FAQ: Coronavírus – 46

Existe forma de fazer uma Ceia de Natal 100% segura?

Não. 100% seguro ninguém está. Mas, se você quer saber qual é a máxima segurança que se pode ter, seria fazer a Ceia de Natal restrita às pessoas com as quais você vive, sem trazer pessoas de fora.

Nesta fase da pandemia, temos o seguinte quadro: muitas pessoas vacinadas e alguns grupos não vacinados. É muito bom ter muita gente vacinada, mas, ao mesmo tempo, dá uma sensação de segurança ao vacinado, que começa a se descuidar mais.

Como vocês já estão cansados de saber, essa vacina é para o vacinado não morrer, não para conter o contágio do vírus, portanto, pessoas vacinadas podem pegar covid-19 e, ainda que estejam sem sintomas, podem contaminar outras pessoas – principalmente as não vacinadas.

Ceia de Natal normalmente reúne diferentes gerações, pessoas de todas as idades. Então, você pode ter gente vacinada que relaxou um pouco nos cuidados convivendo com grupos de não vacinados, como por exemplo, crianças. Isso não é legal. Isso é sim um risco. Criança pode pegar covid, criança pode adoecer seriamente por covid, criança pode morrer de covid, criança pode ficar com sequelas por covid.

“Mas Sally, e se eu pedir para minha prima não levar os filhos na Ceia?”. Não vejo que mãe vá querer ficar longe dos filhos no Natal, mas, ainda assim, não adianta nada, pois se sua prima for, depois ela volta para casa e convive com os filhos: ela pode pegar e passar para as crianças. Então, não compre briga com sua prima pedindo uma coisa dessas, pois não vai adiantar.

“Mas Sally, quais são as chances reais de crianças pegarem?”. Não sabemos. Só sabemos que a Ômicron é muito mais contagiosa do que se esperava. Estudos do Reino Unido indicam que a Ômicron está dobrando o número de casos a cada dois dias. Não sei se vocês entendem bem o que isso quer dizer.

A cada dois dias, o número de casos que existe dobra. Não é que tem mais dois casos a cada dois dias. Os números que já existem dobram. Façam a conta mental e vejam a que números se chega depois de três semanas. A Ômicron é hoje o vírus estudado mais contagioso com o qual o ser humano já conviveu. Até aqui, no pior momento da pandemia antes dessa nova variante, o máximo que vimos foi o número de casos dobrando a cada cinco dias.

“Mas Sally, agora tem vacina, então, mesmo tão transmissível não vai ser tão ruim, né?”. Para quem tem proteção vacinal, ou seja, para quem está com três doses de vacina no braço, não. Para quem está com duas (veja próxima resposta) menos e, para quem não está vacinado, nem com batuques e orações há proteção.

Então, diante desse cenário, que ainda tem muitas incertezas, eu não arriscaria reunir idosos e crianças com pessoas que saem na rua se não houvesse uma terceira dose de vacina em todos.


Uma Ceia de Natal em uma família sem crianças é segura?

Depende. Está todo mundo com a terceira dose (a chamada “dose de reforço) no braço? Se sim, eu considero a Ceia segura. Envolve algum tipo de risco, mas, até onde sabemos é baixo. Três doses barram com relativa segurança a transmissão, impedindo de forma relativamente segura que a pessoa pegue, adoeça, morra ou espalhe.

Mas, como nem 15% dos brasileiros receberam dose de reforço até aqui, acho muito improvável que em uma família, pessoas de diferentes idades estejam todas com 3 doses de vacina aplicadas. Se não está todo mundo com a terceira dose tomada, eu não considero seguro.

Mas, como “seguro” e um conceito subjetivo, vou te passar os dados que temos até aqui e você faz o seu próprio julgamento, ok?

