá na parte interna mesmo de Saturno, estejam em estado sólido. Mas esse fóton não vai saber essa informação.

Logo no primeiro quilômetro de hidrogênio líquido, mais um encontro, dessa vez direto. Um átomo do elemento mais abundante reflete o fóton de volta para onde veio. E com a mesma pressa que chegou, ele vai embora. São poucos segundos de novo até Saturno começar a ficar pequeno no retrovisor. E pouco mais de uma hora até o fóton ter outra coisa no caminho: um planeta azulado.

Isso é, parte dele. A outra é quase tão escura quanto o resto do universo, apenas com algumas luzes em pontos específicos. O planeta Terra gira, mas o ângulo de aproximação do fóton garante que onde quer que caia, vai cair de noite. Novamente, são poucos segundos de viagem entre o limite da influência gravitacional do planeta e sua superfície. Mal dá tempo de notar como a atmosfera fica densa ou como o campo magnético tenta desviar seu caminho. Apenas uma colisão de “raspão” nesse meio tempo. Uma molécula de ozônio. Milésimos de segundo depois, ela é destruída por uma partícula altamente energética que pode ter vindo do Sol ou qualquer outra estrela.

Não há tempo para pensar nisso. O fóton não demora mais que uma fração de segundo para acertar em cheio o espelho de um telescópio amador numa pequena cidade. Ele é guiado para uma área limitada, junto com inúmeros outros fótons vindos mais ou menos da mesma direção. Unidos por uma lente, o fóton e seus colegas fundamentais rebatem mais uma vez num espelho e adentram o olho direito de um astrônomo amador. Lá, encontram mais uma lente, mas essa é orgânica. O fóton é enviado até o fundo do órgão, onde tem um encontro de meros instantes com uma célula sensível à luz. Dali ele é refletido de volta, saindo do olho com a mesma velocidade que entrou. Para onde ele vai agora não sabemos.

Mas a célula fotossensível registrou sua passagem. O sinal é transmitido para o cérebro do astrônomo, que analisa as características do impacto recebido e forma uma imagem compreensível para seu dono. Importante: a imagem é invertida, porque chega “ao contrário” no olho. A mente do ser humano interpreta livremente aquele fenômeno natural para dar significados compreensíveis.

“Querida, vem ver, as nuvens passaram e dá pra ver Saturno!”.

Para dizer que nada faz esse assunto não ser chato, para dizer que eu estou poético hoje, ou mesmo para dizer que esse texto é ofensivo para cegos: somir@desfavor.com

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Comments (4)

    • Foi um jeito dramático de dizer que toda vez que você olha pro céu de noite e vê o brilho de uma estrela, tem literalmente algo que tocou nela milhares, milhões ou bilhões de anos atrás e agora está tocando você.

      Mas sem viadagem, é claro.

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  • Bela maneira de falar sobre fenômenos astrofísicos, Somir. Assim como o espaço, o tempo também é relativo. Tudo depende do referencial do observador. Algo que a olho nu dá a impressão de ser sólido e impenetrável é, quando visto “bem mais de perto”, formado basicamente de muito espaço vazio. Distâncias inimaginavelmente gigantescas são percorridas em instantes caso o trajeto seja feito na velocidade da luz. E o que parece ser “uma eternidade” para nós é, na grande escala do universo, nada mais do que um a ínfima fração de tempo.

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    • É quase como se a realidade fosse relativa, não? A cada vez que o fóton bate em alguma coisa, tem muito mais para aprender.

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