Antes da Ômicron, uma pessoa vacinada com duas doses de Pfizer, que é uma das vacinas que apresentava maior eficácia, tinha 80% de proteção contra infecção, isto é, a cada 100 vacinados, apenas 20 eram infectados pelo coronavírus. Legal, né? As probabilidades a favor. Pois é, agora, com a Ômicron, mudou. Atualmente, a proteção é de apenas 30%, ou seja, de cada 100 vacinados, 70 poderão pegar a doença. As probabilidade não estão mais a favor. Agora, um vacinado com duas doses tem mais chances de pegar a doença do que de não pegar.

Isso não quer dizer que quem pegue a doença vá ter um caso grave ou precisar de internação. Quando falamos de proteção contra internação hospitalar os números são outros.

Antes da Ômicron, duas doses de Pfizer geravam 90% de proteção contra casos graves e internações hospitalares, ou seja, a cada 100 vacinados, apenas 10 desenvolviam uma versão grave da doença. Hoje, com duas doses da Pfizer as chances de casos graves e hospitalização são de 70%, ou seja, a cada 100 vacinados, 30 poderão desenvolver um caso graves.

Então, resumindo o que se sabe até aqui: com duas doses você tem muito mais chances de pegar a doença e só um pouquinho mais de chances de ter uma versão grave dela.

“Mas Sally, se ainda tem boa proteção contra hospitalização e morte, por qual motivo você não acha seguro reunir em Ceia de Natal?”. Por existem grupos que ainda não tomaram nenhuma dose da vacina (como as crianças) e um grande grupo que só tem duas doses. A sua Ceia pode ser só de adultos, mas dificilmente todos eles tomaram a terceira dose. Além disso, acho muito improvável que você não conviva, fora da Ceia, com nenhuma criança (ou com alguém que conviva com uma criança) ou com pessoas só com duas doses.

Mesmo que você não morra, você vai fazer o vírus circular e facilitar sua chegada em quem ainda não está protegido (sem contar que quanto mais o vírus circula, mais chances de mutar). Então, por uma questão de consciência, de querer parar essa porcaria de pandemia, de me colocar no lugar dos outros, eu não acho seguro.

Com o plus que temos esses dados da Pfizer, uma vacina que se mostrou muito segura e eficaz, mas não temos dados sobre outras vacinas. Pode ser que no caso de outras vacinas o resultado seja muito pior. Não sabemos. Quer pagar para ver?


Qual é o risco de uma Ceia de Natal com idosos com duas doses de vacina e com idosos com três doses de vacina?

Não sei. E não acho que ninguém possa te dar essa resposta, pois além de depender da vacina que a pessoa tomou, de quanto tempo se passou dessa vacina e da saúde do idoso, também depende de um fator que nós não temos como aferir com facilidade: o quanto o sistema imune daquele idoso ainda funciona.

Idosos são sempre um risco, pois por mais que tenham 500 doses de vacina, seu sistema imune pode não funcionar tão bem quanto se espera e eles podem formar uma proteção mais “fraca”. Não adianta dar a melhor vacina, da melhor forma, a um organismo que, apesar de reconhecê-la, já não consegue formar uma boa defesa contra o vírus.

Pense da seguinte forma: você quer adquirir cães de guarda para proteger a sua casa. Vai no melhor canil, compra os melhores filhotes, da melhor raça, contrata o melhor adestrador, dá a melhor ração para alimentar os cães. Durante anos eles serão uma belíssima proteção para sua casa. Mas, quando estes cães tiverem 15 anos, estiverem meio surdos, tiverem dores nas pernas para correr, alguns dentes caírem, será que eles serão eficientes para te proteger? Adianta dar a melhor ração para um cão nesse estado?

Nosso sistema imune envelhece com a gente, e pode perder algo de sua capacidade de nos proteger por conta disso. O corpo todo funciona de forma menos eficiente com o passar dos anos, é um processo normal e esperado. Você não sabe o quanto a idade o afetou.

E, até aqui, não temos como “medir” o quanto decaiu a eficiência do nosso sistema imune. Portanto, idosos vão descobrir o quanto seu corpo consegue protegê-los só na hora em que adoecem. E pode vir uma surpresa desagradável, como aconteceu com idosos famosos vacinados que faleceram.

Então, eu repito a pergunta: vale o risco? Essa resposta você só vai ter quando o idoso adoecer. Vale o risco? É realmente tão importante essa reunião a ponto de colocar em risco a vida de uma pessoa que você ama?


Se fizer uma Ceia de Natal em um local aberto, com distanciamento entre as pessoas, ainda tem risco?

Criou-se esse mito de que lugar aberto é inofensivo. Talvez com contra a covid raiz até fosse, mas agora a história é outra.

O fato de estar em um lugar aberto, por si só, não te protege, e é muito importante deixar isso claro. Se você estiver em um local aberto com uma pessoa conversando próxima a você, as chances de contágio são grandes. Se você estiver em um local aberto sem máscara, com várias pessoas conversando, falando alto e cantando, e, por um azar, uma delas tiver a Ômicron, as chances de contágio são muito grandes.

Como já explicamos em outro FAQ, considerando o potencial de contágio da Ômicron, a distância realmente segura teria que ser, em média de dez metros. E um distanciamento de dez metros impede qualquer interação, qualquer conversa. Seria muito mais fácil todo mundo ligar a câmera do celular e cada um comer na sua casa, se reunindo online.

Vou repetir a dica que demos em um FAQ passado: para entender qual é a distância segura, imagine que a pessoa com a qual você está falando está fumando um cigarro. Da distância em que ela está, você conseguiria sentir o cheiro do cigarro? Se sim, não é uma distância segura.

Se você fizer ESSE distanciamento, sim, é seguro. Mas para fazer esse distanciamento você precisa morar em uma casa com um quintal enorme e todas as pessoas precisam falar em um microfone para serem escutadas. Se você tem essa possibilidade, manda ver. Se você não tem, faz online.


Mas a infecção da Ômicron não é mais leve?

Não. O que acontece é que agora temos vacinas, então, o vírus não faz todo o dano que poderia, pois vacinas protegem ao menos parcialmente.

Esse mito de que a Ômicron é “mais leve” ou até “um presente de Natal” é um tremendo desfavor que infelizmente está se espalhando. Em 2020 ninguém tinha vacina, portanto, as pessoas estavam 100% vulneráveis ao vírus. Havia zero proteção, pois nosso corpo nunca tinha visto aquilo e não sabia que era para atacar quando entrava no organismo. Por isso vimos o massacre que vimos.

Hoje, na maior parte dos casos, as pessoas do nosso convívio (lembrando que o mundo não é a sua bolha) tem ao menos uma dose de vacina, o que faz com que as internações hospitalares sejam menores. Então, não é que o vírus ficou mais leve, vemos uma redução dos números pelo fato de nós estarmos mais fortes, imunizados com vacina.

Além disso, a Ômicron já está no Brasil, mas ainda não se espalhou. Em dois ou três meses é que vamos ver os efeitos reais dela na população. Os números que vemos hoje não são de autoria da Ômicron, são de autoria da Delta. Então, o Brasil ainda não pode falar sobre a Ômicron e seus efeitos.

Vale lembrar que ainda não sabemos os efeitos que a Ômicron provoca a longo prazo. O contágio dela é muito rápido, por isso vemos muitos casos, mas ainda não conseguimos ver o resultado final disso. Pode ser que muitos evoluam mal e acabem como internação ou pode ser que ninguém vá para hospital. Só vamos começar a ver isso no ano que vem.

E, por último, não podemos esquecer das sequelas. Sabemos que covid pode deixar sequelas, algumas muito ruins e por muito tempo. Sabemos que até quem teve covid assintomática pode ficar com sequelas. Então, estamos longe de entender quais sequelas são deixadas pela Ômicrona. Longe mesmo. Isso só deve ser visto no segundo semestre do ano que vem.

Também vale lembrar que o Brasil não tá tranquilão como muitos pensam. Tem estados como Rondônia e Pará que estão com 90% de lotação nos leitos de UTI, ainda da Delta. Imagina cair uma Ômicron por cima disso.

Aquelas gambiarras para aumentar leito que fizeram em 2021 podem não ser possíveis agora, quando se tem profissionais de saúde exaustos e pouca verba para lidar com a pandemia. Sem contar que o Governo não parece muito inclinado a investir nisso, periga voltar a distribuírem Cloroquina.

Só vai ser seguro responder quais são os efeitos da Ômicron em matéria de hospitalização em casos graves dentro de meses. Aí veremos o impacto que causa em cada vacina, veremos quantas pessoas morrem e, em média, em quanto tempo morrem. E as sequelas, só veremos pelo menos seis meses mais para frente.

Então, eu repito a pergunta mais uma vez: por uma porra de um evento que é uma mera convenção social, vale a pena correr esse risco?


Essa epidemia de gripe, é só gripe mesmo ou tem covid no meio?

Não sei. Ninguém deve saber, pois se você não testa na quantidade suficiente, não se pode determinar nada. Pode ser que tenha covid aí no meio sim, mas é impossível dizer o quanto é covid, o quanto é gripe.

Mas não importa o que é, importa que a proteção para ambos é a mesma. São vírus respiratórios, portanto, os cuidados são os mesmos: uso de máscaras (PFF2 e corretamente utilizadas), higienizar as mãos frequentemente, evitar aglomerações, manter distanciamento social etc. Se estivessem fazendo a coisa certa, não teriam se contaminado.

Vale lembrar que, mesmo que seja gripe, a vacina contra gripe que o Brasil está aplicando não te protege contra essa cepa de gripe que está circulando, a H3N2 Darwin (não pelo Charles, mas por ter sido detectada na cidade de Darwin, na Austrália), portanto, sua única proteção no momento é evitar o contágio. Já teria que fazer por causa do coronavírus, então, nada de novo.

Espera-se que em janeiro do ano que vem já seja produzida uma vacina que inclua essa cepa. Suponho que ela seja produzida no Butantan, como é de costume. A produção deve ser rápida, pois é algo que eles estão acostumados a produzir esse tipo de vacina. Quando tivermos vacina para essa cepa pode ser que percebamos o quanto era realmente gripe. Na dúvida, continuem se cuidando contra gripe e covid.

Para dizer que estraguei sua Ceia de Natal, para dizer que zero pessoas vão seguir as orientações deste texto ou ainda para dizer que tá indo embora o vírus: sally@desfavor.com

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Comments (4)

  • O pessoal já pulou a ceia e já tá no carnaval. BR não tem jeito, vc tá enxugando gelo. Sem zoeira, eu passei anda pouco pelas bandas de Vila Isabel, Andarai e tava bombando um bloco com bandeira vermelha e branca, deve ser Salgueiro com uma multidão fechando a rua mesmo. Eu até comentei com a minha mulher, será que esses jovenzinhos sambando já tomaram a 3 dose, aí ela respondeu que dose só se for de cachaça.

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    • Mas minha intenção não é conscientizar todo o Brasil não, já sei que isso não vai acontecer.
      Meu único compromisso é com o leitor do Desfavor.
      E sim, eu continuo achando que, cedo ou tarde, o Rio de Janeiro vai matar a todos nós. Certeza que o fim do mundo vai ser culpa do carioca.

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      • “E sim, eu continuo achando que, cedo ou tarde, o Rio de Janeiro vai matar a todos nós. Certeza que o fim do mundo vai ser culpa do carioca”.

        Não duvido, Sally. E isso dá até uma boa sinopse para uma futura edição do Des Contos do Somir.

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  • Resumindo: por enquanto tudo o que se sabe sobre a variante Ômicron é que é bem mais contagiosa que todas as outras que já vieram antes e que as doses de reforço das vacinas são necessárias. De resto, as conseqüências das infecções por essa versão do coronavírus seguem desconhecidas e imprevisíveis e todos o cuidados que nos são recomendados desde o início da pandemia ainda são importantes.

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